Como evitar dinheiro sujo
O leitor Alan Melgarejo, que mora na Inglaterra, chama atenção por e-mail para uma notícia de sexta-feira. A Premier League está "processando" o West Ham United por práticas ilegais de transferência. O problema tem nome e sobrenome: Media Sports Investments, nossa queridíssima MSI. Segundo a liga, o West Ham teria quebrado as regras 13 e 18 nas transferências dos argentinos Carlitos Tévez e Javier Mascherano - que todos sabemos são representados pela digníssima empresa de Mr. Kia Joorabchian. Isto posto, vamos às regras:
Regra E.13
“Em todos os temas e transações relacionados à Liga, cada clube deve se comportar com os outros clubes e com a Liga na maior boa fé”
Regra U.18
“Nenhum clube deve entrar em um contrato que permita que uma outra parte qualquer tenha a capacidade material de influenciar suas políticas ou a performance de seus times em partidas da liga ou em qualquer outras competições determinadas na regra E.10”
Segundo a avaliação da Board, nos dois casos a regra U.18 foi claramente quebrada, porque a MSI é obviamente uma “outra parte qualquer”. A liga diz que até 24 de janeiro de 2007 o West Ham não informou ou ocultou de propósito esses acordos com a famigerada terceira parte. Isso seria quebra da regra B.13 – a regra da boa fé acima transcrita. A Liga deu 14 dias ao West Ham para que ele se defenda. Os Hammers devem receber uma punição severa – a perda de pontos, o que deve assegurar o já provável rebaixamento do time. O West Ham hoje é o último colocado da Premier League, nove pontos atrás do penúltimo. Tudo bem que com Tevez e Mascherano o time azul e vinho só faturou CINCO humildes pontinhos na liga. Isso sem que Carlitos tenha marcado um humilde golzinho. Leia aqui a declaração da Premier League.
O aviso e provável punição são um recado a favor da transparência. Vários times da Premier League têm ações na bolsa de Londres. A liga é auditada por empresas sérias e publica relatórios financeiros anuais. Não por acaso dá lucro – e um senhor lucro. A regra contra “outras partes” é sanitária. Entre outras coisas tem o objetivo de evitar a presença de dinheiro de procedência estranha. A MSI, como se sabe, é uma porta com plaquetinha num prédio de escritórios em Londres. Se um milionário russo ou georgiano quiser investir num clube inglês, a liga vai aceitar – como demonstra o Chelsea. Mas não através de empresas de fachada.
Enquanto isso, neste paraíso tropical, prossegue surda-muda a parceria entre MSI e Corinthians. Será que acabou? Será que não? O contrato continua de pé – mas o responsável pelo dito cujo se evadiu. O verbo é justo – evadir. Por que será que Kia Joorabchian não volta mais ao Brasil? Será que a MSI depositava o salário de seus principais jogadores aqui? São perguntas que permanecem – digamos – suspensas no ar... esperando suas improváveis respostas.
Escrito em 03/03/2007
O verso do cartão postal
O sol de muitos anos
dos tricolores suburbanos...
A rima não é exatamente rica. Mas é de Lamartine Babo. São os versos que encerram o hino do Madureira, o david de ocasião diante do golias rubro-negro na final da Taça Guanabara. Madureira, berço de sambistas e compositores. Foi lá que a cegonha deixou Jorge Ben Jor, Guinga, Leci Brandão. É sede da Portela e do Império Serrano. Berço do tricolor suburbano, comandado pelos bigodes de Elias Duba, que outro dia emprestou o time inteiro para o Bangu na famigerada Seletiva zumbi da segundona carioca.
Madureira de Paulinho da Viola, Madureira de Odvan. Madureira, mais que david, é patinho feio. É o Rio de Janeiro no verso do cartão postal. Como diz Chico Buarque - lá não tem moças douradas, não tem turistas, lá tem Jesus... e está de costas. Madureira não tem praia, não é para consumo externo. É Rio de Janeiro humilde, comercial. Seus pontos turísticos são a Capela São José da Pedra e o Mercadão – que ofuscamo minúsculo e bem tratado Aniceto Moscoso, estádio do Madureira Esporte Clube, onde teoricamente cabem 10 mil seres humanos.
Mas, feito esse preâmbulo, digamos que a presença do Madureira na final da Taça Guanabara não chega a ser uma surpresa. Com o formato de tiro curto adotado pelo Campeonato Carioca desde 2004, não houve ainda um turno que tivesse semifinais com os quatro grandes. Mais do que isso – os pequenos têm se classificado mais do que os grandes. O time que mais se classificou, aliás, foi o Americano – que apesar disso não conquistou nenhum título.
Semifinalistas
2004
Taça Guanabara – Flamengo, Fluminense, Vasco e Americano
Taça Rio – Vasco, Fluminense, Friburguense e Americano.
2005
Taça Guanabara – Botafogo, Volta Redonda, Americano e Cabofriense
Taça Rio – Volta Redonda, Vasco, Flamengo e Fluminense.
2006
Taça Guanabara – Botafogo, América, Americano e Cabofriense
Taça Rio – América, Americano, Cabofriense e Madureira.
2007
Taça Guanabara – Flamengo, Vasco, América e Madureira.
Resumo:
Grandes – 12 vagas nas semifinais
Pequenos – 16 vagas nas semifinais
A vantagem dos pequenos se desmonta nos jogos decisivos. Quando grande e pequeno se encontram em semifinais ou finais, a vitória de david é raríssima. Até porque os jogos decisivos são sempre no Maracanã. Quando enfrenta um grande, o pequeno joga sempre como visitante e tem toda a torcida adversária contra.
Decisões
2004
Taça GB – Flamengo 3 x 2 Fluminense
Taça Rio – Vasco 2 x 1 Fluminense
Finalistas: Vasco e Flamengo
2005
Taça GB – Americano 0 x 0 Volta Redonda
Taça Rio – Flamengo 1 x 4 Fluminense
Finalistas: Fluminense e Volta Redonda
2006
Taça GB – Botafogo 3 x 1 América
Taça Rio – Madureira 1 x 0 Americano
Finalistas: Botafogo e Madureira
2007
Taça GB – Flamengo x Madureira
Finais de turno – 8 grandes, 6 pequenos
Finais de campeonato – 4 grandes, 2 pequenos
A Sibéria de concreto
A imagem genial é de Nelson Rodrigues: o Maracanã vazio é uma Sibéria de concreto. Vinte mil pessoas não transformam a Sibéria em Pequim – e qualquer coisa menos que Pequim é um deserto quando se fala de Vasco x Flamengo. Em especial de um Vasco x Flamengo decisivo como o de ontem. O Maracanã das cadeiras plásticas e desprovido de geral recebeu 23 mil pessoas. As cadeiras vazias eram testemunhas silenciosas da incompetência do cartola brasileiro.
Um ingresso a R$ 40 não é caro na Europa ou nos EUA. É até ridiculamente barato. Mas na Europa os estádios oferecem conforto, garantias, segurança, estacionamento. O Maracanã até melhorou – mas seus problemas estão longe de terminar. Os arredores do estádio são um paraíso de flanelinhas, ambulantes piratas e cambistas. Dentro do estádio, os controles são frágeis. Quem vai de carro enfrenta engarrafamentos, desconforto, incerteza. Quem vai de ônibus convive com lotações e insegurança. Em casa... é de graça, não tem assalto, não tem risco de pancadaria nem de copo de urina no quengo. A procura da semifinal foi tão baixa que era possível pagar metade do preço sem apresentar carteira de estudante. Mas o preço inicial assustou boa parte dos consumidores.
Em suma, cobrar quarenta pratas por um jogo transmitido ao vivo em fim de mês num estádio pré-moderno é simplesmente burrice. Mas não é uma burrice qualquer, é uma burrice escultural e lapidar. É uma ode, uma estatueta em forma de burro, um dourado, reluzente e orelhudo asno. O único lado bom dessa jumência está nos ingressos que morreram na mão dos cambistas. E não foram muitos. Mas burrice tem remédio. Ontem mesmo a diretoria do Flamengo já falava em baixar o preço para a decisão da Taça Guanabara.
Escrito em 26/02/2007