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Perfil

Gustavo Poli

Jornalista, 34 anos

Carioca, jornalista há 13 anos, trabalhou nos jornais O Globo e Lance! e está desde 1998 na TV Globo. Cobriu as Copas de 98 e 2002 e é co-autor do bem-humorado "Manual do mané" (Editora Planeta, 2003) e do "Almanaque do futebol" (Casa da Palavra, 2006).

E-mail: gustavo.poli@globo.com
Libertadores, modo de usar
Um guia cristalino para a última rodada



A Taça Libertadores chegará, nas próximas duas semanas, à última rodada da fase classificatória. O futebol apresentado tem sido irregular. Partidas sofríveis contrastam com belos jogos. O que não falta, como de hábito, é emoção. A tabela de classificação, faltando dois ou três jogos em cada um dos oito grupos, é um maná de possibilidades. Para o profeta amador, porém, há uma certeza: os principais cabeças-de-chave das oitavas-de-final serão brasileiros: Santos e Flamengo.

Como se sabe, nas oitavas, a Conmebol divide os classificados entre oito primeiros e oito segundos. O melhor primeiro pega o pior segundo. O segundo melhor primeiro pega o segundo pior segundo... e assim sucessivamente. O Santos está garantido como um desses dois líderes. O Flamengo pode até deixar escapar a posição – mas para isso terá que perder e perder feio para o Real Potosí em casa. Nem um boliviano bêbado de altitude acreditaria na possibilidade. Afora isso, é briga de foice. Dos 32 times da primeira fase, apenas oito estão eliminados.

Isso significa que 22 equipes brigarão por vaga nas rodadas dos dias 17, 18, 24 e 25 de abril. Vamos ver como está a situação, grupo a grupo, com direito a uma aparição da bola de cristal em versão mini, tentando adivinhar os confrontos da próxima fase.




Grupo 1

O Libertad deve ter jogado a classificação fora, ontem, ao perder em casa para o América do México. Na última rodada, os paraguaios enfrentam o Banfield na Argentina. O Libertad tem dez pontos; o Banfield tem nove. Será uma decisão com vantagem do empate para os paraguaios. O América, que também chegou aos nove pontos, se classifica com vitória simples em casa sobre o eliminado El Nacional do Equador.


Bola-de-gude-e-cristal:

Provável primeiro: América do México – 12 pontos.
Segunda vaga: Banfield – 12 pontos.





Grupo 2
A vitória do Audax Italiano sobre o Necaxa deu uma complicada no grupo do São Paulo.
O time chileno chegou aos 10 pontos e assumiu a liderança do grupo, deixando mexicanos (9 pontos) e brasileiros (7) para trás. Mas, na prática, por causa de seu saldo positivo (+6), o tricolor só precisa derrotar o Audax na última rodada no Morumbi que se classifica. Se vencer o Alianza em Lima na próxima semana, tanto melhor – porque aí praticamente garante o primeiro lugar do grupo. O Necaxa deve ficar com a segunda vaga – porque enfrenta o fraco Alianza em Aguascalientes.

Bola-de-gude-e-cristal:

Provável primeiro: São Paulo (13 pontos)
Provável segundo: Necaxa (12 pontos)





Grupo 3
O mais equilibrado dos grupos não tem nenhum eliminado ainda – o que provoca duas decisões na última rodada. O equilíbrio é tão grande que o saldo dos três times que têm sete pontos é pior do que o do Cúcuta, que tem seis pontos. O Grêmio, com saldo menos um, precisa vencer o Cerro Porteño no Olímpico para garantir sua vaga. Um empate não basta, porque o Cerro ficaria à sua frente no saldo e alguém fará pontos na outra partida, a decisão colombiana. Neste jogo, o Tolima tem a vantagem do empate e jogará em casa contra o Cúcuta – num repeteco da decisão do Clausura colombiano.

Bola-de-gude-e-cristal:

Provável primeiro: Tolima (10 pontos)
Provável segundo: Grêmio (10 pontos)





Grupo 4
A situação do Internacional é muito difícil. O time precisa ganhar de 3 a 0 ou 4 a 1 do Nacional no Beira-Rio. A alternativa é torcer para que o eliminado Elemec segure o Vélez Sarsfield na Argentina. Levando em conta a provável vitória do Vélez, o Inter vai ter que arriscar tudo. Se ganhar por 5 a 2, os times empatam em tudo e a vaga é decidida por sorteio. Os times empatariam até no critério de “gols fora de casa”.

Bola-de-gude-e-cristal:

Provável primeiro: Vélez Sarsfield (11 pontos)
Provável segundo: Nacional (10 pontos)





Grupo 5
Com o Flamengo classificado, o Paraná deve pegar a segunda vaga com alguma folga. Precisa vencer o fraquísismo União Maracaibo em casa. E acreditar que o Flamengo não perderá para o Real Potosí no Maracanã. Hoje, o Potosí está na frente do Paraná porque ambos têm seis pontos, saldo zero e os bolivianos fizeram um gol a mais. O Flamengo já planeja a próxima fase, nos dias 2 e 9 de maio, com a garantia que o jogo da volta será em casa. O time deverá ser o segundo melhor entre os “primeiros colocados”. Isso significa um encontro com o “segundo pior” entre os segundos. O Paraná, ficando em segundo, deve encontrar Santos ou o próprio Flamengo já nas oitavas.

Bola-de-gude-e-cristal:

Primeiro colocado: Flamengo (16 pontos)
Provável segundo: Paraná (9 pontos)





Grupo 6
O único grupo com vagas já decididas: Colo Colo e Caracas defenestraram River Plate e LDU da Libertadores e agora jogam, fora de casa, pela primeira vaga do grupo. O Colo Colo enfrenta o River na Argentina. E o Caracas pega o LDU em Quito. Daqui pode sair um adversário para Santos e Flamengo. Se o Caracas, em especial, perder no Equador... ele tende a ser o último colocado entre os segundos, porque tem saldo ruim.

Bola-de-gude-e-cristal:

Provável primeiro: Colo-Colo (10 pontos)
Provável segundo: Caracas (10 pontos)





Grupo 7
A vitória do Toluca sobre o Bolívar em La Paz praticamente garantiu a vaga dos mexicanos. Na última rodada, eles enfrentam o Cienciano em casa. E o time peruano não terá seu principal jogador – a altitude de Cuzco (3800m). Será uma decisão – mas os peruanos terão a vantagem de jogar pelo empate, pois tem saldo muito melhor (6) do que os mexicanos (1). Com a provável vitória do Toluca, a outra vaga do grupo deve ficar com o Boca Juniors, que tem sete pontos mas pega o Bolívar em casa. O problema do Boca é que seu saldo é ruim (-1). Ou seja, se der empate no México, os argentinos precisarão ganhar por três gols de diferença para assegurar a classificação.

Bola-de-gude-e-cristal:

Provável primeiro: Toluca (12 pontos)
Provável segundo: Boca Juniors (10 pontos)





Grupo 8
O Santos classificadíssimo deve nadar de braçada para conquistar a primeira vaga dos “primeiros” nas oitavas. Enfrenta o frágil e eliminado Deportivo Pasto na Vila Belmiro e deve confirmar seus 100% de aproveitamento. No outro jogo, o Defensor vai até La Plata enfrentar o Gymnasia y Esgrima. Mas os uruguaios só perdem a vaga se tomarem quatro gols de diferença.


Bola-de-gude-e-cristal:


Primeiro colocado: Santos (18 pontos)
Provável segundo: Defensor (10 pontos)





Resumo da Bola-de-gude-e-cristal:

(Classificação geral)

Primeiros colocados de grupo:
1 – Santos (18 pontos)
2 - Flamengo (16 pontos)
3 – São Paulo (13 pontos)
4 – Toluca (12 pontos)
5 – América do México (12 pontos)
6 – Vélez Sarsfield (11 pontos)
7 – Colo-Colo (10 pontos)
8 – Tolima (10 pontos)


Segundos colocados de grupo:
1 – Necaxa – 12 pontos
2 – Banfield – 12 pontos.
3 – Defensor - 10 pontos
4 – Nacional – 10 pontos
5 – Grêmio - 10 pontos
6 – Boca Juniors – 10 pontos
7 – Caracas – 10 pontos
8 – Paraná – 9 pontos


Confrontos

Isso geraria os seguintes chaves nas oitavas-de-final:

De um lado:

Santos x Paraná
Tolima x Necaxa

Toluca x Grêmio
América do México x Nacional


Do outro lado:

Flamengo x Caracas
Colo Colo x Banfield

São Paulo x Boca Juniors
Vélez Sarsfield x Defensor


Ou seja, ninguém teria vida pior do que o São Paulo. E ninguém teria vida mais mansa do que o Flamengo. Mas, obviamente, essa bola-de-gude-e-cristal é um exercício de futurologia chutadora. Nem Nostradamus reencarnado e amigado com Mãe Dinah seria capaz de acertar cada resultado e o saldo de gols de cada time. Quer dizer... ele até poderia fazê-lo se contasse com a bola de cristal turbo, que chegará os proprietários deste espaço estão alugando para o Campeonato Brasileiro. Mas, enquanto a BC Turbo não chega, fiquemos com sua irmã nanica e de gude. Que serve para divertir, entreter... e tentar vislumbrar o que espera os brasileiros na próxima fase da Libertadores.
Escrito em 13/04/2007
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Súmula e palavrões


O Botafogo que se prepare fora de campo. O árbitro Fábio Calabria escreveu na súmula de Botafogo 4 x 4 Vasco (4 x 1 nos pênaltis) que Túlio foi expulso por ofensa. A televisão mostrou Túlio dizendo claramente as palavras "Tá louco, p...". Segundo Calábria, o jogador do Botafogo proferiu as seguintes e distintas palavras: "Falta é o ((palavrão)) Vai se ((palavrão))!". A favor de Calabria, diga-se que as câmeras não acompanham Túlio o tempo todo. Além disso, Calábria diz ter sido xingado e chamado de venal pelo supervisor Márcio Touson, que invadiu o campo depois da expulsão de Túlio. Para dar uma olhada na súmula, clique aqui.
Escrito em 13/04/2007
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A lente subjetiva
A noite em que o gol mil virou coadjuvante



Foi um jogo incomum. Um jogo épico. Um jogo inesquecível. Que pode ser visto por duas lentes: a objetiva e a subjetiva. Se fossemos olhar o jogo friamente, observando apenas os fatos futebolísticos, veríamos uma comédia de erros. Erros infantis de marcação, panes mentais inexplicáveis, incompetência defensiva no mais alto grau. Em quatro minutos, três gols - erros capazes de envergonhar o zagueiro razoável. Obviamente, todo gol presume que a defesa seja superada pelo ataque. Mas, no jogo de ontem, as defesas pareciam oferendas, tamanha a facilidade com que os gols surgiram. Vejamos, gol a gol, o que aconteceu no Maracanã:

Vasco 1 x 0 – Falha de comunicação entre Juninho e o goleiro Júlio César. Juninho deu nos pés de Renato uma bola que o goleiro iria defender.

Vasco 2 x 0 – Depois de se enrolar com o juiz, Túlio perdeu a bola para Morais no meio-campo com a zaga exposta. Não houve falta. Moraes tocou para Renato que tocou para Abedi... que marcou.

Botafogo 1 x 2 – A defesa do Vasco caiu na mais banal das jogadas ensaiadas. Tentou sair para fazer impedimento depois do escanteio curto. Luciano Almeida veio de trás e cabeceou livre.

Botafogo 2 x 2 – Abedi, que até jogou bem mas não é lateral, não acompanhou Luciano Almeida, que recebeu excelente passe de Túlio. Jorge Luís saiu na cobertura e chegou tarde. Luciano Almeida cruzou bem e Zé Roberto finalizou de chapa.

Vasco 3 x 2 – Jorge Henrique não acompanhou Jorge Luís. O zagueiro entrou livre, ganhou a dividida com Juninho – que entrou com pé mole – e tocou por cobertura. Um golaço.

Botafogo 3 x 3 – Novo cruzamento da direita em jogada muito parecida com a do primeiro gol. Jorge Luís não acompanhou o deslocamento de Dodô, que ficou livre para empatar.

Botafogo 4 x 3 – Fica a dúvida se foi realmente falta em Jorge Henrique. Na cobrança, o montinho dificultou a vida do goleiro Cássio. Mas era uma bola defensável.

Vasco 4 x 4 – Juninho foi acompanhar a bola até o escanteio, voltou atrasado e não marcou o jogador que estava sob sua responsabilidade. Allan Kardec cabeceou solto. Juninho é visto cabeceando o vento depois do atacante, tentando adivinhar a trajetória da bola.

Isso sem falar nos gols perdidos – especialmente nos perdidos por Dodô, em jornada especialmente infeliz. O empate soou justo – o Vasco superou suas limitações. O Botafogo apresentou as suas – especialmente as defensivas. O tal melhor time do Rio tem muito talento ofensivo mas é um time que arrisca demais. Os lados do campo estão freqüentemente expostos. Mas deixemos a lente objetiva de lado. Porque um jogo de futebol não é frio. Não é apenas razão.


*****



Foi um jogo épico, um jogo para ser lembrado, porque errar e acertar são verbos que podemos conjugar. O passe de Túlio nas costas de Abedi, de três dedos... contou com a colaboração do lateral do Vasco. Mas foi um passe excelente, preciso. Assim como o cruzamento de Luciano Almeida, que Zé Roberto escorou, para marcar o segundo gol do Botafogo. Minutos antes, Túlio tinha perdido a bola que começou a jogada do segundo gol do Vasco. A excepcional jogada de Jorge Luís, aquela que ficou a um milímetro de ser o milésimo gol, começou nos erros de Juninho e Jorge Henrique. Mas não fosse a súbita habilidade do zagueiro não teria acontecido. O toque por cobertura, a cavadinha, assinou um golaço, o terceiro do Vasco. Minutos depois, Jorge Luís deixaria Dodô livre para empatar o jogo em três.

A sucessão de erros e acertos produziu sete gols em 45 minutos e a tensão que tomou cada milímetro de Maracanã. Os gritos das torcidas eram elétricos, mas ressabiados. A jornada épica em busca do gol mil submergiu, caiu para segundo plano. Porque Romário parecia um estrangeiro no jogo. Corria em outra velocidade, mais lenta, distante. Num jogo disputado a mil, Romário parecia, ironicamente, a dez. Parecia sobretudo ter cada um de seus 41 anos. Soava eras mais velho do que o Romário que jogou contra Volta Redonda, Flamengo e Boavista. Aparentava ter mil quilos nas costas.

As câmeras que o perseguiam pareciam invadir o filme alheio. Quando a decisão dos pênaltis misturou os filmes de novo, Romário desabou, traído pelas panturrilhas. E, quando o Botafogo marcou seu quarto pênalti, Romário parou. Não ensaiou um gesto. Ficou em pé, com os olhos abertos e vazios, como se não acreditasse que sua última glória tivesse se tornado tão dramática. Que teria que prolongar sua carreira em busca de um único e mísero gol. Como se lembrasse de sua própria frase sobre o dedo divino (“quando eu nasci, Deus apontou para mim e disse Esse é o cara”). Por um instante, o cara estava profundamente sozinho.

Soa até incrível pensar que um filme tenha se descolado tanto do outro em 20 dias. No dia 25 de março, Romário fez seu 999º gol contra o Flamengo. Vasco e Romário estavam em lua-de-mel com seus objetivos acessórios: gol mil, Copa do Brasil, liderança no Estadual. De lá para cá, o Vasco jogou cinco vezes. Romário atuou em três: uma contra o Gama, duas contra o Botafogo. O Vasco perdeu três, empatou duas. Para Romário, foram 270 minutos em branco. E ontem, afora o quase gol, ele mal pegou na bola. O Vasco ficou com a proverbial mão vazia – vendo os dois pássaros restantes – o título estadual e o milésimo gol – voando para a distância.

Enquanto isso, Júlio César, com seu penteado anos 80, conseguia sair como herói num jogo em que tomou quatro gols. O jovem goleiro do Botafogo pode não ser excepcional. Mas tem estrela. Dos cinco pênaltis cobrados contra sua meta, em sua brevíssima carreira profissional, só dois entraram. E, para agradar uma torcida como a do Botafogo, ter estrela é fundamental.

O torcedor do Botafogo ontem, mais uma vez e como sempre, foi ao Maracanã temendo a tragédia. Temendo o pior. Em três minutos, com dois gols contra, não foram raros os sorrisos resignados que saboreavam um “Eu sabia”, como se antecipar a tragédia fosse uma vantagem. Mas as tais coisas que só acontecem com o Botafogo teimam em ser imprevisíveis – e ontem, como sempre, a vitória do time foi sofrida. O Botafogo não convive bem com a facilidade – ele precisa do drama.

E ontem... drama sobrou. Na decisão lotérica dos pênaltis, vale observar que Luciano Almeida bateu tão mal quanto Morais – a única diferença é que Cássio errou o lado. E Júlio César acertou. O Vasco, único grande a se classificar para as semifinais dos dois turnos, acabou eliminado duas vezes nos pênaltis perdendo cinco penalidades em sete (Dudar perdeu duas vezes). O Botafogo, brigando contra Federação, está na final da Taça Rio.

*****


E, por brigar contra tudo e todos, o Botafogo sofre fora de campo. O fantástico Tribunal de Justiça Desportiva da FERJ suspendeu ontem o lateral Luciano Almeida, por dois jogos. O motivo: uma suposta cotovelada em Leandro, do América. Luciano não merecia sequer ser expulso pela jogada. Esse é o mesmo tribunal que suspendeu Moisés, do Flamengo, por um jogo depois que ele deu um soco nas costas de Fábio Júnior. Aliás, o murro de Moisés estava respondendo a uma cotovelada do jogador do Madureira – fato ignorado pelo Tribunal. O Tribunal também absolveu Morais, acusado pelo árbitro Luiz Antonio Silva Santos de tentar agredi-lo com uma cabeçada. Segundo os egrégios membros, Moisés não agrediu Fábio Júnior – cometeu um ato de hostilidade. Luciano Almeida, por sua vez, agrediu Leandro. A comparação entre os dois lances e os dois julgamentos é um depoimento sobre o organização do futebol do Rio.
Escrito em 12/04/2007
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