
Parecia um confronto entre a lebre elétrica e a tartaruga pós-lexotan. De um lado, o Coelhinho da Duracell F.C., correndo em todas as direções. De outro, o Clube de Regatas da Moleza, preso no chão, bufando, buscando fôlego. Não fosse a extrema ruindade do Coelhinho, ou melhor, do Real Potosí... e o Flamengo deixaria as alturas com uma goleada mais histórica do que as minas da cidade boliviana.
Dois dias depois que o interventor nomeado pela justiça e um delegado de polícia foram publicamente humilhados na sede da Federação de Futebol do Rio de Janeiro, a Justiça entrou em campo novamente. E o que fez a mais cega das senhoras? Deu razão aos dirigentes que solaparam a autoridade na segunda-feira. Um despacho do desembargador Paulo Leite Ventura tornou sem efeito a liminar que nomeava o interventor Hekel Raposo. E, em tese, autorizou retroativamente a eleição por aclamação liderada por Eurico Miranda e seu charuto na sede da FERJ. É evidente que Eurico sabia o que estava fazendo quando forçou a barra para realizar o pleito – se é que a eleição através de palmas assim pode ser chamada. Os advogados já estavam em campo há algum tempo tentando o mandado de segurança ontem obtido.
Aos 41 anos, lá estava novamente o baixinho marrento de São Januário, ou da Vila da Penha, ou de Eindhoven, Barra da Tijuca ou Barcelona. Romário, de peito estufado e olhos vidradamente sonsos - olhos capazes de um desprezo total e absoluto. O rei-sol – ou o príncipe- de novo em seu elemento. Tudo girava, novamente, em torno de Romário de Souza Faria. Quando chegou ao Brasil com a Copa de 94 nos braços, Romário era uma unanimidade nacional. Seu torneio de futevôlei, na praia da Barra da Tijuca, tinha transmissão de TV. Seu carro seguia pela contra-mão com batedores. Ele mal podia sair na rua, era cercado de fotógrafos e amigos-seguranças por todos os lados.
Esse tempo passou e levou o cerco. Mas Romário continuou sempre em evidência. Soube conviver com a fama e desfrutá-la. Teve dinheiro, carros, mulheres e casamentos em profusão. Depois dos dissabores de 1995, quando chegou a se intitular deus, o Baixinho encontrou o espelho. E entendeu a imensa repercussão de cada palavra ou ato de um ídolo. Anos e muitas voltas depois, aí está Romário sentando no banco do Vasco, marcando três gols num só tempo, apesar de tocar na bola por apenas 17 segundos. E evocando em silêncio a revolta-deglutição de Zagallo. Sua eloqüente mudez de São Januário dizia vocês vão ter que me engolir a cada pergunta desprezada.
É compreensível a chateação de Romário. Seu futebol tem sido criticado – a agilidade e a velocidade foram embora, e ele sabe. Mas, pelo visto, ele esperava algum reconhecimento pela marca histórica – e pela persistência – e não o tratamento algo gélido e crítico que a mídia tem dispensado a seus mil gols. Romário nunca levou desaforo para casa. Sua resposta para as críticas específicas foi o silêncio generalizado. Direito dele. Pior para os vascaínos que gostariam de ouvir o que o Baixinho tinha a dizer.
O Corinthians até começou melhor, aproveitando a velocidade de Rosinei, Wilson e Élton. Mas ameaçou pouco. Leão costuma incendiar seus times – e tem conseguido tirar do Corinthians até mais que o elenco tem a oferecer. Com Élton, na ala esquerda, o time ganha velocidade e talento ofensivo – mas abre um senhor flanco defensivo. E há outro problema: Élton e Rosinei, como jogadores de meio, têm uma irresistível tendência de afunilar o jogo.
Ney Franco adiantou seu time e dominou o meio-campo... até empatar aos 32 num lance previsível. A defesa do Botafogo é péssima em bolas altas. E Ronaldo Angelim sempre foi bom no jogo aéreo – em especial no ataque. Só que, logo após a saída de bola, Juan foi expulso. O Botafogo aproveitou a vantagem e fez o terceiro gol com Joílson – numa bela trama que começou com Juca e passou por Dodô. Teve a vitória nas mãos novamente mas conseguiu levar o empate num chutão do goleiro Bruno – em que Túlio quis fazer a linha de impedimento esperando que Obina roçasse de cabeça na bola. Roni agradeceu.