O tempo no futebol - uma proposta
Por conta do post em que falava do bandeirinha, recebi um e-mail de um companheiro aqui da Globo, Carlos Veloso, que reproduzo abaixo. Ele faz uma análise sobre o tema. E levanta uma proposta interessante de mudança de regras:
Em um mundo ideal onde as pessoas compreendessem o lado dos árbitros, apesar da revoltas injustas contra estes diminuírem, o Futebol continuaria a conviver com 2 problemas sérios:
1) Resultados construídos em lances ilegais (mesmo entendendo que o árbitro tem o direito de errar, será que é bom para o Esporte que um time seja prejudicado?).
2) Má-fé na arbitragem
Existem dois tipos de má-fé:
2.1) Aquela tipo Edílson que já entra em campo determinado a ajudar uma equipe - acho até que esta é mais rara.
2.2) E a má-fé que acontece em praticamente todo o jogo e que é vinculada à compensações. Tudo mundo que acompanha futebol sabe que, se o time adversário tomar um cartão vermelho, qq falta simples de seu time será punida com cartão até que alguém seja expulso, faltas inexistentes perto da áera serão marcadas, etc
Do ponto de vista técnico, quão menos questionáveis forem seus resultados, mais adequadas são as regras de um determinado esporte. Até entendo que, do ponto de vista da população e, por conseqüência, da mídia, polêmicas na dose certa (leia-se, quando prejudicam "os outros") são bem-vindas. Mas vamos fingir que queremos abolir as polêmicas.
Quanto mais influência a arbitragem tem sobre os resultados de uma competição, mais questionáveis estes o são. Pegando exemplos de extremos, e só você ver quantas vezes se reclama da arbitragem na ginástica artística da quantas vezes na natação. Com a evolução preparação física dos jogadores, acho que o futebol acabou se deslocando além do ponto ideal em direção à extremidade da ginástica. No fundo, o futebol precisa fazer um ajuste no nível de infuência que a arbitragem tem sobre o resultado do jogo. A adição da tecnologia para tirar dúvidas, como acontece no futebol americano e recentemente implementada no tênis, é uma das ferramentas que podem trazer bons resultados se forem bem planejadas. Recentemente, nestes dois esportes, aconteceram lances críticos que, antes da tecnologia, teriam invertido o vencedor:
- Futebol americano: Jogo desta temporada – Arizona Cardinals x Chicago Bears - 4o período - Um touchdown que daria a vitória ao Arizona foi cancelado e o Chicago acabou virando um jogo praticamente impossível - estava 23-3 no 2o tempo para o Arizona.
- Tênis: Masters Series de Madrid - Roger Federer x Robin Soderling - Os últimos 2 pontos da partida - Federer venceu o tie-break do 2o set por 10 a 8 após questionar 2 bolas dentro e o VT mostrou que as bolas havima saído por milímetros.
No futebol, além do uso da tecnologia, há outras maneiras de se reduzir a influência da arbitragem. Como o próprio Edilson confessou, uma das maneiras mais utilizadas pelos árbitros para inlfuenciar o resultado de um jogo, é amarrá-lo no meio de campo com faltas, fazendo o tempo correr quando interessa, pois são menos identificáveis pelos comentaristas e torcedores como roubos claros. Os próprios times se utlizam de recursos mesquinhos para vencer um jogo do tipo cai-cai, substituições aos 47 do segundo tempo, mandar gandula embora etc.
Talvez ao ajuste mais importante e menos complexo a ser feito hoje pelo futebol não seja nem a tecnologia, nem a zona de impedimento, mas transformar o jogo em 2 tempos de 30 minutos úteis de bola rolando. Tirando o futebol e o handball, é difícil imaginar outro esporte de confronto que não seja jogado ou por pontos ou por tempo útil. O futebol mesmo já entendeu que o antijogo é um problemaço (acabou com o recuo para o goleiro, colocou n bolas nas mãos dos gandulas, agora está mandando os árbitros punirem quem retarda a cobrança de uma falta, etc). Mas ainda não tomou a medida mais eficiente, que seria mexer no tempo. Ao mesmo tempo em que acaba as estratégias de anti-jogo dos times, acaba com a influência dos árbitros sobre o tempo.
Escrito em 30/12/2006
Almanaque da Libertadores – 3
A empresa elétrica
Nosso Raio-X dos adversários menos famosos dos times brasileiros na Libertadores prossegue hoje com um futuro adversário do Internacional. O campeão do mundo, como se sabe, vai enfrentar o Nacional (URU) o Emelec (EQU) e o vencedor do confronto entre Vélez Sarsfield (ARG) e Danúbio (URU). Depois do sorteio, a sensação geral foi de que o Inter teve azar e pegou um dos grupos mais complicados da competição. Além de pegar o Nacional, um rival tradicional, há a possibilidade de pegar um argentino ou outro uruguaio. E, como na Libertadores-06, o Inter suou muito para superar a LDU equatoriana nas quartas-de-final, a impressão era de que o Emelec também não deve ser bobo. Será que não? É dele que vamos falar.
Emelec
Emelec é uma sigla. O segundo adversário do Inter na Libertadores é, por extenso, a Empresa Electrica Ecuatoriana. O norte-americano George Capwell imigrou para o Equador no início do Século XX, para trabalhar como executivo da companhia de eletricidade do país. Com um grupo de empregados, El Gringo fundou o clube em 1929. Mas Capwell não gostava muito de futebol – preferia basquete e beisebol. Só foi convencido a deixar o Emelec a entrar no velho e violento esporte bretão em 1940.
E mesmo assim fez uma exigência: o futebol só continuaria se o clube fosse campeão. Não deu outra – o Emelec ganhou a Série C equatoriana. E começou a construir seu estádio, o primeiro do país, batizado de George Capwell e carinhosamente chamado de La Caldera – com capacidade para 18 mil pessoas. O estádio está sendo reformado para receber até 50 mil pessoas.
O Emelec já conquistou dez títulos equatorianos, sendo o último em 2002. Para a Libertadores-07, o clube se classificou como vice-campeão. É um dos dois principais clubes de Guayaquil (o outro é o Barcelona) e os jogadores são chamados de electricos ou millionarios (o Emelec é o time da aristocracia de Guayaquil, o Barcelona é o time das classes populares).
Para a Libertadores, o time da camisa azul com faixa branca no peito está sendo refeito. Os dois principais destaques da equipe em 2006 foram argentinos emprestados pelo Boca Juniors: os atacantes Marcos Mondaini e Luís Miguel Toro Escalada. Artilheiro da temporada 2006 no Equador, Toro Escalada foi vendido pelo Boca a um grupo de “investidores europeus” por US$ 1 milhão. Mondaini ainda pode voltar ao Equador, mas está relacionado para o plantel do Boca em 2007. Por isso, o time está tentando contratar dois atacantes que se destacaram em times equatorianos menores: um argentino – Hernan Barco (do Olmedo) – e um colombiano – Wilson Segura (do Aucas, rebaixado para a segunda divisão).
O Emelec perdeu também os zagueiro Peter Mercado (que foi jogar pela Universidad Católica, do Chile) e Juan Triviño – que foi para o Deportivo Quito.. E ainda pode perder outros jogadores, como o volante Noboa . Boas notícias para o Inter – ao que parece o bicho equatoriano, desta vez, será mais manso.
Escrito em 28/12/2006
Almanaque da Libertadores – 2
Audax Italiano e a Interliga
Depois da breve incursão pelo passado de Potosí, cidade do Real Potosí, adversário do Flamengo na Copa Libertadores da América, falemos um pouco do que enfrentarão os outros times brasileiros. Comecemos pelo São Paulo, que já conhece duas das pedras que terá pelo caminho: o Audax Italiano (do Chile) e o Alianza Lima (do Peru). A terceira pedra sairá do Torneio Interliga – disputado por oito times mexicanos nos Estados Unidos dos dias 3 a 13 de janeiro (quem disse que os EUA não participavam da Libertadores?). O campeão do Interliga entrará direto no grupo do São Paulo.
Os dois campeões mexicanos de 2006 não participam da Libertadores/07 – os ganhadores do Apertura (Pachuca) e do Clausura (Chivas Guadalajara) locais disputam a Copa dos Campeões da Concacaf. Participam da Interliga os sete melhores colocados do Apertura e do Clausura (exceto os campeões) e o América do México (aquele mesmo que levou a sapatada do Barcelona no Japão) – que perdeu a decisão da primeira vaga mexicana na Libertadores para o Toluca.
A Interliga terá oito times divididos em dois grupos. No Grupo A, ficarão Cruz Azul, Necaxa, Monterrey e Tigres. No Grupo B, jogarão América, Jaguares, Tecos e Monarcas. Dois de cada grupo se classificam para duas “finais” – os ganhadores de cada partida se classificam para a Libertadores – sendo que quem tiver melhor campanha na primeira fase irá para o Grupo do São Paulo. E o segundo irá para a repescagem. Em vez de semifinal e final.... duas finais. Mas, bom, por ora falemos dos rivais conhecidos. Hoje, comecemos pelo mais... desconhecido deles.
Audax Italiano
O Audax Italiano tem muitas semelhanças com o Palmeiras. A camisa é verde num tom quase idêntico ao usado pelo time do Palestra atualmente. Não por acaso, os dois clubes foram fundados por imigrantes italianos. A diferença no uniforme é que o Audax tem duas listras com as outras cores da bandeira italiana – branca e vermelha. O presidente do Audax se chama Valentin Cantergiani Casanelli – o nome já indica um descendente da Velha Bota.
Assim como o Palmeiras, o Audax tem quatro títulos nacionais em sua história – mas o último veio em 1957. O Audax, que começou como clube de ciclismo (se chamava Audax Club Ciclista Italiano – hoje trocou o Ciclista por Esportivo) participou da fundação a Associação Central de futebol chilena em 1933. E, na semana passada, perdeu a chance de quebrar seu jejum ao ser derrotado pelo Colo Colo na final do Clausura, um dos dois campeonatos anuais do país.
O apelido do time é Los Audinos e o técnico é Raul Toro. Os destaques do Audax são Carlos Villanueva, El Piña, um jovem atacante de 20 anos, artilheiro do Clausura com 10 gols; e o lateral esquerdo Carlos Cerreceda, de 22 anos. A figuraça do time é o goleiro Nicolás Peric, um cabeludo que gosta de jogar de camisas curtas e, na boa campanha do time verde neste Clausura, celebrizou um gesto: El Maoma. A cada gol do Audax, ele se virava para a torcida e fazia com as mãos o sinal de “mais ou menos”.
Os jogadores mais famosos da história recente do Audax foramo o zagueiro Zunino e o atacante Letelier, que foram titulares da seleção chilena. Nos anos 60, o grande nome de Los Audinos foi o volante Carlos Reinoso, que foi vendido para o América do México (onde ficou famoso por fazer um gol do meio-campo) e foi titular do Chile na Copa de 1974. Hoje, Reinoso é técnico do Tecos.
Jogar a Libertadores já é um feito para uma equipe de passado glorioso e presente modesto. Um dos principais orgulhos do Audax, atualmente, é jogar partidas oficiais em grama sintética. O Estadio Municipal de La Florida (foto), cedido por comodato ao clube em 2005, recebeu o piso aprovado (e financiado) pela Fifa. Só que a capacidade de 8,5 mil pessoas está abaixo da capacidade mínima (20 mil) exigida pela Conmebol para jogos de Libertadores. Como mostra a fotos o “estádio” é deveras modesto e pede aspas. Em tese, o São Paulo não tem muito o que temer do Audax. Será provavelmente o adversário mais fraco do grupo. É um time – como o gesto do goleirão El Loco Peric parece dizer – bem mais ou menos.
Escrito em 27/12/2006