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Perfil

Gustavo Poli

Jornalista, 34 anos

Carioca, jornalista há 13 anos, trabalhou nos jornais O Globo e Lance! e está desde 1998 na TV Globo. Cobriu as Copas de 98 e 2002 e é co-autor do bem-humorado "Manual do mané" (Editora Planeta, 2003) e do "Almanaque do futebol" (Casa da Palavra, 2006).

E-mail: gustavo.poli@globo.com
Domingo maior



Em 1931, o catalão Salvador Dalí pintou o quadro mais famoso do surrealismo, “A Persistência da Memória". Os relógios se derretendo viraram um ícone pop e receberam as mais diversas interpretações. Para alguns, eles representariam a hora intermediária entre a vigília e o sono. Para outros, a desarticulação do tempo e o inevitável declínio de tudo e de todas as coisas. Ambas as imagens nos servem, nesta manhã de domingo, para falar de uma grande derrota catalã. E de uma espetacular vitória gaúcha.

A hora intermediária seria o presente - aquele instante que não é futuro nem passado, não é dia nem é noite, não é ontem nem amanhã. É o instante com sensação de eternidade, esse que a torcida do Internacional está vivendo desde o apito final do árbitro guatemalteco na manhã de hoje. Será um longo domingo, o maior dos domingos, o domingo que coroa 2006, o mais colorado dos anos. A grande tragédia é que esse instante passa – e essa felicidade plena e suprema vai embora. Fica a voz rouca, o chope bebido e a tinta nas caras-pintadas. A memória, porém, essa persiste. Até o dia em que o relógio de cada um se derreter.

Entre o sono e a vigília, acordaram os colorados às oito da manhã para acompanhar a partida mais importante de sua história. Do outro lado estava a Catalunha, pátria de Dalí, em sua identidade futebolística - o Barcelona. O time dos 100 mil sócios, a lendária camisa que já vestiu Cruyff e Maradona e agora envelopa uma legião de craques. A melhor equipe de futebol do planeta.

Mas todo Super-Homem tem sua kriptonita. Toda cinderela tem sua meia-noite. E a meia-noite do Barcelona chegou às dez da manhã brasileira. A dose colorada de kriptonita veio em forma de rapidez, seriedade e marcação. O Barça sucumbiu. Foi uma vitória coletiva, uma vitória maiúscula de um time que jamais será chamado novamente de Municipal ou Intermunicipal. A brincadeira gremista está para sempre enterrada. Foi uma vitória internacional, mundial sobre o Barça interplanetário.

O Inter sabia que o Barça era melhor. Sabia que era necessário vencer na trincheira, na guerrilha, esperando o momento do bote. Para isso, Abel ajeitou suas linhas para reduzir espaços. Mas planejar é fácil, fazer não. Deco e Iniesta se movimentam muito. O Barça soube sair da marcação, teve suas chances. Poderia ter vencido o jogo. Mas o Inter jogou o futebol gaúcho por definição - aquele futebol brigado, raçudo, que ignora o verbo desistir. O Colorado correu, sangrou, sofreu, teve cãibras. Vibrou, suou, atropelou.

Como vosso humilde servo anotou no post ali embaixo – o Barcelona é um time que joga para atacar. E não se recompõe sempre como rapidez. Defender não é sua especialidade. O Inter sabia que era necessário jogar com inteligência – sem se expor. Abrir espaços para o Barcelona é convidar a tragédia. Mas futebol não tem dream team. Não existe time que entre em campo com a vitória garantida.

O Barça teve boas chances, mas nenhuma cristalina. O Inter teve erros, teve falhas – mas acertou na hora decisiva. Quando Fernandão pôs a mão na panturrilha... e Adriano se aqueceu... o que pensou o torcedor colorado, que não se cansou de vaiar a ex-promessa Gabiru? Adriano, que sempre foi um apoiador artilheiro no Atlético-PR, tinha luzes no cabelo. Fernandão vinha jogando mal. O troféu parecia distante.

E lá foi Adriano, estranhamente iluminado. Lá foi ele cabecear a bola rebatida pela defesa colorada. Cabeceou para o círculo central, onde a bola encontrou outra predestinada cabeça, a de Luiz Adriano. O garoto que marcou o gol decisivo contra o Al Ahli tocou para Iarley. Iarley, que jogou tudo o que não havia jogado contra o time egípcio, tocou na frente, entortou Puyol, avançou... levantou a cabeça... mediu o passe para a direita, onde estava Luiz Adriano. Não. A melhor opção estava à esquerda, no contrapé de Belleti. Por ali passava Adriano, em desabalada carreira. E veio o toque rasteiro, preciso - o passe mais importante da história colorada. Subitamente, em sua terceira aparição no jogo, lá estava o vaiado, criticado e maltratado Adriano, na cara do gol.

O chute saiu algo mascado. Valdés ainda triscou na bola, que morreu nas redes catalãs. Era o gol do título, o gol do artilheiro mais improvável já no outono da partida. Ainda assim, o Barça não arriou os pneus. Clemer ainda fez uma defesa espetacular num chute traiçoeiro e fortíssimo de Deco. Ronaldinho ainda bateu uma falta que raspou a trave. E Iarley pôs o jgoo no bolso prendendo a bola na ponta esquerda.

O Inter, pelo segundo ano consecutivo, mostrou que ninguém ganha de véspera. Não que o Barcelona tenha sido presunçoso – não foi. As declarações de técnicos e jogadores foram sempre humildes. Mas a goleada sobre o América do México plantou no Inter aquela voto de pobreza, aquela fantasia de zebra que todo técnico agradece.

Em 1909, os irmãos Poppe saíram de São Paulo e quiseram jogar futebol em Porto Alegre. Procuraram o Fussball. Não foram aceitos. Procuraram o Grêmio. Foram rejeitados. Então, com inspiração na Internazionale de Milão (e no Internacional, campeão paulista), fundaram o mais vermelho dos times brasileiros. Noventa e sete anos depois, os jornais abrirão manchetes para dizer que o mundo é colorado. Como não seria diferente a história do futebol gaúcho se o Grêmio tivesse aceito os Poppe no início do Século XX... diferente e certamente mais pobre.

O Inter, que em 2002 namorou com o rebaixamento, repaginou sua história em quatro anos. Foi duas vezes vice-campeão brasileiro. Revelou Daniel Carvalho, Nilmar, Rafael Sóbis, Alexandre Pato. E ganhou do Barcelona de Ronaldinho tendo ilustres e criticados desconhecidos com Edinho e Wellington na escalação. Uma vitória inesquecível, maiúscula, gaúcha.

Saibam os torcedores do Inter que este domingo vai passar. A imagem de Fernandão com a boca aberta e a taça do mundo erguida vai virar uma fotografia amarelada. Abel vai embora, Iarley vai passar, Pato crescerá e será vendido. Os relógios continuarão andando mas no bolso de cada colorado haverá essa hora surrreal e congelada - na qual os derretidos ponteiros apontam 10h16min do dia 17 de dezembro de 2006. Era noite em Tóquio. Era manhã em Porto Alegre. Vai passar. Mas também vai ficar. Há instantes que levamos sempre conosco.
Escrito em 17/12/2006
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Cinderela à meia-noite


O Barcelona goleou. O Barcelona massacrou. O Barcelona deu show. O Barcelona fez chover. O Barcelona sapateou sobre o corpo mexicano inerte. O Barcelona isso. O Barcelona aquilo. O Barcelona aquilo outro. O passeio catalão em Yokohama foi realmente espetacular. E merece todas as loas e elogios. Mas vale observar a passividade do América do México, traduzida no número reduzidíssimo de faltas da partida (cinco no segundo tempo!). O Barcelona jogou. O América aplaudiu abobado.

Não se defende aqui nenhum teorema brucutu. Mas falta faz parte do jogo – e partidas disputadas, como finais, tendem a ser repletas delas. Quando se enfrenta um time como o Barcelona... deixar jogar equivale a entrar no Complexo do Alemão sem camisa gritando “Eu sou PM! Eu sou PM!”. Na quinta-feira, o América deixou o Barça jogar. O time catalão pôs o mexicano no bolso e deixou para o Internacional o papel de coadjuvante na coroação de domingo. A surra categórica criou a sensação de superioridade absoluta que o torcedor brasileiro conhece bem.

De repente, o Barcelona é um time interplanetário, capaz de ganhar da Liga da Justiça com o Super-Homem no gol. Um time que não joga, desfila. Subitamente, cabe ao Inter apenas a função de entrar em campo, correr um pouco, perder de muito e servir de escada para que Deco, Ronaldinho & Cia recebam o troféu diante dos japoneses embevecidos. Algo me diz que já vimos esse filme recentemente. Não havia na Copa da Alemanha uma certa seleção com quarteto mágico, “a melhor coleção de talentos desde 1970”, que bastava entrar em campo para transformar os adversários em cones admirados?

Foi o que se viu. Em futebol, ninguém ganha antes de entrar em campo. Outro dia mesmo, o Barça suou litros para ganhar do Real Sociedad. O passeio de quinta-feira teve méritos do Barça... mas foi facilitada pelo América – que marcava de longe.. Ronaldinho tinha sempre dois jogadores na marcação... mas ambos demoravam a reduzir seus espaços. Ele pegava na bola e tinha liberdade para passá-la. É essa liberdade que o Inter precisa cassar.

E não há motivação maior do que se sentir uma zebra siderúrgica. A goleada catalã foi a melhor notícia possível para o Colorado. O foco está todo na esquadra blaugrana – cujo favoritismo se tornou algo desproporcional. É claro que o Barça tem um timaço – mas está longe de ser invencível. Gudhjonsen e Giuly não estão perto do patamar de Eto’o e Messi. A grande virtude do Barça - sua ofensividade – é também seu ponto fraco. O time de Frank Rijkaard ataca e arrisca muito, marca na frente, incomoda o adversário. Mas deixa espaços. E não se recompõe com velocidade. Vez por outra, quatro jogadores do Barça ficam atrás da linha da bola.

Lembremos que o América do México teve uma ou outra chance com o ex-veloz Cláudio Lopez e poderia até ter saído na frente. Mas não foi capaz de quebrar o toque de bola do Barça. No segundo tempo, o técnico mexicano resolveu acreditar que a entrada do ancião Blanco poderia mudar algo. Só deu mais espaço para o time de Rijkaard.

Tudo bem que o Inter de hoje é pior que o Inter campeão da Libertadores. Bolívar, Tinga e Rafael Sóbis fazem muita falta. Mas a diferença entre as equipes não é um abismo. O Inter precisa jogar com garra sobre-humana e marcar duro sem abrir a caixa de ferramentas. Ronaldinho cairá pelo lado esquerdo, como sempre, e ficará flutuando ali. Se Abel escalar Edinho para grudar nele... poderá abrir o meio, um pecado pouco recomendável contra Deco & cia.

Por outro lado, o Inter tem muito mais qualidade ofensiva do que o time mexicano. E a defesa do Barcelona não é das mais seguras. Fernandão é extremamente inteligente. Iarley e Pato são velozes e sabem se deslocar. Puyol e Rafael Márquez são bons zagueiros – mas são melhores com a bola do que sem ela. O América teve liberdade para chegar ao lado da área do Barça. Iarley não jogou absolutamente nada contra o Al-Ahli... e não deve repetir uma atuação tão ruim. O jogo aéreo colorado é outra arma - Pato, Fernandão, Fabiano Eller e Índio cabeceam bem.

Em suma, todo elogio ao Barcelona é justo. Mas apesar do justo favoritismo catalão, uma vitória brasileira não é uma zebra tão listrada. No ano passado, afinal, o São Paulo ganhou do Liverpool numa partida em que foi dominado. Aproveitou um descuido da boa marcação inglesa e resolveu o jogo. Ironicamente, enfrentava um time sólido na defesa com problemas de inspiração no ataque. O desafio do Inter é justamente o oposto. É difícil, mas é possível. Vez por outra, uma cinderela futebolística encontra sua meia-noite.

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A Federação de Futebol do Rio de Janeiro divulgou hoje o regulamento oficial do Campeonato Carioca... e aproveitou para corrigir o deslize aqui apontado no regulamento provisório (não havia previsão de duas partidas nas finais de turno). Mas continua querendo emplacar em 2008 os divertidos resultados da famigerada Seletiva.


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O LANCE! .. publicou hoje na capa a foto de Túlio, contratado pelo Botafogo. Na foto, há um destaque chamando para um “Raio-X do craque”. Há algum tempo a palavra vem sendo desvirtuada. Em breve ela será um mero sinônimo para jogador. Chamar Túlio de craque é uma heresia.


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O Botafogo está interessado em Dodô. A torcida alvinegra não ficou exatamente feliz com a contratação do zagueiro-cigano Igor, que alguns chamam de Perigor. Muitos já anteciparam calafrios ao cogitar a hipótese de ver uma zaga composta por Igor e Rafael Marques. Pode acontecer.


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O Cruzeiro também está interessado em Dodô. E tem Paulo Autuori como trunfo.


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A Libertadores promete pouco para dois times brasileiros. O desmontado Paraná recomeça do zero. E o Grêmio perdeu boa parte de sua base (Hugo, Rômulo e Jeovânio saíram). E ainda pode vender Lucas. Montar um time novo e ter sucesso na América... é raro.

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Nilmar, Petkovic e Felipe... devem jogar no Brasil em 2007. São jogadores especiais, realmente, que podem fazer a diferença. Mas os três ganham, ou querem ganhar, acima do mercado. Mas a carência de valores é tal... que os clubes acabam ignorando os possíveis riscos. Nilmar, por exemplo, vem de uma contusão séria. Petkovic teve um ano horrível no Fluminense. Felipe está no Qatar – e por acaso alguém acompanha o futebol qatari para saber como ele anda jogando?
Escrito em 15/12/2006
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Um eterno instante


No início do ano, numa entrevista à Rádio Cataluña, o holandês Johann Cruyff disse que preferia Deco a Ronaldinho Gaúcho. E explicou dizendo que Deco sabe que fazer em cada momento do jogo. Ronaldinho, segundo Cruyff, tem grande capacidade de dar espetáculo – mas quando as coisas não funcionam, perde demais a bola, criando problemas para o Barça. Além disso, arrematou o holandês, Deco tem o melhor passe do mundo – suas bolas exigem esforço zero do jogador que as recebe.

Não sei se é possível discordar de Cruyff. Mas vendo a aula de futebol ministrada pelo Barcelona hoje no Estádio de Yokohama, me ocorreu uma verdade universal: torcer pelo Barcelona hoje é uma espécie de nirvana futebolístico. Como em futebol jogam onze, a pergunta “quem é melhor ” entre Deco e Ronaldinho é mero fermento de polêmica. Como em futebol jogam onze, a resposta é singela: os dois. Deco e Ronaldinho são os melhores – talvez do mundo – e se complementam. Com os dois, o Barcelona prova que é possível vencer dando espetáculo. Mais do que isso: mostra que uma orquestra futebolística pode ter dois maestros.

Deco é simples, Ronaldinho é complexo. Deco faz o passe improvável parecer natural. Ronaldinho faz o passe improvável parecer improvável – e ainda assim possível. O toque de bola do Barcelona envolveu completamente o atônito América do México. No fim do jogo, os jogadores do time mexicano pareciam até gratos por observar tão de perto o espetáculo alheio. A bola do Barcelona é veloz, mas não tem pressa. Vez por outra, o toque é para trás, para recomeçar a construção, buscar o espaço. Iniesta, Rafa Márquez, Van Brockenhorst, Zambrotta, Giuly... normalmente tocam de primeira, ou dominam e já tocam. Apenas Deco e Ronaldinho parecem ter autorização para deixar a bola quieta no chão e hipnotizar o estádio.

Deco é mais concreto, objetivo. Hoje, ele participou dos quatro gols catalães – começou a jogada do primeiro, bateu o escanteio no segundo, deu o passe de calcanhar que gerou o terceiro... e fez o quarto. Mais do que isso, Deco sabe jogar sem a bola – seja marcando, participando da destruição; seja se deslocando, estando sempre bem colocado para receber o passe e articular o ataque. Sabe chutar, dar o drible curto e tem uma visão de jogo espetacular.

Ronaldinho é mais abstrato. A capacidade de provocar a interjeição de espanto, aquele ooohhh presente em qualquer idioma ou arquibancada, lhe garante o melhor salário futebolístico do planeta. Ronaldinho é um ímã – atrai público, torcida, interesse, dinheiro. E isso porque, sorrindo seu sorriso repleto de dentes, é aquele raro jogador capaz de transformar o ingresso em peça de museu. O lance no fim da partida que mesmerizou o estádio resume o craque-dentição. Lembremos da jogada: Ronaldinho, jogando como atacante enfiado, recebe a bola entre três zagueiros, consegue dominá-la, ajeitá-la e, com um leve toque encobre o goleiro Ochoa... que só pode observar quando a esfera beija o travessão.

Em um segundo, os olhos arregalados piscam... e as bocas abertas... transformam seu espanto em deleite. No instante seguinte, o estádio se dissolve numa epidemia de sorrisos incrédulos. É o sorriso da estupefação, o sorriso diante da grande obra, o susto feliz de quem presencia algo raro e talvez único. É a pausa atônita após a sinfonia inacabada de Schubert. O silêncio eufórico de quem fecha a história dos Buendía em Cem Anos de Solidão. A saia esvoaçante de Marilyn Monroe, ET dizendo que vai ligar pra casa, Dadinho gritando "Meu nome agora é Zé Pequeno, porra!", Al Pacino decretando a morte do irmão em O Poderoso Chefão. O clímax inesperado, a cena que queima nas retinas, e se eterniza na memória.

E então, em Yokohama, após esse hipnótico instante, irrompem os aplausos. E o artista em questão, um entre onze, caminha lentamente para o vestiário. E nós, aqui, bobos, a doze horas e meio mundo de distância, entendemos porque os cronistas veteranos têm tanta nostalgia do futebol dos anos 50 e 60. Era uma época em que os Ronaldinhos e Decos jogavam no Maracanã, no Morumbi, no Mineirão. Uma época em que um ingresso qualquer, de um campeonato carioca ou paulista menor, trazia uma certa promessa de eternidade.
Escrito em 14/12/2006
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Planetas distantes



A principal fonte de receita dos clubes brasileiros é a televisão. Com algumas e ricas exceções, os direitos televisivos respondem pelo grosso dos orçamentos da bola tupiniquim. Cinco times recebem a maior fatia dessa pizza monetária: São Paulo, Corinthians, Palmeiras, Vasco e Flamengo. Em 2006, cada um abocanhou R$ 21 milhões pelo Brasileiro. O Santos ficou com R$ 18 milhões. Botafogo, Fluminense, Inter, Grêmio e Cruzeiro tiveram direito a R$ 15 milhões. Pensemos nesses números e lembremos da frase recente do Pai de Nilmar, rechaçando a hipótese de ver seu filho no Morumbi. Ei-la:

- No São Paulo, só o Rogério Ceni ganha dinheiro. O resto ganha só até R$ 200 mil.

Num país com tanta desiguldade, a frase entrou de imediato para a Galeria Roberto Carlos Apartamento no Pulso de Insensibilidade. Mas o luminoso comentário de Nilmar-Pai mostra um pouco da realidade salarial do esporte brasileiro. Esses módicos R$ 200 mil reais representam R$ 2,6 milhões/ano. Os clubes que não pertencem ao Clube dos 13 receberão mais ou menos isso pelo Brasileirão/07 (a estimativa é algo em torno de R$ 3 milhões). Em outras palavras, como pode o Náutico – que receberá essa quantia - competir com o São Paulo – cujo orçamento pode chegar a R$ 90 milhões/ano? Ou com o Inter (R$ 60 milhões), com o Atlético-MG (R$ 46 milhões), com o Flamengo (R$ 63 milhões para o futebol)?

E olha que os salários do futebol brasileiro não fazem cócegas no mercado externo. Por exemplo, peguemos os vencimentos de Petkovic, apontado como um dos mais bem pagos jogadores de 2006. Ele receberia algo em torno de R$ 300 mil mensais no Fluminense – R$ 4,1 milhões/ano (incluindo o décimo-terceiro). Menos da metade do que ganha Cristiano Ronaldo, estrela do Manchester, que fatura R$ 10,2 milhões/ano (algo como R$ 850 mil mensais). O topo da cadeia alimentar é Ronaldinho Gaúcho – que embolsa algo em torno de R$ 2 milhões por mês no Barcelona (R$ 24 milhões/ano).

Vale respirar fundo e comparar: Ronaldinho Gaúcho ganha, num ano, mais do que os principais clubes brasileiros ganham pelo Brasileirão. Não é outro mercado, é outro planeta. Em termos financeiros, o Náutico está para o Barcelona como a formiga está para o livro de física. Não é outra galáxia, é outra dimensão.

E os grandes europeus estão para os grandes brasileiros... como os grandes brasileiros estão para os pequenos. A diferença é mastodôntica e abissal. Mas, apesar dela, o Saci colorado tem chance de derrotar o Barcelona (se o Barcelona ganhar amanhã). E a formiguinha Paraná, com seu orçamento humilde, levou sua vitrine tricolor para a Libertadores. Futebol, como se sabe, depende de onze sujeitos dentro de quatro linhas. E não apenas dos salários que eles recebem.

Notinhas de quarta-feira

1 - É claro que o Inter não jogou bem. Mas o gramado molhado e rente favoreceu o toque de bola do Al-Ahli, que tem um time técnico – como Fernandão disse na entrevista. Os zagueiros do Inter jogaram muito atrás, dando espaço na intermediária. O placar não foi justo. Mas... o que importa são os três pontos, diria o mais filosófico dos jogadores. E o Colorado, que jogou de branco, jogará a partida de sua vida no domingo.

2 - O Botafogo é o time mais desmonetarizado do Brasil. Não conseguiu nem pagar duas parcelas do passe de Zé Roberto, seu melhor jogador. Preferiu quitar a folha salarial de outubro, que estava atrasada. O projeto do time, em 2007, é fazer um time jovem sob a influência benigna de Lúcio Flávio.

3 - O Flamengo apresenta severos sinais de comprite. Já contratou quase um time inteiro para o ano que vem.

4 - Fazer parte do clube dos 13 pode fazer toda a diferença em Pernambuco. O Sport, que é membro, tenta contratar dois bons jogadores “locais”. Netinho, que brilhou pelo Náutico na Série B (e pertence ao Atlético-PR); e Carlinhos Bala.

5 - A Fifa demitiu quatro funcionários que teriam descumprido normas éticas no recente imbróglio comercial entre duas operadoras de cartão de crédito que foi parar na justiça americana. Visa e Mastercard brigam pelo direito de patrocinar a Copa. Os demitidos teriam sido anti-éticos. Engraçado é que na última reunião do Comitê Executivo da Fifa houve uma análise dos procedimentos de Jack Warner, presidente da Concacaf, cujo filho foi flagrado vendendo ingressos no Mundial da Alemanha (entre outros problemas). Warner, peixe politicamente grande, recebeu apenas uma censura moral.
Escrito em 13/12/2006
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A esfinge na arquibancada


Os matreiros deuses do futebol, que escalaram o Al-Ahly como adversário do Internacional na próxima quarta-feira, seguiam orientações precisas de Luiz Fernando Veríssimo. A ironia que transborda do confronto não cabe em trocadilhos – é o jogo entre e o “Sport Club Internacional” e “O Nacional Esporte Clube”. Mais que isso, os uniformes dos dois times são extremamente parecidos – e ambos têm apelidos que derivam da cor dominante: o Colorado brasileiro contra os Cavaleiros Vermelhos egípcios.

O Al-Ahly foi fundado em 24 de abril de 1907 e ganhou seu nome em 1908. O Inter foi fundado em 4 de abril de 1909. O nome do Al-Alhy foi uma espécie de resposta à ocupação britânica no Egito. Muitos dos jogadores do time eram jovens estudantes – que se opunham ao colonizador estrangeiro. O nome do Internacional, inspirado na Internazionale de Milão, foi de certo modo uma resposta ao preconceito. Os irmãos Poppe, fundadores do clube, tentaram e não conseguiram vaga no Grêmio e no Fussball, os dois times de futebol da época em Porto Alegre, porque não tinham ascendência germânica.

O primeiro uniforme do Inter tinha listras verticais em vermelho e branco. O do Al-Ahly tinha listras nas mesmas cores – só que horizontais. Ironia das ironias: se o Inter jogar com seu primeiro uniforme, o Al-Alhy escalará seu reserva... que é azul. Outro detalhe: o principal rival do Al-Ahly é o Zamalek, cujo uniforme principal é parecidíssimo com o do São Paulo.

O Inter é favorito, tem mais futebol e mais status. Mas, por mais absurdo que possa parecer, não tem mais torcida que o Al-Ahly. O “Nacional” é o clube mais popular do Egito – e, se formos acreditar nas estimativas locais, tem uma das maiores torcidas do mundo. Os egípcios dizem que 40 milhões de egípcios torcem para o Al-Ahly. À primeira vista, levando em conta que a população atual do Egito é de cerca de 79 milhões de seres humanos... ficamos pensando se essa estimativa não inclui as pirâmides, a esfinge, Tutankhamon, as múmias descobertas e as múmias ainda por descobrir.

Mas o Ahly é realmente popular. As pesquisas egípcias estimam que 70% dos egípcios que gostam de futebol torcem para o time (20% seriam torcedores do Zamalek). O clube tem até canal exclusivo de satélite. Em suma, se o Inter confirmar seu favoritismo na manhã desta quarta-feira, as múmias podem calar nas tumbas, a esfinge pode permanecer esfíngica e imóvel. Mas haverá um Nilo de lágrimas cortando o deserto. E o colorado Veríssimo, rubro de vergonha com a pieguice do escriba na metáfora acima, poderá se concentrar no Barcelona (ou no América do México).


Escrito em 11/12/2006
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