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Perfil

Gustavo Poli

Jornalista, 34 anos

Carioca, jornalista há 13 anos, trabalhou nos jornais O Globo e Lance! e está desde 1998 na TV Globo. Cobriu as Copas de 98 e 2002 e é co-autor do bem-humorado "Manual do mané" (Editora Planeta, 2003) e do "Almanaque do futebol" (Casa da Palavra, 2006).

E-mail: gustavo.poli@globo.com
A camisa 1, que jogou sozinha


Se há deuses do futebol, e há coisas sobre os gramados que a lógica não explica, eles ontem ouviram as preces de milhares de rubro-negros. E baixaram, quais santos, no corpo do goleiro Bruno – que de milagre em milagre produziu um empate improvável e uma vitória nos pênaltis – essa já mais previsível. E os milhares rubro-negros em oração comemoraram ensandecidos um título estadual insólito. Se há coisas que só acontecem ao Botafogo, há também coisas que só acontecem ao Flamengo. Ser campeão estadual sem vencer um só clássico é um feito provavelmente inédito na era moderna. Não se questione a justiça do título – futebol não tem dessas coisas.

Foi uma final estranha. O vice Botafogo não perdeu, não teve menos coração, não teve menos futebol. O campeão Flamengo não venceu, ouviu seu técnico ser chamado de burro e sua torcida pedindo raça. E a raça veio – mas não foi exatamente a fibra, nem a camisa rubro-negra, nem a torcida... a fazer a diferença. O que fez a diferença foi um jogador. Um único jogador vestindo a camisa 1.

E é claro que o o Flamengo teve poder de reação, esteve perdendo nas duas partidas, foi buscar, correu, vibrou, teve méritos. É claro que Juan fez uma bela jogada, que Renato Augusto acertou um chute raro... e que a torcida, mais numerosa, apoiou o time quando necessário. E também zumbiu uma prece silenciosa nas horas difíceis. E essa prece... ou essas milhares ou milhões de preces foram milimetricamente atendidas.

Foram elas, provavelmente, que fizeram Joílson, cara a cara, na pequena área, chutar para fora quando o Botafogo vencia por 2 a 1. Foram elas, certamente, que iluminaram Bruno no chute fortíssimo de Dodô – e a seguir sopraram a bola para o topo do travessão - também quando estava 2 a 1. Foram elas, incrivelmente que fizeram Renato Augusto encontrar um chute nunca dantes visto em seu repertório . E foram as preces, sobretudo, que levantaram a mão do bandeirinha Hilton Moutinho quando Dodô entrava livre, com a bola dominada, aos 46 minutos do segundo tempo.

Pode-se dizer que o Botafogo jogou melhor e criou inúmeras chances. É verdade. E fez questão de perdê-las. E perder chances diante do goleiro é incompetência, não é falta de sorte. Ou é competência do goleiro. O Flamengo jogou pior – mas foi mais eficiente. O torcedor rubro-negro talvez acredite nos super-poderes da camisa que joga sozinha. Mas ontem a camisa que jogou por todas as outras foi a vestida por Bruno. E, quando vieram os pênaltis, pareceu claro que não teríamos apenas loteria. Veríamos, como vimos, o abismo técnico que separa Bruno de Max. O goleiro do Botafogo não passou perto de nenhum pênalti – nem dos mal cobrados por Roni e Juan. O goleiro do Flamengo fez duas belas defesas.

O futebol fascina porque nem sempre o melhor vence. Porque um time inferior pode ganhar. Mas sejamos objetivos – não foi bem isso que aconteceu no Maracanã. O Botafogo pode ter sido melhor com a bola nos pés. Ontem foi, especialmente no segundo tempo. Mas o Flamengo foi melhor com a bola nas mãos. Goleiro faz parte do time. Nos 180 minutos da decisão, os goleiros do Botafogo fizeram no total uma defesa difícil (Júlio César num chute de Clayton). Bruno fez pelo menos cinco só ontem. O chute de Renato Augusto foi impressionante... mas será que Bruno não pegava?

Há menos de duas semanas, neste mesmo espaço, fiz um Raio-X da decisão com a previsão de que seria um confronto equilibrado porque o Botafogo era melhor com a bola nos pés... mas tinha problemas defensivos. Vosso humilde servo foi alvo de uma centena de e-mails e comentários de alvinegros revoltados, que diziam que o Botafogo era melhor. Pelo que se viu nos 180 minutos da decisão, ironicamente, o Botafogo até jogou melhor. Mas perdeu. E o confronto foi – como placar mostrou – equilibrado.

E o Flamengo, que foi buscar energias na fé de sua imensa torcida – e na crença de que havia algo especial em gestação – levantou um título chorado. Um título que teve raça, fé, superação – mas que sobretudo mostrou que o craque faz diferença – mesmo que ele vista a camisa 1.

Voltemos, pois, aos 46 minutos do segundo tempo, quando Dodô entra na área e o bandeirinha enxerga o impedimento fantasma. E entendamos o óbvio: não levantasse Moutinho seu instrumento... e Bruno provavelmente impediria o gol. Suas mãos cresceriam, seu corpo se ampliaria, os ângulos do artilheiro seriam reduzidos. Não haveria chute capaz de ultrapassá-lo, não ali, não ontem. Pois ontem Bruno foi Jurandir, foi Garcia, foi Raul, foi Gilmar, foi Júlio César. Algo – um deus rubro-negro ou demiurgo afim - conspirava a seu favor. Conspirava para levar o jogo para os pênaltis, nos quais ele poderia ganhar, enfim e sozinho, a taça.
Escrito em 06/05/2007
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Bajulação F.C. x Homenagem E.C.


A lei 6454, abaixo transcrita, é de 1977. Assinada pelo presidente Ernesto Geisel, é uma rara herança nobre da ditadura. E tem muito a ver com nossos presente e passado:

Art 1º É proibido, em todo o território nacional, atribuir nome de pessoa viva a bem público, de qualquer natureza, pertecente à União ou às pessoas jurídicas da Administração indireta.

Art 2º É igualmente vedada a inscrição dos nomes de autoridades ou administradores em placas indicadores de obras ou em veículo de propriedade ou a serviço da Administração Pública direta ou indireta.

Art 3º As proibições constantes desta Lei são aplicáveis às entidades que, a qualquer título, recebam subvenção ou auxílio dos cofres públicos federais.

Art 4º A infração ao disposto nesta Lei acarretará aos responsáveis a perda do cargo ou
função pública que exercerem, e, no caso do artigo 3º, a suspensão da subvenção ou auxílio.

Art 5º Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação, revogadas as disposições em contrário.


Como a 6454 é uma lei federal, ela não previne a adulação estadual. Ou municipal. E isso abre uma ampla praia de atuação para os talentosos e incansáveis atletas do Bajulação FC. Ontem o GLOBO mostrou que o o governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral Filho, prestigiou a inauguração de uma metafórica ponte em Campos (RJ): a Ponte Rosinha Garotinho. E lá estava Rosinha, sorridente e pimpona, sem nenhum constrangimento, diante da placa com seu nome.

A Ponte Rosinha é apenas mais uma obra pública a adular uma alma ainda encarnada. O ex-ministro dos Esportes e hoje deputado Carlos Melles, por exemplo, dá nome a um ginásio mineiro construído com verbas liberadas por uma emenda de sua autoria. O Bajulação F.C. é um time tão forte que quase todos os estádios brasileiros têm nomes de políticos ou cartolas. Observe-se a breve lista abaixo:

Políticos
Amazonas – Estádio Vivaldo Lima (Vivaldão) – ex-senador
Bahia – Estádio Octavio Mangabeira (Fonte Nova) – ex-governador
Ceará (Fortaleza) – Estádio Plácido Castelo (Castelão) – ex-governador
Minas Gerais (Belo Horizonte) – Estádio Magalhães Pinto (Mineirão) – ex-governador
Mato Grosso (Cuiabá) – Estádio Governador José Fragelli
Mato Grosso do Sul– Estádio Olímpico Pedro Pedrossian (Morenão) – ex-governador
Piauí – Estádio Alberto Silva – ex-governador
Pernambuco – Estádio José do Rego Maciel (Mundão do Arruda) – ex-prefeito e pai de Marco Maciel (não é engraçado lembrar que o Mundão do Arruda é pai do Marco Maciel?)

Cartolas
São Paulo – Cícero Pompeu de Toledo (Morumbi) e Paulo Machado de Carvalho (Pacaembu)
Rio Grande do Sul - José Pinheiro Borda (Beira-Rio)
Natal - João Cláudio de Vasconcellos Machado (Machadão)

Há também jornalistas homenageados como Mário Filho (Maracanã) e Edgard Proença (Mangueirão no Pará). Não parece estar faltando alguma coisa? Sabe... aquele pessoal que entra em campo... e chuta a bola pra dentro do gol. O que menos temos é estádios com nomes de atletas. As exceções são o Rei Pelé em Alagoas e o Mané Garrincha em Brasília. Os dois maiores jogadores de futebol da história do país – talvez do mundo – dão nome a dois estádios relativamente modestos.

E... falando nisso, eis que temos o quase-pronto Engenhão. E, em vez de homenagear um atleta que já se foi, a prefeitura preferiu adular um cartola aposentado. E vivo. Tudo bem que João Havelange foi atleta olímpico, mas sua fama deriva de seus anos como cartola.
Não seria mais distinto chamar o melhor estádio olímpico brasileiro de Ademar Ferreira da Silva? Ou João do Pulo? Ou, se quiséssemos entrar na arena futebolística, não ficaria mais bonito eternizar numa arena esportiva um mito dos gramados como Didi, Leônidas ou Zizinho? Seria... se a adulação política não fizesse parte do nosso DNA.
Escrito em 04/05/2007
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Raio-X
São Paulo x Grêmio


São Paulo e Grêmio começam, amanhã, o único confronto brasileiro nas oitavas-de-final da Libertadores. Por isso, atendendo a uma sugestão do leitor Walter (sem sobrenome), vosso humilde servo tenta dissecar o clássico. Como a bola de cristal está sendo preparada física e psicologicamente para o Campeonato Brasileiro, ela será preservada, como um daqueles jogadores de vidro. O jogo promete, claro. O momento do Grêmio é melhor, mas o time do São Paulo tem mais talento. Vamos, então, ver o que cada time tem de melhor.

Goleiros
O argentino Saja é um ótimo goleiro. Alto, tem reflexos e elasticidade. Debaixo da trave é provavelmente melhor que Rogério. Mas anda numa certa maré de azar. Saídas em falso, gols no cantinho em chutes de longe... bolas defensáveis tÊm entrado mais do que o desejável no gol do Grêmio. Rogério Ceni, por outro lado, mantém sua média: é eficaz sem ser espetaculoso. Fez uma ótima e fundamental no fim da partida contra o Audax Italiano – uma defesa que garantiu a vaga tricolor nas oitavas-de-final. E ele ainda traz o elemento ofensivo nas bolas paradas.
Análise: Ligeira vantagem do São Paulo.

Sistema defensivo

A marcação agressiva do campeão brasileiro costumava começar com os dois atacantes – Leandro e Aloísio. Aloísio prende os zagueiros e perturba. Mas ninguém é tão chato quanto Leandro – talvez o atacante com mais poder de marcação no futebol brasileiro atual. Com sua provável barração, o time ganha em qualidade – mas perde em marcação. E isso agrava a lacuna deixada pela saída de Mineiro. Souza marca, mas não tem a velocidade nem a noção de cobertura do antecessor. O mesmo vale para Richarlysson. E a qualidade individual da zaga são-paulina também não é a mesma. Miranda, André Dias e Alex Silva são bons jogadores, mas Lugano e Fabão fazem muita falta. Sem Mineiro, Josué fica sobrecarregado na marcação – até porque os dois laterais continuam sendo melhores atacando do que defendendo. E Hugo não preenche os espaços tão bem quanto Danilo – que Rogério Ceni, lembremos, disse certa vez ser “o jogador mais importante do São Paulo”. E, como os três zagueiros são relativamente lentos, o time acaba vulnerável quando está em desvantagem. Apesar de ter tomado apenas 18 gols no ano, não é uma zaga totalmente segura.

A defesa do Grêmio é instável e tem sofrido muito com a bola aérea. A barração do argentino Schiavi melhorou um pouco a situação – e o time praticamente não deu chances de gol ao Cerro Porteño na semana passada. Mas, contra o Juventude, o time novamente tomou gol em escanteio. A marcação do time é aguerrida, busca atrair o adversário para sair em velocidade. E nisso Lucas, que é um bom ladrão de bola, faz muita falta. Edmílson e Sandro são volantes de contenção na acepção gremista da palavra – mas não chegam aos pés de um Goiano ou Dinho. E Diego Souza, muito talentoso e forte com a bola nos pés, não tem a mesma capacidade de marcação. Nas laterais, Patrício é vigor, Lúcio é velocidade. O primeiro marca bem melhor que o segundo.

Análise: Empate.


Sistema ofensivo

A sorte do Grêmio na Libertadores depende de um nome: Amoroso. O talento do atacante é fundamental para suprir a carência imaginativa do tricolor gaúcho, que é um time que ataca muito e com força – mas com pouco talento. Carlos Eduardo é veloz, mas não tem grande habilidade. Tuta é fundamental, pois prende zagueiros, faz o pivô e continua sendo artilheiro – apesar de continuar perdendo um caminhão de gols. O desfalque de Lucas é sentidíssimo aqui, até porque Tcheco não está em grande fase. O melhor jogador de ataque do Grêmio – ou o mais criativo – vem sendo Diego Souza com suas jogadas individuais. Os laterais Patrício e Lúcio avançam muito – o primeiro é menos talentoso que o segundo, mas ironicamente mais produtivo. Lúcio não sabe explorar muito bem sua velocidade e, não raro, cruza mal.

O São Paulo aposta suas fichas ofensivas no talentosíssimo Dagoberto, que fará sua estréia nesta quarta-feira. Por mais que Leandro seja um azougue, Dagol talvez seja o melhor remédio para o ataque são-paulino. Ele se movimenta tanto quando Leandro, tem mais habilidade e finaliza melhor (tudo bem, finalizar melhor que o Leandro não é grande virtude). Aloísio é importante porque prende a bola e incomoda a zaga adversária durante 90 minutos. Hugo é bom jogador, mas não encontrou ainda o espaço ideal para jogar no São Paulo – tem feito menos gols e sido menos decisivo do que no Grêmio. Não tem, sobretudo, a consciência tática de Danilo. O entrosamento de Hugo e Jadílson não se aproxima, nem de longe, daquele entre Júnior e Danilon. Ainda assim, Jadílson é veloz e deve incomodar Patrício. Na direita, Ilsinho tem bola para ser o melhor lateral do país. E os volantes do time – Josué e Souza (ou Richarlysson) são extremamente perigosos com a bola – sabem se projetar e, no caso do segundo, bater de fora da área.
Análise: Vantagem do São Paulo.


Jogo aéreo
As duas defesas são muito altas – mas o Grêmio estranhamente vem sofrendo mais com a bola aérea do que o São Paulo. O tricolor paulista tem Aloísio, que é bom cabeceador – e Alex Silva e Miranda, que são ótimos no ataque e na defesa pelo alto. O Grêmio tem o melhor cabeceador do confronto: Tuta – mas ele é apenas um. A diferença a favor do São Paulo dentro da área é anulada pelo talento na cobrança da falta. Souza bate bem na bola, mas não tem a precisão de Tcheco.
Análise: Empate.


Faltas para o gol
A precisão de Tcheco, aqui, é superada pela inegável eficiência de Rogério Ceni – provavelmente o melhor cobrador de faltas do futebol brasileiro.
Análise:Vantagem do São Paulo.


Técnicos
Os ex-vizinhos Mano Menezes e Muricy Ramalho têm feitos trabalhos excepcionais. Ambos, agora, tem a cruel missão de lidar com o sucesso. Ninguém esperava que o Grêmio chegasse à Libertadores como chegou. O São Paulo foi vice da competição do ano passado e ganhou o título brasileiro. As expectativas estratosféricas produzem cobrança. Depois da derrota para o Caxias por 3 a 0, Mano se transformou no mais burro dos treinadores. A virada espetacular na partida seguinte removeu suas orelhas e trouxe de volta o chapéu de gênio.

Muricy, consagrado e incensado no ano passado, recebe agora as vaias e ouve novamente os gritos de Burricy. A impaciência do torcedor é injusta, claro. O São Paulo perdeu mais talento do que o Grêmio (embora tenha roubado Hugo dos gaúchos) e não conseguiu encaixar tão bem sua equipe. Mas o Campeonato Paulista é certamente mais difícil – o que pesa na balança. O momento de Mano é melhor, até porque está na final do Gaúchão e tem a vantagem de jogar a segunda partida em casa. Mas seria uma ingenuidade atroz subestimar o São Paulo de Muricy.
Análise: Empate.


Banco
O Grêmio redescobriu Éverton e Bruno Telles. E ainda poderá ter Carlos Eduardo no banco, se Amoroso tomar sua vaga. Não é nada espetacular, mas já é mais do que parecia haver antes. O São Paulo tem mais opções. Leandro, Jorge Wagner, Marcel e Richarlysson poderiam ser titulares no time de Mano Menezes.
Análise: Vantagem do São Paulo.


Preparo físico
Por mais que o São Paulo tenha descansado durante uma semana... e o Grêmio venha jogando toda quarta e domingo... a diferença não é muito grande. Nem na questão do cansaço... nem na do ritmo de jogo.
Análise: Empate.


Clima
A pressão sobre o São Paulo é pesada. A eliminação no Paulista e o empate dramático contra o Audax Italiano deixaram o time com nervos à flor da pele. Por mais experiente e vencedor que seja a equipe, a partida no Morumbi é uma decisão com várias repercussões. O time não está acosumado a perder. O Grêmio, por sua vez, está no embalo. E tem o conforto de saber que, mesmo que sofra uma retumbante derrota no Morumbi, terá o Olímpico cheio no jogo da volta. A torcida acredita nas mais impossíveis missões – e não deixa de apoiar o time um instante. A virada contra o Caxias alimentou a fé do tricolor gaúcho.
Vantagem: Grêmio.


Resumo da Ópera

O São Paulo tem mais talento. O Grêmio vem mostrando mais vontade e organização. Por mais que a análise acima pareça favorecer o tricolor paulista em quase todos os quesitos - ela é meramente técnica. Por isso o fator "clima" é tão importante. O combustível do Grêmio, de todo e qualquer Grêmio, é a empolgação. É um time capaz de vencer na raça, com menos talento do que o adversário. E terá a vantagem de fazer a segunda partida num Olímpico abarrotado. O São Paulo terá que empatar em vontade - e jogar bem, o que não vem fazendo. Por isso, sem bola de cristal disponível, a única opção possível é o ele - o sempre seguro, tucaníssimo e confortável muro.
Escrito em 01/05/2007
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Empate


Todo empate esportivo é provisório. Existe o empate sem gols, o empate pobre, o empate seco. O empate-funcionário-público, diria talvez Manuel Bandeira. E existe o empate maior – onde há drama, alternância, duas forças se medindo e se cancelando – como este de ontem no Maracanã. Foi um empate memorável, épico, daqueles de arrepiar cabelos e maltratar marcapassos. Um empate que será solucionado no próximo domingo em 90 minutos. Ou um pouco mais – se o placar continuar igual – haverá a cruel solução dos pênaltis.

A torcida do Botafogo deixou o Maracanã frustrada, alimentando seus traumas. Perdeu seu goleiro, talvez perca seu doublé de lateral esquerdo e zagueiro. Perdeu, sobretudo, uma chance dourada de botar as duas mãos na taça. A torcida do Flamengo deixou o Maracanã eufórica, com a perigosa sensação de que o título é inevitável. A instabilidade defensiva do Botafogo trouxe o Flamengo de volta para o jogo. A limitação ofensiva do Flamengo não aproveitou a vantagem numérica.

No primeiro tempo, em que o Botafogo foi bem melhor, o Flamengo teve a primeira chance clara de gol. Renato Augusto, livre mas algo sem ângulo, chutou para a defesa de Júlio César. No segundo tempo, quando o Flamengo foi bem melhor, ocorreu o contrário. Jorge Henrique recebeu na área aos quatro minutos e, em vez de tocar para Dodô, livre, chutou fraco nas mãos de Bruno.

Foi um jogo, como se vê, repleto de alternativas. No primeiro tempo, o Flamengo não conseguiu jogar. E o Botafogo jogou. Desarmando e tocando bem a bola, o time imprensou o adversário nos primeiros 15 minutos sem grande penetração. Só depois dos 30, quando a partida já era mais equilibrada, que saíramo os dois gols. E, não fosse um passe ruim de Jorge Henrique, poderia ter feito o terceiro aos 48 minutos. Veio o intervalo e quase todos os milhares de técnicos rubro-negros presentes ao Maracanã assumiram que Ney Franco mudaria seu esquema. Todo mundo errou – menos Ney.

O mineiríssimo técnico rubro-negro manteve a calma. Pediu atitude. E começou a explorar os flancos abertos do Botafogo com bolas altas. O Botafogo de Cuca é construído para atacar – mesmo sem a bola. É um time que busca tomar a bola no campo adversário, tirando espaços. Quando marca atrás da linha do meio-campo, não desarma tanto. Seus zagueiros e volantes não são muito bons no jogo aéreo – costumam sofrer com aquela primeira bola do chutão. Por isso, quando o Flamengo avançou no segundo tempo, foi capaz de dominar os rebotes e preverir quase todos os contra-ataques alvinegros até conseguir o pênalti.

Quando Júlio César foi expulso, o jogo mudou completamente.. Cuca sofreu para sacar Lúcio Flávio, que jogava bem. Mas não queria perder a velocidade de Jorge Henrique no contra-ataque. Era uma escolha árdua. O domínio do Flamengo passou de amplo para total. Mas aí o time rubro-negro apresentou suas deficiências ofensivas. E o jogo terminou num justo, sonoro e enfático empate.

Raio-X dos gols do jogo:


Botafogo 1 a 0 – Zé Roberto recebeu na meia direita, tocou para Jorge Henrique e passou em velocidade. Jorge Henrique, que prendia Léo Moura, tocou para Lúcio Flávio, que de primeira lançou Zé Roberto. O apoiador driblou Paulinho e Irineu num corte só e cruzou para a finalização precisa de Dodô.

Botafogo 2 a 0 – Clayton derrubou Lúcio Flávio e ficou discutindo com o juiz – apesar de poupado do cartão. Lúcio Flávio, que fazia alguma cena, se levantou e, enxergando uma brecha, pediu a bola para Luciano Almeida. Com Clayton fora de posição, Lúcio Flávio fingiu o passe para Dodô, congelou Moisés, avançou para evitar Paulinho, esperou a saída de Bruno e tocou com categoria. Um belíssimo gol.


Flamengo 1 a 2 - A jogada começa num tiro de meta do Botafogo. O goleiro Júlio César cobra no grande círculo. Moisés dá um leve toque em Dodô e cabeceia. Juninho tenta se antecipar a Souza e erra, a bola sobe. Souza, algo desequilibrado, cai e toca de bico, de primeira. A bola resvala em Alex e sobra na medida para Renato, que dribla Júlio César e é derrubado. Pênalti claro, expulsão mais que justa. Na cobrança, o mesmo Renato cobra bem... e Max, mesmo acertando o canto, não tem chance.

Flamengo 2 a 2 – Juan e Léo Lima tabelam pela esquerda. Inexplicavelmente, Joílson – que marcava Juan, resolve partir para cima de Léo Lima – que já era marcado por Diguinho. O apoiador devolve a bola para Juan, livre. Diguinho e Joílson hesitam. Juan devolve para Léo Lima que cruza. A bola iria para Luciano Almeida, mas Max resolve interceptá-la. E acaba soltando a redonda nos pés de Souza, que emenda de primeira. A bola ainda bate em Luciano Almeida antes de entrar.



Em suma...

Domingo que vem promete. O Botafogo perde segurança com a suspensão de Júlio César – uma vez que Max é terrível nas bolas aéreas. E a expulsão de Diguinho é ainda mais danosa porque Túlio pode ser suspenso no meio da semana. O Flamengo, por sua vez, só perdeu Léo Lima - ou seja, quase nada. Mas precisa de melhor produção de seus laterais – em especial de Léo Moura. E talvez também de uma dose de humildade – pois Clayton disse depois do jogo que o time poderia ter feito “quatro ou cinco” - uma declaração que deve ir parar no quadro-negro do Botafogo.

Faltam 90 promissores minutos. Em especial se Djalma Beltrami tiver uma atuação melhor do que a de William Nery – que no primeiro tempo ignorou um pênalti de Irineu em Luciano Almeida e deu cartões demais para o Botafogo e de menos para o Flamengo (Clayton e Renato fizeram faltas que passaram em branco). Para compensar, no fim, para alívio alvinegro, Nery deu ridículos quatro minutos de desconto – quando o jogo parou por pelo menos dez.

O Botafogo, que há três anos e dez jogos não vence o Flamengo, desperdiçou uma chance de por as duas mãos na taça. O Flamengo reagiu... mas demorou a empatar... e depois não conseguiu abrir vantagem. Se o Flamengo reagiu bravemente, o Botafogo resistiu heroicamente. De certo modo, o resultado acabou atravessado - ou empatado - na garganta das duas torcidas.


Jogão no Sul

Com grande atuação de Diego Souza, o Grêmio escapou de Caxias do Sul com um milagroso empate no último minuto. O Juventude fez dois gols parecidíssimos, com chutes em bolas rasteiras, e tomou dois gols improváveis – o segundo, no quique estranho da bola que enganou o goleiro André; e o terceiro, no último minuto, em grande jogada de Bruno Telles – que deu o gol de bandeja para Tuta. O Grêmio parece um pouco seu lateral direito, Patrício. Não é um time lá muito talentoso, mas corre o tempo todo e nunca desiste.

Massacre mineiro

É possível que Paulo Autuori nem tenha anotado a placa do caminhão que passou por cima do Cruzeiro ontem no Mineirão. O Atlético-MG sobrou no jogo, fisica e tecnicamente. A velocidade de Marcinho, Éder Luís e Danilinho desnorteou a pesada zaga cruzeirense. O Galo já merecia ter vencido o primeir tempo. Acabou aplicando um histórico chocolate, arrumando a demissão do treinador adversário e botando o título no bolso. Depois de um início de ano conturbado, quando patinou na zona de rebaixamento, Levir Culpi, ao que parece, rirá por último.

Pênaltis e goleiros

Não foi um bom dia para goleiros. Fábio Costa fez um pênalti afobado. Júlio César idem. André furou a bola de cabeça e deu um gol para o Grêmio. Mas ninguém será capaz de superar a histórica cena de Fábio, voltando lentamente e de costas para sua meta enquanto o atacante adversário (Vanderlei) faz o quarto gol do Galo. Para acrescentar infâmia à vergonha, ao perceber o gol e ouvir a comemoração da torcida, Fábio ainda busca as duas bolas nas redes para deleite dos fotógrafos.


* P.S. Vosso humilde servo aqui sabe que nem todo empate esportivo é provisório - mas pede alguma licença poética para a primeira frase. Recentemente, no Mundial de Natação, houve uma medalha de ouro dividida por dois atletas que empataram até nos centésimos. O empate esportivo é, sem dúvida, raro. E o futebol, nesse caso, é uma exceção - pois admite o resultado. Mas... quase todo campeonato tem um campeão só. E é esse o espírito da coisa. Escrito em 30/04/2007
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O beijo começou no intervalo


O inesquecível beijo do zagueiro Cléberson no árbitro Ubiraci Damásio, no último domingo, no Maracanã, começou num telefonema para o vestiário do juiz. A esposa de Ubiraci ligou para o celular do marido no intervalo, avisando que um zagueiro do Cabofriense, o número 4, tinha aparecido xingando a arbitragem nas imagens da TV. Antes de começar o segundo tempo, o juiz chamou Marcão, capitão do Cabofriense, e disse que iria ficar de olho em Cléberson. Marcão avisou ao zagueiro. Quando aconteceu o lance, Cléberson ficou com medo da expulsão... se aproximou carinhosamente... e beijou Ubiraci - talvez agradecido pela ausência do cartão vermelho. Mas o beijo acabou lhe valendo o amarelo.
Escrito em 28/04/2007
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Eric Faria Informa
O apoio de Romário


Na historinha de hoje, a gente faz uma breve viagem no tempo até o Fluminense de 2004. Um time que abriu os cofres para contratar... e não deu certo. Soa familiar? Pois bem, era o tempo dos quatro ases... o time disputou as finais das Taças Guanabara e Rio. Mas acabou perdendo ambas.


Em 2004, o Fluminense formou um pretenso super-time. Contratou os chamados quatro ases: Romário, Edmundo, Roger e Ramon. Tinha ainda Léo Moura, Juan e Rodolfo. O primeiro técnico da equipe foi Waldyr Espinosa, que saiu depois da derrota para o Flamengo por 3 a 2 na final da Taça Guanabara. Para o seu lugar veio um antigo ídolo tricolor: Ricardo Gomes.

Mas o time não se acertou e perdeu também a final da Taça Rio, desta vez para o Vasco (2 a 1). As derrotas prosseguiram no Campeonato Brasileiro. E veio a crise... O educado Ricardo Gomes, que sempre foi tido com um líder nato quando jogador, achou que o problema começava fora de campo. Poucos jogadores gostavam de Roger. E Romário, a estrela principal da companhia, não se integrava ao grupo. Tomava sempre suas refeições com o supervisor Cacau Barbosa e com o lateral Leonardo Moura. Ricardo achou que tinha que tomar uma atitude. Reuniu o time no meio do campo para lavar a roupa suja. E pediu a ajuda de Romário:

- Romário, você por exemplo... está sempre almoçando e jantando com o Léo Moura. Você pode se integrar, a gente tem que se fechar mais. Você é um dos mais experientes, tem que dar o exemplo, sentar com os outros, conversar, participar mais.

Romário levantou o dedo e pediu a palavra.

- Ô Ricardo, está no meu contrato que eu devo comer com alguém? Que eu devo sentar com beltrano e sicrano? Eu como com quem eu quiser. Se preocupa com o time que tem um monte de problema pra resolver e está uma droga (ou palavra afim). Eu janto com quem eu quiser, não ferra.

Com um voto de apoio desses, Ricardo rapidamente perdeu de vez o controle do grupo, foi desmoralizado também por Ramon... e acabou deixando as Laranjeiras.


O link da semana

Para quem gosta de jornalismo, há um novo site na praça que merece a visita freqüente: A Tribuna da Rua. Seis talentosos repórteres brasileiros contando histórias que, por um ou outro motivo, não couberam na telinha da TV ou nas páginas dos jornais. Vale a leitura.
Escrito em 28/04/2007
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Raio-X da decisão
Botafogo x Flamengo



Cada torcida é feita de gerações. E de espírito. No geral, não há torcida mais confiante do que a torcida do Flamengo. E não há torcida mais desconfiada do que a do Botafogo. A combinação desses fatores produz esse curioso encontro na decisão carioca. O encontro do otimista compulsivo com o pessimista patológico. Isso temperado pelas recentes vitórias do Botafogo – que provocou elogios de toda sorte, em especial ao estilo ofensivo do time. O Flamengo, que não joga um jogo significativo há 20 dias, está submerso.

A torcida do Flamengo transpira uma confiança surda. Você encontra um rubro-negro na rua e ele apresenta aquele sorriso de canto de lábios:

- O Botafogo é favorito. O título já está em General Severiano.

Você encontra um alvinegro na rua e ele sofre por antecipação:

- O aroma de tragédia é sufocante.

O cinismo irônico em vermelho e preto contrasta com o pessimismo supersticioso em preto e branco. No fundo, os rubro-negros esperam uma repetição de 1992, quando o Botafogo era favorito e foi jantado (3 a 0) no primeiro jogo. Os alvinegros, sabendo disso, estão redefinindo o adjetivo ressabiado. Há, claro, e dos dois lados, aqueles torcedores que têm a provocação como segunda pele. Mas a regra, por ora, é o silêncio disfarçado. A confiança surda é rubro-negra. A desconfiança esperançosa é alvinegra.

A jovem torcida do Flamengo de hoje nasceu nos anos 80, cresceu ouvindo falar de Zico e de títulos brasileiros e ainda teve Romário nos anos 90. A jovem torcida do Botafogo viu seu primeiro título em 1989, herdou parte dos traumas da geração dos 21 anos de jejum, mas teve Túlio nos anos 1990. Quanto mais jovem o torcedor do Flamengo, menos otimista ele é. Quanto mais jovem o torcedor do Botafogo, menos pessimista ele é. Ao que parece, os extremos convergem para um imperativo realismo.

Botafogo e Flamengo jogaram poucas finais na acepção da palavra. Em 1962, o Botafogo conquistou o título com uma vitória por 3 a 0 – mas o jogo era decisivo. Em 1989, era final de carioca mesmo em dois jogos. No primeiro, um 0 a 0 em que o Botafogo perdeu as melhores chances. No segundo, o gol de Maurício que ficou para a história. Em 1991, os times decidiram a Taça Rio – e o Flamengo venceu por 1 a 0, gol de Gaúcho.

Três anos depois, o encontro de 1992. O Botafogo estava em melhor fase. O Flamengo tinha se classificado aos trancos e barrancos. O Botafogo começou o primeiro jogo melhor, perdeu um gol (com Valdeir). O Flamengo respondeu fazendo 1, 2, 3 a 0 e levando o troféu para casa no primeiro jogo (o segundo, um 2 a 2, foi mera formalidade). Depois disso, ainda houve o jogo de Márcio Theodoro, a final da Taça Guanabara de 1995 – um jogo em que o Flamengo abriu 2 a 0, viu o Botafogo se reerguer e empatar em 2 a 2. Aos 43 minutos do segundo tempo, um erro do zagueiro Márcio Theodoro entregou a taça nos pés de Romário.

O Botafogo não vence o Flamengo desde 2004. Nesses três anos, foram nove jogos – cinco vitórias rubro-negras, quatro empates. Se voltarmos até 2000, o confronto é mais equilibrado (oito vitórias para cada lado, sete empates). O dado mais impressionante, no entanto, é que o Botafogo não vence o Flamengo por mais de dois gols de diferença desde 1983 – há 24 anos.

Raio-X


Goleiros

Júlio César tem elasticidade, se coloca bem e raramente solta a bola. Mas não tem a firmeza e o talento de Bruno, que quando não tem um de seus surtos de marra, é um dos melhores goleiros do Brasil.
Análise:Vantagem rubro-negra.


Sistema defensivo

As duas defesas são inseguras. No Flamengo, a zaga central é muito boa no jogo aéreo mas é lenta no chão. Irineu, Ronaldo Angelim e Moisés são rebatedores sem grande velocidade. Moisés é o mais técnico dos três – e ainda assim está longe de ser uma sumidade. Léo Moura e Juan sobem muito e deixam espaços, que Paulinho e Clayton nem sempre conseguem cobrir. Léo Moura, em especial, costuma marcar errado nas imediações da área. Se Jaílton lugar de Paulinho, o time perde em marcação, pois o volante pequenino é incansável, corre sem parar e muitas vezes conserta as falhas alheias. Renato ajuda na marcação pela esquerda... e Clayton e Renato Augusto fecham o lado direito. A defesa rubro-negra levou 25 gols em 20 jogos nesta temporada – mas é um número ligeiramente inflado por jogos atípicos (Madureira 4 x 1) e pelas derrotas no segundo turno do carioca, quando Ney Franco escalou um time misto.


A defesa do Botafogo tem outros defeitos. Tem qualidade no chão, mas é extremamente vulnerável no jogo aéreo (sofreu gols de escanteio contra Flamengo, Vasco, CSA e Cabofriense). Essa deficiência foi amenizada quando Luciano Almeida entrou no time – mas não solucionada. Alex falhou duas vezes contra a Cabofriense (deixando Cléberson cabecear livre – uma em cada jogo) e Juninho é fraco pelo alto. Além disso, a formação com três zagueiros deixa espaços pelos flancos – que um jogador de velocidade pode explorar. E, como o time marca muito na frente, toma vez por outra um gol que começa num chute do goleiro adversário (contra o Flamengo e contra o Coritiba, por exemplo). A zaga também sofre com a recomposição nos contra-ataques. Joílson, na direita, é especialmente vulnerável às tabelas com ultrapassagem do lateral adversário, o chamado um-dois. A presença de Jorge Henrique é fundamental no lado esquerdo, pois é seu pulmão que permite que o time marque com oito jogadores. Zé Roberto e Dodô apenas tomam espaços. O time já levou 28 gols (nos mesmos 20 jogos) na temporada – mais que um por jogo.
Análise:O Flamengo leva ligeira vantagem.


Ataque

O muito criticado ataque do Flamengo marcou 34 gols em 2007. Souza, muito criticado, é um atacante de força, que faz bem o pivô e está sempre na área. Se jogar, Roni deve trazer problemas para o Botafogo por conta de sua velocidade. Mas a grande virtude ofensiva do time é a habilidade dos laterais. Léo Moura e Juan atacam bem pelos flancos – que o Botafogo não protege muito bem – e pelo meio. São muito habilidosos e passam bem a bola. Juan cruza melhor que Léo Moura – mas o lateral direito vem melhorando no fundamento. Roni e Souza vem perdendo muitos gols – mas não são ruins como exagera a torcida do Flamengo.

O ataque do Botafogo é mais variado e se vale da habilidade e movimentação de Jorge Henrique e Zé Roberto. Lúcio Flávio é o homem do passe e das viradas de jogo. E Dodô é um finalizador perigoso fora e dentro da área – embora raramente incomode pelo alto. É mais refinado do que brigador. O time é difícil de ser marcado por causa da projeção dos jogadores defensivos. Joílson, o falso ala, ataca pela ponta e pelo meio. Os volantes avançam alternadamente... e, vez por outra, até os zagueiros saem. As subidas pontuais de Luciano Almeida, que é lateral de origem, podem confundir a marcação adversária. É um time que cria muito, faz muitos gols... mas também desperdiça um sem-número de oportunidades claras. O time marcou 53 gols em 21 jogos, uma média altíssima. Nos quatro clássicos que jogou, o Botafogo marcou 10 vezes... e apesar disso só teve duas vitórias – contra Vasco (2 a 0) e Fluminense (1 a 0).
Análise:O Botafogo leva razoável vantagem.


Faltas para o gol

Nas faltas de curta distância, o Botafogo tem Lúcio Flávio e, ocasionalmente, Dodô. Nas faltas de média e longa distância, quem cobra é Juninho e, vez por outra, Luciano Almeida. No Flamengo, todas as faltas para o gol são cobradas por Renato – que é perigoso de qualquer .
Análise: Empate.


Jogo aéreo e jogadas ensaiadas

Nas bolas alçadas para a área, o Flamengo é melhor. E, ao escalar três zagueiros, Ney Franco está querendo aumentar essa vantagem. Com Moisés, Irineu, Ronaldo Angelim e Souza ele terá quatro jogadores altos que sabem atacar a bola na área adversária. O Flamengo marcou 13 de seus 34 gols de 2007 de cabeça. A defesa do Botafogo não tem pessoal para marcar a jogada. O time de Cuca, por sua vez, tem apenas um bom cabeceador – Luciano Almeida – que deve ser facilmente neutralizado pela defesa rubro-negra. O perigo pode vir nas jogadas ensaiadas cobradas por Lúcio Flávio.
Análise: Vantagem do Flamengo.


Técnicos

Ney Franco é mineiro em todos os sentidos. Fala mansa, modesto, é taticamente mais cauteloso que Cuca. Tem usado duas variações no time: na primeira, mais usual, ele joga com uma espécie de 4-4-2, com Roni e Souza na frente e um losango no meio-campo – Paulinho mais atrás, Renato de um lado, Clayton do outro (ambos trocando de posição com os ofensivos laterais)... e Renato Augusto encostando nos atacantes. Sem a bola, quando consegue se recompor, o time forma duas linhas de quatro. Quando joga num 3-6-1, o time adianta ainda mais Léo Moura, Juan e Renato Augusto. Defensivamente, o Flamengo é mais consistente que o Botafogo. O ataque depende dos laterais e dos Renatos – que oscilaram muito este ano.

Cuca é um apostador. Seu Botafogo ataca e corre risco em todo e qualquer jogo. Cuca implantou uma marcação adiantada, que procura retomar a bola o tempo todo e encurtar espaços. O problema é que, com os jogadores que têm, o sistema defensivo não funciona bem quando o time recua. O Botafogo penou para vencer o CSA no Maracanã, por exemplo (o placar final, 5 a 2, foi um exagero que não mostra os riscos corridos pelo time). O Botafogo joga normalmente num 3-4-3, com Jorge Henrique pela esquerda, Dodô no meio e Zé Roberto pela direita. Com a bola, o time se movimenta e troca de posição o tempo todo – criando inúmeras dificuldades para a marcação adversária.

Sem a bola, a recomposição não é eficaz e a defesa cansa de ficar exposta. Não raro, os zagueiros fazem linha de impedimento. Mesmo com vantagem no marcador, o time vez por outra leva um contra-ataque – especialmente quando Zé Roberto está num mau dia e perde bolas na intermediária adversária.
Análise: Empate.


Resumo da ópera

Em suma, é um confronto que promete ser muito equilibrado. O Botafogo talvez seja melhor com a bola nos pés, o Flamengo talvez seja mais consistente.. E se as virtudes rubro-negras – como o jogo aéreo – se encaixam nas fraquezas alvinegras... a recíproca é verdadeira – a velocidade e bom toque alvinegro são ruins para a zaga do Flamengo. O duelo tático, técnico e de coração promete.
Escrito em 26/04/2007
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Defensor e Caracas


Com as vitórias de Grêmio e Deportivo Cúcuta, agora há pouco, pelo Grupo 3 da Libertadores... Santos, Flamengo e Paraná já têm uma noção do que virá por aí nas oitavas-de-final. Tudo ainda depende dos jogos do Grupo 6 nesta quarta. Se o Caracas perder para o LDU em Quito... deverá ficar com a vaga de último segundo e enfrentar o Santos. Com isso, o Flamengo enfrentaria o uruguaio Defensor nas oitavas. Com qualquer outro resultado, os confrontos da fase de grupos tendem a se repetir: Flamengo contra Paraná, Santos contra Defensor. A não ser que as imensas e listradas zebras abaixo listadas resolvam zurrar nestas quarta e quinta:



* O mexicano Toluca perde em casa para o Cienciano do Peru e o Boca Juniors deixa de vencer o fraco Bolívar em casa. Nesse caso, o Toluca ficaria com a segunda posição com nove pontos e saldo menor que Paraná e Defensor.

* O Toluca enfia seis gols no Cienciano. E o Boca Juniors não ganha do Bolívar em casa. Nese caso, o Cienciano ficaria com a vaga de "último segundo".

* O Colo Colo sofre uma surra monumental em Buenos Aires - seis gols de diferença a favor do desclassificado River Plate são necessários. E o Caracas arruma pelo menos um empate no Equador. Nesse caso, o time chileno ficaria atrás do Caracas. Se o Caracas perder, o Colo Colo precisa levar mais de seis.

E o babalorixá aqui achou que a repetição dos confrontos era improvável...
Escrito em 25/04/2007
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Golaço de Messi – EU VI!
Um casal brasileiro no Camp Nou




Há ingressos que o tempo transforma em peça de museu. Outros sofrem uma transformação veloz – já deixam o estádio como relíquia instantânea. Aquele pedacinho de papel mexicano que trazia Brasil x Itália, 21 de junho de 1970, por exemplo. Ou aquele outro, também mexicano, que trazia Argentina x Inglaterra, 22 de junho de 1986. Não são meros ingressos – são entradas para a história. O sonho de todo fã de futebol - de todo jornalista, torcedor, apreciador, comentarista – é ter um na carteira, escondido num baú de orgulhos ou devidamente envidraçado na parede.

O ingresso é prova do que os olhos viram. E do que o coração não esquece. Na quarta-feira passada, em Barcelona, o argentino Lionel Messi transformou a tarde de 100 mil catalães em um instante eterno. Bom, 100 mil catalães e pelo menos dois brasileiros. Os jornalistas Leonardo Gonik e Irene Vasconcellos, ambos da Sportv, de férias na Europa, estavam no Camp Nou quando Messi assinou sua obra-prima contra o Getafe. Abaixo, o depoimento de Leo Gonik:

“O jogo foi sensacional! Eu e Irene fomos ao Camp Nou no dia anterior ao jogo (17/04) de bobeira, pra ver o campo, visitar o estádio. Do nada a gente viu que ia ter a semifinal da Copa do Rei no dia seguinte e nem pensamos duas vezes. Ver o Barcelona,semifinal, lá no Camp Nou... Quando chegamos faltava uma hora pro jogo começar e o estádio ainda estava meio vazio. Mas como la é tudo marcado, o pessoal chega faltando dez minutos pro jogo começar. Como bons brasileiros de férias, compramos o ingresso mais barato, lá em cima. É alto mas com uma visão muito boa! Ainda demos a sorte de sentar ao lado de um grupo de torcedores fanáticos - os mais animados do estádio!

Ficamos um pouco decepcionados quando os jogadores entraram em campo pra aquecer. Apesar de reconhecer Eto'o, Deco, Messi, Xavi, Puyol, Rafa Marques & Cia, o Ronaldinho não entrou em campo. Pelo que lemos no jornalzinho que eles distribuem no estádio, ele já estava machucado há algum tempo. Nós é que – de férias, não sabíamos. E quando os jogadores entraram em campo pra valer, tocou o hino do Barça e a torcida toda cantou... esquecemos do Ronaldinho rapidinho

O primeiro gol já foi lindo, com o Xavi girando e batendo! Mas o segundo, nós nunca tinhamos visto algo parecido ao vivo! Nao preciso narrar aqui como foi, porque todo mundo ja viu mais de mil vezes. Mas o que ninguém viu foi a reação da torcida. Foi incrível! A cada drible do Messi as pessoas se levantavam e colocavam as mãos na cabeça, como se não acreditassem. Depois da arrancada e dos dribles dentro da área, foi aquele momento em que todo mundo pensa: "se ele fizesse... ia ser um golaço...”

Quando ele tirou o goleiro e tocou por cima do jogador do Getafe que vinha caindo, as pessoas não sabiam se riam, se gritavam, se comemoravam. Depois do gol, o estádio inteiro ficou por uns 10 minutos se curvando, fazendo reverência e gritando "Messi!, Messi!". Quando o jogo foi pro intervalo e até quando acabou, as pessoas não paravam de gritar o nome dele. Filmei os cinco gols e as comemoracões da torcida. Na saída (uma espécie de fim de Flamengo x Vasco muito bem organizada e tranquila), ainda não tínhamos muito a dimensão do que tinha sido esse gol. Mas foi só chegar ao hotel, ver a imediata comparação com o gol do Maradona e ter noção do que tinha acontecido, do que tínhamos presenciado. As manchetes de todos os jornais espanhóis só falaram disso pelos dois dias seguintes (compramos todos). Foi uma experiência fantástica para qualquer pessoa – ainda mais para nós que trabalhamos com esporte – e que sempre sonhamos em ver um momento como esse algum dia. Bom, nosso dia chegou
.”
Escrito em 24/04/2007
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O beijo no gramado


Aconteceu de repente, no Maracanã, diante de 50 mil pessoas. O zagueiro Cléberson, pilhado pela arbitragem ao cometer uma falta óbvia, se aproximou do juiz, temendo um cartão ou mesmo uma descompostura. Sua senhoria, Ubiraci Damásio, estendeu a mão ao zagueiro. Cléberson puxou a mão, transformou o cumprimento em abraço e, não satisfeito, estalou um beijo na bochecha do árbitro. Ubiraci, que a princípio parecia perdoar a falta, sacou o cartão amarelo.


- Você não pode me beijar!

Jamais houve uma frase tão distinta, tão pueril, tão improvável num jogo de futebol. O beijo súbito escapuliu de um impossível roteiro para a realidade – como sói acontecer nesta terra de Deus. E ali estava Ubiraci, negro, de infância pobre, dizendo ao também negro Cléberson:

- Você não pode me beijar.


A proibição da intimidade é até óbvia – está no protocolo. Convenhamos que o zagueiro do Cabofriense não é estúpido – longe disso. Limitado com a bola, amigo do casual sarrafo, Cléberson é extremamente articulado fora de campo. Inteligente, observador, de fala fácil, casado com a filha do colunista Ancelmo Góis, Cléberson sabia quem estava beijando. Fosse o juiz um Paulo César Oliveira, um Leonardo Gaciba ou mesmo um Carlos Eugênio Simon... e ele não arriscaria os lábios – porque temeria o cartão vermelho.

Ainda assim, não podemos criticar Ubiraci. O beijo desarmou-o por completo. Por um instante, Ubiraci, como se olhasse nos olhos de Medusa, ficou petrificado. Ele havia sido beijado por um homem diante de 50 mil pessoas. Ele, o juiz, a autoridade, havia recebido um carinho de um sujeito semi-estranho sem motivo aparente no jogo mais importante de sua carreira recente. O que passou pela cabeça de Ubiraci naquele segundo, naquela fração de tempo em que sentiu o inadvertido beijo?

- Você não pode me beijar!

E cartão amarelo. Pelos gestos cândidos de Ubiraci assim que Cléberson aterrou Joílson – seu cumprimento, seu passo lento - ficou claro que o cartão não foi para a falta – e sim para o beijo. O que está de acordo com a regra – mas não deixa de ser memorável. O primeiro e provavelmente único cartão por beijo que a rica história do futebol registra. O beijo atraiu o cartão que pretendia evitar. Não foi belo como o gol de Dodô, nem criativo como o gol de Zé Roberto, nem plástico como o gol de Túlio – mas foi único, raro, inesquecível.

Cléberson, o zagueiro irônico, e Ubiraci, o árbitro beijado, são personagens de nossa às vezes tragédia, às vezes comédia cotidiana. Ontem, o Brasil de brancos, negros, índios e todas as raças comemorava 507 anos de idade. Ubiraci, de nome indigena, que começou a apitar em peladas de gente fina das Zonas Sul e Oeste do Rio de Janeiro; e Cléberson, de nome importado e antropofagicamente modificado, entraram juntos para nossa história esportiva. De certo modo, o beijo no gramado vai atá-los eternamente. Porque os gols vão passar, as jogadas serão substituídas por outras... o resultado se perderá com o tempo... mas daqui a muitos e muitos anos, ainda lembraremos do dia em que o zagueiro beijou o árbitro.
Escrito em 23/04/2007
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