Entre zebras e carruagens
Quanto vale uma previsão futebolística, um entendido, um analista profundamente capaz? Quanto vale uma profecia pré-campeonato? Ganha um dossiê eleitoral usado, um Valdebran de segunda mão, quem tiver previsto a goleada do Goiás sobre o Grêmio, ontem, no Serra Dourada. Afinal, era o confronto entre a sensação tricolor do Sul, o Grêmio do futebol solidário e eficaz, contra o cambaleante Goiás, que tinha cedido um empate para o Atlético-PR nos últimos minutos. Eis que, às oito e dez de domingo, a meia-noite chegou para a cinderela gremista. A carruagem gaúcha se transformou em abóbora graúda.
O Campeonato Brasileiro é como as brigas de João Saldanha: não tem regra. Ou melhor: sua única regra é a ausência de regras. Tudo é volátil no Brasileirão, toda zebra é um travesti. A listrada de ontem é o alazão de amanhã. Você dorme patinho feio e acorda cisne. Dorme cisne e acorda sarnento, pulguento, sofrido. Pouca gente apostaria que o Goiás, na zona do rebaixamento, seria capaz de surrar o Grêmio como surrou. Mas... alguém se lembra do início do Campeonato? O time goiano vinha de excelente campanha em 2005 e tinha prognósticos muito melhores do que o próprio Grêmio.
Todo santo analista (este incluído) acreditava que Mano Menezes & seus blue caps iam brigar para não cair. E aí está o Grêmio, em que pese a injeção goiana de humildade na veia de ontem, sonhando até com o título. Quem diria que o Palmeiras, depois de demitir o técnico que ressuscitou um time que tinha apenas quatro pontos em dez rodadas, venceria o líder São Paulo? E venceria com autoridade, apesar de um ou outro senão da arbitragem.
Não há araponga ou vidente capaz de auscultar o que esse Brasileirão guarda no peito. Ontem, foi o dia da aproximação. Os dois líderes perderam. O Inter empatou. O Santos agradeceu atropelando o Flamengo e voltando a sonhar com o título. Vale a pena dar uma olhada no caminho dos quatro postulantes ao título:
O caminho do São Paulo:
Atlético-PR (F)
Vasco (C)
Fluminense (F)
Juventude (C)
Grêmio (F)
Figueirense (F)
Ponte Preta (C)
Santos (F)
Botafogo (C)
Goiás (F)
Atlético-PR (F)
Cruzeiro (C)
Paraná (F)
O caminho do Grêmio:
Palmeiras (C)
Santos (F)
São Caetano (F)
São Paulo (C)
Fluminense (F)
Figueirense (C)
Inter (C)
Juventude (F)
Atlético-PR (F)
Santa Cruz (C)
Flamengo (C)
Fortaleza (F)
O caminho do Santos:
Corinthians (F)
Grêmio (C)
Botafogo (F
Figueirense (C)
São Caetano (C)
Juventude (F
São Paulo (C)
Inter (F)
Paraná (C)
Cruzeiro (F)
Santa Cruz (C)
Vasco (F)
O caminho do Inter:
Paraná (C)
Cruzeiro (F)
São Caetano (C)
Fluminense (C)
Ponte Preta (F)
Juventude (C)
Botafogo (F)
Grêmio (F)
Santos (C)
Fortaleza (C)
Paraná (F)
Palmeiras (F)
Goiás (C)
Mesmo com a inconsistência recente, o São Paulo tem gordura para gastar. Se ganhar do Atlético-PR na Arena da Baixada – no jogo adiado – terá uma mão a centímetros da taça. Com duas ressalvas:
1 - Ainda vai enfrentar Santos e Grêmio fora de casa.
2 - No campeonato do equilíbrio, o número de bolas de cristal quebradas não é previsível.
O grande bolo
A grande massa intermediária segue robusta – por mais que o Paraná insinue uma fuga. E do Vasco em diante, ninguém está a salvo. Os matemáticos acreditam que 48 pontos garantam a permanência na primeira divisão. Dez pontos separam o Paraná, último da fila da Libertadores, da Ponte Preta, pole position do rebaixamento. Com 40 pontos, podemos excluir o tricolor paranaense da zona de perigo. Mas nada menos que 14 brigam hoje, sem saber se sonham com a América ou com os jogos nas noites de terça e sexta-feira.
Três desses times, claro, estão no CTI: São Caetano, Fortaleza e Santa Cruz. Os times nordestinos apresentaram súbita melhora. Mas terão fôlego o tricolor de aço e o tricolor pernambucano para chegar aos 48 pontos? Para o Santinha são necessários 24 pontos em 12 jogos (oito vitórias... ou sete vitórias e três empates... ou seis vitórias e seis empates)... uma tarefa inglória e árdua.
O golaço da rodada
Souza recebeu, driblou um zagueiro, o goleiro, outro zagueiro... e fez o gol que sacramentou a goleada do Goiás sobre o vice-líder Grêmio.
O passe da rodada
O toque de Jonas de calcanhar que deixou Wellington Paulista abriu caminho para a vitória do Santos na Vila Belmiro e desarticulou o esquema defensivo do Flamengo.
O bate-pronto da rodada
O repórter pergunta para o técnico Renato Gaúcho na entrevista coletiva:
- Renato, para chegar na Libertadores você precisa de um algo mais. O que é esse algo mais que você pode trazer para o Vasco nesse momento?
Renato responde de primeira:
- Inteligência. Que eu tenho de sobra.
Modéstia, modéstia.
Os pênaltis não marcados da rodada
Nosso caríssimo Djalma Beltrani pouco viu em Campinas. Não viu Élson derrubar Luís Mário na área. E não viu o mesmo Élson sendo derrubado por Nei. Em suma, não deu um pênalti pra cada lado.
A defesa da rodada
Foi um lance incrível, um escanteio em que a bola sobrou para a bicicleta de Magrão na pequena área. Mas Clemer voou e conseguiu espalmar o chute, fortíssimo e à queima-roupa, para o travessão. Na sobra, Ediglê dividiu – de bicicleta – com a cabeça de Rafael Moura... e a bola não entrou.
O gol perdido da rodada
Aos 44 minutos do primeiro tempo, Josué driblou dois jogadores do Palmeiras e entregou um gol feito nos pés de Leandro. Leandro poderia driblar Diego Cavalieri. Poderia tocar para Josué. E poderia chutar para dentro do gol. Mas fez o mais difícil – chutou para fora, perdendo uma chance inacreditável. Menção honrosa para Reinaldo, do Botafogo, que conseguiu chutar para fora da pequena área depois de um escanteio.
A furada da rodada
Seis minutos do segundo tempo no Beira-Rio. A bola sobra para Marinho, zagueirão do Corinthians. Ele domina, prepara o chutão, mira... e erra. Erra feio. Erra bisonhamente. A pobre esfera resvala em sua canela, e ali permanece... maltratada... até ser finalmente chutada.
A zebra da rodada
Ganha um Gedimar usado quem disser que apostou na vitória do Fortaleza sobre o Fluminense no sábado no Maracanã. Foi 3 a 1... e poderia ter sido mais.
O penoso da rodada
Foi aquele galináceo clássico, em que as penas ficam... e a bola vai... no caso, foi para dentro do gol do Corinthians... no gol de empate do Inter no Beira-Rio.
A frase da rodada
“A equipe iria perder porque não é a melhor equipe do futebol brasileiro e não vai ganhar de todo mundo. Só não precisava perder de 4 a 0” – Mano Menezes, técnico do Grêmio
A frase da rodada 2.0
“O time aprendeu a lição do jogo contra o Atlético-PR. Futebol é 90 minutos. Não adianta jogar 45 minutos e depois afrouxar. Num campeonato parelho como esse, qualquer vacilo é fatal” – Geninho, técnico do Goiás.
A frase da rodada 3.0
“Você é medroso, está com medo de dar o cartão – Abel Braga, para o árbitro Wagner Tardelli.
A frase da rodada 4.0.
“Fora!” – Wagner Tardelli, respondendo e expulsando Abel.
A reclamação de arbitragem original da rodada
“É toda vez o Abade... aí a gente vai conversar com ele... e ele só balança a cabeça” – Souza, apoiador do São Paulo, comentando a arbitragem de Cléber Abade no clássico paulista.
Cinco tiros indiretos:
1 – O Botafogo jogou bem melhor que o Vasco durante quase todo o clássico no Maracanã. Jogou bem e finalizou mal. Lima e Reinaldo perderam chances claras. Cuca neutralizou o esquema de contra-ataque do Vasco com uma marcação precisa. E não deu chance ao azar: ordenou que Rafael Marques e Felipe Saad, que compõem sua limitadíssima zaga reserva, abusassem dos chutões. Orientação parecida seguem os zagueiros do Vasco – Fábio Brás e Carlão. Não sem motivo.
2 – Cleber Wellington Abade foi decisivo no clássico paulista. Um pênalti claro sobre Júnior não foi marcado. E Marcinho fez um senhor teatro no pênalti marcado – embora Ilsinho tenha sido imprudente ao esticar as duas pernas na frente do jogador do Palmeiras.
3 – O Paraná engatou duas vitórias seguidas, esquecendo de vez a conversa sobre declínio e rebaixamento e se posicionando como real candidato para uma vaga na Libertadores. A vitória deve ser creditada, e muito, à excelente atuação do goleiro Flávio, que foi o melhor jogador em campo. Palmas também para o técnico Caio Junior, que não entrou em pânico com a má fase do time... barrou Maicossuel (destaque do time no primeiro turno) e encontrou em Gérson um novo meia de ligação (embora, ontem, Gérson tenha sido substituído ainda cedo no segundo tempo).
4 – Corinthians e Inter fizeram um jogo brigado, repleto de alternativas. O Corinthians foi melhor no primeiro tempo e deveria ter vencido não fosse a falha do goleiro Marcelo. No segundo tempo, o Inter teve as melhores chances. O empate acabou sendo justo. Clemer fez uma espetacular defesa, uma grande lambança... e deveria ter sido expulso quando derrubou Amoroso fora da área na primeira etapa. Interessante é tentar entender o que é situação clara de gol... se o goleiro derruba o atacante ao lado da área, não é situação clara de gol? Só se for na frente da área? Amoroso iria entrar na área sem goleiro... mesmo que um zagueiro fizesse a cobertura... isso não era uma situação clara de gol?
5 – A Ponte Preta não merecia perder para o Cruzeiro no Moisés Lucarelli. Jogou melhor no primeiro tempo e perdeu as melhores chances. Foi uma derrota trágica para a Macaca, que passará dez dias na zona de rebaixamento antes de enfrentar o Paraná na Vila Capanema.
Seleção da rodada (4-4-2)
Flávio (PAR), Vítor (GOI), Luís Alberto (SAN), Emerson (PAR) e Jadílson (GOI); Diguinho (BOT), Christian (APR), Carlos Alberto (COR) e Fernandão (INT); Souza (GOI) e Lúcio (FOR).
Selebaba da rodada (4-5-1)
Marcelo (COR), Leonardo Moura (FLA), Henrique (FLU), William (GRE) e Juan (FLA); Fernando (FLU), Toró (FLA), Rogério (FLU), Léo Lima (GRE) e Caio (INT); Obina (FLA).
Escrito em 25/09/2006