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Perfil

Gustavo Poli

Jornalista, 34 anos

Carioca, jornalista há 13 anos, trabalhou nos jornais O Globo e Lance! e está desde 1998 na TV Globo. Cobriu as Copas de 98 e 2002 e é co-autor do bem-humorado "Manual do mané" (Editora Planeta, 2003) e do "Almanaque do futebol" (Casa da Palavra, 2006).

E-mail: gustavo.poli@globo.com
Ranking da Fifa: modo de usar



Caro amigo leitor, uma advertência é necessária. Ler este artigo pode transformar seu cérebro em geléia. Eu sei, muita gente que gasta os olhos neste pequeno espaço provavelmente já não tem este dispensável aparelho pensador. Há quem jure que o próprio colunista não é provido de um. Eu, sinceramente, achava que tinha cérebro. Agora, depois de duas horas tentando entender o ranking da Fifa, não tenho mais certeza.

A Argentina não ganha uma Copa do Mundo há 21 anos. Não ganha uma Copa América há 14 anos. Nos últimos anos, colecionou sapatadas históricas. Outro dia mesmo... levou um chocolate do Brasil na Inglaterra. Pois bem, eis que a Argentina em jejum – incrível, impressionante – é a nova líder do ranking da Fifa. O que provocou uma série de interrogações incrédulas como Hã? Hein? Como? Quando? Onde? A ascensão da Argentina sugere uma questão que você já leu, ouviu ou formulou:

- PARA QUE SERVE O RANKING DA FIFA?

Em tese, o ranking é um retrato das forças do futebol. Imitando, ligeiramente, o ranking de tenistas – que dá e tira pontos por torneios anualmente. Mas... serve para alguma coisa além de receber o logo do refrigerante patrocinador? Não. Aliás, serve... para produzir manchetes sem profundidade mundo afora. Se fosse para valer deveria ser o critério para nomear os cabeças-de-chave das Copas do Mundo, por exemplo. Na prática, o ranking é uma imensa e virtual buzina de avião. Um factóide que não serve sequer para badalar a seleção comercialmente. Você não vê anúncios dizendo “primeiro colocado no ranking da FIFA” ou algo do tipo. Até porque estar em primeiro... não significa nada. Não traz vantagem nenhuma.

E como nem o repórter mais analítico é capaz de dizer quem está em primeiro e ainda traduzir em idioma compreensível porque los fulanos estão em primeiro, gli sicrani em segundo e nós em terceiro... eis aqui outra pergunta que você já fez, ouviu e provavelmente não soube responder:

- COMO FUNCIONA O RANKING DA FIFA?

De 1993 até o ano passado, o ranking tinha uma fórmula absolutamente críptica. Decifrá-la era missão para um Champollion futebolístico com paciência de monge tibetano. Tentemos resumi-la para moer a massa cinzenta do leitor:

Pontos eram oferecidos para o resultado, para a importância da partida, para a força do adversário, para a força da confederação do adversário, para o fato de jogar fora de casa e para o número de gols pró (ou contra). Os resultados dos últimos oito anos tinham a mesma importância. E eram levadas em conta a média entre as sete melhores partidas da seleção... e todas as partidas. Parece complexo? Isso porque não ousarei explicar o método usada para calcular cada um dos quesitos citados.

Como esses singelos critérios fariam o supracitado monge tibetado dançar salsa, lambada e afoxé, o ranking começou a ser espinafrado, espancado e maltratado. E a FIFA acusou o golpe. Em 2006, depois de testar 20 fórmulas e 700 combinações diferentes, resolveu simplificar. E começou usando a seguinte frase:

“O novo método de cálculo dá importância central ao resultado de cada partida usando o seguinte e costumeiro sistema de pontos:
Vitória – 3 pontos
Empate – 1 ponto
Derrota – 0 ponto”


Essa contagem de pontos... a gente já viu em algum lugar, certo? Traduzindo o inacreditável: é isso mesmo, antes, o resultado das partidas tinha importância menor. Mas... quem achou que essa simplificação era assim simplória... precisa entender o resto da fórmula. Os pontos da partida são multiplicados por outros quatro números para chegar ao resultado da equação do ranking:

a) Status da partida
Amistoso – 1.0
Eliminatórias de Copa/Torneios continentais – 2.5
Torneios continentais/Copa das Confederações – 3.0
Jogo de Copa do Mundo – 5.0


b) Força do adversário
Depende da colocação no ranking. Como o ranking tem 200 posições, o líder vale 2.00. O vice líder vale 1.99. O décimo vale 1.90. E por aí vai até o número 150 do ranking. Abaixo disso todo mundo vale 0.50.

c) Força regional
As confederações são desequilibradas. Como 84% das partidas são intra-confederação, seria desequilibrado deixar uma partida da Oceania valer o mesmo que uma partida entre continentes ou dentro da Europa, por exemplo. Então, a partir de um cálculo feito pelo número de vitórias dos membros de uma confederação contra outras nas últimas três Copas do Mundo, o ranking concedeu a seguinte pontuação:

UEFA – 1.0
CONMEBOL – 0.98
CONCACAF – 0.85
AFC – 0.85
CAF – 0.85
OFC – 0.85.

Sendo que 0.85 é a pontuação mínima. Ou seja, só UEFA e Conmebol tem pontuação acima disso.


d) Períodos
Partidas dos últimos quatro anos são consideradas. Mas com pesos diferentes. Os resultados do ano vigente valem 100%. Os do último ano valem 50%. Os do antepenúltimo... 30%. E os do anterior... 20%.


e) Multiplicação por 100
Para garantir que o número final seja inteiro, a pontuação final é sempre multiplicada por cem.

Um exemplo prático:

O Brasil, terceiro do ranking, enfrenta Gana, 19ª do ranking. Se vencer, quantos pontos o Brasil ganha? Vamos à fórmula:

Seus três pontos são multiplicados pelo status da partida (1.0), depois pela força do adversário (1.81), depois pela força regional (0.85)... e depois por 100. O total são 461 pontos no ranking.

Isso seria o suficiente, em tese, para retomar a liderança no próximo ranking – a ser publicado em abril. Mas esse não é único dado a ser levado em conta. Em abril de 2007, os resultados de abril de 2006 perdem metade do seu valor. Os resultados de abril 2005 caem de 50% para 30%; os de abril de 2004 de 30% para 20%; e os de abril 2003 desaparecem. Essa desvalorização é que fez a Argentina pular para o topo do ranking – somada à sua vitória sobre a França no Stade de France no mês passado. A Fifa promete introduzir, ainda este ano, uma ferramenta que permita prever quantos pontos cada partida vai valer... e quantos pontos o time perderá no ranking naquele mês.

Isso talvez dê alguma importância ao ranking. Porque atualmente ele é apenas um amontoado impenetrável de números e contas – que não acrescenta nada ao esporte. E não acrescenta porque sua fórmula, que pretende ser justa, tem variáveis demais. Só a extensa explicação do ranking no site da FIFA já sugere uma outra pergunta:

- O FUTEBOL PRECISA DE UM RANKING MENSAL DE SELEÇÕES?

A resposta dessa é simples: não. O factóide da FIFA é absolutamente inútil. Caso o dedicado leitor tenha chegado até este derradeiro parágrafo, receba os justos cumprimentos e o conselho de descansar o cérebro até a próxima coluna.
Escrito em 16/03/2007
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Caixa Postal



O texto sobre Leandro, publicado aqui na terça-feira, gerou uma série de comentários e e-mails. Reações que podem ser divididas em dois tipos. Aqueles malhavam o colunista por criticar Leandro em vez de entrar de carrinho em Antonio Carlos e Fábio Costa, enxergando nisso uma suposta apologia à violência. E aqueles que (obrigado) cumprimentavam vosso humilde servo por ter enaltecido o ator-cigano-Igor que existe dentro do jogador do São Paulo. A Caixa Postal seleciona uma lista dos mais distintos. E, claro, termina com a ofensa da semana.

O rei na barriga são-paulina

“É por isso que amo ser são-paulino, fica um monte de invejosos falando mal da gente, dos nossos jogadores. Como gosto do futebol brasileiro espero que todos vcs realizem os seus sonhos... Senhores, vários comentaristas experientes falam que Leandro já merece uma convocação pra seleção, falar que ele é só artista, é brincadeira, um bando de bobalhãos invejosos! “
Gabriel

Comentário: Vejo sintomas de rei-barriguismo no amigo tricolor. Nunca vi ou ouvi nenhum comentarista, inexperiente ou experiente, falar em Leandro na Seleção. Mas Gabriel – serei o primeiro. Até acho que ele mereceria uma chance. Na Seleção de Shakespeare. Ou, falando sério, na Seleção do Dunga, se reduzisse o número de saltos ornamentais gritados por jogo. Ele é bom de bola, como anotou o texto.


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Na maldade com Leandro

Fala sério né, eu acompanhei o vt do jogo, e alguem falar que o AC e outros não estavam na maldade com o leandro é pura hipocrisia da imprensa. Tudu bem que, quem acompanha o Leandro, sabe que se encostar nele, ele simula um atropelamento, parece que vai morrer, + que ele apanhou desproporcionalmente esse jogo, ah sim, isso foi sim, sem hipocrisia por favor... Ele acusar o luxa assim, do nada, é errado, pois o AC tem um histórico de confusões, e a maldade pode ter partido do proprio AC, mas que ele apanhou apanhou sim ... : :
Fabio Duarte

Comentário: : Fábio, o modus operandi do Leandro irrita os outros. E por isso semeia violência. Isso não justifica a possível pancada. Mas ajuda a compreendê-la. E era disso que o texto falava. Não havia ali nenhuma absolvição a Antonio Carlos ou a qualquer zagueiro. Eu citie inclusive a entrada que não pegou. Sobre o Fábio Costa – que tem inúmeros antecedentes – o lance foi violento. Mas não acho que ele tenha tido intenção de quebrar o Aloísio.


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Lembrando Lugano...

O Lugano era um santo, nunca entrava na maldade, nunca dava cotovelada em atacante...não tentou quebrar o melhor jogador do Liverpol (Gerrard) no meio..não vivia com os olhos esbugalhados e cara de maluco quando jogava.. O Aloísio é outro santo que não pisa no joelho de beque como fez contra o Audax e não dá cotoveladas como fez com o meia do Alianza... Deviam pedir a canonização dos dois..
São-paulino ou é cara de pau demais ou tem memória seletiva, só lembra do que lhe interessa...

Fernando

Comentário: Fernando, isso acontece com qualquer torcida. Lugano e Antonio Carlos são zagueiros que jogam duro. Sempre jogaram. E ambos já tiveram sua cota de entradas assassinas. Mas o tema do post era o Leandro exatamente pelo mal que ele causa com seu teatro. Ele meio que justifica a violência alheia.


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A ofensa da semana 1.0
Poli, semana que vem tem amistoso da redação da Globo do Rio contra o Combinado Amigos do Antonio Carlos. E quem vai te marcar é o Antonio Carlos, ok? No dia seguinte, vou ficar feliz da vida com a minha manchete. "Zagueiro veterano arrebenta colunista medíocre."
Teu camarada

Comentário: Meu anônimo camarada, você - que pelo visto me conhece e não teve coragem de se identificar, se escondendo atrás de um pseudônimo - ignora meu talento de apoiador ofensivo e destemido. A palavra medo não existe no meu vocabulário, camarada. Já no seu...


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O convite da semana

“Mero encontrão? Vamos marcar então para que eu te dê um mero encontrão com direito a cotovelo como no lance citado... “
Thiago

Comentário: Caro Thiago, sou contra a violência. Mas futebol é jogo de contato. Se você quer esporte sem contato... sugiro vôlei. Sobre um encontrão com você, me desculpe... mas passo.

Escrito em 15/03/2007
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Leandro, câmera, ação



O siciliano Luigi Pirandello, que entendia um pouquinho de teatro, escreveu que um fato é como um saco. Não fica em pé se estiver vazio. Houvesse uma autoridade galática em espírito esportivo... e toda essa discussão pós Santos x São Paulo nem teria começado. Porque, como num desenho animado, Leandro ganharia um imenso zíper nos lábios a cada vez que tentasse reclamar de violência. Tentou abrir a boca? Zip! Mas... Zip! Qualquer outro tema seria permitido – falar de sarrafo em campo não. Porque se Leandro sentisse realmente a dor que aparenta nos gramados... seria faquir e não jogador.

A cada mínima falta, Leandro cai como uma vítima de atropelamento de jamanta. Cai, não. Salta, acrobaticamente. Ou despenca como uma jaca. E a seguir fecha os olhos, grita, geme, rola, esperneia. E, um mísero instante depois, dá aquela abridinha malandra de olhos para conferir se o juiz embarcou na onda. A cena tem objetivo – seja um cartão ou um pênalti – mas o abuso dramático é evidente.

Então... quando Leandro deixa o campo reclamando que o técnico adversário pediu sua cabeça – ou suas pernas – a incredulidade é inevitável. É como a velha historinha do menino que gritava para a mãe dizendo que havia um lobo. Na quinta mentira, a mãe não acreditou... o lobo apareceu de verdade e o menino virou almoço. Leandro pula tanto e tão acrobaticamente que mesmo as pancadas que realmente sofre soam fictícias. O fingimento rouba-lhe a credibilidade e ofusca seu bom futebol.

Porque Leandro é um ótimo jogador. É aquele raro atacante que funciona com e sem a bola. Com a redonda, se movimenta sem parar, é um azougue. Sem a dita cuja, é aquele marcador chato, incansável, que perturba o início das jogadas adversárias. Mais – é um jogador de grupo, vencedor. Foi bem no Goiás, no Fluminense e agora no São Paulo.

E Leandro apanha – como todo atacante. Futebol é um jogo de contato e, no futebol brasileiro, onde as arbitragens tem um extenso componente político, o sarrafo nem sempre é coibido. Aliás – nem no futebol europeu. Mas a cada vez que um zagueiro se aproxima, Leandro parece ter uma síncope. E isso irrita especialmente os zagueiros adversários, que ficam com aquela vontade de justificar tanto drama, descendo a mamona verdadeiramente. Isso meio que explica (embora não perdoe) a frase de Wanderley Luxemburgo depois do jogo:

- Zagueiro tem que mostrar que é zagueiro e inibir o atacante.

Obviamente, Luxemburgo não estava falando de inibição por gentileza. Estava exigindo jogo duro – na fronteira do sarrafo – que, falemos francamente, todo técnico pede e toda torcida exige. Mas o técnico foi longe demais, dando uma autorização branca para que Antonio Carlos e Adaílton crivassem as chuteiras em Leandro – se necessário. O que o primeiro até tentou fazer, num lance na lateral do Santos. O atacante pulou e escapou. Ironia ou não, numa dividida em que houve um mero encontrão, Leandro desabou no gramado, sofrendo seu tradicional ataque epiléptico, pedindo maca, ambulância, socorro e desfibrilador.


Na Europa, o atacante seria vaiado no segundo berro. Aqui, a tendência é que os juízes comecem a ignorar até o sarrafo real sobre Leandro. Ou sejam mais lenientes na aplicação de cartões em lances que envolvam o jogador. Porque, como ator, Leandro tem a qualidade do Cigano Igor e chora como Regina Duarte - sempre da mesma maneira. A cada cena sua credibilidadedade se desidrata. E se o crime horrendo, depois de dois replays, vira teatro, o juiz tende a achar que toda falta é um salto mortal. A citação de Pirandello, lá em cima, não por acaso é de uma peça intitulada Assim é... se lhe parece.


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Chapa quente

Um árbitro de futebol vive de reputação. É uma mulher de César de apito na boca. Mais do que parecer, precisa suar honestidade. Dito isso, vale a pena acompanhar o que o ex-árbitro Oscar Roberto de Godoi escreve em sua coluna no site da Associação de Árbitros de Grande São Paulo. Godoi analisa as recentes eleições para a Associação Nacional de Árbitros (ANAF). Na eleição, houve o confronto da chapa da situação formada por José de Assis Aragão (SP) e Jorge Rabello contra a chapa de Jorge Paulo Gomes. A chapa de Aragão perdeu duas vezes e ainda assim não aceitou a derrota. Segundo Godoi, a situação jogou pesado, fez promessas e ameaças e contou com o intenso apoio da Federação Paulista. A eleição ainda está depende de decisão judicial. Vale a instrutiva leitura da coluna de Godoi.

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No dia 12 de maio, o Botafogo promoverá seu anual "Feijão do Fogão". Como de hábito será lançada uma camisa comemorativa. O homenageado da vez será Maurício, o camisa 7 que marcou o gol do título de 1989. Antes disso, será lançado o site do artilheiro Dodô, que já está no ar extra-oficialmente. Um dos destaques é a contagem de gols de Dodô na sua carreira - 274 até o momento.


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Outras leituras instrutivas: o perfil do novo chefe da arbitragem carioca, Jorge Rabello, no site Cartão Vermelho (do qual ele foi colunista em 2003 e 2004). Um perfil que distraidamente não menciona o pequeno imbroglio de Rabello com carteiras de identidade. Mas mais distinto é o "Dois Toques com Jorge Rabello" no qual ele faz algumas revelações pessoais e assume ser torcedor.do Bangu. Música para os ouvidos do presidente da Federação.



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Frase do dia

“Eu nunca vi ninguém tão rápido quanto esse garoto. Ele é inacreditável. Está jogando demais”
Tracy Mcgrady, craque do Houston Rockets, falando sobre o brasileiro Leandrinho.

Escrito em 13/03/2007
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A mão que afaga


Não é irônico que a personagem do clássico SanSão tenha sido uma mulher? Um bandeirinha trabalha com centímetros. E Ana Paula de Oliveira , que é provavelmente a melhor assistente do Brasil, errou. Cortou os cachos do clássico, impedindo que o Santos tivesse chance de virar a partida. Foi imediatamente cercada, assediada e xingada pelos jogadores do Peixe. E fechou os olhos. Delicadamente.

A imagem em câmera lenta é marcante. Os jogadores do Santos, tomados por aquela raiva santa dos injustiçados, se aproximam berrando em altos decibéis. “Maluca”, “Louca”, dizem eles... entre outros impropérios. Ana Paula, estóica, guarda aquele olhar vazio até que, assustada pelos gritos, baixa as pálpebras. Apenas ouve. Apenas escuta.

Ana Paula erra muito pouco. Mas erra. E cometer um erro decisivo na partida mais importante da rodada é o pesadelo de qualquer árbitro. Quando fechou os olhos, de bandeirinha baixa, Ana Paula deve ter pensado “Errei”. Errou. Foi traída por seus olhos, sempre tão precisos. Havia um jogador do Santos impedido. Mas não era Jonas.

A missão do bandeirinha é uma impossibilidade física. Ele tem que ter um olho no gato e outro no peixe. Diz a regra que o impedimento é marcado no momento do passe. Como nem o mais estrábico dos árbitros é capaz de olhar para gato e peixe no mesmo instante, acertar a marcação de impedimento presume treino, bom senso e alguma sorte. O bandeirinha deve usar a audição (para ouvir o som do passe) e ter uma calculadora mental para medir as posições. É obviamente um dom sobre-humano. E a câmera de impedimento tem esse problema – não erra.

Em outras palavras, nem Ana Paula pode competir com a tecnologia. Ninguém pode. Só que a competência da auxiliar é reconhecida. Tão reconhecida que Wanderley Luxemburgo, de imediato, lhe estendeu a mão. Que imagem não é essa de insabida ternura? Wanderley Luxemburgo segurando a mão, fazendo carinho na mão que acabara de erguer uma bandeira cruel, errônea, letal? Que Luxemburgo é esse? Teria ele a mesma gentileza se o bandeirinha fosse... um Aristeu Tavares? Um Hilton Moutinho?

Não, não seria. Num jogo disputadíssimo, tenso, bem jogado, repleto de belos lances (e alguns sarrafos), e com dois belos gols, a imagem que fica é a do carinho na lateral. O técnico gentil capaz de perdoar a bandeirinha equivocada. Quem diria que Luxemburgo, campeão interplanetário de reclamação contra arbitragem, inverteria o verso de Augusto dos Anjos. A mão que apedreja foi capaz de um doce afago. Quem diria..


As notas da rodada


Nota 10

* Para Romário. Faltam cinco.

* Para Carlinhos, que pôs justiça no placar da Vila Belmiro com um golaço.

* Para Índio, do Vitória, que fez três gols... e jantou Fábio Saci.

Para a defesa de Everton, do Madureira, na cabeçada de Leandro Amaral.


Nota 9

* Para Valdívia, que arrebentou mais uma vez. Mas exagerou nos dotes dramáticos. Já, já... os juízes vão parar de dar pênalti no chileno. Ontem, ele se jogou várias vezes. Inclusive no lance em que o árbitro marcou a primeira penalidade.

* Para as defesas de Fábio Costa no clássico SanSão, em especial no chute de Jadílson.

* Para Lúcio Flávio, Zé Roberto e Joílson, que fizeram a diferença no Maracanã. Lúcio Flávio, em especial, graças aos latifúndios de espaço oferecidos pelo Friburguense.

* Para o passe milimétrico de Hugo para Ilsinho.

* Para o jogo na Vila Belmiro. Foi suado, disputado, sofrido. E justo.

* Para Alex Dias, que parece ter reencontrado a velocidade.


Nota 8

* Para a tabela Muriqui-Marcelo no gol do Madureira.

* Para Ronaldo, que continua sabendo fazer gol.

* Para o drible de Zé Roberto, pedalando e desarticulando Souza, no segundo tempo.


Nota 7

* Para Leonardo, do Flamengo. Apareceu pouco, fez dois gols, resolveu o jogo.


Nota 6

* Para o Grêmio, que dormiu, acordou, dormiu de novo e deu sorte de acordar mais uma vez. E Lucas fez a diferença.


Nota 5

* Para a juíza Marta Vasconcelos, que acompanhou os lances a dezenas de metros de distância no Maracanã.


Nota 4

* Para o gol perdido por William, da Cabofriense, no Maracanã. Na pequena área, com a bola dominada, ele tocou por cima.


Nota 3

* Para a voadora que Antonio Carlos tentou dar em Leandro, no meio do segundo tempo. Leandro, o jogador-ator, pulou e escapou.

* Para Leandro, que a toda dividida despenca no chão como um cachorro atropelado por três caminhões. Geme esganiçado, rola, grita, berra.


Nota 2

* Para o time do Nova Iguaçu, que parecia estar enfrentando o bicho papão e não os reservas do Flamengo. Perdeu de medo. Os reservas rubro-negros jogaram mal, muito mal. E ganharam mesmo assim.


Nota 1

* Para o queijo suiço de Friburgo, mais conhecido como defesa do Friburguense.

* Para o segundo tempo do Madureira. Ao que parece, o time tomou sonífero no intervalo.

Nota ZERO

* Para Sandro Palharini, capitão do São Luiz, que nem revidar direito conseguiu. Tanto ele quanto Patrício mereciam o cartão vermelho... mas o jogador do São Luiz conseguiu a proeza de chutar o adversário a um metro do juiz. Jumência súbita.


Seleção da Rodada

Fábio Costa (Santos)
Ilsinho (São Paulo)
Miranda (São Paulo)
Adaílton (Santos)
Carlinhos (Santos)
Lucas (Grêmio)
Valdívia (Palmeiras)
Lúcio Flávio (Botafogo)
Índio (Vitória)
Alex Mineiro (Atlético-PR)
Romário (Vasco)
Escrito em 11/03/2007
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