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Perfil

Gustavo Poli

Jornalista, 34 anos

Carioca, jornalista há 13 anos, trabalhou nos jornais O Globo e Lance! e está desde 1998 na TV Globo. Cobriu as Copas de 98 e 2002 e é co-autor do bem-humorado "Manual do mané" (Editora Planeta, 2003) e do "Almanaque do futebol" (Casa da Palavra, 2006).

E-mail: gustavo.poli@globo.com
Daiane, Brasil


Haverá um dia, em julho próximo, que o país inteiro vai silenciar por um instante. Será um silêncio ansioso, reverente e admirado, um silêncio até ritual, diante de uma brasileira de um metro e quarenta e cinco. Quando Daiane dos Santos pisar no tablado do Riocentro para exibir sua série de solo nos Jogos Pan-Americanos, milhões de olhos brasileiros estarão grudados em telinhas e telões país afora. O Brasil estará sintonizado em Daiane.

É um ritual conhecido. O silêncio precede o instante em que Daiane aponta para o alto e começa a dançar, correr e saltar ao som de “Isto aqui, o que é” (de Ary Barbosa). A performance dura 90 segundos em que uma corrente elétrica parece percorrer a platéia, eriçar cabelos e nucas, até o instante em que Daiane frisa seu derradeiro movimento e irrompem os aplausos. A cada vez que ela pisa naqueles 144 metros quadrados, somos escravizados. Daiane nos transforma em agradecidos fantoches de seu teatro particular. Talvez soe piegas –mas esse minuto e meio traz um surto de inescapável brasilidade.

Daiane marca um gol de seleção em Copa do Mundo por apresentação. Ou mais do que um gol, uma vitória condensada em noventa segundos. Ela canaliza esse sentimento meio vago e patriótico, que ora nos arrepia, ora nos envergonha. É o orgulho que temos do drible e da ginga – de Garrincha a Ronaldinho Gaúcho; é a vergonha que temos da ginga e do drible – da reeleição ao mensalão.

Daiane se chama Daiane por causa de uma princesa plebéia – Diana (pronúncia Daiana), que se casou com Charles, virou Lady, se separou e morreu num túnel parisiense, fugindo dos paparazzi. O nome inspirado na celebridade estrangeira é de uma antropofagia tipicamente brasileira. Lady Di (pronúncia Lêidi Dai) foi engolida, digerida, abrasileirada. Assim como a princesa inglesa, Daiane (apelido Dai) sempre foi peixe plebeu na água da realeza alheia. Nunca uma ginasta negra tinha vingado no Brasil. Nunca uma ginasta brasileira havia sido campeã mundial. Daiane derrubou os tabus com um salto carpado só.

Mas o orgulho nacional é um bicho cruel e desconfiado. Daiane ganhou seu título mundial em 2003, em Anahein, nos EUA. Virou celebridade súbita. Sua vida entrou debaixo desse gigantesco holofote sem filtros que nosso esporte desidolatrado gera. Foram toneladas de pressão em forma de perguntas, entrevistas, treinos, assédio, autógrafos, opinião. Cercada de pachecos por todos os lados, examinada, reexaminada, dissecada... debaixo da lupa, Daiane diminuiu. Seus joelhos sofreram. Seu corpo sofreu. Seu sorriso sofreu. E, justo quando não podia errar, na final das Olimpíadas de Atenas, Daiane errou. Pisou fora do tablado. Perdeu o ouro, ficou com o quinto lugar (o melhor resultado de uma brasileira na história) olímpico.

Os arautos do apocalipse não perderam a deixa. Baloubet de saias, gemeram uns. Nós avisamos, gritaram outros. Nossa máquina de moer ídolos não perdoa. Uma falha e abrimos nossa caixinha de maldades. O humor é nossa defesa diante do fracasso ou da tragédia. Quanto maior a morte, mais piadas fúnebres. Quando Ayrton Senna morreu (e foi uma morte imensa), houve um jornal carioca que deixou de publicar uma análise sobre o humor negro de então – porque não poderia publicar a reportagem sem as piadas – e não podia publicar as piadas sem causar revolta.


De nossos ídolos exigimos a perfeição. Eles são tão poucos que perdem o direito de falhar. Afinal, estamos com eles, somos eles, eles representam o que temos de bom e melhor – por mais que não saibamos exatamente o que isso quer dizer. Quando um ídolo erra, nos sentimos terrivelmente traídos. Misturamos decepção, raiva, revolta, tristeza. E culpamos.

Daiane, porém, driblou até esse destino. Sua maior acrobacia se deu fora do tablado, diante das câmeras. Assim que terminou sua performance, disse olhando para a câmera com um sofrimento maiúsculo e uma sinceridade singela: Errei, não deu. Aquele instante de sinceridade fez com que cada brasileiro – decepcionado, triste ou revoltado pela esperadíssima medalha que não veio – sentisse que a tristeza maior estava encapsulada naquele corpinho de um metro e quarenta e cinco. Daiane deixou o tablado de Atenas maior do que subiu.

A vitória de hoje, em geral, presume a derrota de ontem. Na ginástica, porém, surgem novos talentos por minuto – gente nova, literalmente nova – e por isso a regra nem sempre vale. Talvez a janela da oportunidade tenha passado para Daiane. No último mundial, na Dinamarca, ela ficou em quarto no solo apesar de ter feito uma bela exibição. Aos 23 anos, ela já é quase idosa para um esporte em que puberdade e magreza semi-anoréxica são virtudes, quase atributos. Ainda assim, Atenas passou, mas não foi embora. O sonho de Daiane está em Pequim – e não só o dela.

A ginástica artística é um esporte de baixinhas. Uma atleta de 1,64m como a fantástica russa Svetlana Korkhina, é quase um Shaquille O’Neal de collant. Mas mesmo nesse Xou da Xuxa esportivo, Daiane é especialmente baixinha. E diferente. Nunca teve silhueta de sílfide. Seu físico compacto e musculoso não dispensa seios, coxas, panturrilha. Os músculos definidos garantem sua impressionante impulsão. Mas para manter essa forma e apenas 5% de gordura corporal, Daiane ingere meras 900 calorias por dia – menos que uma barra de chocolate ao leite – e treina sete horas.

É uma rotina de sacrifício, dor, cansaço físico e mental. E assédio. E cobrança – a cobrança brasileira, surda, cínica, impiedosa. Imagine o leitor o que não se passará na cabeça de Daiane ao entrar no tablado chinês daqui a um ano e meio. Quatro anos de treino, dia em cima de dia, repetindo movimentos para exibi-los ali em noventa segundos, carregando milhões de olhos, ouvidos e dedos cruzados além de seus 41 kg. Em Atenas, Daiane soube perder. Em Pequim, saltando por fora, quem sabe... Que nosso pachequismo carpado possa ajudar desta vez.
Escrito em 20/01/2007
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Outra galáxia


A Premier League (a Liga Inglesa de futebol) acaba de anunciar que concluiu a venda de seus direitos estrangeiros para a temporada 2007-2008. Embolsou 625 milhões de libras esterlinas (cerca de R$ 2,6 bilhões) pela negociação. Isso se soma ao contrato caseiro mantido com a Sky e com a Setanta, assinado em maio de 2006, no valor de 1,7 bilhão de libras (R$ 7,1 bilhões). Como a Premier League ainda embolsa 400 milhões de libras (R$ 1,6 bilhão) pela venda de direitos para internet e celulares... o faturamento da Liga (e dos clubes) com direitos chega a módica quantia de R$ 11,3 bilhões.

A Premier League é a liga mais lucrativa do planeta. E mais do que dobrou o faturamento com direitos estrangeiros (o contrato anterior havia sido de 300 milhões de libras). O novo contrato é uma ótima notícia para os times mais “pobres” da liga, uma vez que os R$ 2,6 bi serão divididos igualitariamente entre os 20 clubes da PL. Ao contrário do contrato caseiro – em que metade da grana depende da posição do clube na temporada... e do número de jogos transmitidos. A diferença é grande. A previsão é que o campeão da temporada 07/08 embolse nada menos que 50 milhões de libras (R$ 210 milhões)... enquanto o 20º colocado deve embolsar meros 27 milhões de libras (R$ 113 milhões).

Vale observar que nenhum clube brasileiro tem orçamento para o futebol superior a R$ 100 milhões. Traduzindo - a receita de mídia do último colocado do campeonato inglês no ano que vem será maior do que a receita total de qualquer clube brasileiro. Não parece que estamos no mesmo planeta. Ou sequer na mesma galáxia.
Escrito em 18/01/2007
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Os Novos Pequenos


São quatro rostos novinhos em folha – ou quase. Quatro times que, dez anos atrás, não figuravam em mapa futebolístico nenhum. Você já tinha ouvido falar no Touro dos Canaviais? No Galo Azul? No Ninho da Garça? Bom, todos esses ingredientes estão presentes no Campeonato Paulista, o mais equilibrado estadual do Brasil, que começou na tarde deste dia 17. E, se o leitor tiver talento musical, ele pode até ajudar a escolher o hino da mais nova sensação do interior paulista, o Grêmio Recreativo Barueri.

O Barueri publicou hoje, em seu site, um edital de concurso público para escolha do hino do clube. Fundado em 1989, o Barueri só passou a ter futebol profissional em 2001. De lá para cá, só pegou elevador para subir. Foi marchando de divisão em divisão... ganhou a Série A-3 em 2005... e a Série A-2 no ano passado. Conseguiu mais que isso – conquistou vaga na Série B do Campeonato Brasileiro de 2007. Com apoio maciço, substancial e agressivo da prefeitura da cidade, o Barueri disputa seu primeiro Paulistão cheio de estilo.

Em seu site, o time se orgulha de estipular um teto salarial de R$ 6 mil. E não fica por aí - diz que o objetivo do clube é contar com atletas meio anônimos que estejam buscando projeção no futebol. A mascote do Barueri é uma abelha, pois o nome da cidade, em tupi-guarani, quer dizer “flor vermelha que encanta”. A prefeitura está reformando o estádio municipal – o objetivo é construir uma moderna arena para 40 mil pessoas, capaz de sediar jogos da Copa de 2014. Ah, e o compositor que mandar sua canção para Barueri até dia 28 de fevereiro... vai concorrer a um prêmio de R$ 5 mil.

Mas o Barueri é apenas o mais fashion e maquiado dos novos rostos do Paulistão. Nenhum outro estado projeta tantos times menores no cenário nacional. Nos anos 70, Guarani e Ponte Preta apareceram – o Bugre foi campeão brasileiro em 1978. Nos anos 80, tivemos a Inter de Limeira de Tato, Kita e Lê. Nos anos 90, o carrossel caipira do Bragantino, com Gil Baiano, Nei e Mazinho - liderados por Wanderley Luxemburgo. Nesta década, o São Caetano de Jair Picerni, duas vezes vice-campeão brasileiro, vice da Libertadores e campeão paulista de 2004. Até hoje, todos os fenômenos do interior apareceram, brilharam... e se apagaram – como o São Caetano ameaça fazer agora. Os novos pequenos têm a ingrata tarefa de driblar essa maldição. O modelo do Barueri, por exemplo, lembra muito o do São Caetano – o time conta com substancial apoio da prefeitura local.

Dos outros novos pequenos, o Rio Claro traz a face mais recauchutada. Fundado em 1909, o time tem títulos regionais na década de 1930. Só recentemente, aplicou uma dose futebolística de botox no rosto e começou sua ascensão. Conhecido como Aguinha no passado, hoje faz questão de ser chamado de Azulão (ou Galo Azul). Joga no Estádio Augusto Schimidt Filho, conhecido como Schmidtão, que pode receber 10 mil torcedores. O Galo Azul tem patrocínio de quatro empresas: uma viação rodoviária, um bingo, uma fábrica de cerâmica e uma fábrica de resinas industriais. Rio Claro tem 180 mil habitantes e fica a 170km da capital do estado.

A mais jovem das caras novas do Paulistão vem de uma das mais antigas cidades do estado. Guaratinguetá foi fundada em 1630, mas o clube da cidade só nasceu em em 1999 – ainda não completou oito anos de vida. Já foi administrado por um grupo ligado a Rivaldo e César Sampaio. Hoje é uma empresa – Guaratinguetá LTDA. A prefeitura da cidade investiu pesado no time e reformou o Estádio Dario Rodrigues Leite, o Ninho da Garça. Explique-se: Guaratinguetá, em tupi, quer dizer reunião de garças brancas. A cidade tem 110 mil habitantes e fica a 176 km da capital. O jogador mais conhecido do time é o goleiro Édson Bastos, que jogou na Série A do Brasileiro/06 pelo Fortaleza.

O quarto e último novo rosto, primeiro adversário do São Paulo na competição, é o Touro dos Canaviais, ou melhor, o Sertãozinho. Dono de um escudo idêntico ao do Santos – a única diferença é a cor, o grená em vez do preto. O time da capital brasileira do hóquei sobre patins se tornou profissional nos anos 70 e só agora chegou à elite paulista. O Touro começou a galgar parâmetros e divisões no fim dos anos 90, quando os empresários José Alberto Gimenez e Antonio Savegnago assumiram o time. Hoje, Gimenez é prefeito de Sertãozinho; e Savegnago, o presidente do Sertãozinho FC. A estrela dourada no escudo comemora o título da Série A-3. Sertãozinho tem 105 mil habitantes e fica a 341 km da capital.



Escrito em 17/01/2007
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