Entre o replay e o fair-play
O co-irmão Garamblog fez recentemente uma bem-humorada lista de sugestões para melhorar o velho, violento e tosco esporte bretão. Era uma extensa brincadeira com algum fundo de verdade. Uma das sugestões, porém, deve ser levada a sério: a punição para a malandragem excessiva. O episódio Edílson aprofundou no senso comum a sensação de que todo juiz é ladrão até prova em contrário. Em especial se estiver apitando o jogo do nosso time.
Mas... a vida dos juízes não é fácil. Apitar sem replay contra uma profusão de ângulos e lentes... se tornou cruel. As câmeras evidenciam o óbvio: é humanamente impossível acertar tudo num jogo tão ríspido e tão rápido. Por isso, é hora de lembrar do óbvio: roubar e fair-play são palavras excludentes. E ser malandro em cima do prejuízo alheio no campo de futebol é basicamente isso: roubar.
É hora de punir o jogador que finge, o jogador que rouba. E essa não deve ser uma missão apenas dos árbitros - pois para eles, ela se resume a dar cartões para quem finge pênaltis. Deve ser uma missão maior. Vale inclusive para nós, da imprensa, que incensamos o jogador que cava faltas, que exaltamos a malandragem como se fosse um drible. A ética da malandragem presume uma minoria esperta diante da maioria otária. E essa maioria, aqui, sorri entre aplausos.
Recentemente, Botafogo e Palmeiras empatavam no Maracanã quando o palmeirese Enílton empurrou o zagueiro Rafael Marques sobre o goleiro Lopes... os dois se chocaram, a bola sobrou para o atacante... que fez o gol. O juiz Alicio Pena Filho e seu auxiliar conseguiram não ver. Mas as câmeras viram. Se Enílton fosse punido com três jogos de suspensão pela malandragem, talvez não pensasse em repeti-la. Enílton roubou. E não devemos permitir nem aceitar o roubo.
Talvez soe utópico. Mas o pênalti obtido falsamente deve ser punido – mesmo que o juiz não veja o lance. Enganar o árbitro é enganar a lei – e se vamos punir quem dá um soco na cara, como Felipe em 2005, por que não ampliar as possibilidades? O videoteipe está aí pra isso – para melhorar o esporte. Quem se joga na área em busca da vantagem ilegal atenta contra o espírito do jogo. Na Copa de 2002, Rivaldo foi suspenso pela Fifa por fingir que tinha tido uma lesão cerebral ao receber um chute na canela. Mas, por mais que os surtos éticos da Fifa sejam espasmódicos e seletivos, por vezes eles trazem bons exemplos.
O pênalti não marcado da rodada
Tudo bem que Diego, do Cruzeiro, jogou a bola para o lado esperando a falta... mas o carrinho de Alê, do Botafogo, varreu a perna do atacante... Foi pênalti... que Héber Roberto Lopes não marcou.
O erro de arbitragem da rodada
Parece que Wilson de Souza Mendonça viu a manchete do atacante Gustavo Gaúcho do São Caetano... no primeiro gol do Azulão... e acreditou que o lance foi involuntário. O bandeirinha, que também viu, ficou parado e não levantou seu “instrumento de trabalho”. Resultado, um gol grotescamente ilegal foi validado. Tudo bem que o mesmo bandeirinha ignorou um pênalti sobre Élton minutos antes – assim como WSM... o que talvez diminua a revolta rubro-negra.
O chutaço da rodada
Júnior Maranhão, do Santa Cruz, está se tornando um especialista em chutes de longa distância. Fábio Costa se esticou todo mas nem viu onde a bola entrou. Seria um candidato a nossa próxima categoria...
A cabeçada precisa da rodada
A finalização do baixinho Ferreira no primeiro gol do Atlético-PR contra a Ponte Preta. Nem foi uma cabeçada forte, foi meramente inteligente... depois do cruzamento de Michel.
O golaço da rodada
Seria... se Francis, do Palmeiras, não driblasse três jogadores do Fluminense e tocasse na saída do goleiro Diego, numa arrancada espetacular que sublinha a boa fase do Palmeiras.
O chutaço da rodada 2.0
A bomba de Vítor, do Goiás, que mordeu a coruja que dormia no gol de Clemer... e abriu espaço para a heróica reação goiana no Serra Dourada. Vítor chutou meio de bico... mas fez um belo gol.
O penoso da rodada
Talvez as luvas do goleiro Aranha estivessem escorregadias... mas ele praticamente pôs para dentro o terceiro gol do Furacão... a conclusão de Válber foi devagar... Aranha rebateu pra dentro... quase em câmara lenta.
O gol perdido da rodada
O prêmio inquestionável vai para Wagner, do Cruzeiro, que driblou Lopes e chutou para fora com o gol vazio. O lance é candidato a gol mais perdido do campeonato. Menção honrosa para Christian, do Juventude, que... sem goleiro e com um zagueiro desequilibrado no gol do Corinthians... conseguiu chutar torto... e mandar a bola para fora. Schwenck, do Figueirense, também perdeu uma chance inacreditável na cara de Cássio, goleiro do Vasco, quando seu time perdia por 2 a 1.
O chutaço da rodada 3.0
Numa definição perfeita do tal chute-de-três-dedos, Renato do Flamengo abriu a gaveta do goleiro Lauro, do São Caetano, arrumando um justo empate no Anacleto Campanella. A curva que a bola fez inutilizou o vôo do goleiro do Azulão. Que tirambaço.
O passe da rodada
A inteligente “semi-assistência” de Chiquinho para Juninho no terceiro gol do Palmeiras. O lateral pôs a bola entre três jogadores tricolores... no ponto ideal para que Juninho arrancasse, driblasse Arouca e tocasse com categoria na saída do goleiro. Menção honrosa para o passe do artilheiro Rômulo para o gol de Léo Lima...
A entregada da rodada
O passe errado de Almir, da Ponte, no meio-campo... armou o contra-ataque do Furacão... que terminou no gol de Marcos Aurélio. Almir, que sempre mostrou habilidade no Botafogo... sempre pecou nomeio-campo pela quantidade de bolas perdidas. A Macaca está descobrindo esse defeito aos poucos.
A defesa da rodada
O toque de ponta de dedo de Marcelo, goleiro do Grêmio, no chute cruzado de Bruno Barros do Fortaleza, ainda no primeiro tempo. O jogo já estava 3 a 0 para o tricolor gaúcho, mas a defesa foi dificílima.
O impedimento muito absurdo da rodada
No fim do primeiro tempo no Serra Dourada, o Internacional vencia o Goiás por 1 a 0 quando Ceará deixou Iarley na cara de Harley. Iarley tocou, fez o gol e foi despossuído dele pelo bandeirinha Ivaney Alves de Lima. Ao ver a imagem pela câmera de impedimento... é impossível não ficar com uma imensa pulga atrás da orelha. . Iarley estava pelo menos dois metros atrás do último zagueiro goiano... e até o mais cego dos peixes das profundezas veria isso. Das duas, uma: ou o bandeira viu que Iarley tinha condição e resolveu inventar o impedimento... ou tem sérios problemas de visão. A única certeza possível é que seu Ivaney não pode ser auxiliar.
O impedimento apenas absurdo da rodada
No terceiro gol do Vasco, Moraes desfrutava de uma clamorosa banheira, munido de sabonete, xampu e outros apetrechos.
O quase frango da rodada
Aos 17 minutos do segundo tempo, Inter 1 a 0, Clemer sai do gol... pega a bola e resolve cedê-la graciosamente a Romerito na pequena área... assustado, Romerito chuta para fora.
As coincidências da rodada
No Marcanã, o Botafogo, prejudicadíssimo contra Goiás, Palmeiras e Corinthians, recebe o Cruzeiro. O Cruzeiro tem Élson expulso num lance de rigor excessivo e um pênalti não marcado. O Goiás, teoricamente prejudicado contra a Ponte Preta, recebe o Inter. O Inter tem dois expulsos (contra um do Goiás) e um gol escandalosamente anulado pelo bandeira. Coincidências... e reticências...
A pixotada que deu certo da rodada
A pisada na bola de Faioli antes do terceiro gol do Vasco... isso sim é matar a bola com categoria...
O jogo da rodada
Teve gol estranho, chances perdidas, expulsão, falta cobrada com malícia por Rogério Ceni.... e cinco gols. Será que o jogo do São Paulo é sempre a grande partida da rodada? O líder do campeonato virou para cima do surpreendente Paraná com autoridade. E apetite. Leandro fez gol de joelho, o Paraná perdeu chanes, o São Paulo também... foi um digno confronto de candidatos ao título. Não por acaso... o São Paulo parece no trilho para buscar seu primeiro Brasileirão desde 1991.
A seleção da rodada:
Marcelo, Vítor, Alex Silva, Dininho e Júnior; Francis, Clayton, Maicossuel e Renato; Leandro e Élton.
Escrito em 25/08/2006