O arauto do futebol a vapor
Encontro o arauto do futebol a vapor no Hall do Maracanã, com sua bolsinha de suvaco, sua camisa de mangas curtas e suas verdades universais. Ele caminha dentro de um jeans amarrotado e gasto. É uma figura terna, embora ranzinza, um chato folclórico e histórico, capaz de repetir teses pré-cambrianas por horas a fio. Há quem diga que meia-hora com ele transforma o coelhinho da Duracell num autista de carteirinha.
Pois bem aí está ele, o arauto do futebol a vapor, vendo um jogo de futebol no Maracanã. Ele observa o jogo – e eu o observo. Suas sobrancelhas se movem pouco. A cada lance, seus lábios se contorcem. A testa se franze, os olhos se apertam. É nojo o que ele sente. Nojo. Júnior Baiano toca na bola. Ele se ofende.
- Júnior Baiano...
Duas irônicas palavras que condenam o futebol atual pela simples presença de Júnior Baiano em campo. Ele pode até estar certo mas... no minuto seguinte, Júnior Baiano faz um gol.
- Essa defesa do Vasco...
A virtude inexiste. Há apenas a ruindade, a imensa e imensurável ruindade do futebol atual, esse esporte praticado por burocratas insossos. É como se o futebol de verdade tivesse morrido numa imprecisa data, entre o fim da Seleção de 82 e o São Paulo de Telê... em sua concepção, vivemos uma grande era glacial da bola. Nada presta, apenas o passado.
E então me dou conta que tenho pena do arauto do futebol a vapor. Ele está condendado à prisão perpétua. Condenado a assistir para sempre um esporte que odeia. Órfão eterno do futebol dos anos 40 e 50, quando os goleiros corriam na direção da bola em vez de pular, sua vontade é escarrar na cara do futebol moderno. Tirar aquela cusparada profunda, viscosa e rodrigueana e esfregar em Dungas, Felipões, Luxemburgos, treinadores, dirigentes, jogadores. Mas não. Ele é obrigado a assistir os jogos e, mais grave, escrever sobre eles, analisá-los. É um martírio.
Ele sofre a cada jogada. Quando o jogo é da Seleção, a situação se agrava. A mera escalação de Elano lhe parece um crime de lesa-pátria. Assim como a presença de Dunga com a camisa 8, no passado recente, foi uma agressão. O arauto do futebol a vapor só admite estilistas, odeia operários. Em sua versão particular da história, o passado nunca registrou um grosso no meio-campo da Seleção. Nunca houve Zito, apenas Didi. Nunca houve Vavá, apenas Garrincha e Pelé.
E então me lembro de Nelson Rodrigues, de sua grã-fina de narinas de cadáver, aquela que chegava no Maracanã e perguntava...
- Quem é a bola?
Hoje vejo o arauto do futebol a vapor... e penso que ele seria capaz de perguntar “Quem foi a bola”? Seus verbos estão sempre no passado. Um passado onírico que ele defende com unhas e letras – ainda que a bola do presente lhe soe sempre murcha. Talvez nesta noite do Maracanã, a vitória do América sobre o Vasco tenha satisfeito seu coração nostálgico. Uma vitória do América em pleno Maracanã no Século XXI... parece realmente uma viagem no tempo.
Escrito em 08/02/2007