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Perfil

Gustavo Poli

Jornalista, 34 anos

Carioca, jornalista há 13 anos, trabalhou nos jornais O Globo e Lance! e está desde 1998 na TV Globo. Cobriu as Copas de 98 e 2002 e é co-autor do bem-humorado "Manual do mané" (Editora Planeta, 2003) e do "Almanaque do futebol" (Casa da Palavra, 2006).

E-mail: gustavo.poli@globo.com

A hora e a vez de Pessimista Urubulino


E então chegamos aos estertores de 2006. O peru está no forno, as barrigas se enchem à espera da ginástica prometida. Na TV, Roberto Carlos já cantou, agora abundam as retrospectivas. E os programas de variedades buscam aquela palavrinha anual de astrólogos, numerólogos, tarólogos e futurólogos. Uma palavrinha sobre o futuro, uma previsãozinha sobre 2007, de primeira, segunda ou terceira mão. E lá vem elas – com música de mistério ao fundo. Alguém famoso morrerá. Um acidente horrível comoverá uma grande cidade. Uma intempérie inesperadíssima matará milhares. Os búzios estão lançados, a folhinha virou.

Vale observar que, certamente por problemas técnicos, nossos ólogos deixaram escapar alguns eventos relativamente importantes no passado recente. Um exemplo que vem à cabeça, assim, rapidamente: 11 de setembro. Pais-de-santo, pessoal do Tarô, rapaziada dos vapores, numerológos... nada. Nas entrevistas de dezembro de 2000... ninguém farejou. Outro exemplo que ocorre assim de roldão: o Tsunami de 2004. Uma onda daquele tamanho... e não apareceu em nenhuma bola de cristal. Nenhuminha. O Katrina, no ano passado? Também escapou do pessoal da vidência. Acontece. Ser Nostradamus não é mole. Por exemplo... ganha um aumento nível deputado quem levantar a mão para dizer: eu previ que o Brasil não ganharia essa Copa do Mundo.

E eis que este colunista, disfarçadamente, no fundo da sala, levanta o dedo. Não a mão, mas o dedo. O primeiro post desta Coluna 2 – quando ela ainda se chamava “O dia seguinte”, publicado no dia 17 de junho se chamava “A ética pacheca” (transcrição abaixo) e protestava contra o otimismo generalizado que fazia a palavra hexa pular de boca em boca.. Era um aviso temeroso, não uma predição (por isso levanto o dedo, não a mão). Otimismo, no futebol brasileiro, costuma ser veneno. O jogador brasileiro já se acha o melhor do mundo, o mais genial, completo, incrível, simpático e bonito. Quando tem um país a lhe dar tapinhas nas costas então... o monstro cresce.

Quando dizem que a Seleção Brasileira é o maior espetáculo da Terra – ele acredita. Acredita que vai ganhar por inércia. E relaxa.. E engorda. Em geral, o jogador brasileiro saiu das profundezas, do interior. Passou dificuldade, sim, mas venceu na vida. Não raro, sua família gravita em torno dele – pedindo benesses, apoio, uma graninha. Se não for lembrado diariamente de que precisa suar, ele tende ao relaxamento, à letargia.

Por isso, evoquemos aqui Pessimista Urubulino da Silva, o arauto de nosso íntimo apocalipse, para dizer com solenidade: a missão da Seleção Brasileira em 2007 é jogar mal.. Seja ganhando injustamente ou perdendo de forma tosca. O importante é jogar mal. Se for possível, devemos pendurar a camisa amarela no varal das tristezas, convocar jogadores gordos para vesti-la, recheá-la de cabeças-de-bagre-e-área. As vitórias deverão vir com um futebol operário e feio. Com um futebol lazarônico e pervertido.

Dunga deve ser açoitado, culpado, criticado. E mantido. Soberanamente mantido. Mantido contra a grita geral, contra a pressão da imprensa e da torcida. Pois nunca nesta idade da mídia um técnico da Seleção Brasileira foi campeão sem ter sido chamado de burro. Sem ter sido malhado como judas de aleluia. Parreira foi crucificado em 1993 para ser campeão em 1994. Felipão foi romarizado pelo país inteiro em 2001 e trouxe a taça em 2002. Por isso a Seleção deve jogar mal. Jogar mal em 2007, mal em 2008, mal em 2009 – ganhando apenas as partidas necessárias para se classificar na última rodada das eliminatórias.

Devemos chegar à Copa de 2010 como aquele ex-grande time da camisa amarela. Como o favorito do futebol ruim, o favorito da obrigação. Teremos, no finzinho do banco de reservas, Ronaldinho Gaúcho, vestindo a camisa 23 – convocado na última hora, depois que Magrão, com problemas na coxa, foi cortado. Kaká, se recuperando de contusão, será uma incógnita no time comandado pelo capitão Elano. No banco, lá estará Dunga, prestes a silenciar de novo os entendidos. Em campo, o desacreditado jogador tupiniquim jogará se sentindo injustiçado e menosprezado. E Galvão Bueno berrará "não se pode brincar com o futebol brasileiro!" e nós embarcaremos na onda. Pois esse é nosso script predileto – foi assim de 1990 para 1994 na primeira Era Dunga. Foi assim em 1958, em 1970. Foi assim em 2002. Temos alergia ao favoritismo. Adoramos a redenção.
Escrito em 23/12/2006
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A ética pacheca

(transcrição de post de 17/06/2006 - ver acima)


Desde 1982, o Brasil não injetava futebol na veia desta forma, numa dose tão cavalar. O ufanismo em cada praça, rua ou esquina me lembra as imagens de Ñaranjito pintadas no asfalto. O bagaço daquela sorridente laranja espanhola ainda azeda nossa memória. As lágrimas que ali esprememos são o único antídoto possível contra essa irresistível onda de otimismo que arrasta a tudo e a todos. Desde 1982 não víamos uma seleção com um favoritismo tão absurdo e absoluto. Nem em 1998 foi assim. Todos os dedos indicadores do mundo apontam para o Brasil. Do balcão de boteco à mesa redonda, o favoritismo é tal que questioná-lo, ou questionar a supremacia da Seleção Brasileira, chega a ofender a ética pacheca.

E isso é curioso – porque o Brasil não é tão melhor que os outros assim. No ano passado, nossa pretensa máquina perdeu pro México e empatou com o Japão na Copa das Confederações. Mas a goleada sobre a Argentina na final da mesmíssima competição criou essa aura de superpotência. Como se Parreira fosse uma espécie de George Bush da bola, invadindo a defesa que quisesse na hora que escolhesse com seus armamentos de último tipo. Essa é uma ilusão traiçoeira.

Como pode ser traiçoeiro o ópio verde-amarelo que o país consome avidamente. Aquela ressaca de 1982 foi destilada nos estertores de uma ditadura que ainda demorou três anos. Adivinhar o efeito de uma possível ressaca em 2006 é atividade nostradâmica. Mas cabe a pulga atrás da orelha eleitoral: será que Lula, de amarelinha e tudo, pode também despencar do cavalo encilhado? Lula II ou re-Lula parece inevitável, mas... uma inesperadíssima derrota pode reconfigurar o cenário.

Porque no Brasil... futebol importa. Vivemos num país em que mensalão rima com Seleção, em que Roberto Jefferson divide manchetes com Ronaldinho. Por mais que pareçam habitar planetas diferentes, eles são faces da mesma bola. Vivemos num país em que os presos de São Paulo compram TVs pelo SEDEX para ver a Copa. Um país em que eu, você, o Zé Dirceu, o Palocci, os cardeais do PSDB, o ACM, o Bornhausen, os cassados e os não-cassados; a deputada-dançarina e o deputado com miguelite, o pessoal do MST e o pessoal do latifúndio, a Rota e PCC, o Comando Vermelho e a Civil... todos juntos iremos, em nosso pra frente Brasil quadrienal, agora especialmente vitaminado.

A decepção política semeia pachecos por todos os lados. Pois no futebol somos primeiro mundo, somos potência, invadimos iraques, estamos acima de tudo e de todos. Pelo futebol sorrimos e choramos. A Copa do Mundo é nosso carnaval à enésima potência. Durante um mês, estamos todos no mesmo time – bandidos, mocinhos, pretos, brancos, azuis, altos, baixos, gordos e magros, fumantes e não-fumantes. E a imensa e silenciosa maioria – para a qual futebol é sinônimo de Copa – acreditando profundamente que a Seleção de Parreira está a apenas um formal milímetro da imortalidade. Um cético amador diria que poucas receitas para a tragédia são mais eficazes. Pois essa Copa traz na barriga o alien da obrigação. Qualquer coisa menos que outra taça será decepção profunda. E profana.

O ufanismo é tão grande, mas tão grande, que criou até o pachequismo patrulheiro. Ai de ti, Pessimista Urubulino da Silva, que ousar levantar uma minúscula dúvida sobre a vitória da Seleção. Nós somos melhores, damos espetáculo, o mundo admira nossa democracia racial, nossa ginga, nossa alegria – e tudo isso está resumido naquela lista de onze que começa em Dida e termina em Ronaldo. Ai de ti, Pessimista Urubulino, se ousar uma breve reflexão que considere a hipótese da derrota.

Ironia entre as ironias, o favoritismo da Seleção é tão propagado que chega a lembrar a unanimidade de Nelson Rodrigues, aquela que carecia de inteligência. Nelson, pacheco numa época descrente, talvez não merecesse ver sua unanimidade burra vestindo a camisa amarela. A ética pacheca que me perdoe, mas o pessimismo é fundamental.
Escrito em 23/12/2006
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As minas de Potosí


O sorteio de ontem, em Assunção, no Paraguai, apresentou aos brasileiros – em especial aos rubro-negros, um time de pouquíssima fama. O primeiro adversário do Flamengo na Taça Libertadores, o Real Potosí. Quase foi possível ouvir um enorme “Real QUEM?” proferido num surdo murmúrio rubro-negro pelo país afora. Mas, ironicamente, Potosí já teve muita fama. Já foi inclusive a cidade mais famosa da América do Sul.

Erguida à sombra do Cerro Rico (foto) (Morro Rico), Potosí tem hoje pouco mais de 120 mil habitantes. Fundada em 10 de abril de 1545, já foi a cidade mais rica das Américas. Era a mais importante mina de prata da América do Sul. Chegou a ter 200 mil habitantes nos séculos XVII e XVIII - população maior que a de Londres na época. Potosí era tão famosa que foi a única cidade da América do Sul a ser citada no mais famoso romance espanhol - Dom Quixote (El ingenioso hidalgo Don Quijote de la Mancha) - de Miguel de Cervantes. A riqueza era tal que até hoje, em espanhol, há a expressão vale un potosí – significando vale uma fortuna. A palavra potosí vem do idioma quechua e quer dizer ruído.

Não é casual a rima entre Real Potosí e Real Madrid. O Leão Púrpura, vice-campeão boliviano, tem escudo e cores muito parecidas com as do Real mais famoso A diferença é que, ao contrário do time espanhol, seu primeiro uniforme é o lilás e não o branco. Fundado em 1941, o time subiu para a primeira divisão boliviana em 1998. Seu principal jogador é a altitude. Potosí fica entre 3967 e 4090m de altitude e se orgulha de ser “a cidade grande mais alta do mundo”.

O Estádio Mario Mercado Vaca Gúzman está sendo ampliado para a Libertadores. Com capacidade para 18 mil pessoas, o estádio já foi reformado em 2002 e agora está novamente em obras com um investimento de US$ 3 milhões da prefeitura. O campo será aumentado (de 102 x 69m para 110 x 72m) e a capacidade deve chegar a 30 mil. Certamente estará lotado para receber o Flamengo no dia 14 de fevereiro.

Será a segunda Libertadores do Real Potosí. A primeira foi em 2002. O time ficou em último num grupo que tinha San Lorenzo (ARG), Peñarol (URU) e Nacional (COL). Mas ganhou do San Lorenzo (1 a 0) e do Peñarol (6 a 1) na altitude. A goleada sobre os uruguaios é um orgulho local – mas o Peñarol jogou já classificado para a fase seguinte. O principal jogador do Potosí em 2006 foi veterano atacante paraguaio Jara – mas ele já saiu (foi contratado pelo Deportivo Pereira da Colombia.). Há um brasileiro no elenco: Carlos Eduardo Monteiro (conhecido como Edu Monteiro ou Edu Matagoleiro) que fez carreira no futebol boliviano.

O Flamengo pode ter problemas se quiser driblar a altitude com a estratégia de última hora (chegar a Potosí uma hora antes do jogo) – como Serafim Borges, um dos médicos do clube, disse que faria hoje à tarde no programa Momento Esportivo da Rádio Brasil. Segundo o Guia de Cidades da Bolívia, não há companhia aérea que voe para Potosí. Se o Flamengo não quiser fretar um vôo, pode pousar em Sucre e seguir de ônibus ou trem até Potosí (164 km de distância).

Em As veias abertas da América Latina, Eduardo Galeano estimou que oito milhões de índios (e escravos) perderam a vida nas Minas de Potosí a partir do Século XVI, trabalhando para o Império Espanhol. As condições de trabalho eram tão deploráveis que a expectativa de vida dos mineiros era de apenas seis meses. Hoje, a cidade ainda vive de suas minas. Embora a prata tenha acabado há 200 anos, extrai-se zinco e outros minérios do Cerro Rico.

Mas a Potosí do Século XXI é uma cidade empobrecida, que convive com a poluição de seus lençóis freáticos provocada pela mineração desordenada – e com inúmeros outros problemas, sendo o mais célebre deles o trabalho infantil nas minas. É nessa cidade antiga, declarada patrimônio da humanidade pela Unesco, que o Flamengo do técnico mineiro Ney Franco vai começar sua trajetória na América. E, se o Flamengo comemorou a presença dos bolivianos em seu grupo, o mesmo aconteceu com o diretor do Real Potosí, Daniel Martínez:

- Das três equipes bolivianas, fomos as mais beneficiadas. O Blooming vai enfrentar um adversário dificílimo, o Santos. E o Bolívar terá Boca Junior e Toluca em seu grupo, dois favoritos.

A manchete de hoje do El Potosí foi “Real tem um grupo bastante acessível” – ou seja, a classficação é possível. No site da torcida do Potosí, os Leões Imperiais, a manchete é “O Leão já tem suas próximas vítimas”. Todo otimismo é válido antes da bola rolar – ainda mais na altitude.
Escrito em 21/12/2006
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Notinhas de terça-feira


O destino e dois Adrianos

Aos 46 minutos do segundo tempo de Goiás 4 x 1 Internacional, no Beira-Rio, na última rodada do Campeonato Brasileiro... o colombiano Rentería torceu o tornozelo. Saiu de maca... direto pro vestiário. Acabou cortado da delegação colorada que seguia para o Japão. Era o primeiro reserva de Abel para o ataque. Com sua contusão, Luiz Adriano passou a ser a ocupar seu posto no banco. Entrou no segundo tempo e fez o gol da vitória contra o Al Ahli. Depois, participou do segundo gol, tocando de cabeça para Iarley. Luiz Adriano e Adriano Gabiru, autor do gol da vitória na decisão, eram provavelmente os dois jogadores mais criticados pela torcida do Inter antes do Mundial.


De graça

O Botafogo aceitou a ida de Clayton para o Flamengo... por causa dos 30% dos direitos federativos. A aposta em General Severiano é que o volante será vendido para o Japão no meio do ano. Ainda assim... depois de criar tanto caso, o alvinegro deixou que o rival contratasse de graça o capitão de seu time... em troca dos direitos e do não-pagamento de salários atrasados. Parece pouco. E é.


Encontro casual

Ontem à tarde, o presidente Bebeto de Freitas cruzou com Tuta, dispensado pelo Fluminense, no shopping que fica debaixo da sede do Botafogo, em General Severiano. Olhou, viu... e começou a pensar. Mas Tuta é cliente de Léo Rabello, que tem relações mais amistosas com Vasco e Flamengo. O Botafogo, que está finalizando a venda de Reinaldo para a Turquia, vai precisar de um atacante.



Em construção


O Brasil é mais que favorito para sediar a Copa de 2014. A candidatura da Colômbia, porém, é mais do que justa. O país, que deixou de organizar a Copa de 1986 em cima da hora, tem todo direito de entrar na briga. Dificilmente, porém, os colombianos terão força política para ameaçar o favoritismo brasileiro. Até porque eles também têm grandes problemas. O site da Federação Colombiana, por exemplo, ainda está em construção. Confira em http://www.colfutbol.org/.



A frase do dia


“Eu não gostei do título do Inter. Não tem essa de ser brasileiro ou gaúcho. Eu sou gremista e estava torcendo pelo Barcelona. Infelizmente, o Barça foi melhor mas não ganhou. Futebol é bola na rede. Mas que eu torci muito contra, eu torci’ Renato Gaúcho, técnico do Vasco. Parabéns a Renato por fugir da epidemia do politicamente correto.


O comentário off-topic do dia

Os chamados deputados honestos entraram com uma ADIN – Ação direta de Inconstitucionalidade – para brecar o aumento de 91% que o congresso aprovou na semana passada. Fico pensando se o termo correto não seria ADIM – Ação direta de Imoralidade.

Escrito em 19/12/2006
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Leitura instrutiva


No dia 8 de dezembro, a justiça americana impôs uma inesperada derrota à Fifa. A sentença da juíza Loretta Preska invalidou o contrato que a entidade tinha firmado com a Visa, operadora de cartões de crédito, no período de 2007 a 2014. E obrigou a entidade a honrar o contrato que tinha com a Mastercard, concorrente da Visa. Para resumir uma história longa, a Mastercard tinha um direito de equiparar qualquer oferta recebida pela Fifa. Mas a Fifa negociou com os dois lados na surdina e acabou favorecendo a Visa, ignorando a cláusula contratual que garantia os direitos da concorrência.

A sede da Fifa é na Suíça. Mas as duas operadores de cartão de crédito ficam nos EUA. Assim que teve seu tapete puxado, a Mastercard entrou na justiça de Nova York. Algo que a Fifa, acostumada às gentis disputas judiciais na Suíça, não esperava. Foi uma notícia muito ruim porque a justiça americana tem esse hábito chato de funcionar. E a operação dos diretores da Fifa foi tão desastrada, tão cara-de-pau, que a decisão judicial saiu em menos de um ano. Claro que a Fifa pode recorrer. Mas... isso parece improvável.

A leitura da 125 páginas da sentença (leia aqui) é instrutiva. A juíza é meticulosa e não deixa pedra sobre pedra. Destrói alguns dos testemunhos chamados ela Fifa. Diz que a entidade teve má fé, enganou e mentiu. Diz que os diretores da entidade foram desonestos e depois tentaram inventar versões para justificar seus procedimentos. O americano Chuck Blazer, secretário-geral da Concacaf e membro do comitê executivo da Fifa, é caracterizado como mentiroso. A juíza deixa no ar a suspeita de que parte da fita de uma reunião do Comitê Executivo foi deliberadamente apagada para não servir como prova.

No dia 12, a Fifa “comentou” o caso demitindo os responsáveis pela transação – o francês Jerôme Valcke, seu diretor de marketing e TV, e três auxiliares. “Os funcionários que conduziram as negociações foram acusados de seguidos atos de desonestidade e de dar informações incorretas aos dirigentes da Fifa, que não pode aceitar tal conduta", afirmou a entidade em nota oficial.

Valcke foi contratado em 2003 com o cargo de Diretor da Fifa Business Division, respondendo diretamente ao Secretário-Geral, Urs Linsi. Lendo a sentença, fica difícil acreditar que “tal conduta” foi obscura e disfarçada. Será mesmo que Valcke podia manobrar grotescamente a favor de uma empresa num contrato de US$ 180 milhões sem quem realmente manda na Fifa soubesse?
Escrito em 19/12/2006
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