A camisa 1, que jogou sozinha
Se há deuses do futebol, e há coisas sobre os gramados que a lógica não explica, eles ontem ouviram as preces de milhares de rubro-negros. E baixaram, quais santos, no corpo do goleiro Bruno – que de milagre em milagre produziu um empate improvável e uma vitória nos pênaltis – essa já mais previsível. E os milhares rubro-negros em oração comemoraram ensandecidos um título estadual insólito. Se há coisas que só acontecem ao Botafogo, há também coisas que só acontecem ao Flamengo. Ser campeão estadual sem vencer um só clássico é um feito provavelmente inédito na era moderna. Não se questione a justiça do título – futebol não tem dessas coisas.
Foi uma final estranha. O vice Botafogo não perdeu, não teve menos coração, não teve menos futebol. O campeão Flamengo não venceu, ouviu seu técnico ser chamado de burro e sua torcida pedindo raça. E a raça veio – mas não foi exatamente a fibra, nem a camisa rubro-negra, nem a torcida... a fazer a diferença. O que fez a diferença foi um jogador. Um único jogador vestindo a camisa 1.
E é claro que o o Flamengo teve poder de reação, esteve perdendo nas duas partidas, foi buscar, correu, vibrou, teve méritos. É claro que Juan fez uma bela jogada, que Renato Augusto acertou um chute raro... e que a torcida, mais numerosa, apoiou o time quando necessário. E também zumbiu uma prece silenciosa nas horas difíceis. E essa prece... ou essas milhares ou milhões de preces foram milimetricamente atendidas.
Foram elas, provavelmente, que fizeram Joílson, cara a cara, na pequena área, chutar para fora quando o Botafogo vencia por 2 a 1. Foram elas, certamente, que iluminaram Bruno no chute fortíssimo de Dodô – e a seguir sopraram a bola para o topo do travessão - também quando estava 2 a 1. Foram elas, incrivelmente que fizeram Renato Augusto encontrar um chute nunca dantes visto em seu repertório . E foram as preces, sobretudo, que levantaram a mão do bandeirinha Hilton Moutinho quando Dodô entrava livre, com a bola dominada, aos 46 minutos do segundo tempo.
Pode-se dizer que o Botafogo jogou melhor e criou inúmeras chances. É verdade. E fez questão de perdê-las. E perder chances diante do goleiro é incompetência, não é falta de sorte. Ou é competência do goleiro. O Flamengo jogou pior – mas foi mais eficiente. O torcedor rubro-negro talvez acredite nos super-poderes da camisa que joga sozinha. Mas ontem a camisa que jogou por todas as outras foi a vestida por Bruno. E, quando vieram os pênaltis, pareceu claro que não teríamos apenas loteria. Veríamos, como vimos, o abismo técnico que separa Bruno de Max. O goleiro do Botafogo não passou perto de nenhum pênalti – nem dos mal cobrados por Roni e Juan. O goleiro do Flamengo fez duas belas defesas.
O futebol fascina porque nem sempre o melhor vence. Porque um time inferior pode ganhar. Mas sejamos objetivos – não foi bem isso que aconteceu no Maracanã. O Botafogo pode ter sido melhor com a bola nos pés. Ontem foi, especialmente no segundo tempo. Mas o Flamengo foi melhor com a bola nas mãos. Goleiro faz parte do time. Nos 180 minutos da decisão, os goleiros do Botafogo fizeram no total uma defesa difícil (Júlio César num chute de Clayton). Bruno fez pelo menos cinco só ontem. O chute de Renato Augusto foi impressionante... mas será que Bruno não pegava?
Há menos de duas semanas, neste mesmo espaço, fiz um Raio-X da decisão com a previsão de que seria um confronto equilibrado porque o Botafogo era melhor com a bola nos pés... mas tinha problemas defensivos. Vosso humilde servo foi alvo de uma centena de e-mails e comentários de alvinegros revoltados, que diziam que o Botafogo era melhor. Pelo que se viu nos 180 minutos da decisão, ironicamente, o Botafogo até jogou melhor. Mas perdeu. E o confronto foi – como placar mostrou – equilibrado.
E o Flamengo, que foi buscar energias na fé de sua imensa torcida – e na crença de que havia algo especial em gestação – levantou um título chorado. Um título que teve raça, fé, superação – mas que sobretudo mostrou que o craque faz diferença – mesmo que ele vista a camisa 1.
Voltemos, pois, aos 46 minutos do segundo tempo, quando Dodô entra na área e o bandeirinha enxerga o impedimento fantasma. E entendamos o óbvio: não levantasse Moutinho seu instrumento... e Bruno provavelmente impediria o gol. Suas mãos cresceriam, seu corpo se ampliaria, os ângulos do artilheiro seriam reduzidos. Não haveria chute capaz de ultrapassá-lo, não ali, não ontem. Pois ontem Bruno foi Jurandir, foi Garcia, foi Raul, foi Gilmar, foi Júlio César. Algo – um deus rubro-negro ou demiurgo afim - conspirava a seu favor. Conspirava para levar o jogo para os pênaltis, nos quais ele poderia ganhar, enfim e sozinho, a taça.
Escrito em 06/05/2007
Golaço de Messi – EU VI!
Um casal brasileiro no Camp Nou

Há ingressos que o tempo transforma em peça de museu. Outros sofrem uma transformação veloz – já deixam o estádio como relíquia instantânea. Aquele pedacinho de papel mexicano que trazia Brasil x Itália, 21 de junho de 1970, por exemplo. Ou aquele outro, também mexicano, que trazia Argentina x Inglaterra, 22 de junho de 1986. Não são meros ingressos – são entradas para a história. O sonho de todo fã de futebol - de todo jornalista, torcedor, apreciador, comentarista – é ter um na carteira, escondido num baú de orgulhos ou devidamente envidraçado na parede.
O ingresso é prova do que os olhos viram. E do que o coração não esquece. Na quarta-feira passada, em Barcelona, o argentino Lionel Messi transformou a tarde de 100 mil catalães em um instante eterno. Bom, 100 mil catalães e pelo menos dois brasileiros. Os jornalistas Leonardo Gonik e Irene Vasconcellos, ambos da Sportv, de férias na Europa, estavam no Camp Nou quando Messi assinou sua obra-prima contra o Getafe. Abaixo, o depoimento de Leo Gonik:
“O jogo foi sensacional! Eu e Irene fomos ao Camp Nou no dia anterior ao jogo (17/04) de bobeira, pra ver o campo, visitar o estádio. Do nada a gente viu que ia ter a semifinal da Copa do Rei no dia seguinte e nem pensamos duas vezes. Ver o Barcelona,semifinal, lá no Camp Nou... Quando chegamos faltava uma hora pro jogo começar e o estádio ainda estava meio vazio. Mas como la é tudo marcado, o pessoal chega faltando dez minutos pro jogo começar. Como bons brasileiros de férias, compramos o ingresso mais barato, lá em cima. É alto mas com uma visão muito boa! Ainda demos a sorte de sentar ao lado de um grupo de torcedores fanáticos - os mais animados do estádio!
Ficamos um pouco decepcionados quando os jogadores entraram em campo pra aquecer. Apesar de reconhecer Eto'o, Deco, Messi, Xavi, Puyol, Rafa Marques & Cia, o Ronaldinho não entrou em campo. Pelo que lemos no jornalzinho que eles distribuem no estádio, ele já estava machucado há algum tempo. Nós é que – de férias, não sabíamos. E quando os jogadores entraram em campo pra valer, tocou o hino do Barça e a torcida toda cantou... esquecemos do Ronaldinho rapidinho
O primeiro gol já foi lindo, com o Xavi girando e batendo! Mas o segundo, nós nunca tinhamos visto algo parecido ao vivo! Nao preciso narrar aqui como foi, porque todo mundo ja viu mais de mil vezes. Mas o que ninguém viu foi a reação da torcida. Foi incrível! A cada drible do Messi as pessoas se levantavam e colocavam as mãos na cabeça, como se não acreditassem. Depois da arrancada e dos dribles dentro da área, foi aquele momento em que todo mundo pensa: "se ele fizesse... ia ser um golaço...”
Quando ele tirou o goleiro e tocou por cima do jogador do Getafe que vinha caindo, as pessoas não sabiam se riam, se gritavam, se comemoravam. Depois do gol, o estádio inteiro ficou por uns 10 minutos se curvando, fazendo reverência e gritando "Messi!, Messi!". Quando o jogo foi pro intervalo e até quando acabou, as pessoas não paravam de gritar o nome dele. Filmei os cinco gols e as comemoracões da torcida. Na saída (uma espécie de fim de Flamengo x Vasco muito bem organizada e tranquila), ainda não tínhamos muito a dimensão do que tinha sido esse gol. Mas foi só chegar ao hotel, ver a imediata comparação com o gol do Maradona e ter noção do que tinha acontecido, do que tínhamos presenciado. As manchetes de todos os jornais espanhóis só falaram disso pelos dois dias seguintes (compramos todos). Foi uma experiência fantástica para qualquer pessoa – ainda mais para nós que trabalhamos com esporte – e que sempre sonhamos em ver um momento como esse algum dia. Bom, nosso dia chegou.”
Escrito em 24/04/2007