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Perfil

Gustavo Poli

Jornalista, 34 anos

Carioca, jornalista há 13 anos, trabalhou nos jornais O Globo e Lance! e está desde 1998 na TV Globo. Cobriu as Copas de 98 e 2002 e é co-autor do bem-humorado "Manual do mané" (Editora Planeta, 2003) e do "Almanaque do futebol" (Casa da Palavra, 2006).

E-mail: gustavo.poli@globo.com
O escudo explorado


O leitor Marco Valério Magalhães fez um comentário num tópico abaixo chamando atenção para um vídeo no youtube. Torcedor do Botafogo, Marco Valério ficou orgulhoso de ver o escudo do clube num comercial da Absolut Ruby Red, uma bebida lançada em 2006 pela marca Absolut Vodka. A Absolut pertence ao grupo Vin & Sprit, uma das 10 maiores empresas de bebida alcóolica do mundo. A V & S tem 2.500 empregados, sede em Estolcomo e faturou 9,8 bilhões de coroas suecas em 2005 (algo como R$ 3 bilhões).

O torcedor pode ficar orgulhoso. O clube não. O escudo - sua marca mais preciosa - está sendo utilizada numa propaganda de bebida alcólica. É caso de indenização. O vídeo tem três minutos e é voltado para propaganda online.
Escrito em 06/01/2007
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O homem do anti-doping


A revista Wired de janeiro traz uma interessante reportagem sobre Dick Pound, o presidente da Agência Mundial de Anti-Doping (World Anti-Doping Agency – WADA em inglês). A revista conta a trajetória do canadense Pound desde que começou a nadar, passando pelas piscinas olímpicas até sua meteórica ascensão como cartola. Pound foi presidente do Comitê Olímpico Canadense, depois se tornou um dos principais executivos do COI na gestão Juan Antonio Samaranch. É de sua lavra o salto financeiro dos direitos olímpicos de TV.

Sua última página olímpica foi escrita em 1988. Como advogado e canadense, ele aceitou defender Ben Johnson depois que o velocista foi flagrado no anti-doping na célebre final dos 100m rasos dos Jogos de Seul. Johnson jurou inocência – e Pound jurou ter acreditado. Quando a vaca se esfalfou no brejo anabolizado, ficou com uma olímpica cara de tacho.

Dick Pound se tornou um cínico e iniciou sua cruzada anti-doping. Criou a WADA, conseguiu que todos os esportes olímpicos aderissem ao estrito código da entidade e tornou o doping mais arriscado. Mas a reportagem é interessante porque mostra que a ética de Pound tem seus deslizes. Ele cansa de condenar atletas que não foram julgados. Vale a leitura.
Escrito em 05/01/2007
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Duas notinhas cariocas


Eduardo Viana já virou nome de troféu. O falecido Caixa D’Água dará nome ao troféu disputado pelas inúmeras ligas municipais da Federação de Futebol do Rio de Janeiro. Em 2006, o torneio foi vencido pela Seleção de Japeri, que ganhou o Troféu Alcides Antunes, entregue pelo próprio.

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O Botafogo pode ter um reforço na pré-temporada – ou melhor, O reforço. Ao contrário da previsão inicial, Dodô deverá desembarcar no Brasil já neste fim-de-semana. Pouca gente sabe mas o artilheiro do último Campeonato Carioca quase foi parar no Flamengo. Ele recebeu uma oferta substancial da Gávea e só não aceitou porque o Botafogo cobriu a proposta. Pesou então a identificação e o sucesso recente em General Severiano.

Escrito em 04/01/2007
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Almanaque da Libertadores - IV
O prefeito-cartola, a cadeia e a casa dos duendes



Em 20 de dezembro de 2006, Cúcuta parou. Pela primeira vez em sua história, o time da cidade, o Deportivo Cúcuta, conquistou o título de campeão colombiano. A cidade de 700 mil habitantes ferveu numa ebulição rubro-negra, que alguns jornais locais compararam ao terrível terremoto de 1875 – que destruiu Cúcuta. Depois de vencer em casa por 1 a 0, o Deportivo Cúcuta buscou um empate em Ibagué contra o Tolima (1 a 1) e trouxe a taça para casa. Essa casa é o fio desencapado que espera o Grêmio em fevereiro próximo.

Capital do departamento de Santander, Cúcuta foi fundada em 1733 como San José de Cúcuta. O sobrenome que permaneceu pertencia a um cacique da tribo motilone e quer dizer Casa dos Duendes. Os motilones são a identidade da cidade, o apelido do time e até do estádio. O Deportivo foi fundado em 1924 – como Cúcuta Sports Club – e se tornou profissional em 1949. Em 1950, inaugurou o Estádio General Santander – homenagem ao mais famoso filho da cidade, o general Francisco de Paula Santander.

Em campo, porém, o Deportivo Cúcuta nunca fez jus ao seu apelido – doblemente glorioso. Sua grande conquista até este ano havia sido o vice-campeonato de 1964. Em 1997 foi rebaixado e só conseguiu voltar à primeira divisã ao ganhar a Segundona em 2005. Em 2006, o time trocou de técnico e ez uma campanha espetacular com uma equipe homogênea baseada na frase predileta do treinador Jorge Luís Pinto:

- Em mis equipos, no hay capos.

Nas minhas equipes... não há chefes... nem estrelas. Foi assim que o operário Cúcuta derrotou o Tolima, um título que catapultou Pinto para a seleção colombiana. Fora de campo, porém, o Cúcuta tem um chefe – e que chefe. Trata-se do prefeito da cidade – Ramiro Suárez Corzo. Após a saída de Pinto, o prefeito pegou o telefone, ligou para outro Jorge Luís – Jorge Luís Bernal, técnico do Tolima, e acertou sua contratação.

- Conversei com o prefeito e acertei tudo – disse Bernál ao jornal El Tiempo.

Ou seja, o Deportivo tem um presidente, Angel García, mas quem manda é o prefeito (na foto com a taça). Não é para menos. Suarez Corzo é uma figura controversa. Eleito com 62% dos votos, ele tomou posse em janeiro de 2004. Em junho, foi preso pela polícia colombiana, acusado de ligação com as AUC (Autodefensas Unidas Colombianas), o principal grupo pára-militar de extrema direita do país. Os policiais descobriram registros de encontros do alcaide com sujeitos que atendiam por El Gato e El Iguana.

Ao ser preso, o prefeito tinha 80 milhões de pesos em casa (algo como R$ 80 mil). Não soube dizer de onde vinha o dinheiro. Cúcuta fica na fronteira da Colômbia com a Venezuela, a 568 km de Bogotá, uma área para lá de explosiva – onde as AUC e as FARC, a guerrilha de esquerda travam uma batalha territorial. Os dois grupos são acusados de ligação com o tráfico de drogas, seqüestro e extorsão de empresários e assassinatos políticos.

Mas, lá como cá, a poeira foi baixando e, oito meses de cadeia depois, o prefeito foi solto por falta de provas. Uma vez em liberdade, reassumiu seu posto formal na prefeitura (e o informal no clube). E começou um processo de reforma do Estádio Santander, apelidado de Fortín Motilon, para elevar sua capacidade de 28 mil para 42 mil lugares. É nesse caldeirão que o Grêmio vai jogar em fevereiro.

Suárez Corzo fatura com o time e vive às turras com o principal jornal de Cúcuta, o La Opinión. Em 2005, o alcaide proibiu que o departamento de imprensa da prefeitura fornecesse informações a uma jornalista (Gala Marcela Peña Alvarez) do jornal. O crime de Gala? Publicar a investigação sobre depósitos na conta de um funcionário público que envolvia o prefeito. Antes da proibição, Suárez fez questão de insultar a jornalista em um programa de rádio.

Dentro de campo, o time se prepara para a Libertadores entre más e boas notícias. A pior novidade foi a saída do volante Macnelly Torres (autor do gol do título), que pertencia ao Junior de Barranquilla e foi vendido por US$ 400 mil a um grupo de empresários russos.
Mas o time também buscou reforços. Do Santa Fe y Pereira veio o atacante Victor Cortés, de 30 anos. Do Deportivo Pasto, o lateral esquerdo Alexander del Castillo. E do América de Cáli, o lateral direito Rúben Darío Bustos. O time vai manter três estrangeiros: o panamenho Blás Perez e os uruguaio Charles Castro e Roberto Bobadilla.

A euforia do prefeito-cartola com o título só não foi maior que sua imodéstia. Depois de erguer a taça, ele disse:

- É justiça divina. O povo cucutenho esperava há 57 anos por esse título. Dou graças a Deus que pude trazer esse triunfo. Tiramos o time da Série B e agora ganhamos o título. Demorei um ano porque estava preso, mas conseguimos. E agora queremos mais.

O Grêmio que se prepare para o caldeirão de Cúcuta.


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Um adendo ao post sobre o Audax Italiano, adversário chileno na primeira fase da Libertadores. O repórter Lúcio de Castro - membro da fraternidade do blog - lembrou que foi pelo Audax que Zizinho, o mestre Ziza, fez uma de suas últimas partidas. Contratado em 1961 como técnico, o ex-craque de Bangu, Flamengo e São Paulo foi instado pelos dirigentes a jogar uma vez com a camisa verde. E acabou cedendo. Quando São Paulo e Audax se enfrentarem, no mês que vem, lembraremos que um eles tiveram... Zizinho em comum.
Escrito em 03/01/2007
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O legado de Romário


Ele caminha, de um lado para o outro, perto da meia-lua. Houve um tempo em que enfrentá-lo fazia tremer o mais frio dos zagueiros. Não mais. Ele ainda sabe proteger uma bola, ainda enxerga o jogo. Mas corre pouco, se desloca menos ainda. Se tornou um predador veterano, à espera da presa bêbada ou distraída. Há craques que escolhem parar no auge. Há outros que preferem jogar até o derradeiro e infalível minuto.

Romário é um jogador de desenho animado, disse certa vez o argentino Jorge Valdano em 1994. Valdano, diretor do Real Madri, salivava com o atacante do Barcelona. Romário parecia ter seis marchas, lembrava mesmo o Papa-Léguas deixando os zagueiros adversários como impotentes coiotes. Era um Romário veloz, ágil, liso. Hoje, aos 41 anos, sobrou apenas o faro de gol - a capacidade única de adivinhar trajetórias e finalizar com precisão – para Romário de Souza Faria.

Há quem diga que é triste ver Romário hoje, com a agilidade de um crustáceo com paralisia. É triste vê-lo porque a comparação é cruel. Lembramos da artrose que Romário provocou na coluna de Amaral, com um elástico de moldura no Pacaembu, e comparamos com o baixinho imóvel e inanimado que insiste em vagar pelos gramados em busca do gol 1000. E hoje vemos seu futebol definhando a olho nu, enquanto ele, quixotescamente, enfrenta moinhos de vento australianos ou americanos e veste camisas menos votadas;

Romário foi o melhor atacante brasileiro desde... Careca, Reinaldo, Tostão? Talvez tenha sido o melhor atacante brasileiro, ponto – com a ressalva de que a ARB (Agência Reguladora deste Blog) exclui Garrincha e Pelé de qualquer comparação do gênero. Romário tinha força, velocidade, visão, competência, clarividência, antecipação. Prendia os zagueiros com o corpo troncudo. Com 1,68m, era um cabeceador impressionante. No chão, tinha o chute forte, o chute seco, o toque desmoralizante e até o bico. E tinha, mais do que isso, uma autoconfiança executiva.

Romário prometia e fazia. Hoje, ele até pode ser apenas mais um baixinho na paisagem do Rio de Janeiro, ouvindo vez por outra um “fala, Romário” casual, dando um o outro autógrafo. Parece distante o tempo em que era literalmente o cara, o homem mais famoso do Brasil, com seu toque de midas boleiro. Tinha uma vasta corte, andava cercado de acólitos, chegou a ter batedores para um torneio de futevôlei na praia, popularizava gírias.

Romário só não driblava a polêmica – preferia matá-la no peito. E isso ajudou a lustrar sua reputação. O rebelde de cabelo cheio, que dirigia um fusquinha, cresceu, virou pai de família, cortou o cabelo rente, teve uma vasta prole, colecionou mulheres no oficial e no paralelo. Trocou o fusquinha por porsches e ferraris, derrapou nas delícias da fama, chegou a ser dizer “deus”. Mas soube reencontrar seu rumo e regressar. Voltou ao início, voltou ao Vasco, para eternizar a camisa 11 que desde sempre levou nas costas.

Não deixa de ser irônico que o Vasco tenha imortalizado a camisa de um craque que mandou a arquibancada cruz-maltina chorar – ao fazer um gol pelo Flamengo. A memória do torcedor é curta – e a alegria de hoje perdoa a ironia de ontem. Romário fez mais pelo Vasco do que por Flamengo e Fluminense – mas nunca foi vascaíno, rubro-negro ou tricolor. Quando estava começando em São Januário, ainda no fim dos anos 80, Romário disse que aos 28 anos ia jogar no América e depois parar. Aos 28 anos, ele estava no Barcelona e era campeão da Copa do Mundo. O América era o time de seu pai, seu Edevair. Romário também nunca foi América – Romário sempre foi Romário F.C., um craque em busca de uma área.

E, dentro da área, ou arrancando em sua direção, Romário jogou em alto nível até 2002, ou seja, até os 36 anos. Para quem acompanhou a carreira inteira de Romário, hoje é até estranho vê-lo como um jogador-senhor-de-idade, às vésperas da aposentadoria. Romário sempre pareceu jovem. Por isso soa estranho constatar que faz faz 20 anos que Romário se tornou sinônimo de gol. Faz 20 anos que ele começou a fazer gols pelo Vasco.

A imagem que fica é a do outro Romário, aquele capaz de partir do meio-campo com a bola e parar dentro do gol, de mudar de velocidade e direção num pique e chegar antes do adversário, como fez na vitória do Brasil sobre o Uruguai por 2 a 0 nas eliminatórias de 1993. A melhor atuação de um jogador que vi no Maracanã: Romário driblou, deu chapéu, meteu bola por entre as pernas e, claro, fez os dois gols do jogo. Classificou o Brasil de Parreira para a Copa de 94, prometeu que iria trazê-la. E trouxe.

Foi o episódio que definiu o primeiro e único reinado de Romário. Depois de 94, ele nunca voltou a uma Copa do Mundo. Sua aversão aos treinos começou a cobrar a conta de coxas e panturrilhas. Em 1998, já se falava no fim de sua carreira. E aqui estamos, em 2007, só agora chegando ao epílogo. E, neste restinho de filme, Romário ainda corre. Corre atrás de sua última meta.

E esta meta é metralhada por ironias. Justas ironias, por conta da óbvia malandragem romária na contagem dos gols. Há gols de toda sorte e gênero no livro do baixinho. Há quem diga que ele contou até gols em dupla de praia e cascudinho (e normalmente só se contam jogos oficiais). Mas, apesar da ressalva, foram gols, certo? E chegar aos mil gols – com qualquer contagem - é um feito impressionante.

O Brasil costuma ser cruel com seus ídolos. Somos narcisos às avessas, como bem disse Nelson Rodrigues, e adoramos cuspir na nossa própria imagem, sendo urinando no Maracanã, fazendo brincadeiras fúnebres ou maltratando nossos ídolos. Ai do atleta que ousar prometer e não cumprir. Ou ai do atleta, como Guga, que ousar acreditar que é possível voltar.

O Romário de antes não volta mais, é claro. O jogador de desenho perdeu a animação, virou retrato de jornal, imagem no google, lembrança. Mas lembrar é preciso. Quando Romário de Souza Faria tirar suas chuteiras pela última vez, o futebol ficará mais pobre. Por mais que cada geriátrico passo seu em campo nos diga que o tempo rouba do craque sua capacidade de encantar (e perdoa o perna-de-pau), há algo de nobre nessa última jornada. Os mil gols de Romário serão um legado, serão seu legado.

E, com ressalvas ou não, só Romário, além de Pelé, terá feito isso. Daqui a cinquenta oui cem anos, falaremos de Romário, que fez mil gols, e parou de jogar em 2007.
Escrito em 31/12/2006
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