A hora e a vez de Pessimista Urubulino
E então chegamos aos estertores de 2006. O peru está no forno, as barrigas se enchem à espera da ginástica prometida. Na TV, Roberto Carlos já cantou, agora abundam as retrospectivas. E os programas de variedades buscam aquela palavrinha anual de astrólogos, numerólogos, tarólogos e futurólogos. Uma palavrinha sobre o futuro, uma previsãozinha sobre 2007, de primeira, segunda ou terceira mão. E lá vem elas – com música de mistério ao fundo. Alguém famoso morrerá. Um acidente horrível comoverá uma grande cidade. Uma intempérie inesperadíssima matará milhares. Os búzios estão lançados, a folhinha virou.
Vale observar que, certamente por problemas técnicos, nossos ólogos deixaram escapar alguns eventos relativamente importantes no passado recente. Um exemplo que vem à cabeça, assim, rapidamente: 11 de setembro. Pais-de-santo, pessoal do Tarô, rapaziada dos vapores, numerológos... nada. Nas entrevistas de dezembro de 2000... ninguém farejou. Outro exemplo que ocorre assim de roldão: o Tsunami de 2004. Uma onda daquele tamanho... e não apareceu em nenhuma bola de cristal. Nenhuminha. O Katrina, no ano passado? Também escapou do pessoal da vidência. Acontece. Ser Nostradamus não é mole. Por exemplo... ganha um aumento nível deputado quem levantar a mão para dizer: eu previ que o Brasil não ganharia essa Copa do Mundo.
E eis que este colunista, disfarçadamente, no fundo da sala, levanta o dedo. Não a mão, mas o dedo. O primeiro post desta Coluna 2 – quando ela ainda se chamava “O dia seguinte”, publicado no dia 17 de junho se chamava “A ética pacheca” (transcrição abaixo) e protestava contra o otimismo generalizado que fazia a palavra hexa pular de boca em boca.. Era um aviso temeroso, não uma predição (por isso levanto o dedo, não a mão). Otimismo, no futebol brasileiro, costuma ser veneno. O jogador brasileiro já se acha o melhor do mundo, o mais genial, completo, incrível, simpático e bonito. Quando tem um país a lhe dar tapinhas nas costas então... o monstro cresce.
Quando dizem que a Seleção Brasileira é o maior espetáculo da Terra – ele acredita. Acredita que vai ganhar por inércia. E relaxa.. E engorda. Em geral, o jogador brasileiro saiu das profundezas, do interior. Passou dificuldade, sim, mas venceu na vida. Não raro, sua família gravita em torno dele – pedindo benesses, apoio, uma graninha. Se não for lembrado diariamente de que precisa suar, ele tende ao relaxamento, à letargia.
Por isso, evoquemos aqui Pessimista Urubulino da Silva, o arauto de nosso íntimo apocalipse, para dizer com solenidade: a missão da Seleção Brasileira em 2007 é jogar mal.. Seja ganhando injustamente ou perdendo de forma tosca. O importante é jogar mal. Se for possível, devemos pendurar a camisa amarela no varal das tristezas, convocar jogadores gordos para vesti-la, recheá-la de cabeças-de-bagre-e-área. As vitórias deverão vir com um futebol operário e feio. Com um futebol lazarônico e pervertido.
Dunga deve ser açoitado, culpado, criticado. E mantido. Soberanamente mantido. Mantido contra a grita geral, contra a pressão da imprensa e da torcida. Pois nunca nesta idade da mídia um técnico da Seleção Brasileira foi campeão sem ter sido chamado de burro. Sem ter sido malhado como judas de aleluia. Parreira foi crucificado em 1993 para ser campeão em 1994. Felipão foi romarizado pelo país inteiro em 2001 e trouxe a taça em 2002. Por isso a Seleção deve jogar mal. Jogar mal em 2007, mal em 2008, mal em 2009 – ganhando apenas as partidas necessárias para se classificar na última rodada das eliminatórias.
Devemos chegar à Copa de 2010 como aquele ex-grande time da camisa amarela. Como o favorito do futebol ruim, o favorito da obrigação. Teremos, no finzinho do banco de reservas, Ronaldinho Gaúcho, vestindo a camisa 23 – convocado na última hora, depois que Magrão, com problemas na coxa, foi cortado. Kaká, se recuperando de contusão, será uma incógnita no time comandado pelo capitão Elano. No banco, lá estará Dunga, prestes a silenciar de novo os entendidos. Em campo, o desacreditado jogador tupiniquim jogará se sentindo injustiçado e menosprezado. E Galvão Bueno berrará "não se pode brincar com o futebol brasileiro!" e nós embarcaremos na onda. Pois esse é nosso script predileto – foi assim de 1990 para 1994 na primeira Era Dunga. Foi assim em 1958, em 1970. Foi assim em 2002. Temos alergia ao favoritismo. Adoramos a redenção.
Escrito em 23/12/2006