globoesporte.com
Blogs Globoesporte.com
Poli

Perfil

Gustavo Poli

Jornalista, 34 anos

Carioca, jornalista há 13 anos, trabalhou nos jornais O Globo e Lance! e está desde 1998 na TV Globo. Cobriu as Copas de 98 e 2002 e é co-autor do bem-humorado "Manual do mané" (Editora Planeta, 2003) e do "Almanaque do futebol" (Casa da Palavra, 2006).

E-mail: gustavo.poli@globo.com
Pit stop momesco


Amigos, a Coluna faz um pit stop nesse carnaval. Mas antes da breve folga momesca, falemos rapidamente sobre quem foi bem ou mal... neste pré-ano, que no Brasil é sinômimo de antes do carnaval.

Acima da expectativa

Santos – O time de Wanderley Luxemburgo, que perdeu a invencibilidade neste sábado para o São Bento, demorou a contratar. Mas conseguiu trazer Marcos Aurélio e Adaílton. Acertou o meio-campo, atropelou o Blooming e lidera o Campeonato Paulista.
Destaque: Cléber Santana.

Paraná – Quem diria... mais uma vez, o Paraná desmontou um time e montou outro. Passou de passagem pela pré-Libertadores, ignorando o Cobreloa, e já venceu o primeiro jogo fora na primeira fase.
Destaque: Josiel.

Grêmio – O trator tricolor ainda não deixou pedra sobre pedra. Venceu tudo no Gaúchão e ainda derrotou o Cerro Porteño fora na Libertadores. Um jogo que apresentou o goleiro Saja ao país – e olha.... parece ser um goleiraço.
Destaque: Carlos Eduardo.

Sport – O time do técnico Gallo ganhou sem esforço o primeiro turno do Pernambucano, derrotando o Náutico nos Aflitos e transformando o jogo contra o Santa em jogo de faixas. A Ilha do Retiro promete voltar à Série A com estilo.
Destaque: Carlinhos Bala.

Juventude – Com Juliano e Alex Alves, lá vem o Ju de novo sob a batuta de Ivo Wortmann. O time vai bem no Gaúchão e mostra que ninguém terá vida fácil no segundo semestre no Alfredo Jaconi.


Dentro da expectativa


Cruzeiro – Apesar da derrota para o Galo, o time é estável e deve chegar sem sustos à fase final do Campeonato Mineiro. D
Destaque: Araújo.

São Paulo – Um empate aqui, outro ali... a equipe de Muricy Ramalho é madura e tem elenco. O time de 2007 é inferior ao de 2006 – as saídas de Fabão e Lugano foram minimizadas por André Dias e Miranda – mas há diferença. A volta de Ilsinho é um bom prenúncio.
Destaque: Aloísio.

Vasco – Entre altos, baixos e romários, o time se classificou para as semifinais da Taça Guanabara. O time continua inconstante e com grandes problemas defensivos. Mas não vacilou na hora decisiva.
Destaque: Leandro Amaral.

Internacional – O Inter está marotamente esperando o início do ano. É como se o Colorado quisesse prolongar 2006 indefinidamente... o que é compreensível. Na semana que vem, começa a Libertadores.
Destaque: Nenhum.

Atlético-PR
– Apesar de alguns empates na Arena da Baixada (como o deste sábado contra o líder do Paranaense, o Galo Adap), Furacão manteve sua base. A volta de Alex Mineiro pode (ou não) suprir a perda de Marcos Aurélio. Com Dênis Marques, Ferreira e Cristian (e ainda os talentososVálber e Evandro no banco), o time é sempre perigoso.
Destaque: Dênis Marques.


Abaixo da expectativa


Flamengo – A epopéia de Potosí foi cruel e o time arrumou um heróico e milagroso empate. Depois, pagou a conta no calor de Bangu. A irregularidade da equipe e a inconstância da defesa só não tiraram o time da Taça Guanabara porque o Botafogo ajudou muito.
Destaque: Renato Augusto.

Palmeiras – Seis jogos sem vitória e a séria ameaça de ficar fora do quadrangular decisivo do Paulista. Há sombras sobre o Parque Antártica... o time corre muito mas não parece ter talento ofensivo suficiente. Pelo menos venceu na Copa do Brasil.
Destaque: Paulo Baier.

Atlético-MG – Não se esperava muito do Atlético-MG. Mas amargar a lanterna do Mineiro... foi exagero. Menos mal que a categórica vitória sobre o Cruzeiro tirou o Galo de uma precoce crise no ano de seu retorno à Série A.
Destaque: Marcinho.

Náutico – Sem poder contratar muito, o time do técnico Hélio dos Anjos não se acertou ainda. Felipe demorou a voltar e ainda não se encontrou. Beto se machucou. Cristian ainda não pode estrear – assim como Beto Acosta. O time deve melhorar.


Muito abaixo da expectativa


Botafogo – Até a mal-conservada placa de General Severiano sabia que a defesa do time era um problema. A conta foi cobrada contra o Boavista, quando o time jogou fora a Taça Guanabara. Os laterais esquerdos de 2006 são de doer. E Zé Roberto esqueceu o futebol em 2006.
Destaque: Dodô.

Corinthians – O incendiário Leão continua apagando fogueiras com gasolina. E brigando com juízes, repórteres, jogadores, dirigentes e gandulas. O time conseguiu segurar Nilmar, trouxe o ótimo Jean... tem corrido muito mas a defesa... ah, a defesa...
Destaque: Roger.


Horrivelmente abaixo da expectativa


Fluminense – O tricolor mais uma vez foi o campeão das contratações. E mais uma vez pagou um gigantesco orangotango na Taça Guanabara. E já mandou embora seu primeiro técnico do ano. Será que 2006 2.0 vem aí? A aposta aqui é que o time encontra seu caminho já nesta Taça Rio.
Destaque: Nenhum.

Escrito em 18/02/2007
Comentários: »   Permalink »
O futebol nas CNTP


Parecia um confronto entre a lebre elétrica e a tartaruga pós-lexotan. De um lado, o Coelhinho da Duracell F.C., correndo em todas as direções. De outro, o Clube de Regatas da Moleza, preso no chão, bufando, buscando fôlego. Não fosse a extrema ruindade do Coelhinho, ou melhor, do Real Potosí... e o Flamengo deixaria as alturas com uma goleada mais histórica do que as minas da cidade boliviana.

O sofrimento foi evidente. Tubos de oxigênio, línguas de fora, dores de cabeça, tonteira.
E Potosí não é apenas longe, é também difícil. O aeroporto da cidade é basicamente uma pista que só recebe vôos da Força Aérea Boliviana. Chegar lá de avião a partir de Sucre é um risco – se a pista fechar, o time pode perder por W.O. – por isso o Flamengo resolveu ir de ônibus. Mais desgaste, menos adaptação ainda. A viagem-jogo-epopéia em três dias gerou aquela indignação santa que vimos ontem na nota oficial do Flamengo, que desceu a mamona na FIFA e terminou com as seguintes e figadais palavras: “Não proibir jogos nessas condições é o mesmo que ser conivente com a dopagem”

O Flamengo jurou por seus 112 anos de história que nunca mais jogará em montanhas tão altas. E exigiu a proibição de jogos em condições “tão desumanas”. Levantou uma bandeira... e uma lebre. Hoje, até o mais alpinista dos rubro-negros tem certeza que seu time foi injustamente açoitado pela geografia boliviana. Cruéis esses sujeitos que moram lá em cima e ainda insistem em jogar bola mal.

Mas será mesmo que proibir jogos nas alturas é justo? O Real Potosí está disputando sua segunda Libertadores. Na primeira, ganhou em casa de dois times do nível do mar (o San Lorenzo e o Peñarol). E perdeu para o Nacional equatoriano (de Quito, 3650m de altitude). Para chegar à competição em 2007, o Leão Púrpura potosino conquistou o vice-campeonato boliviano. Será que o time não tem direito de jogar em casa? Será que a cidade não merece ver o time em seu estádio?

Os 100 mil habitantes da cidade boliviana são, segundo as análises mais acuradas, seres humanos. O Real Potosí é filiado à Federação Boliviana, que pertence à Fifa. Por que os direitos do Potosí devem ser menores que os do Flamengo? Por que o torcedor do Potosí não pode ver seu time jogar no seu estádio?

É evidente a vantagem que os bolivianos têm na altitude. E não há problemas comprovados de adaptação na situação contrária: quando um jogador de altitude desce para atuar ao nível do mar (embora haja alguns especulados). E é evidente também o mal-estar provocado pela prática de esporte de alto nível na altitude – em especial na atualidade, quando as exigências aeróbicas do futebol aumentaram muito. Mas... quem disse que a regra é jogar ao nível do mar? Ninguém disse - porque não é. As seculares regras do jogo simplesmente não incluem nenhuma menção a supostas CNTP (condições normais de temperatura e pressão) em que deve ser praticado o esporte.

O futebol pode ser jogado em qualquer clima, temperatura ou ecossistema. Seja sob sol, sob chuva ou sob neve. Em tese, jogar no Maracanã em janeiro sob o sol de 40 graus também pode ser considerado desumano. Assim como jogar abaixo de zero no Leste Europeu.. O argumento rubro-negro – de que jogar a 3950m contraria o fair-play – é inteligente. Mas pode ser torcido em várias direções. Jogar ao meio-dia em Dallas com sol a pino também não parece muito saudável. Adivinhe-se em que horário foi disputado Alemanha x Coréia do Sul pela Copa de 1994? Se for estabelecida uma baliza de altitude saudável, por que não deveria ser estabelecida uma baliza de temperatura?


Libertadores 2007 - Cidades acima do nível do mar






















Mais ainda: se houvesse uma altitude “ilegal”, qual seria? A partir de quantos metros passa a ser “desumano” jogar futebol? Segundo os especialistas, o corpo humano desacostumado começa a sofrer os efeitos da altitude a partir de 2200m. Se a linha fosse estabelecida aí, nada menos que oito times desta Libertadores teriam que mudar de cidade. Além do Potosí, o Bolívar (La Paz), o Cienciano (Cuzco), o Toluca (Toluca), o América do México (Cidade do Méixco), o Deportivo Pasto (de Pasto), a LDU e o Nacional do Equador (ambos de Quito) teriam que mandar seus jogos em outras cidades – o que causaria um senhor problema logístico. E tiraria o futebol simplesmente das capitais do Equador e do México.

Estas cidades estariam excluídas do mundo da bola. E isso não vai acontecer porque ninguém vai brincar com o México. Se a baliza ficar em 3 mil metros, é politicamente mais viável, porque sofreriam apenas Cuzco (no Peru), os equatorianos e os bolivianos. Mas seria justo? A altitude joga a favor de seus times. Tanto que o Peru está pensando em levar alguns de seus jogos nas eliminatórias para Cuzco. Mas, por mais cruel e duro que seja jogar a três ou quatro mil metros, proibir o futebol nas alturas não é solução.

O mais universal dos esportes estaria fazendo um gol contra. Estaria jogando contra sua própria essência. O futebol está por toda parte porque pode ser jogado em qualquer lugar, em qualquer clima, em quaisquer condições por qualquer pessoa de qualquer raça, tamanho ou talento. Apesar dos muitos pesares, os 100 mil habitantes de Potosí têm direito de ficar no mapa.
Escrito em 16/02/2007
Comentários: »   Permalink »
A imensa casa da sogra


Dois dias depois que o interventor nomeado pela justiça e um delegado de polícia foram publicamente humilhados na sede da Federação de Futebol do Rio de Janeiro, a Justiça entrou em campo novamente. E o que fez a mais cega das senhoras? Deu razão aos dirigentes que solaparam a autoridade na segunda-feira. Um despacho do desembargador Paulo Leite Ventura tornou sem efeito a liminar que nomeava o interventor Hekel Raposo. E, em tese, autorizou retroativamente a eleição por aclamação liderada por Eurico Miranda e seu charuto na sede da FERJ. É evidente que Eurico sabia o que estava fazendo quando forçou a barra para realizar o pleito – se é que a eleição através de palmas assim pode ser chamada. Os advogados já estavam em campo há algum tempo tentando o mandado de segurança ontem obtido.

Mas a eleição dificilmente teria outro resultado se fosse realizada ontem, hoje ou daqui a um mês. O grupo de Eurico e Rubens Lopes vai continuar mandando no futebol carioca. E isso acontece não apenas porque Eurico se aliou aos clubes pequenos. Até o pernilongo bêbado que ensaia seus vôos sobre tão distintas cabeças sabe que Rubinho vai fazer de tudo para ajudar seu Bangu - como a recente Seletiva fantasma ou zumbi demonstrou. Os outros pequenos – em especial os da Segunda Divisão – gostariam de ter uma opção. Eles não confiam em Eurico e não confiam, especialmente, em Rubinho. Mas ninguém tem coragem de quebrar fileiras porque teme perseguição. A Seletiva é uma demonstração cabal de que tudo é permitido quando a mídia está longe. E os times pequenos sabem que não tem rede de segurança. Além disso, Flamengo, Botafogo e América – a oposição – não souberam estabelecer pontes. Eurico espertamente defendeu o aumento do percentual dos pequenos nos direitos de TV. E aproveitou o vácuo – e a submersão malandra do distinto Fluminense. O presidente do Botafogo, Bebeto de Freitas, é especialmente odiado pelos clubes de menor expressão.

O site da FERJ, que ignorou a presença do interventor judicial e não publicou nenhuma de suas medidas, hoje já exibe a decisão judicial favorável a Rubinho. Ao que parece, mesmo a eleição por aclamação teve sérios problemas de procedimento – como o interventor Hekel Raposo anotou em seu relatório. Mas a questão pendente é outra... se a decisão do desembargador saiu na quarta-feira, como ela pode validar algo que ocorreu CONTRA a determinação judicial na segunda-feira? A flagrante desobediência de segunda são assim subitamente autorizadas? Isso quer dizer que não preciso aceitar a decisão da justiça hoje porque tenho um recurso que pode ser julgado amanhã?

Muita água ainda há de correr sob essa ponte. Na semana passada, os advogados do grupo de Rubinho já tinham tentado um mandado de segurança preventivo contra o interventor. Foram rechaçados pelo Desembargador Jair Pontes de Almeida. Ontem, a nova tentativa obteve sucesso. Mas Rubinho & sua diretoria, não custa lembrar, foram afastados da presidência pela própria Justiça. E foi a sentença original da juíza Márcia Cunha – na 7ª Vara empresarial – é que levantou a questão: pode um ex-presidente afastado ser candidato? O promotor Rodrigo Terra, autor da ação que gerou o afastamento, considera que não. Mas, sabendo que o impedimento é possível, a situação já articula a candidatura alternativa do presidente do Madureira, Elias Duba, para o futuro próximo. Enquanto isso, o mediador que havia sido deposto – José Teixeira Fernandes – dá posse ao velho novo presidente da Federação.

Todo esse imbróglio jurídico... e o espetáculo dantesco e grotesco, que viu Eurico gritando “Eu sou o dono da Federação”, deixa apenas a sensação de que o futebol do Rio continua sendo uma imensa casa da sogra. Que impressão um investidor sério tem, ao ligar a TV, e ver Eurico, entre baforadas no charuto, comandando uma aclamação através de palmas, depois de berrar nas fuças de um delegado de polícia? Que impressão o público geral tem? Esses são os homens que mandam no futebol do Rio. Não por acaso, os direitos do Campeonato Paulista valem quase quatro vezes mais que os do Carioca.


Enquanto isso no fundo do baú...

Recentemente, no quadro "Baú do Esporte" da TV Globo, tivemos a oportunidade de reencontrar uma figura esquecida. O árbitro José Marçal Filho, que teve sua carreira praticamente sepultada na final do Campeonato Carioca de 1971. Lembremos da história: a decisão era entre Botafogo e Fluminense - e o alvinegro tinha a vantagem do empate. A quatro minutos do fim, bola na área do Botafogo. O lateral tricolor Marco Antonio empurra o goleiro Ubirajara. A bola sobra pra Lula que faz o gol do título do Flu. Pertinho do lance, José Marçal valida o lance. Não satisfeito, no fim da partida, levanta as mãos e dá um pulinho comemorativo. No dia seguinte - como mostrou o Baú do Esporte - Marçal deu uma entrevista dizendo que o pulinho comemorava "sua boa atuação.

Onde anda José Marçal Filho? Resposta: neste sábado, ele estará no Maracanã. Ele é o observador escalado pela Comissão de Arbitragem da Ferj para o clássico Vasco x Fluminense. Vai avaliar a arbitragem alheia.
Escrito em 15/02/2007
Comentários: »   Permalink »
Romário em silêncio


Romário caminha rumo a seu último vestiário. Falta pouco. Faltam dez gols, talvez um pouco mais. Se a contagem romária é malandramente vitaminada ou não, a torcida pouco quer saber. O que importa para os vascaínos é curtir a sensação de fazer história, não importando se o gol é de mão, de cotovelo, ombro ou omoplata. Se foi feito contra o Barreira de Bacaxá, contra o Malines da Bélgica ou contra o time da oitava divisão da Namíbia. Importa é que serão mil bolas na rede adversária.

Será, de certa forma, uma redenção cruz-maltina. Foram as redes do Vasco, afinal, que abrigaram o primeiro e único milésimo gol do planeta - aquele, de um tal de Édson, em 1969, no Maracanã. Agora, faltam dez gols para que Romário siga os passos do Rei. Mas, amuado e magoado, o Baixinho recolheu a língua. No último domingo, foram três gols em silêncio. Romário deixou o campo sem dar uma palavra, calado como o poeta Pelé.

Aos 41 anos, lá estava novamente o baixinho marrento de São Januário, ou da Vila da Penha, ou de Eindhoven, Barra da Tijuca ou Barcelona. Romário, de peito estufado e olhos vidradamente sonsos - olhos capazes de um desprezo total e absoluto. O rei-sol – ou o príncipe- de novo em seu elemento. Tudo girava, novamente, em torno de Romário de Souza Faria. Quando chegou ao Brasil com a Copa de 94 nos braços, Romário era uma unanimidade nacional. Seu torneio de futevôlei, na praia da Barra da Tijuca, tinha transmissão de TV. Seu carro seguia pela contra-mão com batedores. Ele mal podia sair na rua, era cercado de fotógrafos e amigos-seguranças por todos os lados.

Esse tempo passou e levou o cerco. Mas Romário continuou sempre em evidência. Soube conviver com a fama e desfrutá-la. Teve dinheiro, carros, mulheres e casamentos em profusão. Depois dos dissabores de 1995, quando chegou a se intitular deus, o Baixinho encontrou o espelho. E entendeu a imensa repercussão de cada palavra ou ato de um ídolo. Anos e muitas voltas depois, aí está Romário sentando no banco do Vasco, marcando três gols num só tempo, apesar de tocar na bola por apenas 17 segundos. E evocando em silêncio a revolta-deglutição de Zagallo. Sua eloqüente mudez de São Januário dizia vocês vão ter que me engolir a cada pergunta desprezada.

É compreensível a chateação de Romário. Seu futebol tem sido criticado – a agilidade e a velocidade foram embora, e ele sabe. Mas, pelo visto, ele esperava algum reconhecimento pela marca histórica – e pela persistência – e não o tratamento algo gélido e crítico que a mídia tem dispensado a seus mil gols. Romário nunca levou desaforo para casa. Sua resposta para as críticas específicas foi o silêncio generalizado. Direito dele. Pior para os vascaínos que gostariam de ouvir o que o Baixinho tinha a dizer.

De toda sorte, sua reação é exagerada. Por mais que a torcida comemore a marca histórica, é obrigação jornalística examiná-la e analisá-la. E o torcedor do Vasco que não tiver um cérebro a menos saberá entender isso. Há, evidente, os burraldinos que preferem a ignorância. Os jornalistas têm que checar os números. E fazer as ressalvas que têm sido feitas. Mas a grande ironia é que os números, de certa forma, jogam a favor de Romário. Eis que quase todos os artilheiros milenares navegam na canoa baixinha. São autores de mil e tantos não comprovados gols.

O mais célebre deles é o brasileiro Arthur Friedenreich, que até o site da Fifa chegou a apontar como autor de mais de mil gols. Mas o jornalista Alexandre da Costa, autor de “O Tigre de Futebol”, um livro sobre Friendereich, conferiu registros dos jogos em que o artilheiro atuou em jornais da época e só conseguiu comprovar 554 gols em 561 jogos. A lenda (bem explicada recentemente por Maurício Stycer numa reportagem da revista Época) é de que ele teria marcado 1329 gols. A verdade está em algum lugar no meio - mas ninguém tem certeza do real número marcado por Friedenreich. E esse é o dado importante.

Outro artilheiro milenar seria o húngaro Férenc Puskas, que teria marcado 1176 gols em 1300 partidas. Mas um exame das estatísticas do baixinho gordinho que encantou o mundo nos anos 50 tira a lenda de campo. Gols checados e recheados do major húngaro foram, na verdade, 766 em 851 partidas (596 em partidas oficiais).

O alemão Gerd Müller, Der Bomber, é um fenômeno. A contagem germanicamente vitaminada de Müller chega a impressionante marca de 1461 gols em 1216 partidas com um detalhe histórico. O milésimo gol de sua vida foi (ou teria sido) aquele que deu o título da Copa de 1974 para a Alemanha. E isso sem contar os gols de Müller nos juniores do TSV Nördlingen (que seriam mais de 500!). Agora... levando em conta gols oficiais... Müller marcou apenas 735 vezes.

A lenda campeã é a do austríaco naturalizado tcheco Josef Bican, que teria marcado mais de cinco mil gols nos anos 30, 40 e 50. Bican era rapidíssimo (fazia 100m em 10s8), chutava com as duas (inclusive pênaltis) e, dizem, só perdia uma chance de gol em 20. Mas... seus gols verificados e comprovados foram meramente 643 pelos campeonatos austríaco e tcheco. Ele certamente fez bem mais que isso, pois a lista não computa nenhum jogo amistoso e sua carreira foi pra lá de longa: Bican começou em 1931, jogou pela Áustria na Copa de 1934 e só parou em m 1955 aos 42 anos.

Em outras palavras... em todas as contagens – mesmo na de Pelé – sempre foram incluídos gols não-contabilizados, para usar uma palavra da moda. Mas, nesse grande Caixa 2 de artilharia, todo Delúbio é perdoável. Porque todos os gols aconteceram – e a estatística no futebol só passou a ser levada a sério recentemente. O que importa é que os gols de Pelé pela seleção do exército foram gols. Os gols de Romário contra o Olaria aos 13 anos foram gols. Os gols de Gerd Müller pelo Fort Lauderdale Stars... foram gols. E fazer mil gols é impressionante de qualquer jeito.

São mil bolas na rede alheia. Mil vezes que o goleiro foi até o barbante buscar a redonda. Mil comemorações. Mil alegrias de um, dez, cem mil ou 180 milhões. Em outras palavras, ressalvas à parte, Romário merece caminhar rumo a seu último vestiário ouvindo aplausos – e não em silêncio. Merece um adeus épico e não uma despedida melancólica contra os times australianos da vida. Essa, no fundo, é sua última batalha. Quando, camisa número 1000 às costas, o Baixinho tirar as chuteiras pela última vez, o futebol terá ficado mais pobre. E Romário deixará o campo em seus termos - cercado de câmeras por todos os lados - rei-sol mais uma vez.
Escrito em 13/02/2007
Comentários: »   Permalink »
Por que ver os clássicos


O escritor italiano Ítalo Calvino publicou, em 1981, um livrinho distinto e charmoso chamado Por que ler os clássicos. No primeiro capítulo, Calvino apresentou 14 definições do que seria um clássico. Das 14, escolho uma:

“Um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer”

O leitor obviamente já desconfiou que este artigo pretende falar de clássicos, uma vez que tivemos um fim-de-semana repleto deles. Dostoievksi está para a literatura assim como um São Paulo x Corinthians para o futebol brasileiro. Borges está para lá como Botafogo x Flamengo está para cá. Cortemos para o fim do Século XX. Façamos um lançamento de Calvino para outro personagem, um certo centroavante cearense. Jardel, que brilhou no Vasco e no Grêmio, excelente com a cabeça - dentro de campo – nos ofereceu certa vez a seguinte, e lapidar, definição:

- Clássico é clássico e vice-versa.

Furtemos brevemente a definição de Calvino para assumir que um clássico é um jogo que nunca termina seu discurso. É uma história em andamento. E, neste fim-de-semana, tivemos seis capítulos em seis capitais diferentes. Seis jogos que valeram seus ingressos – e justificaram a nomeclatura. Na Europa, o jogos de grande rivalidade é chamado de derby. Vez por outra, nossa antropofágica tendência de tudo capturar, copiar e digerir comete deslizes. Já li jornais chamando de derbies os clássicos paulistas. Por favor... é um despropósito. Clássico é clássico. E vice-versa.

Dito isso, vamos a algumas breves palavras sobre os cinco jogos.


São Paulo 3 x 1 Corinthians – Morumbi

Quantas vezes você não leu/escutou/ouviu falar em botar o coração na ponta da chuteira? Se houvesse um campeonato de clichês de futebol, esse brigaria pela liderança no quesito repetição. Pois bem, o jogo de ontem no Morumbi serviu um pouco para desmistificar o clichê. Foi a vitória de um time maduro e equilibrado sobre um time raçudo e instável. Correr não basta... se o outro time também correr. Ter toda a raça do mundo não importa – se o outro time também tem essa raça. O São Paulo empatou as virtudes do Corinthians – a raça, a correria. E ganhou na técnica e na precisão.

O Corinthians até começou melhor, aproveitando a velocidade de Rosinei, Wilson e Élton. Mas ameaçou pouco. Leão costuma incendiar seus times – e tem conseguido tirar do Corinthians até mais que o elenco tem a oferecer. Com Élton, na ala esquerda, o time ganha velocidade e talento ofensivo – mas abre um senhor flanco defensivo. E há outro problema: Élton e Rosinei, como jogadores de meio, têm uma irresistível tendência de afunilar o jogo.

Quando o São Paulo ajustou a marcação na frente de sua zaga, dominou a partida. E deu o bote, no chute preciso de Lenílson. A se elogiar a incansável – não há outra palavra – disposição de Aloísio. Ele aterroriza as defesas adversárias. Não pára um minuto, briga por todas as bolas, dribla, perturba, incomoda. E acaba provocando falhas, como o erro bisonho de Marquinhos, que praticamente decidiu a partida.

No segundo tempo, o cenário não se modificou. O São Paulo tinha as melhores chances, o Corinthians corria. Em mais uma boa jogada, Aloísio deu o terceiro gol para Leandro – que depois, com sua presepada tradicional, ainda tirou Magrão do sério e do jogo. O ensaio de olé tricolor acabou chamando um gol corintiano. Roger & Cia continuaram a correr e tentar mas, com um jogador a menos, ficou difícil. O São Paulo de fevereiro é bem melhor que o Corinthians. Mas se Leão conseguir ajeitar sua defesa... a distância pode diminuir, especialamente quando Jean e Nilmar entrarem em campo.

Em nossa história em andamento... o tabu no "Majestoso" continua. O São Paulo não sabe o que é perder para o Corinthians desde 2003.


Botafogo 3 x 3 Flamengo - Maracanã
Foi um raro e belo jogo numa tarde de muita chuva no Rio de Janeiro. Belo porque foi aberto – porque Cuca, quando o Botafogo estava em vantagem no segundo tempo, quis fazer o quarto gol em vez de segurar o jogo. O Botafogo começou melhor, teve boas chances. A partir dos dez minutos, o Flamengo equilibrou, perdeu uma chance com Souza... e depois abriu o placar – num lance em que Jorge Henrique perdeu a bola no grande círculo. O Flamengo assumiu o jogo até que, aos 26 minutos, Cuca tirou o pavoroso Hiran e reequilibrou seu time. O Botafogo perdeu duas chances de empatar... até que Dodô deixoui Jorge Henrique na cara de Bruno – 1 a 1. O mesmo Jorge Henrique sofreu pênalti no primeiro minuto do segundo tempo (a falta começou fora da área... será que terminou dentro?). Dodô fez 2 a 1. Daí até os 15 minutos, o Botafogo perdeu quatro chances claras de gol.

Ney Franco adiantou seu time e dominou o meio-campo... até empatar aos 32 num lance previsível. A defesa do Botafogo é péssima em bolas altas. E Ronaldo Angelim sempre foi bom no jogo aéreo – em especial no ataque. Só que, logo após a saída de bola, Juan foi expulso. O Botafogo aproveitou a vantagem e fez o terceiro gol com Joílson – numa bela trama que começou com Juca e passou por Dodô. Teve a vitória nas mãos novamente mas conseguiu levar o empate num chutão do goleiro Bruno – em que Túlio quis fazer a linha de impedimento esperando que Obina roçasse de cabeça na bola. Roni agradeceu.

O jogo foi ótimo de se ver por conta das incontáveis chances de gol que se alternavam, lá e cá. Mas elas evidenciavam também a marcação frouxa e desajustada dos dois times. Uma profusão de botes errados e falhas de cobertura – queos ataques aproveitavam. Cuca, em especial, correu riscos (como sempre) quando poderia ter segurado o jogo. Mas... tivesse lançado Igor e levado o empate, receberia uma saraivada de críticas pelo suposto defensivismo. A se elogiar as atuações de Dodô, Jorge Henrique e do goleiro Bruno, os três destaques individuais do clássico. Que, como entretenimento, foi o melhor jogo do ano.

Triste, porém, foi ver Kleber Leite reclamar da arbitragem no fim do jogo. Quando Juan sofreu falta na borda da área contra o Cabofriense, e o mesmo Djalma Beltrami marcou pênalti, o dirigente rubro-negro não procurou a imprensa para falar de “reestruturação na arbitragem carioca”. O juiz era o mesmo, o lance foi parecido. E, na história sem fim deste clássico, outro tabu que continua. O Botafogo também não ganha do Flamengo... há algum tempo. Desde... 2004.


Atlético-MG 3 x 1 Cruzeiro – Mineirão (sábado)
Mas, não estivesse folgando num spa de videntes até o Campeonato Brasileiro e a bola de cristal teria previsto a vitória do Galo. Nada como uma boa previsão a posteriori, certo? Mas estava meio na cara – o Galo estava ferido, humilhado, segurando a lanterna. O Cruzeiro, cheio de si, peito inflado, jogava relaxado. Pelo que pude ver – o placar foi justo e expôs as limitações do time de Paulo Autuori – especialmente as defensivas. Gladstone continua sendo uma grande interrogação. O Galo, com Tchô e Danilinho, é um time veloz. Foi uma vitória maiúscula do time de Levir Culpi.


Sport 1 x 1 Santa Cruz – Ilha do Retiro
O clássico das multidões de Pernambuco perdeu um pouco de graça porque o título do primeiro turno foi conquistado por antecipação pelo Sport. Em suma, foi um jogo de faixas na Ilha do Retiro e o grande destaque do jogo foi o goleiro do Santa Cruz – Gottardi. O Sport abriu o placar com uma jogada de doix ex-tricolores. Passe de Carlinhos Bala, gol de Rosembrinck, no primeiro tempo. Na segunda etapa, o ex-rubro-negro Marco Antonio deixou tudo igual e disse depois que “foi mandado embora sem motivo” do Sport. O tabu que continua aqui é outro – o Santa não perde na Ilha do Retiro desde 2003.


Atlético-PR 2 x 2 Coritiba - Arena da Baixada
A Arena recebeu o primeiro Atletiba em muito tempo. Há 484 dias os rivais paranaenses não se encontravam (houve um desprezível jogo de reservas em 2006). O reencontro foi uma bela partida que terminou em 2 a 2 . O Coxa saiu na frente, levou a virada e empatou aos 30 minutos do segundo tempo. Os dois times estão empatados também na tabela de classificação com 12 pontos. O líder é o Galo Adap Maringá, com 21 distantes pontos. E o Coxa manteve sua vantagem no confronto direto contra o Furacão na história do clássico – são 128 vitórias do Coritiba contra 105 do Atlético-PR (e agora 99 empates).


Ceará 4 x 3 Fortaleza - Castelão

Não poderia faltar o chamado “Clássico-Rei” nesta breve lista. No confronto entre o Leão líder e o claudicante Vovô... deu Vovô num jogo repleto de gols. O Ceará venceu por 4 a 3. Destaque para Mazinho Lima, ex-jogador do Fortaleza, que fez o quarto gol do Ceará.



Escrito em 11/02/2007
Comentários: »   Permalink »