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Perfil

Gustavo Poli

Jornalista, 34 anos

Carioca, jornalista há 13 anos, trabalhou nos jornais O Globo e Lance! e está desde 1998 na TV Globo. Cobriu as Copas de 98 e 2002 e é co-autor do bem-humorado "Manual do mané" (Editora Planeta, 2003) e do "Almanaque do futebol" (Casa da Palavra, 2006).

E-mail: gustavo.poli@globo.com
Como evitar dinheiro sujo


O leitor Alan Melgarejo, que mora na Inglaterra, chama atenção por e-mail para uma notícia de sexta-feira. A Premier League está "processando" o West Ham United por práticas ilegais de transferência. O problema tem nome e sobrenome: Media Sports Investments, nossa queridíssima MSI. Segundo a liga, o West Ham teria quebrado as regras 13 e 18 nas transferências dos argentinos Carlitos Tévez e Javier Mascherano - que todos sabemos são representados pela digníssima empresa de Mr. Kia Joorabchian. Isto posto, vamos às regras:



Regra E.13
“Em todos os temas e transações relacionados à Liga, cada clube deve se comportar com os outros clubes e com a Liga na maior boa fé”

Regra U.18
“Nenhum clube deve entrar em um contrato que permita que uma outra parte qualquer tenha a capacidade material de influenciar suas políticas ou a performance de seus times em partidas da liga ou em qualquer outras competições determinadas na regra E.10”

Segundo a avaliação da Board, nos dois casos a regra U.18 foi claramente quebrada, porque a MSI é obviamente uma “outra parte qualquer”. A liga diz que até 24 de janeiro de 2007 o West Ham não informou ou ocultou de propósito esses acordos com a famigerada terceira parte. Isso seria quebra da regra B.13 – a regra da boa fé acima transcrita. A Liga deu 14 dias ao West Ham para que ele se defenda. Os Hammers devem receber uma punição severa – a perda de pontos, o que deve assegurar o já provável rebaixamento do time. O West Ham hoje é o último colocado da Premier League, nove pontos atrás do penúltimo. Tudo bem que com Tevez e Mascherano o time azul e vinho só faturou CINCO humildes pontinhos na liga. Isso sem que Carlitos tenha marcado um humilde golzinho. Leia aqui a declaração da Premier League.

O aviso e provável punição são um recado a favor da transparência. Vários times da Premier League têm ações na bolsa de Londres. A liga é auditada por empresas sérias e publica relatórios financeiros anuais. Não por acaso dá lucro – e um senhor lucro. A regra contra “outras partes” é sanitária. Entre outras coisas tem o objetivo de evitar a presença de dinheiro de procedência estranha. A MSI, como se sabe, é uma porta com plaquetinha num prédio de escritórios em Londres. Se um milionário russo ou georgiano quiser investir num clube inglês, a liga vai aceitar – como demonstra o Chelsea. Mas não através de empresas de fachada.

Enquanto isso, neste paraíso tropical, prossegue surda-muda a parceria entre MSI e Corinthians. Será que acabou? Será que não? O contrato continua de pé – mas o responsável pelo dito cujo se evadiu. O verbo é justo – evadir. Por que será que Kia Joorabchian não volta mais ao Brasil? Será que a MSI depositava o salário de seus principais jogadores aqui? São perguntas que permanecem – digamos – suspensas no ar... esperando suas improváveis respostas.
Escrito em 03/03/2007
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A vaia na Vila


No fundo e no raso, acreditamos que o futebol brasileiro é o melhor do mundo. Ostentamos cinco títulos mundiais, arrotamos futebol como arte e ai do argentino ocasional que discordar. É uma verdade universal que não admite debate. Nossa particular mitologia foi criada nos anos pré-televisivos, impressa em cada folha de jornal por Mário Filho, Nelson Rodrigues, Armando Nogueira, João Saldanha e outros. O mito do craque mestiço, liso e imarcável... capaz de desmontar defesas científicas e hipnotizar o mundo.

Essa certeza da supremacia transformou o torcedor brasileiro numa espécie de Barbara Heliodora futebolística. A Seleção Brasileira precisa ser Shakespeare diariamente. Qualquer coisa menos que Hamlet faz da Seleção um dramaturgo chinfrim. Na arquibancada tupi-guarani, o Brasil está para o futebol como o Dream Team americano para o basquete. A vitória é obrigatória. Mais - ela não basta. Além de ganhar, a Seleção deve iluminar e entreter. É o único time de futebol do mundo com obrigações estéticas.

Ou quase o único. Eis que há torcidas brasileiras que continuam esperando sempre a vitória maiúscula e acachapante. O torcedor do Santos, por exemplo. Ele já teve Pelé. Hoje tem Tiuí. O passado do Peixe criou essa expectativa extra-galática, que nenhum time humano tem capacidade de satisfazer. O torcedor de hoje só se lembra do mito (que ele viu ou ouviu falar). E nem o Pelé real de carne e osso seria capaz de derrotar o mito, pois o mito não erra, o mito é Super-Homem sem kriptonita posível.

O nirvana recente de Diego e Robinho só exacerbou a impaciência. O Santos-2007 é um time técnico e experiente. Tem Zé Roberto, Cléber Santana, Kléber – é um aparelho eficaz. Mas apesar do ótimo início de temporada, apesar da vitória sobre o jovem e raçudo Defensor, eis que ela apareceu na Vila Belmiro. Ela, a vaia, a multidão em forma de letra U. Apareceu algo tímida, em apupos esparsos e pontuais. Mas seu volume foi suficiente para provocar a reclamação pós-jogo de Wanderley Luxembugo.

- O Santos é líder do Campeonato Paulista e líder do seu grupo na Libertadores. E ainda assim acontece isso aqui na Vila. Precisamos de mais integração entre torcida e time.

Wanderley tem razão. A palavrinha integração soa linguagem de Dilbert, parece pular de um livro corporativo de auto-ajuda. Mas aqui... ela faz sentido. Não há competição em que o time precise mais da torcida do que a Libertadores. É um campeonato diferente, no qual o torcedor precisa vestir a camisa de fato e de direito. Precisa ser mais tolerante com o erro, vibrar com cada desarme, apoiar o carrinho eficaz e também o ineficaz. Precisa aplaudir e, mais do que isso, ter o silêncio como adversário.

Lembremos a espetacular virada do Estudiantes de La Plata, no ano passado, contra o Sporting Cristal em Quilmes. O time peruano fez três gols no primeiro tempo. A torcida do Estudiantes não parou de apoiar o time, berrou o intervalo inteiro, sem uma única e módica vaia. Os jogadores argentinos voltaram energizados e conseguiram uma histórica virada aos 45 minutos do segundo tempo: 4 a 3.

Podemos ter o melhor futebol do mundo. Mas será que temos a melhor torcida? Aqui, um passe errado já é ensaio de vaia. Uma bola perdida semeia o murmúrio. As torcidas brasileiras precisam de um curso de comportamento a favor – se possível na Argentina. Não por acaso, as torcidas de Grêmio e Inter torcem melhor na Libertadores. A proximidade influencia. A torcida do São Paulo parece ter aprendido também. Vendo os campeões brasileiros do torneio, desde 1997, todos eles tiveram essa luxemburgueana integração como ingrediente (Cruzeiro/97, Vasco/98, Palmeiras/99).

O torcedor nostálgico tem que desidratar o mito. Tem que deixar de acreditar piamente que aquela camisa 10 precisa jogar como Pelé e não como Tabata ou Zé Roberto. Que a camisa 7 só admite Garrinchas. Que a camisa 11 só pode vestir Romários. O sucesso na Libertadores começa fora de campo. E o sucesso fora de campo começa quando o torcedor se lembra que seus 11 super-heróis são de carne-e-osso.
Escrito em 02/03/2007
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Google Obina


A bola tocou nas redes do Vasco no exato momento em que Obina pôs o pé no chão. O eufórico som da comemoração rubro-negra, aquele onomatopaico aaaaaaah de cada gol, anulou o mínimo, minúsculo som que se propagava dentro do joelho do jogador do Flamengo. O pequeno crec do ligamento que se partia e tirava dos gramados por seis meses um ídolo reinventado. Joelho partido aqui, corações partidos torcida rubro-negra afora.

Obina começou mal no Flamengo. Entre adiposo e inseguro, virou motivo de chacota. Foi criticado, açoitado, desmontado. Até que uma ironia arquibalda transformou abóbora baiana em carruagem. A propositalmente absurda Obina é melhor do que o Eto’o” foi a trilha sonora que trouxe de volta o bom futebol do atacante Manoel Brito Filho. O bonde virou artilheiro. E o amplificador rubro-negro tratou de aproveitar a fase. A piada ganhou corpo, Obina ganhou aposto, camisa, manchetes. E continuou a fazer gols.

Se tornou um ídolo divertido como o Rio de Janeiro não via desde Túlio. E despertou a curiosidade de vosso humilde servo. De onde viria a palavra “Obina”? Qual seria seu significado? A origem do nome Obina é africana, assim como Eto’o. Samuel Eto’o é camaronês, Obina vem da Nigéria. Hoje, inclusive, há um outro atacante de alto nível com nome quase idêntico – o nigeriano Victor Nsofor Obinna, 19 anos, que joga no Chievo (ITA) e está nos planos do Internazionale de Milão.

Teclei pois OBINA no melhor amigo do blog – o Google. E lá vieram 247 mil respostas. O Google informa que Obina é música, é boneca, é política. A amplificação rubro-negra transformou Obina em ícone irônico. Então, é atéengraçado saber que existe Obina na África, no Japão, até nas Filipinas. E que o Obinna original hoje nem clube tem. Então, sigamos para uma volta ao mundo em oitenta obinas:

Obina, o nome – Obinna, com dois enes, é um sobrenome comum na etnia Igbo (ou Ibo). E, dependendo da fonte, pode significar “aquele que é querido pelo pai” ou apenas “ a mente do pai”. Os Igbo são 17% da população nigeriana.

Obina, o original - Eric Chukwunvelu Obinna, o nigeriano que deu origem ao apelido. O técnico dos juniores, Chiquinho de Assis, achou que o jovem Manoel se parecia com o estrangeiro que treinava no Vitória. Obina jogou pelo Vitória em 1998, chegou a ser contratado pelo Arsenal – mas nunca jogou lá por problemas de documentação. Da Inglaterra tentou a vida no Saint-Etienne, quando o time estava na segunda divisão francesa (1999). Não deu certo... aliás nunca deu certo. Sua carreira foi despencando aos poucos. Passou por Red Star (terceira divisão francesa), Rouen (quarta divisão francesa), Stuttgart Kickers (terceira divisão alemã), Kaiserlautern Amateurs (quarta divisão alemã), Reading (terceira divisão inglesa) no ano passado atuou pelo Stevenage Borough (quarta divisão inglesa). Atualmente está sem clube. Quando foi comprado pelo Arsenal, era considerado uma das maiores promessas do futebol nigeriano. Deu errado.


Obina city - Na Nigéria, há um rio Obina e uma pequena cidade chamada de Obina, ambos no estado de Enugu.

Obinna, o músico – Um dos mais famosos igbo do século XX foi Ezebuirro Obinna, o Dr. Sir Warrior (Doutor Senhor Guerreiro), líder da Oriental Brothers International Band, um influente grupo musical nigeriano nos anos 70. Ezebuirro morreu em 1999.

Obina Shok – grupo de música afro-caribenha (juju) formado por um cantor do Gabão (Roger Kedyh), um tecladista senegalês (Jean Pierre), um baterista do Suriname (Winston Gound) e quatro brasileiros. Gravaram dois discos nos anos 80 e fizeram um sucesso, a música “Vida”.

Arnold Obina – político filipino, membro da Aliança Popular por Verdade e Justiça.


Obina, a boneca – uma tradicional boneca japonesa do festival Hina Matsuri, celebrado no terceiro dia do terceiro mês, ou seja, três de março (aniversário de Zico!). A boneca Obina representa o imperador e normalmente fica ao lado de Mebina, a imperatriz. Aqui você aprende como fazer uma Obina de origami.

Obina Ekenzie – pivô nigeriano de basquete, que já foi do Atlanta Hawks e hoje joga pelo Lottomatica Roma da Itália.

Kunkio Obina – guitarrista japonês.

Mr. Kalu Obina – assinatura usada por falsários nigerianos num célebre golpe na internet. Kalu Obina se dizia funcionário do Union Bank da Nigéria e pedia um depósito para liberar US$ 18 milhões.

Obina Mma Obi Kyere – Música do ganes George Adu. A expressão quer dizer “Se alguem não quer saber, alguém vai contar”.

Obina, o site - uma página intelectualizada que defendia que meninas não deveriam transformar celebridades em deuses ou ídolos. Obina era uma acrônimo, uma sigla, para Orlando Bloom Is Not Amazing. Orlando Bloom é aquele galã inglês, ator principal de Cruzada. O site não durou muito.

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Enquanto isso na Sala de Justiça...

Enfim, a página da Federação de Futebol do Rio de Janeiro ressuscitou. O mediador José Fernandes, ligado ao grupo da situação, foi forçado a assumir a gestão da entidade. Em breve terá que marcar novas eleições - que serão provavelmente vencidas pela situação com uma chapa encabeçada pelo presidente do Madureira, Elias Duba. A página só voltou à vida ontem depois que a júiza Márcia Cunha, da sétima vara empresarial, ameaçou multar o próprio mediador em R$ 5 mil diários se ele não cumprisse suas decisões. Subitamente terminou a "manutenção" do site. Que voltou ao ar igualzinho.
Escrito em 28/02/2007
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Fora do ar


A Suderj informa: continua fora do ar o site da Federação de Futebol do Rio de Janeiro. Pelo visto, ele está estendendo o esperto recesso promulgado por Rubens Lopes. A vida e suas coincidências. Os responsáveis pelo site estão obrigados a publicar a decisão judicial da sétima vára empresarial, que proíbe Rubinho de entrar na sede da entidade. Em lugar disso, há uma página em branco.

Como anotado neste espaço na semana passada – e observado pela Soninha, hoje, em sua coluna na Folha de S. Paulo – aconteceram dois jogos durante o recesso momesco de Rubinho. Com o site fora do ar, o respeitável público ficou sem saber quando e se aconteceram os sorteios de arbitragem que escalaram Ubiraci Damásio e William de Souza Nery para as semifinais. Comenta-se inclusive que Rubinho anda insatisfeito com as arbitragens e estaria pensando em remover o ex-árbitro Carlos Elias Pimentel do comando do apito. Deve ser porque, apesar dos naturais erros, os juízem têm tido boa performance.

Soninha diz em sua coluna que o site está em manutenção. A manutenção da cara-de-pau é uma arte, sem dúvida. Depois do dantesco espetáculo da eleição por aclamação e palmas, dos gritos nas fuças de um delegado de polícia, a página em branco é um testemunho de que a FERJ continua apostando no drible.
Escrito em 27/02/2007
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O verso do cartão postal


O sol de muitos anos
dos tricolores suburbanos...


A rima não é exatamente rica. Mas é de Lamartine Babo. São os versos que encerram o hino do Madureira, o david de ocasião diante do golias rubro-negro na final da Taça Guanabara. Madureira, berço de sambistas e compositores. Foi lá que a cegonha deixou Jorge Ben Jor, Guinga, Leci Brandão. É sede da Portela e do Império Serrano. Berço do tricolor suburbano, comandado pelos bigodes de Elias Duba, que outro dia emprestou o time inteiro para o Bangu na famigerada Seletiva zumbi da segundona carioca.

Madureira de Paulinho da Viola, Madureira de Odvan. Madureira, mais que david, é patinho feio. É o Rio de Janeiro no verso do cartão postal. Como diz Chico Buarque - lá não tem moças douradas, não tem turistas, lá tem Jesus... e está de costas. Madureira não tem praia, não é para consumo externo. É Rio de Janeiro humilde, comercial. Seus pontos turísticos são a Capela São José da Pedra e o Mercadão – que ofuscamo minúsculo e bem tratado Aniceto Moscoso, estádio do Madureira Esporte Clube, onde teoricamente cabem 10 mil seres humanos.

Mas, feito esse preâmbulo, digamos que a presença do Madureira na final da Taça Guanabara não chega a ser uma surpresa. Com o formato de tiro curto adotado pelo Campeonato Carioca desde 2004, não houve ainda um turno que tivesse semifinais com os quatro grandes. Mais do que isso – os pequenos têm se classificado mais do que os grandes. O time que mais se classificou, aliás, foi o Americano – que apesar disso não conquistou nenhum título.

Semifinalistas

2004
Taça Guanabara – Flamengo, Fluminense, Vasco e Americano
Taça Rio – Vasco, Fluminense, Friburguense e Americano.

2005
Taça Guanabara – Botafogo, Volta Redonda, Americano e Cabofriense
Taça Rio – Volta Redonda, Vasco, Flamengo e Fluminense.

2006
Taça Guanabara – Botafogo, América, Americano e Cabofriense
Taça Rio – América, Americano, Cabofriense e Madureira.

2007
Taça Guanabara – Flamengo, Vasco, América e Madureira.

Resumo:
Grandes – 12 vagas nas semifinais
Pequenos – 16 vagas nas semifinais


A vantagem dos pequenos se desmonta nos jogos decisivos. Quando grande e pequeno se encontram em semifinais ou finais, a vitória de david é raríssima. Até porque os jogos decisivos são sempre no Maracanã. Quando enfrenta um grande, o pequeno joga sempre como visitante e tem toda a torcida adversária contra.

Decisões

2004
Taça GB – Flamengo 3 x 2 Fluminense
Taça Rio – Vasco 2 x 1 Fluminense
Finalistas: Vasco e Flamengo

2005
Taça GB – Americano 0 x 0 Volta Redonda
Taça Rio – Flamengo 1 x 4 Fluminense
Finalistas: Fluminense e Volta Redonda

2006
Taça GB – Botafogo 3 x 1 América
Taça Rio – Madureira 1 x 0 Americano
Finalistas: Botafogo e Madureira

2007
Taça GB – Flamengo x Madureira

Finais de turno – 8 grandes, 6 pequenos
Finais de campeonato – 4 grandes, 2 pequenos


A Sibéria de concreto


A imagem genial é de Nelson Rodrigues: o Maracanã vazio é uma Sibéria de concreto. Vinte mil pessoas não transformam a Sibéria em Pequim – e qualquer coisa menos que Pequim é um deserto quando se fala de Vasco x Flamengo. Em especial de um Vasco x Flamengo decisivo como o de ontem. O Maracanã das cadeiras plásticas e desprovido de geral recebeu 23 mil pessoas. As cadeiras vazias eram testemunhas silenciosas da incompetência do cartola brasileiro.

Um ingresso a R$ 40 não é caro na Europa ou nos EUA. É até ridiculamente barato. Mas na Europa os estádios oferecem conforto, garantias, segurança, estacionamento. O Maracanã até melhorou – mas seus problemas estão longe de terminar. Os arredores do estádio são um paraíso de flanelinhas, ambulantes piratas e cambistas. Dentro do estádio, os controles são frágeis. Quem vai de carro enfrenta engarrafamentos, desconforto, incerteza. Quem vai de ônibus convive com lotações e insegurança. Em casa... é de graça, não tem assalto, não tem risco de pancadaria nem de copo de urina no quengo. A procura da semifinal foi tão baixa que era possível pagar metade do preço sem apresentar carteira de estudante. Mas o preço inicial assustou boa parte dos consumidores.

Em suma, cobrar quarenta pratas por um jogo transmitido ao vivo em fim de mês num estádio pré-moderno é simplesmente burrice. Mas não é uma burrice qualquer, é uma burrice escultural e lapidar. É uma ode, uma estatueta em forma de burro, um dourado, reluzente e orelhudo asno. O único lado bom dessa jumência está nos ingressos que morreram na mão dos cambistas. E não foram muitos. Mas burrice tem remédio. Ontem mesmo a diretoria do Flamengo já falava em baixar o preço para a decisão da Taça Guanabara.
Escrito em 26/02/2007
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