Volantismo
Qual não seria a indignação da torcida brasileira se a inacreditável ilegalidade de Doni tivesse ocorrido contra a Seleção? Quantos possantes trovões não teriam deixado a garganta de Galvão Bueno... se o goleiro-andarilho fosse uruguaio, e não brasileiro? Foi a saída de gol mais cara-de-pau, mais inacreditavelmente ignorada... desde quando? Minha humilde memória não registra nada igual. Um breve replay em câmera lenta: Doni primeiro se adianta numa sambadinha. Ginga, dá dois passos até o meio da pequena área e planta os pés. Foi 1,70m de caminhada. Quando Lugano bate na bola, Doni está a nove metros dele.

Normalmente, o goleiro dá um passo pro lado. Doni nem tentou. Ele saiu para fechar o gol - foi uma saída de gol! Pela ousadia, ou pelo recorde de face vegetal de madeira rija, recebeu o aplauso do trio de arbitragem acima retratado. Lugano, decepcionado, nem reclamou. Só o goleiro Carini, desesperado, tentou argumentar com Oscar Ruiz. Chegou a tempo de ver o apito descendo pela garganta do árbitro colombiano.
Graças aos passos de Doni, o Brasil se classificou para a decisão numa partida em que o empate foi justo. E a Seleção não tem culpa da visão seletiva da arbitragem. Fato é que Dunga, tão criticado por um suposto volantismo (ou defensivismo volantista), chegou à final de sua primeira competição oficial. Chegou meio aos trancos e barrancos, mas chegou. E isso merece uma breve viagem no tempo. Alguém se lembra do que acontecia... exatamente há um ano e dois meses?
Zé Roberto e Emerson eram titulares da Seleção Brasileira que se preparava para estrear na Copa da Alemanha. O então técnico, Carlos Alberto Parreira, era criticado por muita gente por causa do “burocrático” Zé Roberto, um "volante sem imaginação" que “deveria” que ser barrado por Juninho Pernambucano. Kaká e Ronaldinho Gaúcho eram, claro, incontestáveis, por mais que raramente tenham funcionado juntos. Veio a Copa do Mundo, e a maior-coleção-de-talentos-desde-1970 afundou num mar de indolência e falta de inspiração. A torcida buscou culpados. As cabeças de Parreira, Ronaldinho, Cafu e Roberto Carlos deixaram a Alemanha em bandejas VIPs. E ironicamente, se um jogador deixou o Mundial melhor do que entrou... foi Zé Roberto. A zaga formada por Lúcio e Juan também foi elogiada, mas Zé Roberto foi além. Foi o melhor jogador do decepcionante Brasil.
Zé Roberto voltou ao Brasil para jogar no Santos – e voltou jogando como meia pela esquerda, posição em que jogava no Bayern de Munique. Jogou e encantou, como de hábito, arrumou uma vaga para o Peixe na Libertadores e o bicampeonato paulista. Na prática, Parreira, que tanta gente chamou de retranqueiro, jogou a Copa com apenas um volante original. E deu no que deu. O Brasil não perdeu por falta de volantes, claro. Perdeu porque o time nunca se encontrou, não teve velocidade nem organização. Porque jogou mal, muito mal. Assim como não ganhou a Copa de 94 porque tinha três volantes e um assessor de lateral no meio-campo. Ganhou porque, com essa formação, os adversários praticamente não chegavam no gol de Taffarel. Porque Mauro Silva e Dunga eram excelentes ladrões de bola – que liberavam os laterais (Jorginho e Leonardo, depois Branco). Porque Mazinho e Zinho fechavam o meio-campo com eficácia ímpar. E, claro, havia Bebeto e Romário na frente.

O Brasil não jogou mal na primeira fase da Copa América por causa do excesso de volantes. Até porque o time foi mal quando Diego esteve em campo - e quando Anderson esteve em campo, quando Elano (que não é volante) esteve em campo. Quando Dunga percebeu que seus homens de criatividade estavam fora de sintonia- seguiu a receita de Parreira em 1994 - que insistiu com Raí durante um jogo (o talentosíssimo meia do São Paulo já vinha muito mal). Mazinho virou titular, o meio-campo brasileiro se tornou um Saara criativo... mas o time funcionou.
Dunga fez de Júlio Baptista seu Mazinho - e tome pancada, muito por causa de um óbvio preconceito contra o volante ou cabeça-de-área. Júlio Baptista, que começou como volante no São Paulo, joga mais adiantado há eras. O problema de Júlio é seu jeito robocop de ser - seu futebol de tanque alemão não agrada ao paladar nacional, que exige refinamento. Só que Júlio foi eficiente contra o Chile e Uruguai - aliás marcou um gol em cada jogo. E será que Mineiro e Josué - até ontem incensados como volantes modernos, carregadores-de-piano com talento musical, desaprenderam?
Não é, certamente, a seleção dos sonhos de nenhum brasileiro. Nem de Dunga, que gostaria de contar com nove jogadores que não estão na Venezuela. Em campo, ele tentou Diego - água. Tentou Anderson - água outra vez. Talvez mereça algum aplauso sua opção de segurança. O Brasil ganhou nos pênaltis, sim. Foi um jogo duro, em que a zaga andou exposta pelos avanços de Maicon - e alguma confusão na cobertura - pecado algo grave numa seleção tão volante. Mas, passos de Doni à parte, elogiemos a campanha do time, por mais que ele só soe profundamente brasileiro quando Robinho pega na bola.
Não é fácil ser técnico da Seleção. É o único técnico de futebol do mundo que tem duas obrigações - uma técnica, outra estética. Não basta ganhar, tem que jogar bem. Não basta jogar bem, é necessário dar espetáculo. Isso não é necessariamente mau - faz parte da mitologia da camisa amarela. Mas é uma pressão ímpar. Que Seleção do mundo poderia dispensar seus dois melhores jogadores... e ainda ter a obrigação de encantar? Talvez só haja uma outra seleção no mundo com obrigação parecida - a Argentina, que veio completa para a Venezuela, até porque não ganha nada desde 1993. A Argentina, que faz a melhor campanha da Copa América, vencendo e convencendo com Riquelme, Messi e Tévez. A Argentina que, por sinal, joga com três volantes: Verón, Cambiasso e Mascherano.
Escrito em 11/07/2007
Zebra Listrada FC – nona rodada
Na oitava rodada, o ZFC marcou 52,47 pontos. Josiel, Fumagalli e Welliton salvaram a pátria listrada. O goleiro Cléber (SCF) e o lateral Coelho (ATL-MG) decepcionaram. Mas o líder na categoria me-agride foi, sem dúvida, o distinto Acosta (NAU), que foi expulso aos 20 minutos do primeiro tempo contra o Sport, provocando neste treinador a vontade de vê-lo embarcando numa missão para Urano a bordo de um foguete paraguaio importado do Sudão. Esses sentimentos negativos passam. A pontuação negativa de Acosta, porém, essa fica. Ele furtou 5,70 pontos do humilde zebrinha. Desgraçado. Dito isso, vamos à escalação para a nona rodada:
Diego (ATL-MG) – O goleiro que mais faz defesas difíceis no campeonato.
Coelho (ATL-MG) – Merece um voto de confiança.
Juninho (BOT) – O homem do chute de longe.
Breno (SPO) – Ataca e faz parte da melhor defesa da competição.
Edno (ATL-PR) – Enquanto continuar como lateral...
Diego Souza (GRE) – Contra o Juventude... em casa....
Hernandes (SPO) – A bola sempre passa por ele.
Ramires (CRU) – Desarma e aparece na frente.
Alex Mineiro (ATL-PR) – Tem feito mais gols que Dênis Marques.
Victor Simões (FIG) – Bom na bola aérea contra uma zaga nem tanto.
Adriano Magrão (FLU) – O homem do gol importante.
Técnico: Zetti (ATL-MG) – É favorito contra o Flamengo.
Nona rodada – Bola de Cristal Telegráfica
Depois da sétima trágica rodada (um acerto em oito), a bola de cristal juntou seus cacos na oitava. Foram cinco acertos em nove jogos. Em todo o campeonato, até o momento, foram 31 acertos em 77 partidas – um percentual de 40,2%. Não é horrível. Digamos que é razoável. E, tentando manter ou melhorar a média, eis a bolinha da nona rodada:
Goiás 1 x 1 Botafogo
Palmeiras 1 x 0 América-RN
Atlético-PR 2 x 1 Náutico
São Paulo 1 x 0 Internacional
Fluminense 1 x 0 Paraná
Figueirense 1 x 1 Cruzeiro
Grêmio 3 x 1 Juventude
Vasco 0 x 1 Santos
Atlético-MG 3 x 1 Flamengo
Sport 2 x 0 Corinthians
Escrito em 02/07/2007