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Perfil

Gustavo Poli

Jornalista, 34 anos

Carioca, jornalista há 13 anos, trabalhou nos jornais O Globo e Lance! e está desde 1998 na TV Globo. Cobriu as Copas de 98 e 2002 e é co-autor do bem-humorado "Manual do mané" (Editora Planeta, 2003) e do "Almanaque do futebol" (Casa da Palavra, 2006).

E-mail: gustavo.poli@globo.com
Eleição no Rio


A Federação do Rio está oficialmente acéfala. O presidente, Rubens Lopes, foi afastado pela Justiça. O mediador nomeado inicialmente, José Teixeira Fernandes, também foi afastado. Na segunda-feira, a Justiça deverá nomear um novo mediador - ou interventor - que deverá confirmar ou adiar as eleições do próximo dia 12.

Ainda não se sabe se o presidente afastado pode concorrer - o procurador Rodrigo Terra, responsável pela ação que afastou Rubinho, garante que não. Mas os postulantes ao cargo que foi de Eduardo Viana devem cativar um imenso colégio eleitoral, no qual os clubes da primeira divisão estão longe de ser maioria. Eis o número de votos dos "eleitores" da FERJ:

Primeira divisão - 72 votos (12 clubes com seis votos cada)
Segunda divisão - 116 votos (29 clubes com quatro votos cada)
Terceira divisão - 54 votos (27 clubes com dois votos cada)
Clubes Amadores da capital - 11 votos (11 clubes com um voto cada)
Ligas - 40 votos (40 ligas com um voto cada)

Resumindo... a primeira divisão tem 149 votos a menos (221 a 72) do que ou outros eleitores somados. Por mais que Flamengo e Botafogo ensaiem uma mudança, é quase impossível derrotar a situação. Mesmo os clubes da Segundona que não gostam da administração Rubinho temem as possíveis retaliações caso votem numa candidatura alternativa. Em outras palavras... dificilmente o futebol do Rio vai mudar.
Escrito em 02/02/2007
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Pressões


O presidente do Cabofriense, Valdemir Mendes, disse agora há pouco, ao ser ouvido pela Rádio Brasil, que vai tentar anular o jogo de ontem, no qual seu time foi derrotado por 1 a 0 pelo Botafogo. O cartola não se conforma com o gol anulado pelo árbitro Fábio Calábria, atendendo ao aceno do auxiliar Hilton Moutinho.

- Queremos saber o que aconteceu. Vamos buscar nossos direitos - disse.

Existe uma guerra nos bastidores da Federação. De um lado, o Vasco, o presidente afastado Rubens Lopes e quase todos os pequenos. Do outro, Botafogo, Flamengo, América e talvez o Nova Iguaçu. O Fluminense finge que está no muro - mas sempre pende para o lado do Vasco. Ontem à noite, após a partida, Mendes jantou justamente com Rubens Lopes em Cabo Frio. Hoje anunciou a decisão de tentar anular a partida. Deve ser coincidência. Mendes sabe que as chances de anular a partida tendem a zero. Mas sabe também que toda pressão é válida.




Escrito em 01/02/2007
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Foi falta? Não foi falta?


Seria ironia dizer que este 31 de janeiro foi uma espécie de... 11 de setembro da arbitragem brasileira? Vejamos... no interior paulista, um juiz conseguiu soprar o apito inicial sem que houvesse bola em campo. No interior do Rio, um bandeirinha correu para o meio de campo... para confirmar um gol, freou e mudou de idéia. Foi um dia muito ruim mas 11 de setembro... 11 de setembro é exagero. Até porque 11 de setembro é o dia nacional do árbitro esportivo. Palavra de honra que não é ironia.

Apitar é cada dia mais difícil. O juiz é apenas um. Os bandeirinhas são dois. São três pares de olhos sem replay, sem tira-teima, com um ângulo só. Hoje, as câmeras de TV oferecem no mínimo seis outros ângulos. Seis outras maneiras de ver a realidade. O que foi falta num ângulo... noutro parece lance normal. Então... o juiz que acertou segundo o ângulo A, pode ter errado segundo o ângulo B. E os bons juízes de outrora – que erravam sem tanta marcação – hoje se transformaram em analistas do apito alheio. Com direito a replay, ar-condicionado e câmera lenta.

Então... examinemos os erros de ontem. No caso de Rio Claro x Barueri, o juiz Paulo Ferreira apenas esqueceu desse pequeno detalhe, a bola. Nada muito grave. Já houve técnico que fez treino sem bola (o chamado treino invisível)... por que não jogar sem bola? No Rio, o problema foi mais complexo.Não há juiz imune a pressão. O erro de ontem contra o Time X vai gerar reclamação, ficará na memória de torcedores, dirigentes e do próprio árbitro ou auxiliar. E ontem esse fator foi fundamental em Cabo Frio.

O lance ocorreu aos 39 minutos do segundo tempo. O Botafogo vencia o Cabofriense por 1 a 0. Falta para o time da casa. Esquerdinha cobra na área. O goleiro Max sai na direção da bola. O zagueiro Cléberson (do Cabofriense) pula de costas e esbarra em Max, atrapalhando sua defesa. Max cai e solta a bola nos pés de Roberto, que empata o jogo. O juiz assinala o gol.. O bandeirinha corre para o meio de campo e, de repente, muda de idéia e resolve comunicar que houve falta.

O bandeirinha Hilton Moutinho é um dos melhores do Brasil. Foi crucificado no ano passado porque errou num jogo entre Botafogo e Fluminense pela Copa Sul-Americana aos 49 minutos do segundo tempo. Ontem, depois que o juiz confirmou o gol para o Cabofriense, Moutinho correu na direção do meio. E então, subitamente, deve ter lembrado do erro milimétrico na Sul-Americana. E anulou o gol.

Depois de ver o lance inúmeras vezes, continuo na dúvida. Ao vivo, tive a sensação de que houve algo estranho. Nos primeiros replays... a impressão foi de jogada normal. A câmera de impedimento - posicionada lateral do campo, exatamente no ângulo do bandeirinha, me fez acreditar que foi falta. Não fosse o esbarrão de Cléberson, Max iria segurar a bola com facilidade. O zagueiro do Cabofriense saltou de costas. Será que ele buscou a bola? Será que ele tentou atrapalhar o goleiro? As imagens não são conclusivas. Por mais que não tivesse intenção de atrapalhar, Cléberson deu um tranco no goleiro. Imaginemos um lance em que o defensor vai na bola, erra e derruba seu adversário. É falta.

Se o árbitro marca a falta, nem haveria polêmica. Mas elogie-se aqui Fábio Calábria. Sua arbitragem havia sido tensa e ruim. Mas, neste lance, ele só acertou. Entremos na pele do juiz. De seu ângulo, encoberto por Cléberson, ele não teve como medir se o esbarrão foi falta sobre o goleiro. Não vendo falta... validou o gol – uma opção correta. O bandeirinha tinha um ângulo melhor – mas correu para o meio, cometendo o maior erro ao mudar de idéia. Ao ser informado por Moutinho da falta, Calábria novamente acertou – anulou o gol. Qual seria sua alternativa? Ignorar uma informação clara do auxiliar?

O comentarista de arbitragem José Roberto Wright foi categórico, dizendo que não houve falta. Muita gente concordou. Muita gente discordou. Mesmo com a overdose de replays em câmera lenta nos mais diversos ângulos não é possível ter certeza. Então... como crucificar o árbitro? É por isso que futebol é fascinante.

E isso apenas aumentará uma certeza deste colunista. A Fifa pode gemer, gritar, espernear e até demorar - mas vai ter que aceitar o replay. É impossível para qualquer juiz competir com a profusão de ângulos. E, para manter o espírito do jogo – o chamado fair play – é fundamental reduzir o número de erros. A sensação de que o jogo está sendo arbitrado com justiça é fundamental. E atualmente a concorrência entre seis olhos e mil câmeras é simplesmente desleal.

Até porque, como o lance de ontem demonstra, o replay não mata a polêmica. Pode até reforçá-la. Por isso, o sistema utilizado pela NFL (a liga de futebol americano) soa muito inteligente. Nele, o replay só muda a opção inicial do árbitro se houver evidência irrefutável de que houve um erro. É o futuro. Às vezes ele demora a chegar.. mas chega.
Escrito em 01/02/2007
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Caixa Postal


A Caixa Postal desta semana começa com uma informação e um apelo. A informação: infelizmente terei que reduzir o nível de tolerância com os comentários. Em tese, este democrático espaço está aberto para todo tipo de análise ou referência. Mas quando o assunto é totalmente esquecido em prol de provocações gratuitas e um bate-papo completamente vazio.. .chegamos a mensagens como a abaixo transcrita – que ganha o prêmio de...

O comentário nonsense da semana
Bernardo,Bagual seria um homem forte que anda a noite pelas lavouras escuras da fronteira, no inverno rigoroso de menos 0° graus.Um vento forte na cabeça , andar firme com um facão na cintura cara de mal um um chicote nos punhos. ATERRORIZANTE... - Gauchesco.

O resto do Brasil implica com a orgulhosa macheza do Rio Grande do Sul. Boa parte dos comentários gaúchos aqui são engraçados e implicantes na medida certa. Mas esse parece ter sido escrito na medida por um anti-gaúcho com o objetivo de sugerir justamente falta de macheza. Fiquei me perguntando... o que esse comentário estava fazendo ali? O que tem ele a ver com qualquer coisa? Talvez ele estivesse ali apenas para provocar reações como:

“Acho que os leitores do blog deveriam fazer um pacto de não responderem os blogs do nosso caro Gauchesco. Esse cara certamente tem algum distúrbio mental (entende de Freud como os presidiários entendem do Código Penal), não gosta de mulher (quer implantar teste de masculinidade para entrar no RS e adora o bagual) e não tem a menor noção da realidade geopolítica atual (não sabe de o RS é Estado, Província ou República). Felizmente, a imensa maioria dos gaúchos e gaúchas não são assim; conheço vários e nenhum tem idéias parecidas”

Em suma, essa breve troca de gentilezas serviu como argumento para que, a partir de agora, os comentários completamente desconectados do assunto da coluna não sejam mais bem-vindos. Inicialmente... serão deletados. Se ficar difícil monitorá-los... eu talvez tenha que voltar a pré-moderar o blog, algo que preferia não ter que fazer. O que nos leva ao segundo ponto – o apelo. A partir de agora, peço a todos os que quiserem deixar seus comentários que postem nome e cidade de origem. Quem fizer isso terá mais chance de ganhar uma citação neste nobre espaço. É um apelo pela redução do pseudônimo. Dito isso, vamos ao restante da Caixa:


A observação pertinente da semana
O Poli está comentando a atitude da Federação em afastar o Abade. O que motivou tudo isso é que ele disse, ao afinal do jogo, que havia levantado a mão para avisar o 4º árbitro de iria acrescer mais um minuto (não se sabe por que motivo). Disse também que o gol do São Paulo acontecera dez segundos após o prazo acrescido. A Globo apenas mostrou que ele mentiu em ambas as declarações. Por isso, e não por ter deixado a partida correr, é que ele foi afastado. Por ter mentido. Simples, como a regra. - Figueira

Comentário: Figueira, você tem razão. Faltou incluir no texto um comentário sobre a desculpa escapista e algo deslavada de Abade. Mas não creio que ele tenha sido afastado por causa disso. Ele foi afastado por causa do "caso criado". E, dada a repercussão do caso, é compreensível que Abade tenha tremido e inventado uma desculpa. Compreensível mas não perdoável – juízes não podem brincar de mentirinha. O principal patrimônio da categoria é (ou deveria ser) a credibilidade.

O comentário ser humano da semana
“Lembre-se que o juiz é ser humano, e como você, todo ser-humano tem o direito de errar!" Faustini Jr.

Comentário: Jamais esquecerei, Faustini Jr. Jamais esquecerei.


A recordação arbitral da semana
“POLI esta questão de interpretar a regra na sua literalidade já deu muito pano para mangas. Certa feita jogavam GRÊMIO x BRASIL DE PELOTAS. O TCHECO estava com um cartão amarelo. Lá pelas tantas, resolveu desferir uma "voadora" digna de luta livre. Fechou o tempo. Malandramente, TCHECO simulou uma lesão no lance e saiu de maca. Como a regra diz que o jogador só pode receber o cartão depois de estar em pé, não voltou mais. Substituiram o TCHECO, na confusão armada e com ele fora de campo, deitado, "sendo atendido". O juiz, literalmente interpretando e aplicando a regra, aceitou a substituição. E TCHECO livrou-se de uma expulsão certa e de uma suspensão automática." - Carambola

Comentário: Infelizmente, Carambola, isso cansa de acontecer. E é simplesmente falta da bom senso. O árbitro finge estar aprisionado pelas regras. O Tcheco tinha que ser expulso – deitado, em pé, sentado ou agachado.


A ofensa distinta da semana

“Gustavo Poli, você nao passa de um jornalista que faz parte de uma facção. A dos jornalistas que pertencem ao eixo do mal, o eixo Rio- São Paulo.Porque não falou do penalty sofrido pelo Tinga em 2005, em senhor Gugu? Mas não fique encabulado, se você quiser vim visitar a nossa província republicana, será muito bem recebido” - Gaucho da Fronteira

Comentário: Nobre e fronteiriço gaúcho... se todo texto sobre arbitragem deve incluir o pênalti sobre Tinga não marcado por Márcio Rezende de Freitas... talvez seja necessário incluir também o pênalti inventado por José Aparecido dos Santos na final da Copa do Brasil de 1992 no Beira-Rio... entre Inter x Fluminense... Erros de arbitragem sempre ocorreram e ocorrerão. Alguns são mais decisivos do que outros. O torcedor só lembra dos que ocorreram contra seu time.


A crítica psicológica da semana
"Acho que grande parte da imprensa está triste por esta seleção tê-la contrariado e, além de se classificar para as Olimpíadas, teve a empáfia de ser campeã invicta, deixando apenas o argumento da fragilidade dos adversários e a sorte para explicar seus erros de prognóstico." - Márcio - Uberlândia

Comentário: Márcio, a imprensa tem que criticar o que é ruim e elogiar o que é bom. A Seleção se classificou – todos ficamos felizes. Mas não podemos confundir campanha com performance. A Seleção nunca jogou bem. E se classificou porque persistiu, sim. Mas também por causa da fragilidade alheia.


A crítica estranha da semana
“Sequer citar os grandes jogadores Cassio, Lucas e a colorida Pato é ridículo e mostra uma vontade incrível do cronista de apenas criticar. Essa seleção não treinou, jogava a cada dois dias, o treinador era burro e teimoso, os gramados horríveis, os´árbitros safados (não foi só o do jogo do chile), mas a seleção teve méritos, sim. Poli: vc é tão ruim qto o treinador N. Rodrigues.” - Gremista Peleador

Comentário: Caro Gremista, fiquei confuso. Todos os seus argumentos foram usados no texto. Você não discordou de nada. E eu citei Lucas e Pato. Sou levado a concluir que você: 1) Não leu o texto. 2) Estava com muita vontade de criticar.


O comentário separatista da semana
Poli, na verdade vocês não valorizam a seleção, porque os três destaques foram os gaúchos Pato, Lucas e Cassio .Vocês são parciais ,se fossem o Diego Robinho do Santos tariam falndo bem, mas como sao os gaúchinhos que com GARRA classificaram vcs nao falam na de bom ne???? BAIRRISTAS. DEPOIS NAO QUEREM QUE O RS SE SEPARE.TEM MAIS QUE SE SEPARAR MESMO E DEIXAR DE LEVAR O BRASIL NAS COSTAS. - Flávio Dias

Comentário:Em caso de separação, Grêmio e Inter deixariam de jogar o Campeonato Brasileiro e passariam a disputar o Uruguaião, é isso? E seus jogadores passariam a jogar pela Celeste? Ou formariam uma nova e temível esquadra, a Seleção do Rio Grande? Falando sério... essa diatribe é vazia. O texto elogiava justamente Pato e Lucas – justamente porque, ao lado de Cássio, se salvaram nesta seleção fraquinha. Ou seja – as críticas eram para o resto da seleção, que não tinha muitos gaúchos. Menos complexo de perseguição, por favor.


A observação educada da semana
Pessoal, gostaria de fazer um apelo para quem faz ironias grosseiras. Porque não postamos opiniões sem depreciar os profissionais jornalistas ou ofendê-los? Eu não concordo com uma série de coisas no futebol brasileiro e a CBF, mas não ha sequer motivos para revoltas ou ofensas grosseiras, afinal o Brasil esta no pareo para correr atraz de um titulo inédito. Independente do futebol RJ-SP ser elitista, os técnicos ruins etc etc etc... muito menos de opiniões bairristas de Gauchos, Paulistas ou Cariocas... somos todos brasileiros quando o assunto é seleção brasileira, por favor. Paz - Bernardo.

Comentário: Paz, Bernardo.

Escrito em 31/01/2007
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A vida como ela é


No canto do vestiário, uma cabra vadia geme amarrada a um poste. Há um poste ali, não se pergunte o motivo. São vinte os jogadores da seleção brasileira que ouvem, calados, a palestra do técnico. O técnico Nelson Rodrigues fala. A voz é gutural. Os gestos são teatrais. A fala é profunda, é profana. As frases ganham instantânea eternidade.

- O jovem tem todos os defeitos do adulto e mais um – o da imaturidade.

O vestiário paraguaio tem eco. Imaturidade, ade, ade... Nelson ecoa e ressoa. A platéia juvenil, embevecida, ouve. Só pode ouvir:

- A mais tola das virtudes é a idade. Que significa ter quinze, dezessete, dezoito ou vinte anos? Há pulhas, há imbecis, há santos, há gênios de todas as idades.

Ali estão jovens que podem ou não ter futuro. Podem ser chamados de burros amanhã, de gênios quem sabe. Jovens que amanhã estarão nas manchetes dos jornais como irônicos heróis.

- Eu acho que o jovem só pode ser levado a sério quando fica velho

Uma seleção brasileira sub- 20 treinada por Nelson Rodrigues é um convite à imaginação de qualquer cronista. E justamente esta, a mais paraguaia das seleções brasileiras recentes, foi ser treinada justamente por um Nelson Rodrigues. Foi jogar o mais paraguaio dos torneios... justamente no Paraguai. E obteve a vaga olímpica que uma seleção de verdade deixou escapar em 2003.

E daí se até o Nelson Rodrigues em questão era meio paraguaio – era o treinador obscuro e não o dramaturgo genial? O torneio cuidou de envelhecer subitamente os jovens, batizá-los e crismá-los. Hoje, aos 17 anos, Alexandre Pato parece maduro. Lucas parece carregar a faixa de capitão de todas as seleções futuras. Por mais que tenha faltado talento, não faltou persistência. O time foi ordinário, nunca bonito. Mas venceu.

Comecemos pelo princípio. Esse era para ser apenas mais um desimportante sul-americano sub-20 que, de repente, ganhou um carimbo pré-olímpico, apanhando em curtas calças boa parte dos dirigentes sul-americanos, tirando Nelson Rodrigues, o técnico, do anonimato. E enchendo as páginas dos jornais de referências, citações, sobrenaturais de almeida e damas do lotação. Não é para menos. Observermos os nomes em seqüência: Zagallo, Wanderley Luxemburgo, Ricardo Gomes, Nelson Rodrigues. Essa é a lista de técnicos brasileiros nos últimos quatro pré-olímpicos, desde o instante em que ganhar o ouro olímpico passou a ser realmente importante.

Aconteceu em 1994. A Seleção de Parreira (é, de Parreira) tinha acabado de resgatar o orgulho futebolístico tupiniquim, conquistando a Copa dos EUA. O troféu mal esfriara quando Zagallo assumiu como treinador. Em sua primeira entrevista, o Velho Lobo estabeleceu um objetivo. Faltava ao Brasil, a potência universal do mundo da bola, um único galardão. Faltava uma medalha de ouro olímpica.

Até então, para a CBF, as Olimpíadas eram um cruzamento de chateação com burocracia. O futebol olímpico era cereja do sorvete alheio. E não tinha muita importância nem para a mídia nem para a torcida nacional. Tanto que o Brasil esteve em duas finais olímpicas nos anos 80 e perdeu ambas – sem grandes traumas.

Em 1984, o COI aceitou a participação de jogadores profissionais nos jogos. Como as Olimpíadas não eram exatamente um projeto da CBF, o Brasil foi representado pelo Internacional, que tinha Mauro Galvão, Dunga e Gilmar Rinaldi como destaques. Do time titular, só o lateral Ronaldo (Corinthians) e o meia Gilmar Popoca (Flamengo) não eram do Inter. O Brasil derrotou a Itália de Franco Baresi na semifinal... mas perdeu para a França na decisão.

Em 1988, o Brasil levou uma seleção de verdade. Taffarel, Jorginho, Mazinho, Bebeto, Romário. Comandada por Carlos Alberto Silva, a seleção derrotou a Alemanha de Klinsmann na semifinal... mas perdeu o ouro para a União Soviética na prorrogação. Foi uma frustração, mas esteve longe de ser uma tragédia. O tal ouro olímpico importava menos. Muito menos.

Em 1992, uma seleção com Júnior Baiano foi desclassificada no pré-olímpico ao empatar com a Venezuela em 1 a 1. E veio 1996, com toda a expectativa criada por Zagallo. A lembrança que ficou? Nas palavras de Galvão Bueno...

- Lá vai Kanu, ele é perigoso... acabou... acabou....

A derrota para a Nigéria na morte súbita foi um trauma. Trauma esse que foi sampleado e turbinado quatro anos depois pelo histórico vexame na Austrália. A seleção de Wanderley Luxemburgo (e Ronaldinho Gaúcho... e Alex...) conseguiu ser eliminada por Camarões em outra morte súbita com dois jogadores a mais. E 2004 foi ainda pior: a badaladíssima equipe de Diego, Robinho & Cia foi barrada antes do baile... pelos paraguaios

E eis que esta criticada e algo desacreditada Seleção conseguiu a vaga. Jogando mal, suando, penando, vencendo campos horrorosos e adversários limitados. Não importa. Foi uma Seleção repleta de jogadores que comprometeram mais do que prometeram. Foi uma Seleção que nunca convenceu – mas também nunca desistiu. Teve lampejos, raros. Teve sorte ocasional. Teve, sobretudo, fé.

Voltemos por um instante ao abstrato vestiário no Paraguai, no instante em que Nelson, o cronista genial, toma o corpo de Nelson, o técnico, para ouvir sua derradeira hipérbole antes da vitória sobre a Colômbia.

- Toda a história humana ensina que só os profetas enxergam o óbvio

Nelson Rodrigues sempre foi um pacheco de carteirinha. Sempre acreditou piamente na superioridade do jogador brasileiro em qualquer campo ou circunstância. Mais do que isso - enxergou como ninguém a alma brasileira através da bola. Há nomes que são eternos – que são maiores do que seus donos provisórios. Desta vez o óbvio estava ali, gritando diante de nossos olhos céticos - uma Seleção Brasileira treinada por Nelson Rodrigues jamais fracassaria. Não importa que Nelson Rodrigues.
Escrito em 29/01/2007
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