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Gustavo Poli

Jornalista, 34 anos

Carioca, jornalista há 13 anos, trabalhou nos jornais O Globo e Lance! e está desde 1998 na TV Globo. Cobriu as Copas de 98 e 2002 e é co-autor do bem-humorado "Manual do mané" (Editora Planeta, 2003) e do "Almanaque do futebol" (Casa da Palavra, 2006).

E-mail: gustavo.poli@globo.com
Bola de cristal, Rodada 38


E então... chega a última e algo melancólica rodada do Campeonato Brasileiro de 2006. A competição por pontos corridos tem esse inegável problema – mas isso é caso para discussão posterior. Por ora, passemos pela última e derradeira tarefa da Bola de Cristal este ano. A grande pergunta é... quem se classifica para a Libertadores? O Vasco é raçudo e já conseguiu muitas vitórias improváveis fora de casa (derrotou Santos e Internacional, por exemplo). Além disso, os reservas do São Paulo são melhores que muito time titular e podem derrotar O Paraná. O problema é que o Vasco enfrenta o surpreendente Figueirense. Mas, chega de preâmbulo, vamos ao que interessa:


Internacional x Goiás
Beira-Rio, 2/12, 18h10m

O Goiás já está na Sul-Americana. O Inter já pensa no Mundial. É jogo-treino no Beira-Rio. Como o Inter se despede da torcida... vai ter alguma motivação.
O palpite: Inter 3 x 1 Goiás.


Flamengo x São Caetano
Raulino de Oliveira, 2/12, 18h10m

O Flamengo se despede de 2006 pensando na Libertadores. O São Caetano... pensando na Série B. Outro jogo-treino. O Flamengo ganha com alguma facilidade.
O palpite: Flamengo 4 x 1 São Caetano.


Corinthians x Juventude
Pacaembu, 3/12, 16h

Se o Juventude vencer, ultrapassa o Corinthians no saldo de gols... e poderia até roubar a vaga do Timão na Sul-Americana (se o Atlético-PR vencer também). Os times teriam o mesmo número de pontos e vitórias. Será que a crise do Timão fica fora de campo?
O palpite: Corinthians 1 x 1 Juventude.


Cruzeiro x Botafogo
Mineirão, 3/12, 16h
A atração do jogo é a volta de Araújo da séria lesão no joelho. O Botafogo vai com um time B com cara de time C. Será provavelmente a última chance para a torcida alvinegra acompanhar talentos como Ataliba, Wando e Felipe Saad.
O palpite: Cruzeiro 2 x 1 Botafogo.


Figueirense x Vasco
Orlando Scarpelli, 3/12, 16h

Jogo muito difícil para o Vasco. Jean não está muito bem fisicamente. E Renato Gaúcho não terá Andrade nem o zagueiro Fábio Brás – dois graves desfalques. O Figueirense está longe de ser uma maravilha, mas terá seu trio ofensivo: Cícero, Schwenck e Soares, que marcou 40 dos 52 gols do time na despedida da melhor campanha do clube até hoje. Se ganhar, o Figueira ultrapassa o Vasco e termina em sexto.
O palpite: Figueirense 1 x 1 Vasco.


Paraná x São Paulo
Vila Capanema, 3/12, 16h

Confronto de tricolores no Durival de Brito lotado... o Paraná corre o risco de jogar sem o capitão Beto... e sem o lateral Eltinho. O São Paulo, como se sabe, vai com o time B... que seria A em várias outras equipes. Alex Dias e Thiago formam um ataque de respeito. E Souza deve jogar no meio-campo. Não vai ser fácil.
O palpite: Paraná 1 x 1 São Paulo.


Fluminense x Palmeiras
Maracanã, 3/12, 16h

Na melancólica despedida de duas campanhas horrorosas, os times de Palmeiras e Fluminense se agacharão juntos no fim da partida e rezarão voltados para Meca, isto é, Campinas, sede da Associação Atlética Ponte Preta, que gentilmente evitou que os dois gigantes fizessem deste jogo um play-off anti-rebaixamento.
O palpite: Fluminense 2 x 2 Palmeiras.


Ponte Preta x Atlético-PR
Moisés Lucarelli, 3/12, 16h

A Ponte agradecerá as reverências se despedindo da Série A com mais uma derrota, perdendo para o Atlético-PR, que precisa da vitória para sonhar com a Sul-Americana.
O palpite: Ponte Preta 0 x 2 Atlético-PR.


Fortaleza x Grêmio
Presidente Vargas, 3/12, 18h10m
Outro jogo-treino desprovido de valor. No deserto do PV, o Fortaleza arruma malas para mais uma temporada na Série B. O Grêmio, por sua vez, treina para a Libertadores. A motivação de alguns jogadores do tricolor de aço... é mostrar futebol para atrair o interesse do técnico alheio.
O palpite: Fortaleza 0 x 0 Grêmio.


Santos x Santa Cruz
Vila Belmiro, 3/12, 18h10m

E, por fim, a despedida do lanterna. O Santa Cruz celebra na Vila Belmiro a pior campanha de um time na era dos pontos corridos. O Santos, que nada tem a ganhar ou perder com a partida, deve obter a vitória por inércia.
O palpite: Santos 2 x 0.
Escrito em 01/12/2006
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A lambança 2.0


Só esclarecendo mais detalhadamente a lambança do regulamento do Campeonato Carioca, da qual falei num post abaixo. O artigo sexto do regualmento atual (que é provisório por 10 dias) diz o seguinte:

Art. 6º - Nas partidas finais da XLIII Taça Guanabara e da XXIV Taça Rio, ocorrendo empate no tempo normal de jogo, a decisão dar-se-á pela cobrança de tiros livres diretos da marca do pênalti, na forma prevista pela FIFA para as competições internacionais.

Como as finais de turno são em duas partidas, o critério de desempate é um grande mistério. Se a primeira terminar empatada, vai para os pênaltis? Se um time ganhar a primeira por 9 a 0 e perder a segunda por 1 a 0... é campeão? Ou vai para os pênaltis?
O regulamento simplesmente não diz. Ele fala em empate no tempo normal.

Isso acontece, claro, porque esqueceram de atualizá-lo. Era um regulamento para um Estadual com 16 equipes. Com 12 times, sobraram duas datas. As finais de turno – que eram em partida única – passaram a ter jogos de ida e volta. E aí... o critério de desempate acima citado cria um samba do crioulo doido. Mas, chega um pouco dessa confusão carioca. Em breve, voltamos com a última, a derradeira, a esperadíssima e modesta Bola de Cristal.
Escrito em 01/12/2006
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Odvan, a taça, o helicóptero e a Seletiva...


Falemos um pouco mais do futebol carioca. Visitar a página (http://www.fferj.com.br) da Federação de Futebol do Rio de Janeiro é sempre divertido. Atualmente, ao chegar, você é surpreendido por um pop-up que comemora “Bangu, campeão da Seletiva 2006”. Dentro do pop-up, uma série de fotografias da fantástica conquista alvirrubra. São instantâneos que registram tudo o que aconteceu no último dia 25 – desde a chegada do presidente da Federação, Rubens Lopes, de helicóptero, ao Estádio de Moça Bonita, para acompanhar Bangu x Macaé – até a celebração eufórica dos jogadores comandados por Odvan.

A jornalística celebração da Seletiva contrasta com a página dos campeões estaduais, onde todos estão listados até... 2005. O campeão de 2006 ainda não foi incluído. Aliás, a página também chama atenção por outro detalhe: o campeonato de 2002 não tem campeão. Segundo a Federação, a taça não é do Fluminense. Está sub judice – confira aqui. Não está dito lá, mas isso acontece porque o Bangu entrou com um recurso alegando erros de arbitragem na semifinal (que aliás aconteceram). Mas voltemos ao presente. Voltemos às lindas fotos do título do Bangu!

Os fotógrafos captaram tudo – inclusive o orgulho do presidente do Madureira, Elias Duba, ao receber uma placa de agradecimento com escudinho do Bangu. Na placa, os verdadeiros desportistas agradecem “a imensurável ajuda e fundamental participação do Madureira na brilhante campanha e conquista da Seletiva” (e a placa foi confeccionada, obviamente, antes do jogo!). Pudera – o Madureira emprestou seu time para que o Bangu jogasse a competição.

A seguir, vemos fotos do jogo com faixas da torcida Bangang ao fundo. O empate que garantiu o título do Bangu veio com um pênalti marcado aos 49 minutos do segundo tempo – e permitiu a celebração dos jogadores do Bangureira, que também podemos acompanhar fotograficamente. Numa das fotos, a taça é erguida por Odvan.. e aparece algo semelhante a uma etiqueta em sua base.

Infelizmente, para o Bangu, a Seletiva não vale nada. E uma breve olhada no Estatuto do Torcedor (Lei 10.671 de 11/05/2003) mostra o motivo. O Campeonato da Segunda Divisão do Rio em 2006 teve 24 times ( Angra dos Reis, Bangu, Boa Vista, Bonsucesso, Ceres, CFZ, Artsul, CAEC, Guanabara, Itaperuna, Macaé, Mesquita, Estácio de Sá, São Cristóvão, Olaria, Serrano, Miguel Couto, Profute, Rio Branco, Teresópolis, Tigres, Rubro, Villa Rio e Duque de Caxias). Já a famigerada Seletiva incluiu por insondáveis mistérios uma porção de outros times: o Goytacaz, que estava licenciado, o Campo Grande, que é da Terceira Divisão e até a recém-rebaixada Portuguesa. Esse pode ter sido o grande erro dos doutores da Federação. Porque o Estatuto do Torcedor proíbe claramente a inclusão de qualquer time sem observação do critério técnico. Isso está expresso no artigo 10 da Lei 10.671:

Art. 10. É direito do torcedor que a participação das entidades de prática desportiva em competições organizadas pelas entidades de que trata o art. 5o seja exclusivamente em virtude de critério técnico previamente definido.

§ 1o Para os fins do disposto neste artigo, considera-se critério técnico a habilitação de entidade de prática desportiva em razão de colocação obtida em competição anterior.

§ 2o Fica vedada a adoção de qualquer outro critério, especialmente o convite, observado o disposto no art. 89 da Lei 9.615, de 24 de março de 1998.



O artigo 89 da Lei 9.615, a chamada Lei Pelé, diz o seguinte:

Art. 89 - Em campeonatos ou torneios regulares com mais de uma divisão, as entidades de administração do desporto determinarão em seus regulamentos o princípio do acesso e do descenso, observado sempre o critério técnico.

Ou seja, incluir times sem critério técnico é PROIBIDO. Lendo assim, fica evidente que a Seletiva não pode valer nada. Teremos o Estadual de 2007 com 12 times – mas fica a pergunta... e em 2008?
Escrito em 30/11/2006
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Esqueceram de mudar o regulamento...


Quem lê o regulamento do Campeonato Carioca de 2007 percebe como foi difícil para a Federação do Rio divulgar a tabela do Estadual com 12 times. A vontade de fazer o campeonato com 16 equipes era tanta que a FERJ esqueceu até de atualizar o regulamento. O artigo que fala dos critérios de desempate para finais do primeiro e do segundo turno diz o seguinte:

Art. 6º - Nas partidas finais da XLIII Taça Guanabara e da XXIV Taça Rio, ocorrendo empate no tempo normal de jogo, a decisão dar-se-á pela cobrança de tiros livres diretos da marca do pênalti, na forma prevista pela FIFA para as competições internacionais.

Um critério razoável... se as finais de turno fossem em jogo único - e assim seriam se o campeonato tivesse 16 times. O problema é que, segundo a tabela divulgada ontem pela própria Federação, as finais de turno serão disputadas em duas partidas – ida e volta. As finais da Taça Guanabara se realizarão nos dias 4 e 7 de março. E as da Taça Rio nos dias 15 e 22 de abril. Dois artigos depois, o regulamento fala dos critérios de desempate para as finais do Campeonato ( em jogos de ida e volta):

Art. 8º - Nas finais do Campeonato, após o encerramento do segundo jogo, em que venha apontar empate em números de pontos ganhos nessa fase, será declarado Campeã a associação com o melhor saldo de gols, computados nos dois jogos da fase decisiva. Ainda persistindo o empate, a decisão dar-se-á pela cobrança de tiros livres diretos da marca do pênalti, na forma prevista pela FIFA para as competições internacionais.

A comparação mostra o evidente "esquecimento". Sorte que o regulamento é provisório por 10 dias (o Estatuto do Torcedor assim determina). Quem quiser conferir o dito cujo pode clicar aqui. Ao ler as sete páginas do documento, percebe-se também que a Federação deu um jeito de embutir os quatro “classificados” da lastimável Seletiva – que a Justiça já considerou inválida – como participantes pendentes do Estadual. Em outras palavras, a tabela está promulgada com 12 times. Mas se a justiça der ganho de causa à Federação, o campeonato volta a ter 16 equipes, como dizem os artigos segundo e terceiro:

§ 2º Na hipótese de Decisão Judicial, em tempo hábil, favorável ao aproveitamento dos resultados da SELETIVA/2006, as associações BANGU AC e AA PORTUGUESA integrarão o GRUPO A e as equipes MACAÉ FC e OLARIA AC o GRUPO B.

§ 3º Em ocorrendo decisão Judicial favorável ao aproveitamento dos resultados da SELETIVA/2006, mas em tempo que não permita alteração da tabela para a inclusão das equipes classificadas, estas estarão automaticamente classificadas para o campeonato de 2008.

Resumindo... se a gente não conseguir encaixar o pessoal agora, a gente encaixa em 2008.
Escrito em 30/11/2006
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Pesquisas, laranjas e bananas


A mais recente pesquisa sobre torcidas, realizada em maio pelo Datafolha (veja aqui) formula alguma polêmica ao sugerir um empate técnico entre as duas maiores torcidas do país. Segundo a pesquisa, o Flamengo teria 15% e o Corinthians 13% da torcida nacional. Mas a pesquisa, que como sempre é um instantâneo, apenas confirma as sondagens anteriores. Todos os times variaram dentro da margem de erro (2%). O Flamengo “caiu” dois pontos e o Corinthians manteve o mesmo patamar.

A pesquisa entrevistou 6 mil brasileiros acima de 16 anos. E isso não é mero detalhe, pois despreza uma faixa consolidada de torcida, aquela entre 10 a 16 anos (consideremos que antes de 10 anos, o torcedor ainda pode mudar de time). São milhões de torcedores não abordados - torcedores adolescentes, consumidores ávidos de esporte. A ausência desses torcedores torna imprecisa a comparação com a última pesquisa feita pelo Ibope. Em 2004, o Ibope entrevistou 7207 brasileiros acima de dez anos. Nessa pesquisa, o Flamengo aparecia com 18% e o Corinthians com 14% dos torcedores.

No “Almanaque do Futebol”, livro que vosso humilde servo lançou ao lado do Lédio Carmona (dono do co-irmão Jogo Aberto), fizemos uma breve análise de todas as pesquisas de torcida verdadeiramente nacionais. Desprezamos as pesquisas (mais baratas) feitas em “regiões metropolitanas” – que muitas vezes, num exercício de fantasia, são depois extrapoladas para o país inteiro.

Isso aconteceu, por exemplo, com a primeira pesquisa de torcida, feita em 1983 pelo o Instituto Gallup para a Revista Placar. Essa pesquisa é fonte de uma série de ilusões. Feita em nove regiões metropolitanas, ela apresentava o Flamengo com 31% da torcida brasileira. O incauto que extrapolasse estes dados para o Brasil diria que o Flamengo tinha 37,2 milhões de torcedores na época. Ou seja, o time mais popular do país teria perdido torcida de lá pra cá. Outro erro comum é tentar traçar linhas evolutivas de torcida usando pesquisas nacionais no mesmo cesto de pesquisas regionais. É como comparar banana com laranja.

È mais do que coerente que as torcidas de Grêmio, São Paulo e Cruzeiro tenham crescido num passado recente – levanto em conta as conquistas internacionais nos anos 90 e a conseqüente exposição dos times. Mas o crescimento de torcida é um processo lento. Como roubar de si mesmo é permitido por lei, segue um breve trecho do Almanaque do Futebol:


“As torcidas crescem naturalmente – como a população cresce. Mas quantos vira-casacas você conhece? Eles não são muitos. Em outras palavras, é natural que um time vencedor conquiste mais torcedores, mas o impacto desses novos fãs demora ao menos uma geração para ser percebido. Até porque é difícil alguém mudar de time depois da adolescência.”

Olhando todas as pesquisas nacionais a partir de 1998, fica evidente que o Brasil tem 12 grandes torcidas divididas em alguns pelotões. A seguir, os percentuais mínimo e máximo de cada torcida:

Primeiro pelotão:
Flamengo -15% a 19%
Corinthians - 11% a 14%

Segundo pelotão
São Paulo - 6,5 a 8%
Palmeiras - 5,5% a 8%
Vasco - 4 a 5,5%

Terceiro pelotão
Grêmio - 3 a 4%
Cruzeiro - 3 a 4%
Santos - 2 a 3%
Internacional - 2 a 3%
Atlético-MG - 2 a 3%
Botafogo - 1 a 2%
Fluminense - 1 a 2%

Quarto Pelotão
Bahia - 0 a 1%
Sport - 0 a 1%
Vitória – 0 a 1%
Remo – 0 a 1%
Coritiba – 0 a 1%
Atlético-PR – 0 a 1%
Santa Cruz - 0 a 1%

Fazendo essa leitura, me parece precoce dizer que o São Paulo poderá incomodar Corinthians e Flamengo num futuro próximo. Num futuro distante... é plausível. Mas, como disse Rogério Ceni, isso é muito difícil. O time teria que manter um ritmo de conquistas alucinante - o que é quase impossível no futebol brasileiro.

Outro questão a se observar: o número de times da Série A que figuram como traço em pesquisas nacionais. Em 2006, eram sete: Goiás, Ponte Preta, São Caetano, Fortaleza, Figueirense, Paraná e Juventude. Em 2007, serão seis: Goiás, Paraná, Juventude, Náutico, Figueirense e América-RN.
Escrito em 28/11/2006
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O tigre e o gatinho


Era para ser “o campeonato”. Pela primeira vez, tínhamos 20 times, número considerado ideal por muita gente. O equilíbrio sugeria competição por todo lado. A disputa pelo título seria emocionante. O rebaixamento seria fratricida. É, não foi bem assim. O campeonato que termina oficialmente no próximo domingo deixa um sabor ambíguo. Foi um bom campeonato. Mas não foi “o campeonato”. Saltou como um tigre. Pousou como um gatinho.

É claro que o Brasil sofre com o êxodo de jogadores, que são vendidos cada vez mais cedo. Hoje, raríssima é a revelação capaz de emplacar dois campeonatos. Mas esse êxodo precoce acaba estimulando a renovação. Todo Campeonato Brasileiro é uma paisagem inédita. Temos jogos ruins, claro. Mas temos também ótimas partidas. Ainda assim, 2006 foi diferente. Com o desgarramento do São Paulo e a definição do rebaixamento, sobrou apenas um ponto de interrogação para a última rodada – aquele da Libertadores, que oscila entre Vasco e Paraná.

Em outras palavras, esperávamos mais. Um campeonato brasileiro com 20 times pode e deve ter emoção até o último fiapo de cabelo. Basta ver a Série B – na última rodada oito times brigavam para não cair. Com pontos corridos, é normal que o campeão saia antes. Mas as outras brigas não costumam se definir tão cedo. Nos quatro brasileiros por pontos corridos, o primeiro rebaixado nunca teve aproveitamento pior que 36% (isso inclui 2003, quando tivemos apenas dois rebaixados). Agora, a primeira rebaixada, a Ponte Preta, só ganhou 34% de seus pontos. O Santa Cruz ganhou apenas 25% – um em cada quatro – a pior campanha de um time na era dos pontos corridos.

Os quatro rebaixados se desintegraram cedo. Com isso, roubaram emoção da última rodada, na qual teremos uma profusão de jogos sem significado. Aqui não vai uma crítica aos pontos corridos (o colunista é um defensor da fórmula), mas uma constatação. É muito improvável que isso aconteça em 2007, até porque há uma evidente melhora no elevador entre as divisões. Pela primeira vez, teremos apenas quatro paulistas na Série A – o menor número desde 1971. E a troca... parece boa.

Os quatro que sobem prometem bem mais do que os quatro que caem. Náutico e América-RN deverão encher seus estádios motivados pela volta à elite, compensando a perda de Santa Cruz e Fortaleza. Atlético-MG e Sport são clubes de massa, ao contrário de São Caetano e Ponte Preta, duas das piores médias de público de 2006. A queda do São Caetano, por si só, já eleva a média de público do próximo campeoanto.

Em 2006, o Azulão teve ridículos 1.963 pagantes por jogo, cravando oito dos dez piores públicos do campeonato, todos abaixo de mil testemunhas. O jogo mais desértico foi São Caetano 2 x 1 Atlético-PR, em 24/5, espetáculo presenciado por 363 mortais. A renda desta partida foi de R$ 2,7 mil. O público de todos os 18 jogos somados no Anacleto Campanela foi de 36.160 pessoas – pouco mais que meio Morumbi.

Em 2007, teremos também um campeonato mais disputado. Atlético-MG e Sport receberão de novo as cobiçadas cotas de TV do Clube dos 13 e, vindo da Série B, tendem a ter apoio das arquibancadas. Financeiramente falando, os primos pobres da Série A serão Náutico, América-RN, Juventude, Paraná e Figueirense – mas os três últimos já mostraram que sabem trabalhar com menos recursos. E não têm os imensos papagaios que atrapalham outros clubes, especialmente do Rio. A aposta aqui é que 2007 verá o melhor campeonato de pontos corridos. O melhor... e talvez o último.

O golaço da rodada
Nenê (SCR)
– A matada para cima, a emendada deprimeira... um gol que fica como última memória do Santa Cruz na Série A. Nenê, freguês fiel da Selebaba desta coluna, dá alguma esperança para o sofrido torcedor do Santinha em 2007.

O gol perdido da rodada
Tuto (PPR)
– Tuto driblou três jogadores do Goiás, entrou na área e, diante de Harley, chutou torto. O jogo estava 0 a 0.

O gol merecido da rodada
O gol de Rogério Ceni. Pois ainda há quem continue a criticar Rogério, que fez 16 gols nesta temporada, nove no Brasileiro. O gol de ontem ofusca o solitário vacilo de Rogério na final da Libertadores e assina a bela temporada do capitão do São Paulo.

O gol perdido da rodada 2.0
Tuta (FLU)
– Primeiro tempo, jogo dramático, 0 a 0 no marcador. Tuta recebe na pequena área, domina e consegue chutar na estratosfera. Tuta fez 13 gols no campeonato. Mas perdeu 257.

A defesa da rodada
Fábio (CRU)
– Leandro acertou um chute fortíssimo, de primeira, que Fábio com elasticidade e reflexo foi buscar, esticando o braço.

A frase da rodada
“Não sei se é choro de perdedor, mas fomos prejudicados pelo árbitro dento de casa. Foi pênalti claro no Abedi” Cássio, goleiro do Vasco. Infelizmente, Cássio, foi isso não. Abedi é que puxou o zagueiro do Santos. O pênalti não marcado foi outro - sobre Leandro Amaral, num lance rápido e até difícil, em que Leonardo Gaciba poderia ter marcado pelo menos falta.

A frase da rodada 2.0
”Danilo é o principal jogador tático do São Paulo.”Rogério Ceni, sublinhando a importância do apoiador que está deixando o Morumbi.

A frase da rodada 3.0
“Jogamos como time pequeno”Jair Picerni, técnico do Palmeiras.


Cinco tiros indiretos

1 – O São Paulo jogará sem Rogério Ceni, Ilsinho, Fabão, Miranda, Josué, Mineiro e Danilo contra o Paraná. Com a Vila Capanema lotada, o tricolor paranaense tem faca e queijo na mão.

2 – Numa decisão rara, o árbitro Evandro Rogério Roman paralisou a partida entre Botafogo e Corinthians, no Maracanã, durante o primeiro tempo. O motivo? Calor. Pareceu estranho, a priori, porque o sol não era intenso e a temperatura não passava dos 30 graus centígrados. Mas a umidade relativa do ar ontem, no Rio de Janeiro, chegou a 83% (medição do CPTEC). Com esse índice, o suor demora a evaporar... e a sensação de calor se intensifica, podendo até ser perigosa.. Ou seja, cabe um um elogio para o bom senso de Evandro Roman. E os times ganham uma razoável justificativa para o lento futebol apresentado.

3 – O Fluminense tentou, tentou, tentou. O Palmeiras se esforçou desesperadamente. Mas ninguém teve tanto talento para buscar o rebaixamento como a Ponte Preta. Ontem, contra o Goiás, o time segurou o empate sem gols no primeiro tempo. Voltou para a segunda etapa melhor. Tuto perdeu um gol incrível. E veio o primeiro gol do Goiás. Caio chutou na trave. E veio o segundo gol do Goiás.... e o terceiro... Pelo futebol apresentado, a Macaca merece amplamente disputar a Série B.

4 – O rotundo chocolate aplicado pelo Inter no Palmeiras no Parque Antarctica sublinha a excelente temporada colorada – que em breve chegará ao Japão. Ontem, com um minuto de jogo, a fábrica vermelha de jogadores já tinha apresentado sua nova jóia: Alexandre Pato, 17 anos, que vem da linha de montagem recente que nos ofereceu Daniel Carvalho, Rafael Sóbis e Nilmar – pra ficar só nos atacantes. Pato vinha sendo guardado a sete chaves. O Inter, inteligentemente, só queria usá-lo depois que ele assinasse um contrato longo – contrato que preservasse o investimento colorado em sua formação.

5 - O Grêmio coroa sua “temporada de resgate” com uma inesperada vaga na Libertadores, e sem “pré”. Ontem, o tricolor gaúcho desobinizou o Flamengo com autoridade. O time de Ney Franco jogou com raça até a expulsão desse talento para o sarrafo burro chamado Fernando. Por falar em Libertadores, se quiser ir longe o Flamengo vai precisar de reforços na zaga, uma vez que deve perder Renato Silva (e, mais grave, continuar com Fernando). O mesmo vale para o Grêmio, que tem um time brigador mas sem muita criatividade. E ainda pode perder o ótimo Lucas.


Seleção da rodada

Clemer (INT) – A vaga seria de Rogério Ceni, mas Clemer pegou tudo.
Claudemir (VAS) – Quase marcou um belo gol...
Fabão (SPO) - Onipresente.
Índio (INT) – Excelente.
Luciano Almeida (GOI) – Um gol e um passe para enterrar a Ponte.
Vargas (INT) - Marcou demais.
Lucas (GRE) - Incansável
Zé Roberto (SAN) – Jogador de seleção.
Hugo (GRE) – Atropelando zagueiros.
Alexandre Pato (INT) – Diziam que jogava muito. Pelo visto, diziam certo.
Schwenck (FIG) - Atrapalhado, caneleiro e artilheiro (vice-artilheiro, no caso).
Técnico - Caio Júnior (PAR) - Quase na Libertadores com um time sem estrelas.

Selebaba da rodada (3-5-2)
Anderson (SCR) – O Fluminense agradece.
Dininho (PAL) – Até pisar na bola... ele pisou.
Fernando (FLA) – Carniceiramente falando...
Daniel (PAL) – Artilheiro 2.0
Anderson Lima (SCA) – Estava barrado merecidamente...
Ricardo Conceição (PPR) – Triste.
Morais (VAS) – Não vem jogando nada.
Canindé (SCA) – Improdutivo.
Enílton (PAL) - Horrível.
Tuta (FLU) – Que atuação...
Josimar (PPR) – Entrou com seu time sendo rebaixado e desperdiçou uma chance clara de gol ao inventar um calcanhar.
Técnico - Jair Picerni - Surrado em casa.


O comentário ofensivo da rodada
Para terminar, numa semana em que a coluna foi deveras ofendida, e a bola de cristal apresentou 50% de acertos, chegou a hora da esperadíssima e gloriosa "ofensa da rodada". Ei-la:

"Voce tá louco. Cheirou pó royal. O Inter vai tomar um coro do palmeiras!!! 4 a 1!" - Guilherme Aguiar

Comentário: Sem comentários.

Escrito em 27/11/2006
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