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Perfil

Gustavo Poli

Jornalista, 34 anos

Carioca, jornalista há 13 anos, trabalhou nos jornais O Globo e Lance! e está desde 1998 na TV Globo. Cobriu as Copas de 98 e 2002 e é co-autor do bem-humorado "Manual do mané" (Editora Planeta, 2003) e do "Almanaque do futebol" (Casa da Palavra, 2006).

E-mail: gustavo.poli@globo.com
A apoteose do palavrão



Talvez o gol seja uma injeção de testosterona no pescoço. A bola chutada já está lá, envolvida por aquele nylon branco, nas chamadas redes do adversário. O estádio exulta. E ele, o artilheiro, é o responsável por isso. A transformação é instantânea. Assim que a bola toca na rede, ele começa a se sentir mais bonito, gostoso, esbelto, alô meninas, uau. Neste momento ele é um macho alfa, um Brad Pitt que diz “vamos ganhar os três pontos”, um garanhão que trota sublime, supremo, simpático e alegre. E esse seu novo eu precisa ser dividido... ser compartilhado... com seus amigos, seus admiradores, asseclas e afins... ou seja, com todos. Correr na direção da arquibancada é preciso (passando perto da câmera atrás do gol, claro). Lá vai ele, bicando a modéstia para escanteio, para dizer três palavras, a última delas... que traz nossa distinta letra F...

- Eu sou F...

Edmundo fez dois gols contra o Corinthians? Lá estava ele, o sonoro F, garrafal, deixando seus lábios. Souza fez gol de pênalti contra o Vasco? Opa, tome F. Até o humilde bom garoto Renato Augusto resolveu cuspir imodéstia depois do gol em que tabelou com dois zagueiros do Madureira.


O elogio súbito vale para qualquer tipo de gol. Gol do meio-campo ou gol em cima da linha. Gol de sorte ou gol trabalhado. O limitadíssimo atacante Fábio, hoje no Volta Redonda, ficou conhecido por um gol que fez pelo Botafogo contra o Corinthians em 2002.

O Botafogo estava prestes a ser rebaixado. Fábio era o reserva do reserva do reserva ruim. Entrou no finzinho da partida, recebeu uma bola literalmente em cima da linha aos 45 minutos, tocou pra dentro e saiu em desabalada carreira, gritando a expressão acima citada. Fábio correu mais para comemorar do que para fazer o gol. Um deus futebolístico menos paciente poderia ter se irritado, apertado a tecla pause, e içado do Maracanã, com uma enorme mão, o bonequinho de Fábio para olhá-lo nos olhos e dizer:

- Não, Fábio, meu filho. Você não. Você definitivamente não.

O Botafogo foi, claro, rebaixado. Fábio teve uma lesão no joelho, voltou para o Volta Redonda e, na final do Campeonato Estadual de 2005, fez um gol contra o Fluminense. Perguntem qual foi a comemoração dele? Novo pique, novo palavrão, nova derrota – desta vez no último minuto. O futebol permite alguma licença poética. Imagino que a licença acabe nas imediações de um Renato Augusto.

Não vai aqui uma crítica politicamente correta ao palavrão. Muito pelo contrário – o palavrão faz parte do futebol. É o idioma da arquibancada. O torcedor brasileiro faz do xingamento uma terapia. A justiça é corrupta? A mãe do juiz de futebol paga. O político te engana? O técnico de futebol ganha enormes orelhas. E não raro, as palavras de ordem mais engraçadas recorrem ao palavrão com sutileza.

A questão é outra. Toda comemoração de gol deve misturar exultação e distensão. É natural, pois, xingar, gritar, extravasar – até mesmo se auto-elogiar de forma chula. Mas o uso abusivo da letra F banaliza essa arrogância que deveria ser exclusividade... dos arrogantes. O talentoso e instável Edmundo pode comemorar assim. Mas o Souza?

Pouco se cria e muito se copia quando o assunto é celebrar gol. Um jogador lança moda e, rapidamente, todos se prestam a copiá-lo. O “nana-neném” consagrado por Bebeto em 1994 está aí até hoje, quando Roberto Nílton, o neném de então, já tem 13 anos. Daqui a pouco ele, Roberto Nílton, vai comemorar um gol assim. O mesmo vale para o beijo na aliança de Rivaldo em 1998. A inovação mais recente foi o “Tô doido” dos atacantes Jean e Micão, do Vasco, no ano passado, citando um personagem de Zorra Total. Que está sendo copiado até hoje, todo santo domingo ou quarta-feira.

O que é pena – porque nossos jogadores, tão criativos antes do gol, poderiam estender um pouco o espetáculo. Viola faz falta com seus porquinhos e máscaras. Assim como Túlio com seu jeito publicitário de ser. E também o outdoor baixinho de Romário. As camisas sub-uniforme eram politicamente corretas, mas davam um drible no marasmo, acrescentavam algo ao show (e, claro, traziam pontos para a imagem do Baixinho).

A idéia veio em 1996, no Flamengo, quando Romário foi muito criticado por uma série de comemorações. Numa ergueu o dedo médio para a torcida do Fluminense (e foi até julgado por isso). Noutra, imitou um pit-bull rosnante. Na terceira, tirou um lencinho para secar as lágrimas da... torcida do Vasco (é...). Com a saraivada de críticas, ele percebeu então que o pós-gol era o momento de máxima exposição de um artilheiro. E inventou o outdoor sobre a grama – que a FIFA rapidamente zagueirou.

Mas o momento de máxima exposição continua sendo o mesmo. E pode ser melhor explorado. A comemoração do elogio chulo já deixou até de ser espontânea. Ninguém quer que Edmundo declame Olavo Bilac depois de marcar um golaço. Mas variar é preciso, com uma pitada de humor ou ironia. O português tem uma série de outras distintas palavras.
Escrito em 09/03/2007
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Mudança para pior


A mudança no comando da arbitragem da Federação de Futebol do Rio de Janeiro nada tem a ver com a escolha dos juízes para a decisão da Taça Guanabara entre Flamengo e Madureira. A saída do presidente da Comissão, Carlos Elias Pimentel, já havia sido decidida antes da semifinal. Buscando renovar a descreditada arbitragem carioca – cuja credibilidade foi destroçada pelos anos Caixa D’Água – Pimentel bateu de frente com o presidente da Federação, Rubens Lopes. Se tornou independente demais. E caiu para o lado – para o alegórico cargo de diretor de uma escola futura.

Afora a trágica atuação de Marcelo Venito Pacheco no primeiro jogo da decisão, e a conturbada performance de Fábio Calábria em Cabofriense x Botafogo, a Taça Guanabara teve bom nível de apito - em especial nos jogos televisionados. Agora, Botafogo, Flamengo e América – clubes de oposição – que se cuidem. Quem jogou, apitou ou acompanhou a famigerada Seletiva da FERJ no ano passado sabe que o Americano de ontem tende a ser o Bangu de amanhã. O uso político da arbitragem não é novidade. Mas as histórias que emanam da Seletiva são escabrosas. E a escolha de Jorge Rabello para a presidência da comissão da arbitragem não é exatamente um bom prenúncio.

Árbitro fraco, tecnicamente limitado e disciplinarmente enrolado, Rabello chegou a sonhar em entrar na FIFA no fim do século passado. Rabello precisava ter menos de 40 anos para ganhar o escudinho. Só que vazou no meio do apito, e o Jornal Nacional mostrou em 2000, que Rabello tinha duas carteiras de identidade emitidas pelo Instituto Félix Pacheco. Numa tinha quatro anos a mais do que na outra. O nome dos pais era parecidíssimo. As digitais... eram idênticas. Seu advogado botou a culpa do duplo nascimento no IFP. E a justiça deixou por isso mesmo.

Flagrado como gato arbitral, Rabello foi suspenso por Armando Marques, então presidente da Comissão Nacional de Arbitragem. Suspenso como se fosse um jogador. Depois de oito meses... voltou a apitar, como se portar duas carteiras de identidade não fosse comprometedor para um profissional cujo único patrimônio é a credibilidade. Anos depois, Edílson Diploma Falso de Carvalho mostrou que é bom não guardar no armário certos esqueletos.

Rabello, pós-gato, se reinventou. Se tornou colunista do site Cartão Vermelho – onde cansou de criticar o então presidente do STJD, Luiz Zveiter (curioso, pois Zveiter é um surdo aliado da situação da FERJ). E a seguir se tornou presidente do Sindicato de árbitros do Rio de Janeiro. Agora assume a arbitragem carioca com aval de Rubinho.

E eis que no primeiro sorteio da Comissão Rabello já aparecem nomes que chamam a arrepiada atenção de quem conhece o futebol do Rio: Amaurílio Saleão, integrante da famosaa “tropa de choque” de Eduardo Viana. E Alex Dias Pedro, que apitou o derradeiro jogo da Seletiva, onde um pênalti estranhíssimo surgiu a favor do Bangu aos 50 minutos do segundo tempo.

Em breve não será surpresa se Edílson Soares, o Michael Jackson, for ressuscitado. Edílson, responsável pela lastimável arbitragem da final de 2005, reapareceu na Seletiva... e, diga-se de passagem, não deve nada a seu xará paulista.
Escrito em 08/03/2007
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O Fla-Paulinho


O símbolo maior desta Taça Guanabara é um pequenino volante. Paulinho, cujo sorriso aberto ameaça escapar do rosto, tem cara de jogador do Flamengo. É baixinho, mas pula alto. É franzino, mas raramente perde uma dividida. É tecnicamente limitado, mas como disse certa vez um cantor de ópera... no esporte não há músculo mais importante do que aquele que bate dentro do peito. E esse músculo... Paulinho tem de sobra. O Flamengo trouxe Clayton para ser seu capitão, mas seu capitão moral é Paulinho.

Clayton é forma, Paulinho é conteúdo. O Flamengo ganhou ontem como o baixinho sorridente ganha suas divididas – querendo mais que o adversário. O time esteve longe de ser brilhante. Não jogou sequer muito bem. Mas jogou como time grande – especialmente no primeiro tempo. Construiu a vitória como time grande. Ganhou na camisa e na raça e no susto. Sim, no susto. Foram 15 minutos em que o gigante pegou o anão pela goela para informar que tamanho importa.

A diferença entre o Flamengo e o Madureira é mais ou menos a diferença entre Júpiter e um asteróide casual. Em campo são 11 contra 11. Mas na arquibancada são milhões contra centenas. A torcida do Madureira talvez passe de mil pessoas. Talvez. Sendo que boa parte dessas mil torce, no fundo, para outro time. Mas não foi o Maracanã cheio que mesmerizou o Madureira. Foi a vibração do Flamengo a partir do primeiro toque na bola.

Os jogadores rubro-negros partiram em desabalada carreira na direção da bola. Como se fossem tomá-la, devorá-la, almoçá-la e jantá-la. Isso eletrizou a torcida. E, com as arquibancadas em ebulição, o Madureira se tornou dispersivo. Os nervos amoleceram. A blitz em vermelho e preto provocou hesitação, desconcentrou a sólida defesa do tricolor suburbano. Odvan perdeu a disputa aérea para Souza duas vezes. Renato Augusto tabelou com dois jogadores do Madureira no terceiro gol. Em treze minutos, o Flamengo tinha o título no bolso.

O Madureira começou a perder a decisão quando ficou sem seus dois atacantes (Fábio Junior no ataque equivale a uma lacuna). E também quando seu presidente, aprendiz de malandro, resolveu provocar o adversário. Em 2006 Elias Duba já devia ter aprendido a ficar quieto antes de enfrentar uma força superior. Na final do Campeonato brincou com o Botafogo. Foi massacrado. Aprendeu? Não. Resolveu brincar de novo – e logo com o Flamengo. Talvez a nova surra lhe ensine as virtudes do silêncio – em especial antes do apito final.

A vitória só foi sacramentada aos 38 minutos do segundo tempo. Até então, a torcida rubro-negra estava algo ressabiada, pois o Flamengo permitia que o Madureira continuasse no jogo. Perdia um gol aqui, outro acolá... e deixava que Djair distribuísse passes para os laterais perto da área. Mas o time de Conselheiro Galvão só criou uma chance razoável. E , nela, o pernalta Josimar se enrolou com a bola. Compreenda-se que para ser reserva de Fábio Júnior é necessário ter inimizade com a redonda.

Ironia ou não, o criticadíssimo Souza foi decisivo. O metralhado Clayton enfim jogou bem – sofreu o pênalti do quarto gol e de quebra levantou a Taça. Ney Franco sabe que precisará ajeitar seu inseguro miolo de zaga... e acertar seu ataque, no qual Roni vem sendo irregular. Mas o título lhe garante um item precioso: tempo. Tempo para descansar seus jogadores. E tempo para testar alternativas.

Nelson Rodrigues costumava dizer que a camisa do Flamengo joga sozinha. Talvez jogue. Mas ajuda muito quando o time dentro dela quer jogar. Não precisa saber, basta querer. Quando veste jogadores acesos, a camisa acende junto, pulsando, alimentando a torcida... e dela se realimentando. Leonardo Moura tem sido assim. Renato também. Mas ninguém representa esses espírito melhor que Paulinho, o incrédulo, incapaz de acreditar em bola perdida. Ele é a imagem desta Taça Guanabara. Um título mais suado do que brilhante. Um título ganho em cada dividida. Um título tipicamente rubro-negro.




*****


Seleção da Taça Guanabara:

Bruno (Flamengo)
Leonardo Moura (Flamengo)
André (América)
Léo Fortunato (Madureira)
Juan (Flamengo)
Paulinho (Flamengo)
Djair (Madureira)
Renato Augusto (Flamengo)
Maicon (Madureira)
Leandro Amaral (Vasco)
Marcelo (Madureira)


Selebaba da Taça Guanabara


Sandro (Volta Redonda)
Schneider (Nova Iguaçu)
Aílson (Volta Redonda)
Asprilla (Botafogo)
Iran (Botafogo)
Amaral (Vasco)
Arouca (Fluminense)
Cícero (Fluminense)
Alex Dias (Fluminense)
Fábio Júnior (Madureira)
Rafael Moura (Fluminense)
Escrito em 08/03/2007
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Claudevan e Juranílson


O ouvido treinado já espera. Ali pela metade da narração dos gols da rodada, concluindo uma descrição qualquer, ele surge. E grita dentro do tímpano, provoca aquele sorriso de canto de lábio. E o inevitável comentário.

- Juranílson? Só no Brasil.

Ele não falha, o nome brasileiro criativo. Toda quarta ou domingo, ele aparece. Seja Gilmack, Fábio Saci, Juranílson ou Claudevan. O futebol retrata a criatividade brasileira na porta do cartório. Nosso liquidificador antropofágico mistura influências e culturas. Jean-Claude Van Damne vira Claudevan, goleiro do Icasa. Monteiro Lobato entra em campo com Saci e Cuca. O divã vira Odvan.

Peguemos o exemplo de Juranílson, atacante do Quixadá, que marcou o primeiro gol de sua equipe contra o Ceará no último domingo. Que construção... o pai talvez se chamasse Jurandir... e tivesse um avô Milton ou Nílson ou Mílson. Ou não, a mãe simplesmente achou sonoro e escolheu Juranílson porque queria, podia e resolveu. Provavelmente sem imaginar que “son” é o sufixo que designa o filho – tradição nórdica até hoje em voga, que chegou a nós pela influência americana.

Antes de atuar pelo Canarinho do Sertão (apelido do Quixadá), nosso destemido Juranílson atuava pelo Cratéus, ao lado do goleiro Marleúdo, do zagueiro Clerton, do lateral Nenem Ipu e do atacante Bolinha. Passou também por outro time do interior, o Itapipoca, uma das sensações do Campeonato Cearense de 2007, ao lado do líder Icasa. O trio ofensivo do Garoto Travesso (apelido do Itapipoca) é composto por Kemerson, Kelvin e Popó. O meio tem Elanardo e Miraíma. O Quixadá jogava, até ano passado, no Estádio Abilhão (o José Abílio). Este ano está mandando seus jogos no Estádio Clenilsão (Francisco Clenílson dos Santos) em Horizonte, município vizinho.

O Brasil não tem as restrições de alguns países latinos da Europa. Na Espanha, na França e em Portugal, a lei limita a criatividade batismal. Em Portugal, a Direção Geral dos Registros e do Notariado impede uma série de nomes. Juranílson nunca seria possível em Lisboa ou no Porto. Aqui, misturamos raças, nomes e influências em nosso caldeirão cultural. E se isso reflete um pouco o nosso jeito desorganizado de ser... também espelha a energia criativa que é provavelmente nosso maior patrimônio.

Façamos pois uma breve jabá-referência. No ano passado, vosso humilde servo lançou – ao lado do Lédio Carmona, do co-irmão Jogo Aberto – o Almanaque do Futebol. Um dos tópicos do livro abordava justamente essa criatividade, através da escalação de “times de fantasia”. Pesquisamos jogadores de todas as eras para escalar alguns escretes temáticos como o Comida F.C., o Espaço Sideral F.C. do camisa 10 Zaltron, o Monossílabo E.C. e o time dos frascos e comprimidos, o Farmácia F.C., e seu elenco de jogadores-com-nome-de-remédio, abaixo listado:

1 – Isoton (Caxias-RS)
2 – Romenil (Vitória-BA)
3 – Alírio (Vitória-BA)
4 – Simônio (Vilhena-RO)
5 – Neuram (Palmas-TO)
6 – Peris (Santa Cruz-PE)
7 – Sinomar (Anapolina-GO)
8 – Evilar (Ovarense – Portugal)
9 – Lipatin (Grêmio-RS)
10 – Nelcirene (Juventus-AC)
11 – Milotônio (Ceará-CE)

Essa riqueza verbal que nos diverte não é pecado da modernidade – pois os nomes humanos sempre nasceram de referências externas. A diferença é que, na era da informação, as influências são muitas e variadas. A globalização da certidão de nascimento não é necessariamente ruim.

Nos anos 80, o cronista Sandro Moreyra tinha uma coluna chamada Bola Dividida no velho Jornal do Brasil. Ela sempre terminava com uma história curiosa do futebol. Sempre que surge um Cladevan... me lembro de uma história em particular. Escreveu Sandro que um dia o Botafogo contratou um atacante nordestino. Atendia por Abóbora. Nilton Santos, que trabalhava no clube, se aproximou:

- Menino, você tem que mudar de nome. Abóbora não dá. Abóbora é muito ruim, todo mundo vai cair em cima.
- Eu sei, professor - respondeu o jogador.
- E qual é seu nome? - indagou Nilton.
- Creóbulo.

Abóbora, obviamente, continuou Abóbora.
Escrito em 07/03/2007
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Fiscal ortográfico informa....


A agilidade dos homens que cuidam da página oficial da Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro é impressionante. Ontem saiu uma decisão judicial de segunda instância, cassando o afastamento de Rubens Lopes da presidência da entidade. Mais que prontamente, o despacho do desembargador Sidney Hartung – da quarta câmara cível – foi publicado no site. A nota triste é o carrinho aplicado pela sentença na ortografia. Leiamos o trecho publicado no site da FERJ:

ALEM DISSO, PENALIZA O DIRIGENTE ELEITO SEM QUE ESTE TENHA TIDO A OPORTUNIDADE DO CONTRADITORIO E DA AMPLA DEFESA, EIS QUE NAO FOI PARTE NA DEMANDA PRINCIPAL....POR OUTRO LADO O PERICULUM IN MORA ESTA IGUALMENTE LATENTE E CLARO A CADA MINUTO OU MESMO A CADA SEGUNDO QUE PREVALECE UMA DECISAO DESTA NATUREZA. OS DANOS CAUSADOS A FFERJ,PRINCIPALMENTE A EVENTUAL PARALIZACAO DE SUAS ATIVIDADEA E PRINCIPALMENTE DO CAMPEONATO ESTADUAL DE FUTEBOL, ALEM DOS DANOS PESSOAIS AOS DIRETORES LEGITIMAMENTE ELEITOS.....DIANTE DO EXPOSTO CONCEDO O EFEITO SUSPENSIVO, PARA REVOGAR O DESPACHO LIMINAR DO JUIZO DA 7a. VARA EMPRESARIAL. OFICIE-SE AO JUIZO AGRAVADO...AO AGRAVADO PARA RESPOSTA. APOS A D. PROCURADORIA DE JUSTICA.”

Como disse certa feita o poeta Abgar Renaut para um poeta iniciante... a palavra paralização não me parece existir. Obviamente, o objetivo do magistrado era escrever paralisação. Causa espécie a derrapagem ortográfica do desembargador. Mas causa ainda mais espécie a celeridade dos funcionários da FERJ para publicar as decisões da justiça quando elas são favoráveis a Rubinho. E o passo de tartaruga no caso contrário. O último afastamento de Rubinho só entrou no ar quando o mediador José Fernandes, nomeado a dedo por influentes amigos da situação na FERJ, foi ameaçado de multa diária de R$ 5 mil.
Escrito em 05/03/2007
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Edmundo no espelho


Ver Edmundo jogando – e jogando muito – como ontem no Morumbi traz uma sensação paradoxal. Sentimos saudade do futebol de Edmundo, que em breve não estará mais em campo. Sentimos, porém, mais saudade do futebol que Edmundo poderia ter jogado – não fosse seu temperamento inflamável e sua vocação claramente trágica. É estranho. Edmundo, novo, iludia e confundia. Edmundo, velho, simplifica e esclarece.

Edmundo está chegando aos 36 anos. Logo ali, na esquina de 2008, está a esperá-lo seu último vestiário. É para lá que vamos, adiantando nossos relógios, para acompanhar o Animal descendo sua última escada, tirando sua última camisa (verde?), caminhando com as câmeras pelas costas. Ali entramos, como a proverbial mosca-testemunha, para vê-lo descalçar suas últimas chuteiras, lavar o rosto e encontrar o derradeiro espelho. Edmundo olhando para sua imagem invertida. Edmundo encarando Odnumde.
.
É nesse instante, dizem, que passa aquele filme rapidíssimo da vida-inteira-em-um-segundo. Edmundo assiste desde a concentração dos juniores do Botafogo, até o golaço contra o mesmo Botafogo pelos juniores do Vasco, os safanões de Júnior Baiano, os títulos com o Palmeiras, o Flamengo em 95, os títulos com o Vasco, o Brasileiro de 97, o rei, o príncipe, o bobo, a paz, os carros, o atropelamento, as brigas, as confusões, as outras brigas, as outras confusões, alguma maturidade ainda que tardia... a vida inteira em um segundo...

O menino no espelho começa a envelhecer. Se torna homem, pai de família, é acusado por um crime, é condenado. Joga pela Seleção Brasileira numa final de Copa do Mundo. O futebol transforma a infância pobre em riqueza. A mosca-testemunha, representante do leitor, do torcedor e do escriba, abaixa asas e flaps.

- É uma história de sucesso – diz Odnumde para Edmundo.
- É? – pergunta Edmundo.

Há um poema sobre isso em algum lugar... e é Manuel Bandeira, o segundo verso do melancólico Pneumotórax:

A vida inteira que poderia ter sido e que não foi

Edmundo abaixa os olhos. Está triste porque sabe que nunca mais será tão especial em alguma coisa. Está triste porque sabe que poderia ter sido ainda mais especial nessa coisa específica. Ele levanta os olhos e vê os cabelos brancos no espelho e parece adivinhar um sorriso resignado. Essa é a sensação que Edmundo deixa. Ou vai deixar. A de um talento desperdiçado.

Por mais que ele tenha feito em campo (e fora dele), por mais paixões e ódios que tenha cativado, por mais gols e jogadas que tenha criado, Edmundo deixará uma herança frustrante. Porque poderia ter sido mais. Poderia ter sido interplanetário e acabou driblado por seu temperamento. Poderia estar num altar altíssimo – e não numa galeria intermediária. Mas nossa nostalgia é imprópria. É imprópria porque Edmundo é sinônimo de tristeza vil para algumas famílias - como a do caso do atropelamento na Lagoa. E é imprópria também porque não fosse o esporte e Edmundo provavelemnte não estaria vivo para se arrepender de erros como esse. Voltemos ao vestiário, voltemos para nossa mosca-testemunha, voltemos ao espelho.

- E agora? – pergunta Odnumde

E Edmundo, baixando o olhar, sabe que tem uma vida inteira para procurar uma resposta. Uma vida inteira que não poderia ter sido... não fosse o futebol.


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Notas de segunda-feira

Nota 10
* Para a espetacular atuação de Valdívia ontem no Morumbi. Apesar das loas acima, e da decisiva atuação de Edmundo, o chileno jogou demais. O passe no primeiro gol e o drible no início da jogada do segundo... valeram o ingresso.


Nota 9
* Para os dois golaços do Cruzeiro ontem no Mineirão. Com destaque para o segundo, em que a tabelinha entre Marcinho e Araújo mesmerizou a defesa do América-MG. Como joga, aliás, esse tal de Araújo...

* E também para o golaço de Fabrício Soares, do Coelho, que abriu o placar do Mineirão.


Nota 8
* Para o passe de peito de Fernandão aos quarenta e seis minutos do segundo tempo em Novo Hamburgo. Gabiru de cabelo vermelho... só agradeceu.
Para o passe de Zé Roberto para Rodrigo Tiuí no segundo gol do Santos. Ponto futuro é isso aí.

*Para o bandeira Edney Guerreiro, que viu o burríssimo soco de Moisés em Fábio Júnior do outro lado do campo. Não viu a cotovelada do jogador do Madureira – mas aí seria pedir demais.


Nota 7
*Para o toque de Dênis Marques no segundo gol do Atlético-PR contra o Paraná.

*Para a marcação do Madureira no Maracanã. Destaque para Zé Augusto e Léo Fortunato.

Nota 6
*Para Leonardo Moura, que correu, driblou e suou.


Nota 5
*Para Roger, que pelo menos tentou. No terceiro gol do Palmeiras, era ele que tentava sem sucesso marcar Edmundo.


Nota 4
*Para a escalação do meio-campo corintiano, com volantes limitados em excesso. Quando Leão resolveu mudar... a vaca já tinha penetrado brejo adentro.


Nota 3
*Para Renato & Renato Augusto – ineficazes, burocráticos e apáticos.


Nota 2
*Para Ney Franco, que não conseguiu fazer seu time jogar no Maracanã. Será que falta preparo físico?


Nota 1
*Para o juiz Marcelo Venito Pacheco, que ignorou dois pênaltis a favor do Flamengo (ambos difíceis) e compensou grotescamente não marcando a penalidade clara em cima de Marcelo... e ainda expulsando o jogador do Madureira. Um erro que tirou o principal jogador do tricolor suburbano da decisão.


Nota 0
*Pior que Pacheco só o bandeirinha Dibert Pedroza, que conseguiu ignorar um impedimento de dois metros no primeiro tempo (Souza estava numa banheira clamorosa). Não viu o pênalti sobre Marcelo. E não viu também a cotovelada de Fábio Júnior e o soco de Moisés. Miopia perde.
Escrito em 05/03/2007
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