O cemitério dos babalorixás
Que comentarista-profeta poderia prever, antes do Campeonato, que Vasco e Grêmio estariam, no início do segundo turno, brigando por vagas na Libertadores? Que Goiás e Corinthians estariam na zona do rebaixamento? Se o futebol normalmente já é um desafio ingrato para o Nostradamus amador, o Campeonato Brasileiro é uma espécie de cemitério dos babalorixás. Ai daqueles que arriscam aqui suas bolas de cristal.
Vasco e Grêmio são surpresas que sublinham o equilíbro do Brasileirão - um equilíbrio que derruba as certezas mais óbvias. Muitos dizem que é um nivelamento por baixo, ou mais que isso, subterrâneo - dizendo que o futebol praticado no Brasil é muito ruim. O Campeonato Brasileiro certamente não é uma Semana de Arte Moderna, mas está longe de ser o circo de aberrações que muita gente vê. Virou mania dizer que o futebol brasileiro atual é um misto de sarrafo e falta de talento. Se é assim, por que continuamos a exportar craques em série? Mas outro dia falamos dessa onda de pessimismo crônico - por ora, voltemos ao Brasileirão.
O melhor time do Campeonato, agora que o Internacional se desmontou, é claramente o São Paulo. O Santos, movido a Wanderley Luxemburgo, transpira mais do que inspira – pode até chegar longe, pois defende muito bem (é a melhor defesa, com apenas 18 gols contra)... mas seu ataque é anêmico. O Inter parece ter perdido algum apetite. Aquela urgência que fazia os jogadores se multiplicarem em campo parece menor. Mas, claro, qualquer time que perdesse três jogadores como Rafael Sóbis, Tinga e Bolívar... acusaria o golpe. E nossas surpresas? De onde elas vêm?
Vasco e Grêmio têm estilos semelhantes – muita marcação e saída rápida de jogo. O Grêmio se vale mais das bolas paradas... o Vasco tem um contra-ataque eficaz, que ganhou novo combustível com a contratação de Jean – que é rápido e passa bem (chutar... chutar é outra história). Renato Gaúcho sabe que sua defesa, individualmente, é até frágil. Mas armou um esquema compacto em que os atacantes ajudam na marcação. E Ygor e Andrade são marcadores que sabem tirar o espaço. O time desarma muito e, uma vez com a bola, se vale da habilidade de Moraes e dos deslocamentos de Edílson e Jean.
O Grêmio joga no melhor estilo gaúcho – brigando o tempo todo pela bola. . É um time limitado que sabe usar suas virtudes, como as cobranças de falta e escanteio de Tcheco, a cabeça de Evaldo, o apoio de Patrício... e a força de Hugo e Rômulo. Nem Vasco nem Grêmio devem ter fôlego para sonhar mais alto. Mas... brigar por vaga na Libertadores já é lucro para quem começou o Campeonato na mira da guilhotina.
E por falar nela... Outra prova do equilíbrio do campeonato é a pergunta: quem, afinal, pode cair? Fortaleza e Santa Cruz parecem algo desgarrados, abaixo da linha d’água. O Corinthians, depois do rugido inicial de Leão, parece realimentar sua própria crise. O que parece difícil de entender é por que Leão quis apagar sua fogueira de vaidades com gasolina, atirando justo em Tevez, o único jogador diferente de seu elenco. Se não se reequilibrar, um Corinthians sob pressão passa a ser sério candidato a cair, sim, apesar de ter talentos como Mascherano, Carlos Alberto e Roger.
A situação do Goiás é preocupante, pois o time sentiu demais a perda de alguns jogadores, como Roni – que dava velocidade ao ataque (Whelitton, seu substituto, ainda não se firmou e é mais lento) – e zagueiros como André Dias e André Leone. No meio-campo, a lacuna deixada por Rodrigo Tabata parece cada vez mais ampla.
O Goiás tem 21 pontos na 17a colocação. O 10o colocado, o Juventude, tem apenas cinco pontos a mais. São dez times brigando contra a degola. Três deles respiraram fundo com vitórias fora de casa – o próprio Juventude, o Atlético-PR e o Botafogo. A rodada foi muito ruim para Ponte Preta e Flamengo, que empataram em casa. E, claro, para o Fortaleza, que perdeu para um rival direto em pleno Castelão.
A frase da rodada
"Nós somos um time médio que está numa fase muito boa” – Mano Menezes, técnico do Grêmio.
O golaço da rodada
Iarley. Provavelmente o golaço do Campeonato. Sem comentários adicionais.
A zebra da rodada
A vitória do Vasco sobre o Internacional, em Porto Alegre. Mesmo os vascaínos mais otimistas ficariam satisfeitos com um empate.
O gol perdido da rodada
Vai para Christian, do Juventude, que sem goleiro conseguiu chutar para fora no primeiro tempo contra o Paraná. Tudo bem que Christian se recuperou ao marcar o gol da vitória... mas depois de perder um gol ridículo contra o Corinthinas no meio-de-semana... deve agradecer aos céus esse golzinho santo contra o Paraná. Santo para ele, claro.
A defesa da rodada
O salto de André fechando o ângulo e antecipando onde iria a cabeçada de Zumbi... evitou o empate do Paraná e garantiu a vitória do Juventude no Pinheirão. A bola meio que bateu em André, mas sua colocação na jogada foi perfeita.
O contraste da rodada
No Beira-Rio, Iarley pode dar um carrinho criminoso em Wagner Diniz, sem sequer merecer cartão amarelo do juiz Luiz Sardinha Bite. No Castelão, Leonardo Gaciba mandou Lúcio e Clayton para o chuveiro mais cedo (Lúcio beeem mais cedo) por causa de carrinhos irresponsáveis. Sintomas de critério variável, esse mal que assola a arbitragem.
O gol espírita da rodada
Júnior César dominou fora da área, ajeitou e bateu... a bola desviou na coxa do zagueirão..., do Fortaleza, e entrou... acabou sendo o gol da vitória do Botafogo no Ceará.
Seleção da rodada
André, Patrício, Evaldo, Jorge Luís e Júnior César; Renan, Josué, Wagner e Moraes; Soares e Iarley.
Escrito em 28/08/2006