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Perfil

Gustavo Poli

Jornalista, 34 anos

Carioca, jornalista há 13 anos, trabalhou nos jornais O Globo e Lance! e está desde 1998 na TV Globo. Cobriu as Copas de 98 e 2002 e é co-autor do bem-humorado "Manual do mané" (Editora Planeta, 2003) e do "Almanaque do futebol" (Casa da Palavra, 2006).

E-mail: gustavo.poli@globo.com
Grondona F.C.



Considere o leitor, por um instante, a seguinte possibilidade: em 1992, o filho de Ricardo Teixeira, presidente da CBF, começa a trabalhar como diretor em um time da terceira divisão. No mesmo ano, o clube pula para a segunda divisão. E continua sua ascensão. Em 2002, Ricardo Filho assume a presidência do clube. No mesmíssimo ano, o time consegue chegar à primeira divisão do campeonato nacional. Em 2007, chega a liderá-lo. Além dos rumores de arbitragens favoráveis, Corinthans e Flamengo emprestam de graça algumas revelações para o clube. Mais – o time recebe fundos do programa GOAL, da FIFA, aquele criado para fomentar futebol em rincões sem recursos. Com a grana, constrói um CT e ainda consegue reformar seu estádio... que é batizado de... “Estádio Ricardo Teixeira”.

Soa fictício? Pois bem, é exatamente isso que aconteceu – ou vem contecendo – em Buenos Aires. O sexto colocado do atual Campeonato Argentino, o Arsenal de Sarandí, é a sensação recente do futebol platino. Fundado em 1957, o time tem seu principal jogador sentado atrás de uma mesa: Júlio Grondona Jr, o popular Julito, filho do todo-poderoso presidente da Associação de Futebol Argentina (AFA), Júlio Humberto Grondona.

O clube foi fundado em 11 de janeiro de 1957 por Júlio Pai, por seu irmão Héctor Grondona e um grupo de amigos.. Júlio foi o primeiro presidente do clube. Como os fundadores torciam pelos times grandes de Avellaneda (o Independiente e o Racing), o Arsenal, que tem escudo vagamente inspirado com seu primo rico inglês, recebeu as cores vermelha (Independiente) e azul-celeste (Racing). Só quatro anos depois, o time fez sua primeira partida – contra o Piraña (é sério) pela quarta divisão. Deu empate: 1 x 1. O gol do Arsenal foi marcado por Héctor Grondona, que até hoje é o maior artilheiro da história do clube.

A recente e meteórica ascensão do Arse combina com a ascensão de Julito Grondona. O time, com um orçamento mensal de US$ 90 mil, consegue milagres. Em 2004, estreou na Copa Sul-Americana e foi até as quartas-de-final (eliminou o River Plate e foi eliminado pelo Bolívar). No ano passado, acabou em quinto no Apertura. Este ano começou bem o Clausura, chegou a liderar... antes de cair para a atual sexta posição. O destaque do time vem sendo Pablo Mouché, promessa da Seleção Sub-20 argentina, gentilmente emprestada de graça pelo Boca Juniors. Uma gentileza que não tem rivalidade: o River Plate também já cedeu jogadores para o Arsenal no passado.

Fora de campo, Julito Grondona vem marcando um gol atrás do outro. Em 2004, o clube inaugurou seu CT em Vila Dominico, graças a recursos do Projeto Goal, da FIFA, cujo objetivo é fomentar futebol em rincões sem recursos. Coincidência, claro, o fato de Grondona Pai ser vice-presidente do Comitê Executivo da FIFA, membro de oito comissões da entidade e presidente de três delas.

O estádio do time, El Viaducto, foi construído em 1964 e reformado em 2004. Ganhou as cores do clube e foi rebatizado. Agora se chama Estádio Júlio Humberto Grondona, com capacidade para 18,3 mil espectadores. A Seleção argentina, acredite-se, já jogou lá. Continua sendo chamado de El Viaducto. Em setembro do ano passado, o Arsenal fechou uma parceria por 50 anos com o Barcelona... que passou a ter a opção de comprar jogadores jovens do clube. O convênio, resumidamente, terceirizaria as divisões de base do Arsenal para o time catalão – que investiria 300 mil eurous e administraria a revelação de valores. Os verbos estão no condicional porque, como anotou o repórter Thiago Dias - aqui do Globoesporte.com - o Barcelona desistiu do convênio rapidinho, cinco meses depois de assiná-lo.

E pensar que criticávams Caixa D'Água apenas por pressionar árbitros e costurar tabelas a favor de seu Americano de Campos? E pensar que achávamos um absurdo as gestões da família Chedid a favor do Bragantino! Bom, o principal jogador da história do Arsenal foi Jorge Burruchaga, autor do gol do título argentino na Copa de 1986. Após encerrar sua carreira, Burru se tornou técnico... do Arsenal de Sarandí. E foi com ele que o time subiu para a primeira divisão em 2002. Hoje, Burru é técnico do Independiente. Coincidência? Claro que não.

A trajetória de Burruchaga segue os passos de Júlio Grondona. Ainda nos anos 60, o cartola deixou a presidência do Arsenal para assumir o comando do futebol do Independiente. Viveu a era de ouro do time nos anos 70... e se tornou presidente do clube em 1976. Pouco depois assumiu o cargo de tesoureiro da AFA. Em três anos, galgou parâmetros: se tornou presidente da associação, posto em que permanece até hoje, quase três décadas depois. Grondona já foi reeleito seis vezes. Em 1991, o ex-árbitro Teodoro Nitti tentou desafiá-lo numa eleição. Perdeu por 47 votos a 1. Quem votou a favor de Nitti? O próprio Grondona.

O cartola quer tentar um sétimo e (ele jura) último mandato que iria até 2011. A eleição será em outubro deste ano. Mas, desta feita, Grondona tem um adversário deveras verbal: Raul Gaméz, ex-presidente do Vélez Sarsfield e responsável pela grande fase do time. Conhecido como Pistola por suas declarações polêmicas, Gaméz já desancou Grondona de todas as formas. Já estranhou os negócios da AFA, já disse que ninguém sabe para onde vai o dinheiro da entidade, já lançou suspeitas de todo tipo. E, há duas semanas, na Câmara dos Deputados argentina, foi na canela: afirmou que Grondona comanda a AFA através de um sistema mafioso. E completou “Vou fazer campanha no interior para mostrar que estamos sendo roubados e esse homem tem que ir embora”. Gamez disse ainda que o plano de Grondona é passar o bastão da AFA, em 2011, para um de seus filhos.

Há outros candidatos para o posto. O técnico da Seleção de 1986, Carlos Billardo, andou dizendo que gostaria de concorrer. Outro nome cotado é o de um ex-dirigente do Boca Juniors, Carlos Heller, que tem a simpatia da Casa Rosada, ou seja, do presidente argentino, Nestor Kirchner. Mas tirar Grondona de sua cadeira é missão inglória. Quando falou em máfia, Gaméz se referia aos apelidos de Grondona – que até gosta de ser chamado de Don Julio ou El Padriño. O poderoso chefão platino não vai largar seu osso facilimente.
Escrito em 08/04/2007
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Uma carta verde



Na semana passada, publiquei aqui um artigo sobre o “título mundial” do Palmeiras que, segundo informações dos jornais, a FIFA reconheceu. O Palmeiras ganhou a Copa Rio de 1951, um torneio com diversos clubes importantes, mas que na minha humilde opinião não pode ser considerada como título mundial nem aqui nem em Urano. O post em questão foi alvo de uma imprecedente ira verde. Palmeirenses xingaram doze gerações de minha família quando, em tese, o único culpado pelo texto – e pela opinião – era vosso humilde servo.

Pois bem, não mudei de opinião. Mas recebi alguns e-mails civilizados e até emocionados sobre o tema. Separei um, que abaixo transcrevo, que meio que resume todos os outros. Continuo achando que a Copa Rio está para título mundial como banana está para laranja. Mas, se a FIFA diz que é título, é mais que natural que a torcida do Palmeiras comemore. E que os torcedores que viram o título acontecer se emocionem.

"Olá Gustavo

Meu nome é Alexandre e li a sua opinião sobre o Título Mundial de 1951, vencido pelo Palmeiras. Quero deixar claro aqui que não conheço seu trabalho, acredito que seja um bom jornalista, e jamais faria alguma critica ou desse minha opinião sobre você por realmente não conhecê-lo e é disso que quero falar nestas singelas e humildes linhas.
Espero que tudo que tenha dito na sua coluna na matéria tenha vindo também de conversas com pessoas "um pouco" mais velhas que vc para dizer com tanta imponência e verdade tudo que disse.

Sou um pouco mais velho que vc tenho 38 anos, mas em casa, meu caro, tenho uma enciclopédia do futebol que se chama Henrique, (meu tio Henrique), foi ele quem me ensinou o que é futebol e me mostrou que acima de um grande palmeirense teria que existir um grande torcedor de futebol, e acredite se quiser até elogios ao nosso maior rival, (Corinthians), ele fazia questão de dizer quando nos anos em que ele por sua vez era melhor que o, "nosso verde", o jeito que ele fala do seu Palmeiras.

Estou enfatizando o meu Tio porque para mim na verdade é dele este Título Mundial e é isso que estou tentando mostrar para vc, o quão é importante isso para estes torcedores, que infelizmente neste país tem menos importância a cada dia que passa. Lembro de ter por volta de 10 anos, quando contou em detalhes esta conquista que para ele teve um gosto especial na época, mas desdenhada nos dias de hoje, pois para muitos só o que vale é o momento, passado é passado, isso é que eu não entendo do que são então feitas as Histórias?? Não seriam do passado?? Poxa, me perdi então em algum lugar, desculpe.

Caro Gustavo, gostaria que voltasse a pensar sobre isso nesta ótica que tentei colocar, olhando com os olhos do, (Meu Tio Henrique), e de tantos outros que CHORARAM com o título, pois foi exatamente isso que aconteceu, ele desabou a chorar, de relembrar um passado distante, muito longe do que vivemos hoje e cá entre nós, muito mas muito melhor e divino do que é hoje o nosso Futebol.

Um abraço respeitoso"

Alexandre Teixeira

Escrito em 06/04/2007
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100 dias



Os Jogos Pan-Americanos de 2007 serão o maior evento esportivo já visto e produzido no Brasil. E hoje, a 100 dias do evento, mencionar a palavra PAN provoca um sorriso cético aqui, um comentário irônico ali, uma indignação revoltada acolá. A desconfiança é generalizada. Com a multiplicação de reportagens sobre explosão orçamentária, atraso de obras e desorganização... a sensação de que o PAN pode ser um mico já virou verdade em todo bate-papo de esquina. E essa é a melhor notícia que o evento pode ter. Porque não há nada melhor para o sucesso de um evento do que baixa expectativa.

Não é fácil fazer um Pan-Americano. Requer profissionalismo, organização, planejamento, grana. O problema é que, quando o Rio ganhou o evento, mundos e fundos foram prometidos. Metrô, revolução, um Rio de Janeiro com air-bag, direção hidráulica e vidro elétrico a prova de balas. O tempo passou, as promessas viraram fumaça e o orçamento explodiu. Hoje sabemos que o legado físico do PAN será meramente esportivo. Não que isso seja pouco – a cidade terá um Parque Aquático, uma arena e um estádio de primeiro mundo. Mas a promessa inicial era muito mais ambiciosa.

Mais importante, porém, será o legado esportivo em outro sentido. A exposição do evento em todas as mídias tem plantado esporte Brasil afora. Vemos triatlo em açudes no Ceará, atletismo em aldeias indígenas na Amazônia, hóquei na grama do sul, vôlei do Oiapoque ao Chuí, badminton nas favelas do Rio. Talvez o PAN possa ser a semente da sonhada massificação do esporte, um passo largo do Brasil para frente. Um passo na direção de um país mais ético, mais civilizado, mais desenvolvido.

Por tudo isso, a notícia de ontem foi especialmente triste. Quando o Co-Rio usa uma desculpa esfarrapada e descabida para ignorar olimpicamente o Estatuto do Torcedor... a mensagem que se passa é de que o Brasil do passado continua em campo. Dizer que o PAN não é um evento de esporte profissional é inacreditável. E, mais do que disso, transferir a culpa da desorganização do Comitê para a “cultura do brasileiro” é feio, muito feio. Mas sintomático. Porque, ao driblar a lei, o CO-RIO está dando um jeitinho – e isso sim, infelizmente, faz parte da cultura nacional.

Os ingressos serão vendidos pela internet... mas não terão lugar marcado. O faturamento estará garantido. O conforto do torcedor? Não exatamente. É como se metade do evento estivesse no Século XXI e a outra no Século XX. Foi um claro erro de comunicação. Porque, no fundo, foi uma decisão operacional. O CO-Rio gostaria de ter ingressos numerados. Mas... não conseguiu. Era melhor dizer isso com simplicidade.


*****


Finanças expostas


O recente confronto de acusações entre o Botafogo e a Federação de Futebol do Rio de Janeiro provocou uma exposição interessante. A Federação, num acesso de súbita transparência, publicou em seu site todas as transferências financeiras feitas para o Botafogo. Analisando os repasses, a gente começa a entender quão difícil é a vida dos clubes cariocas.

Peguemos por exemplo, a primeira cota de TV do Campeonato Carioca: R$ 433.169,40. De início, o time já perde 10% do valor (5% para o INSS, 5% para o Sindicato de atletas). Mais 10% vão para a FERJ. Nesse momento romário do futebol, há alguma ironia em perceber que a maior parcela (R$ 40.496,00) foi para o bolso de Márcio Theodoro, o zagueiro que ficou marcado pela falha na final da Taça Guanabara de 95. Para quem não se lembra – o jogo estava 2 a 2 quando, aos 43 minutos do segundo tempo, Theodoro foi atrasar uma bola de cabeça... errou... e deixou Romário na cara do gol (resultado: Flamengo 3 x 2).

Depois de pagar Theodoro, a Fazenda Nacional, o acordo trabalhista dos 15% e uma empresa de turismo, sobrou para o Botafogo... R$ 231.640,40. Só que... o clube já havia pego um adiantamento com a própria FERJ em novembro – mais de 500 mil – a ser pago em quatro parcelas. Subtraem-se R$ 142.761,00... sobram R$ 88.887,38, grana insuficiente para pagar um mês de salário de Dodô. Mas mesmo esse dinheiro não entrou no cofre alvinegro – ele serviu para amortizar outro não detalhado débito anterior com a própria Federação. Quanto o Botafogo recebeu? Nada.
Escrito em 04/04/2007
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A última risada


Romário não ficou nada satisfeito com as entrevistas dos jogadores do Botafogo depois do clássico. Em especial com Túlio, que disse hoje à tarde, no Globo Esporte e no Arena Sportv, que “quem sorri antes do jogo pode sorrir amarelo depois”. Não que a declaração de Túlio tenha sido provocativa ou mesmo inflamável. Foi até singela. Mas o famoso alguém viu... e o mesmo famoso alguém contou para Romário, temperando com pimenta e traduzindo as palavras do jogador do Botafogo como “quem ri por último, ri melhor”.

O Baixinho, frustrado com o gol mil que não veio, ouviu e interpretou como onda tirada. E Romário provocado... como se sabe... se transforma. De repente, voltou à tona o Romário desafiador e irônico. Um amigo da coluna ouviu dele:

- O Botafogo que se cuide, pode avisar pra eles.

Romário, como se sabe, já marcou 31 gols contra o time de General Severiano. E agora, mais do que nunca, está louco para marcar o 32º. Os dois times podem se encontrar já na semifinal da Taça Rio, dependendo de uma combinação de resultados na última rodada. E se o gol mil não sair até lá... Romário pode rir por último.


*****



Por falar no assunto... se um torcedor do Botafogo tivesse recebido um convite da festa de Romário para os mil gols... teria certeza do alívio. Reparem no convite:


A data... e o endereço da boate diziam tudo. Avenida Armando Lombardi, 999. Escrito em 02/04/2007
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Uuuuhhhh



Ele subiu os degraus lentamente, pé ante pé. Prestes a ser cercado por um, dois, três, quatro, cinco... mil repórteres, Romário, mais rei-sol do que nunca, estava no centro do mundo da bola. E hesitava, olhando, túnel do Maracanã acima. À sua espera, um indriblável tsunami de microfones. Câmeras. Flashes. Repórteres de colete. Repórteres sem colete. Amigos. Caronas. Amigos dos caronas. Torcedores. O assédio era brutal. Uma vez no gramado, o Baixinho pareceu ao mesmo tempo imperial... e frágil.


Afundado entre microfones, ombros e cotovelos, Romário transbordava tensão. O gol mil estava ali pertinho... e tão longe. A semana inteira girou em torno do tema. E o time do outro lado, que passou sete dias como coadjuvante, esperava em silêncio.

O Botafogo usou cada milímetro de gol mil a seu favor. Se, na semana passada, a marca entrou no corpo de cada jogador cruz-maltino, transformando suor em talento, fazendo de perebas... jogadores razoáveis... ontem, o gol mil paralisou o Vasco. O time entrou em campo tenso como Romário. E exibiu suas fraquezas, que são muitas. Não fosse Cássio, que fez uma defesa de antologia e duas de almanaque... e o Botafogo teria goleado.

Os jogadores e o técnico do Botafogo ficaram irritados quando Romário escolheu não jogar contra o Americano na quarta-feira. O time se sentiu como uma espécie de convidado-peru na ceia de natal vascaína. O técnico Cuca repetiu isso como um mantra durante a semana. E o Botafogo entrou voando. Não perdeu meia dividida. Marcou bem, defendeu com precisão e atacou com rapidez. Aproveitou a limitação extrema dos volantes adversários, perdeu gols inacreditáveis. Venceu com justiça e com sobras.

E, ainda assim, o Vasco teve suas chances. Por mais que o Botafogo dominasse, e chutasse, e jogasse... durante quase todo o jogo o placar mostrou um mísero gol de vantagem. E a história de Botafogo x Vasco parecia pronta para entrar em campo a cada instante. Quantas não foram as partidas em que o alvinegro dominou amplamente... e acabou derrotado por um gol fortuito e casual... de Roberto, de Romário, de Valdir... Os vascaínos sentiam... a virada está na esquina. Ela já vem. E então, aos nove minutos do segundo tempo, Romário avançou livre pela esquerda... e recebeu o passe.

Foi, das quatro ou cinco chances de Romário no jogo, a mais clara. Em todas, a corrente elétrica que percorreu a espinha dos quase 60 mil pagantes... e os fez levantar, uns por medo, outros por excitação...transmitia a sensação de testemunhar história. Mas ali, aos nove minutos do segundo tempo, a corrente foi mais forte. Romário estava sozinho. Dentro da área. Contra o Botafogo. No Maracanã.

Mas o gol mil... passou raspando. E O Maracanã ouvi aquele imenso uuuuuh, que se dividiu entre frustração e alívio. Aos 18 minutos, o uuuuuh viria novamente... dessa vez incluindo espanto diante de uma obra quase prima. Um gol mil por cobertura surpreenderia qualquer Nostradamus. Seria coisa para almanaque imediato, livro, DVD, manchete, moldura. Mas o toque de Romário foi forte demais... para alívio de Júlio César, o goleiro mais feliz do domingo. A bola de Romário não queria entrar. E o Botafogo fazia por merecer a vitória. Jorge Henrique, Zé Roberto, Luciano Almeida, Alex, Juninho, Lúcio Flávio, Túlio... todos jogavam bem.

E veio o apito final. E deu-se novo estouro da boiada jornalística. Em um segundo, Romário estava cercado de microfones por todos os lados. Foi empurrado, ombrado, pressionado, esbarrado. Um espetáculo de amadorismo e desorganização. Como pode um atleta profissional se concentrar antes do jogo diante de tamanho assédio? E descansar depois do jogo? É mais que compreensível o interesse das rádios de toda a parte, das TVs de todo o planeta. Mas não é aceitável aquela multidão no gramado. E, se Romário tivesse marcado o gol mil, alguém duvida de que haveria invasão do gramado? Quem esteve no campo percebeu que a torcida nas cadeiras estava pronta para entrar em cena literalmente num pulo.

Mas quem pulou, no fim, foi a outra torcida. Os pessimistas alvinegros, que passaram a semana alimentando seus temores, deixaram o Maracanã celebrando um pequeno milagre. Cada torcedor do Botafogo que saiu de casa ontem... saiu para exercer sua vocação trágica, para viver seu carma e sofrer historicamente. Para dizer “eu já sabia”. Cada torcedor do Botafogo saiu de casa ontem com a missão de tentar evitar um destino inevitável. As coincidências, a numerologia, o tarô, os búzios e as cartas... tudo apontava que o gol mil aconteceria contra o Botafogo, porque é com o Botafogo que essas coisas acontecem

Mas eis que o oba-oba em torno do gol mil... transformou o Botafogo em patinho feio, em herói desacreditado e improvável. E esse papel o Botafogo faz questão de abraçar. Pois as coisas que acontecem com o Botafogo tem duas mãos. Não são apenas negativas. Ontem, o pequeno milagre de não tomar gol de Romário, de não tomar O gol de Romário, soou como uma vitória maior. Um pequeno título, um imenso alívio, por mais que haja uma semifinal de Taça Rio no horizonte, com uma possível repetição do confronto de ontem.. Só aos 49 minutos do segundo tempo, com o gol de Túlio – que nome ou coincidência - o torcedor do Botafogo respirou fundo. Pulou. Comemorou. E deixou o Maracanã como se tivesse chutado mil vezes essa última bola.


As notas da semana



Nota 10
* Para o Botafogo, que atuação.
* Para Cássio, espetacular mesmo na derrota.
* Para o Sport, campeão com sobras e antecedência.


Nota 9
* Para os reservas do São Paulo, que não perdoam.
* Para Fábio Costa, pegando quase tudo.
* Para Richarlysson, que golaço.
* Para Douglas, do São Caeteno. Que golaço 2.0.


Nota 8
* Para Léo Medeiros, na gaveta.
* Para Júlio César, que ainda não mostrou se é bom. Mas já mostrou que tem estrela.
* Para o Cruzeiro, classificado.
* Para Coelho, que também tem estrela.
* Para a arbitragem de Wagner Rosa no Maracanã, que só teve um senão: a exagerada expulsão de Joílson, lateral do Botafogo, no fim da partida. Mas, como o cartão foi um pedido de Romário, perdoemos o juiz, que se saiu bem numa partida difícil.


Nota 7
* Para Gérson Magrão, que enfim jogou bem.
* Para o Volta Redonda, chegando de novo.


Nota 6* Para Dodô, que andou meio ausente.


Nota 5
* Para Leandro Amaral, que deu um belo passe para Romário. E só.


Nota 4
* Para Edmílson, em tarde de azar em Pelotas.
* Para o bom Wilson Seneme, que viu demais no pênalti de Dininho.


Nota 3
* Para Yves, Roberto Lopes, Amaral... O Vasco vendeu seus dois melhores volantes e não conseguiu ninguém para substituí-los.
* Para Breno. Pode até ter sido um choque casual, mas o carrinho foi muita ingenuidade.


Nota 2
* Para Dudar, que tem mais pose do que futebol.
* Para as afobadas substituições de Renato Gaúcho.


Nota 1
* Para Mamá que chutou o juiz Paulo Silva no Ceará... depois do pênalti que Paulo Silva inventou um pênalti. Um erro não justifica o outro, Mamá.

Nota Zero
* Para o Fluminense em 2007.


Ponto final
"Tem dia que a bola não quer entrar" - Romário
. Escrito em 02/04/2007
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