Almanaque da Libertadores - IV
O prefeito-cartola, a cadeia e a casa dos duendes
Em 20 de dezembro de 2006, Cúcuta parou. Pela primeira vez em sua história, o time da cidade, o Deportivo Cúcuta, conquistou o título de campeão colombiano. A cidade de 700 mil habitantes ferveu numa ebulição rubro-negra, que alguns jornais locais compararam ao terrível terremoto de 1875 – que destruiu Cúcuta. Depois de vencer em casa por 1 a 0, o Deportivo Cúcuta buscou um empate em Ibagué contra o Tolima (1 a 1) e trouxe a taça para casa. Essa casa é o fio desencapado que espera o Grêmio em fevereiro próximo.
Capital do departamento de Santander, Cúcuta foi fundada em 1733 como San José de Cúcuta. O sobrenome que permaneceu pertencia a um cacique da tribo motilone e quer dizer Casa dos Duendes. Os motilones são a identidade da cidade, o apelido do time e até do estádio. O Deportivo foi fundado em 1924 – como Cúcuta Sports Club – e se tornou profissional em 1949. Em 1950, inaugurou o Estádio General Santander – homenagem ao mais famoso filho da cidade, o general Francisco de Paula Santander.
Em campo, porém, o Deportivo Cúcuta nunca fez jus ao seu apelido – doblemente glorioso. Sua grande conquista até este ano havia sido o vice-campeonato de 1964. Em 1997 foi rebaixado e só conseguiu voltar à primeira divisã ao ganhar a Segundona em 2005. Em 2006, o time trocou de técnico e ez uma campanha espetacular com uma equipe homogênea baseada na frase predileta do treinador Jorge Luís Pinto:
- Em mis equipos, no hay capos.
Nas minhas equipes... não há chefes... nem estrelas. Foi assim que o operário Cúcuta derrotou o Tolima, um título que catapultou Pinto para a seleção colombiana. Fora de campo, porém, o Cúcuta tem um chefe – e que chefe. Trata-se do prefeito da cidade – Ramiro Suárez Corzo. Após a saída de Pinto, o prefeito pegou o telefone, ligou para outro Jorge Luís – Jorge Luís Bernal, técnico do Tolima, e acertou sua contratação.
- Conversei com o prefeito e acertei tudo – disse Bernál ao jornal El Tiempo.
Ou seja, o Deportivo tem um presidente, Angel García, mas quem manda é o prefeito (na foto com a taça). Não é para menos. Suarez Corzo é uma figura controversa. Eleito com 62% dos votos, ele tomou posse em janeiro de 2004. Em junho, foi preso pela polícia colombiana, acusado de ligação com as AUC (Autodefensas Unidas Colombianas), o principal grupo pára-militar de extrema direita do país. Os policiais descobriram registros de encontros do alcaide com sujeitos que atendiam por El Gato e El Iguana.
Ao ser preso, o prefeito tinha 80 milhões de pesos em casa (algo como R$ 80 mil). Não soube dizer de onde vinha o dinheiro. Cúcuta fica na fronteira da Colômbia com a Venezuela, a 568 km de Bogotá, uma área para lá de explosiva – onde as AUC e as FARC, a guerrilha de esquerda travam uma batalha territorial. Os dois grupos são acusados de ligação com o tráfico de drogas, seqüestro e extorsão de empresários e assassinatos políticos.
Mas, lá como cá, a poeira foi baixando e, oito meses de cadeia depois, o prefeito foi solto por falta de provas. Uma vez em liberdade, reassumiu seu posto formal na prefeitura (e o informal no clube). E começou um processo de reforma do Estádio Santander, apelidado de Fortín Motilon, para elevar sua capacidade de 28 mil para 42 mil lugares. É nesse caldeirão que o Grêmio vai jogar em fevereiro.
Suárez Corzo fatura com o time e vive às turras com o principal jornal de Cúcuta, o La Opinión. Em 2005, o alcaide proibiu que o departamento de imprensa da prefeitura fornecesse informações a uma jornalista (Gala Marcela Peña Alvarez) do jornal. O crime de Gala? Publicar a investigação sobre depósitos na conta de um funcionário público que envolvia o prefeito. Antes da proibição, Suárez fez questão de insultar a jornalista em um programa de rádio.
Dentro de campo, o time se prepara para a Libertadores entre más e boas notícias. A pior novidade foi a saída do volante Macnelly Torres (autor do gol do título), que pertencia ao Junior de Barranquilla e foi vendido por US$ 400 mil a um grupo de empresários russos.
Mas o time também buscou reforços. Do Santa Fe y Pereira veio o atacante Victor Cortés, de 30 anos. Do Deportivo Pasto, o lateral esquerdo Alexander del Castillo. E do América de Cáli, o lateral direito Rúben Darío Bustos. O time vai manter três estrangeiros: o panamenho Blás Perez e os uruguaio Charles Castro e Roberto Bobadilla.
A euforia do prefeito-cartola com o título só não foi maior que sua imodéstia. Depois de erguer a taça, ele disse:
- É justiça divina. O povo cucutenho esperava há 57 anos por esse título. Dou graças a Deus que pude trazer esse triunfo. Tiramos o time da Série B e agora ganhamos o título. Demorei um ano porque estava preso, mas conseguimos. E agora queremos mais.
O Grêmio que se prepare para o caldeirão de Cúcuta.
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Um adendo ao post sobre o Audax Italiano, adversário chileno na primeira fase da Libertadores. O repórter Lúcio de Castro - membro da fraternidade do blog - lembrou que foi pelo Audax que Zizinho, o mestre Ziza, fez uma de suas últimas partidas. Contratado em 1961 como técnico, o ex-craque de Bangu, Flamengo e São Paulo foi instado pelos dirigentes a jogar uma vez com a camisa verde. E acabou cedendo. Quando São Paulo e Audax se enfrentarem, no mês que vem, lembraremos que um eles tiveram... Zizinho em comum.
Escrito em 03/01/2007