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Perfil

Gustavo Poli

Jornalista, 34 anos

Carioca, jornalista há 13 anos, trabalhou nos jornais O Globo e Lance! e está desde 1998 na TV Globo. Cobriu as Copas de 98 e 2002 e é co-autor do bem-humorado "Manual do mané" (Editora Planeta, 2003) e do "Almanaque do futebol" (Casa da Palavra, 2006).

E-mail: gustavo.poli@globo.com
Os 300 da Fiel


Foi um jogo em forma de cerco. De um lado, como se fossem 300 mil persas, os jogadores do São Paulo, sitiando a área do Corinthians. De outro, o Corinthians, com seus 300 de Esparta, resistindo, vendendo caro cada milímetro. No fim, o cerco do Morumbi terminou com um vencedor sem vitória. O Corinthians deixou o gramado com a certeza de que riscou a palavra rebaixamento de seu vocabulário. O São Paulo deixou o mesmo gramado atônito, envergonhado, constrangido.

Nosso pequeno épico do Morumbi começou com uma traição. A estupidez de César e a jumência ímpar de Eduardo Ratinho trancaram a Fiel no purgatório. Aos 24 minutos do primeiro tempo, o Corinthians tinha nove homens contra onze do São Paulo, líder do campeonato. Os dois cartões vermelhos absolutos, automáticos, pareciam condenar o Corinthians a mais uma derrota, a mais uma semana no inferno.

Mas no purgatório, o Corinthians está no seu habitat. O sofrimento é sua casa, a dificuldade é o seu elemento. A vitória fácil, o triunfo banal – esses não interessam ao Corinthians. O Corinthians foi Tevez, com seu penteado de vidente de esquina e futebol de gana infinita. O Corinthians é Carlos Alberto, com suas trancinhas e seu talento raçudo. Mas o Corinthians é, sobretudo, um time de força coletiva. É um time Magrão, que encontra sua identidade quando respira no cangote alheio, tomando bola e ímpeto, correndo, sofrendo e suando.

E então sobraram nove camisas. Nove camisas que se multiplicaram e incediaram as arquibancadas. A Fiel começou a vibrar a cada carrinho, a pular a cada dividida, a aplaudir todo bico pra frente. Era o Corinthians ideal jogando, o Corinthians na acepção da palavra, o time que adora enfrentar o turbilhão. A cada minuto que se passava, o empate – heróico e incrívell – se aproximava. E cada corintiano no Morumbi o defendia, com santinhos, preces e dentes trincados. E pulava, e vibrava. Provavelmente nunca houve um empate tão sofrido e comemorado, a cada lance, num meio de campeonato.

Um empate que veio, também, porque o São Paulo afundou numa letargia profunda e profana, acreditando que a vitória viria num repente. Leão pediu para seus atacantes ajudarem na marcação, entrincheirando em sua grande área aquelas duas famosas “linhas de quatro”, sem sobra na frente. O São Paulo acabou tendo paciência demais e decisão de menos. Mais impressionante é que o Corinthians teve duas preciosas chances de vencer, desperdiçadas porque a histamina de Rafael Moura acabou.

O São Paulo poderia ter vencido, claro, se a bola na trave de Danilo entrasse. Mas amargou o mico imenso e saltitante do empate porque cercou mais do que ameaçou. Porque perdeu quase todas as divididas. Porque correu preguiçosamente menos. Sem Josué, Mineiro hibernou. Lenílson dormiu. Tadeu roncou. E Leandro e Júnior nada produziram.

Numa coincidência etimológica, Leônidas era o nome do Rei de Esparta, que comandou o exército grego no desfiladeiro das Termópilas cinco séculos antes de Cristo. A história diz que, liderados por 300 espartanos, o exército de Leônidas atrasou 300 mil persas o suficiente para evitar a conquista da Grécia. Traído e cercado... Leônidas – o Leão de Esparta (era esse seu apelido) recebeu uma oferta de rendição de Xerxes, o imperador persa. Abaixem suas armas, disse Xerxes. Venham pegá-las, respondeu Leônidas.

Essa história, que Frank Miller recontou em quadrinhos (“300”) e que em breve estará no cinema (com Rodrigo Santoro no papel de Xerxes), não tem final feliz. Leônidas, orgulhoso e cheio de juba, foi massacrado com seu exército. Perdeu a batalha. Mas a Grécia ganhou a guerra. Empate técnico, empate épico.

Comparar os leões daqui e de lá... só é possível nos rugidos. Não foi por acaso que o Corinthians entrou em campo açodado, batendo até na sombra tricolor e ganhando cartões vermelhos no atacado. Isso teve muito a ver com o temperamento incendiário de Emerson Leão. Mas, uma vez encurralado, Leão foi até hábil. Inventou uma quizumba com o bandeira, atraiu o foco e fez seu time acreditar que não perder era possível. A Fiel há de lembrar com especial orgulho cada gota de suor corintiano despejado ontem no Morumbi... o dia em que o Corinthians com nove não perdeu para o São Paulo com onze. Um daqueles dias em que as imagens ficam.

O golaço da rodada
Renato Augusto avançou pela direita e cruzou. Rafael Marques ganhou de Luisão na corrida e pegou de primeira, de joelho, sem defesa para Lopes. Com o belíssimo gol contra o zagueiro do Botafogo manteve sua média de uma entregada por partida.

O verdadeiro golaço da rodada
O tirambaço de primeira de Marcelinho, do São Caetano, que Diego Cavalieri nem viu, no comecinho do jogo. Para azar do Azulão, o Palmeiras virou com Edmundo e Paulo Baier jogando muito.

O fominha da rodada
Segundo tempo. Obina invade a área pela esquerda... e... em vez de passar para Luisão, livre, prefere chutar sem ângulo e para fora. O passe para Luisão seria sinônimo de um gol líquido e certo. Sorte do Flamengo que as bolas do Botafogo também não queriam entrar ontem.

A agressão à bola da rodada
Um minuto e meio do segundo tempo, no sábado, em São Januário. A bola sobra limpa para Fábio Brás, que resolve dar um chutão para aliviar a defesa do Vasco. Infelizmente é traído pela rigidez de sua cintura, torce ligeiramente a coluna e consegue furar a bola, penteando-a bisonhamente. A dita cuja, maltratada, sai vagarosa pela lateral.

O presepeiro da rodada
Ele, sempre ele, o pernambucano do apito aparecido, Wilson Souza de Mendonça, e seu faro por manchetes. Ontem, em Florianópolis, Wilson resolveu expulsar Souza porque o atacante do Goiás pediu silêncio à torcida adversária. Expulsar, não. Dar o segundo cartão amarelo. Wilson parece fazer de propósito, só pra implicar.

O amarelo fashion da rodada
No mesmo jogo, Wilson deu outro amarelo incomum, mas justo: Diego, do Figueirense, entrou em campo sem tirar o brinco. Patético. Mexeu na orelha, recebeu o cartão... mas fez o primeiro gol do Figueira.

A frase da rodada
“Ele não tem controle emocional para apitar o jogo” – Leão falando do árbitro Héber Roberto Lopes. Sabemos todos que Leão é P.H.D. em psicologia com mestrado em controle emocional.

A entregada da rodada
Cássio, goleiro do Vasco, foi sair jogando rápido... e rolou a bola para na fogueira para Andrade... que prontamente a perdeu para Hugo. Hugo serviu para o dinâmico Lucas, que ajeitou e bateu... no canto de Cássio. Grêmio 1 a 0.

A volta por cima mais veloz da rodada
Minutos depois, Andrade bateu uma falta seca, que caiu na gaveta gremista. Um golaço que evitou a derrota cruz-maltina em São Januário, num jogo em que o Grêmio foi ligeiramente melhor.

A jogada patética da rodada
Valdiram avança pela ponta direita, pedala e sai pela linha de fundo. Em um lance, um resumo da atuação ridícula do atacante vascaíno no sábado. Renato Gaúcho vai sentir saudade de Edílson.

O desfalque sério da rodada
Perder para o Paraná já foi ruim. Mas perder Arouca pode ser ainda pior para o Fluminense.

O sarrafo atlético da rodada
Wilson Surubim conseguiu acertar a cabeça de Luís Mário com sua chuteira, na derrota do Santa Cruz para a Ponte no sábado. Na cobrança da falta, Danilo abriu o marcador para a Macaca. O detalhe é que o juiz Evandro Rogério Roman marcara tiro indireto e aceitou uma pisada de Vélber sobre a bola como “primeiro toque”.

O pênalti perdido da rodada
O Santa Cruz perdia por 1 a 0 para um rival direto na briga contra o rebaixamento, fora de casa... quando o trombador careca Ceará foi derrubado na área pelo goleiro Jean. Ato contínuo... Ceará foi cobrar o pênaltio... e devolveu a gentileza, rolando a bola macia para a defesa do goleiro da Ponte Preta.

A defesa da rodada
Ceará tentou se recuperar no segundo tempo, acertando uma bela cabeçada... mas Jean se esticou e foi buscar.

A frase da rodada 2.0
“Só não concordo com o narigudo lá que enfiou o cotovelo e a bandeira no Carlos Alberto” Leão, equilibradíssimo, enxergando uma agressão fantasma do auxiliar Roberto Braatz.

A frase da rodada 3.0
“A inveja não deixou que eu fizesse o meu segundo gol – Edmundo, após a vitória do Palmeiras por 3 a 1.

O momento pastelão da rodada
Trinta e dois minutos do segundo tempo em São Januário. Cleber Abade tenta fugir de um passe de Wellington para Lucas (ambos do Grêmio), se desequilibra e esborracha o traseiro na grama. O estádio gargalha.

A frase da rodada 4.0

“O Vasco não é um Barcelona, um Real Madrid, um São Paulo. Não vamos ganhar sempre” – Renato Humildade Gaúcho, em análise bastante acurada. Mas há uma semelhança. Na zaga do Real Madrid joga um Fabio. Na zaga do Vasco... também. O primeiro se chama Canavarro. O segundo atende por Brás.

A arbitragem da rodada
Héber Roberto Lopes esteve perfeito no Morumbi. As expulsões foram tão perfeitas que o jogo não descambou para a violência. Foi a melhor atuação de Héber em muito tempo.

Cinco tiros indiretos:

1 – A distância entre a Libertadores e a zona de rebaixamento é, hoje, de oito pontos. Dá para dizer que o Vasco, com 34 ponots, está completamente a salvo? Ou que a Ponte Preta, com 27 pontos e abrindo a faixa do cadafalso, já está condenada? Nada é certo no Brasileirão do equilíbrio.

2 – O São Caetano, que ontem entrou pela primeira vez na zona de rebaixamento, não vence desde 16 de agosto, quando ganhou do Vasco em São Januário. Vasco que, aliás, confirmou sua tendência de jogar melhor fora do que dentro de casa. O time de Renato Gaúcho tem extrema dificuldade de enfrentar adversários fechados. E Renato sabe que não pode arriscar muito. “Eu conheço a minha zaga”, palavras dele no último sábado.

3 – O Goiás ensaia uma recuperação e buscou um ponto imporantíssimo e algo milagroso em Florianópolis. São sete pontos nos últimos três jogos, sendo que esse último veio num escanteio depois que o time havia sofrido a virada do Figueira.

4 – O Flamengo jogou bem e mereceu a vitória no Maracanã, num jogo em que os dois times perderam muitos gols. E que confirmou dois talentos: Renato Augusto... e o goleiro Bruno. Quanto ao Botafogo, o técnico Cuca reza pelo retorno de Zé Roberto. Sem ele, o time perde a força ofensiva.
5 - As duas próximas rodadas dirão muito sobre o futuro do campeonato. O São Paulo vai receber o Inter no Morumbi – já sentindo o bafo colorado na nuca no que promete quase uma decisão antecipada. A seguir, o Inter enfrenta o Figueirense em Florianópolis e o Tricolor Paulista pega o São Caetano no ABC. O Grêmio pega Botafogo e Ponte Preta em casa. Se quer sonhar com o título, tem que ganhar as duas. O Santos enfrenta a mesma Ponte Preta, em Campinas, e a seguir recebe o Fluminense na Vila Belmiro

Seleção da rodada:
Jean (Ponte Preta), Betão (Corinthians), Marinho (Corinthians) e Evaldo (Grêmio); Paulo Baier (Palmeiras), Marcelo Mattos (Corinthians), Lucas (Grêmio), Renato Augusto (Flamengo) e Carlos Alberto (Figueirense); Edmundo (Palmeiras) e Christian (Juventude).

Selebaba da rodada:
Cássio (Vasco), Eduardo Ratinho (Corinthians), Fábio Brás (Vasco), Rafael Marques (Botafogo) e César (Corinthians); Léo Silva (Cruzeiro), Maldonado (Santos), Lenílson (São Paulo) e Moraes (Vasco); Finazzi (Fortaleza) e Valdiram (Vasco).
Escrito em 11/09/2006
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