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Gustavo Poli

Jornalista, 34 anos

Carioca, jornalista há 13 anos, trabalhou nos jornais O Globo e Lance! e está desde 1998 na TV Globo. Cobriu as Copas de 98 e 2002 e é co-autor do bem-humorado "Manual do mané" (Editora Planeta, 2003) e do "Almanaque do futebol" (Casa da Palavra, 2006).

E-mail: gustavo.poli@globo.com
Eternamente Zidane


O cartão vermelho eterno, erguido pelo braço argentino do árbitro Horácio Elizondo, paralisou o tempo no Estádio Olímpico de Berlim. Por um instante, um imenso e coletivo suspiro se propagou. Um suspiro que misturava alegria italiana, tristeza francesa e incredulidade mundial. Quando Zinedine caminhou para o vestiário, o Zidane às suas costas já diminuía. E o número 10 imenso, que parecia tatuado às suas costas, roubava o foco da dourada Copa do Mundo em primeiro plano.

Ali, naquela imensurável bobagem, Zidane se tornou ainda mais inesquecível. Em vez de entrar para a galeria dos super-heróis, com pele de aço inoxidável e espírito inflexível, Zidane deixou o palco como um homem comum. Reagiu como o menino marselhês, descendente de argelinos, que cresceu num bairro pobre e violento. Quem saiu de cena foi Zinedine vestindo a capa de Zidane. Sua cabeçada no peito de Materazzi, de uma estupidez amadora, apenas sublinhou sua humanidade. Zinedine errou no topo do mundo e roubou-nos aquilo que avidamente esperávamos: o conto de fadas, e seu final feliz.

Torcemos pelo conto de fadas porque precisamos dele. Precisamos do mito. Queríamos ver Zidane derrotando o lobo mau, e não o contrário. Na final da Copa do Mundo, gostaríamos de vê-lo erguendo a taça. Ou aceitando cavalheirescamente a derrota com uma medalha de prata no peito. Mas as duas alternativas seriam menos memoráveis, teriam menos peso, do que o passo solitário do herói derrotado por si mesmo, descendo as escadarias rumo aos vestiários da memória.

A cabeçada foi um cascudo de rua na frente de três bilhões de pessoas. A ofensa à honra familiar, o mais infantil dos xingamentos, tirou Zinedine de dentro de Zidane. Em um segundo, o mito se humanizou. E agrediu. E envergonhou. E deixou o campo como um homem de carne e osso. Não poderia haver pecado maior para os milhões de torcedores, milhões de pessoas subitamente órfãs do mito. A agressão foi condenada, deplorada, lamentada. Quando a França perdeu nos pênaltis, o adeus se tornou ainda mais enfático.

Zidane sempre foi um craque cerebral – um simplificador, capaz de proteger a bola e fazê-la girar com rara facilidade. Ironicamente, suas duas finais de Copa do Mundo ficarão lembradas pelo que fez com a cabeça, logo ele, que nunca foi um bom cabeceador. A provocação tosca de Materazzi pegou Zidane na curva, já cansado, fisica e mentalmente. Uma brecha na couraça bastou para que Zinedine, o homem, driblasse o mito e escrevesse história com a testa.

Zidane eternizou o cartão vermelho trágico. Seu último ato, seu último lance, seu último gesto futebolisticamente público foi... ofuscar a taça do mundo. Thierry Henry disse a frase mais sábia: você pode tirar o menino do bairro violento, mas não pode tirar o bairro violento de dentro do menino. Não por acaso, a mãe de Zidane aprovou a agressão do filho, dizendo que queria ter “os ovos de Materazzi num prato”.

Quando a poeira baixou, ainda encontramos Zidane de pé. As ranhuras humanizaram seu busto. O herói caiu e se levantou. Empurrou sua última pedra morro acima para lançá-la impensadamente morro abaixo. Sua sinfonia tragicamente inacabada é uma obra inesquecível. Zinedine venceu. A Itália pode ter levado a taça, mas a Copa... essa ficou com Zidane.
. Escrito em 15/07/2006
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Ainda Roberto Carlos


Depois de alguns minutos de silêncio pelo fim da Copa, o blog retorna... comentando alguns comentários. Um revolto temporal de críticas desabou sobre a vasta cabeça deste escriba por causa do tópico que inocentava Roberto Carlos. Talvez eu tenha sido pouco explicativo. Ou talvez as pessoas prefiram condená-lo de qualquer jeito. Alguns comentários apontaram inclusive uma possível paixão do colunista pelo lateral. Imagino que nadar contra a maré tenha esses riscos.

Então, tentando ser mais claro: o que o tópico anterior procurava mostrar é que a função de Roberto Carlos em faltas laterais era permanecer na linha da grande área. Para produzir o VT do Fantástico, olhamos todas – absolutamente todas – as faltas cobradas contra o Brasil. Constatamos duas coisas:

1 – Em nenhuma delas, Roberto Carlos entrou na área para marcar um cabeceador.

2 – Em todas elas, a linha de impedimento se desfez antes da cobrança, deixando um adversário em condições de arremate.

O que aconteceu no gol da França foi repetição do que aconteceu contra Croácia, Austrália, Japão e Gana: uma linha de impedimento muito mal executada. Nos outros jogos, o Brasil só não levou gols em lances parecidos por detalhe. Na região em que Henry marcou o gol, em lances diferentes, Kovac ficou livre, Viduka ficou livre, Kewell ficou livre.

No lance decisico contra a França, três brasileiros acompanharam cinco franceses para dentro da área. Seis outros brasileiros ficaram parados na linha da mesma. A orientação de Parreira era só se movimentar após o toque do cobrador na bola – orientação jamais seguida na Copa, como a análise de todas as faltas demonstrou.

Roberto Carlos levou a culpa por estar mais perto de Henry. Poderia até ter tido a intuição de correr pra área e tentar evitar o gol. Mas é fácil dizer isso depois da jogada. Se a orientação era "não entre na área nunca"... não é justo culpá-lo por isso. Até porque linha de impedimento depende de disciplina.

Em outras palavras: ele pode ter tido inúmeras culpas. Fez uma Copa ruim como, de resto, a Seleção inteira. Mas, no caso do gol da França, foi um erro coletivo – e não dele.
Escrito em 13/07/2006
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Renascença


O triste passo de Zidane rumo aos vestiários da memória, passando pela taça que minutos depois seria erguida por Cannavaro, talvez tenha resumido esta Copa do Mundo. Ela não poderia ser ganha por um solista. Essa foi uma Copa de volantes e zagueiros. E a Itália teve o melhor zagueiro - Cannavaro - e o melhor volante da Copa - Pirlo. O melhor jogador foi Zidane, que não merecia nem poderia ter pendurado as chuteiras de forma tão melancólica. Mas foi ele que escolheu assim, ao cair numa provocação tosca de Materazzi.

Parecia escrito. Desde aquele gol aos 48 minutos do segundo tempo contra a Austrália num pênalti fantasma... a Itália parecia ter esse encontro marcado com o destino. Depois, vieram os dois gols no finzinho da prorrogação contra a Alemanha. Na final contra a França, a Itália merecia perder. E ganhou. Ganhou uma Copa do Mundo graças a um pênalti que bateu no travessão e quicou na linha.

Talvez os italianos estivessem cansados por causa da prorrogação da semifinal. Mas fato é que foram amplamente dominados pelos franceses. Não perderam por detalhe e porque Buffon fez uma grande Copa do Mundo. Certamente, neste momento ninguém se importa com esses papo de justiça em Veneza, Roma, Gênova, Milão ou Florença. Mas venceu o pior. E é essa a beleza do futebol.

O pior pode vencer. A França deixou de ganhar em sua melhor partida na Copa. Os italianos se valeram de sua sólida defesa e da sorte que os acompanhou torneio afora. Agora, a grande curiosidade pós-mundial será saber o que Materazzi falou para que Zidane perdesse a cabeça de forma tão absurda. Leitura labial nele. Não deve ter sido nada muito nobre, mas nada justifica a reação de Zidane. Não ali. Zidane deveria estar cansado, mas nenhum cansaço é desculpa. Zizou vai para o vestiário como o maior jogador francês desta geração, talvez o maior de todos os tempos. Ele, como Maradona, ganhou uma final e perdeu outra. Mas deixou para todos a impressão de uma sinfonia inacabada.

A Itália ganhou sua quarta Copa com um técnico corajoso, que apostou no ataque. Mas os grandes destaques de seu time... jogaram do meio-campo para trás. Buffon, o melhor goleiro do Mundial. Cannavaro e Pirlo, já mencionados. E Materazzi, o personagem da final: cometeu o pênalti, fez o gol de empate, arrumou a expulsão de Zidane e ainda marcou seu gol na disputa de pênaltis. Mas o sinal de que a Itália seria campeã parecia escrito na testa de outro jogador: Fabio Grosso.

Quando Grosso caminhou para bater o pênalti derradeiro, parecia que um indicador imenso pairava sobre o Estádio Olímpico de Berlim, como se um obscuro deus futebolístico quisesse deixar as sombras por um instante. O indicador apontava para Grosso, como se berrasse que não existem coincidências. Foi Grosso que sofreu aquele pênalti espectral contra a Austrália. Foi ele que fez o gol que abriu o caminho para a vitória na semifinal. Parecia mesmo que estava escrito.

A Copa se despede da Alemanha com dois campeões – a Itália, de direito, e a Alemanha de fato. Hoje dormiremos ao som de “Siamo noi, siamo noi... siamo campioni del mondo”. Que a Copa, que fechou as históricas cicatrizes alemães, possa fazer o calcio italiano ressurgir das cinzas de sua podridão. No dia em que Zidane caminhou tragicamente para o oblívio, a terra voltou a ser Azzurra. Que seja um renascimento.





A linha anta


O Brasil inteiro julgou e condenou Roberto Carlos. E-mails circularam com uma extensa na análise do gol da França servindo a cabeça do lateral numa bandeja. Roberto Carlos foi ridicularizado, culpado, barboseado. Se tornou símbolo do fracasso e da passividade do Brasil na Copa. O Super-Brasil que chegou rugindo como tigre e foi embora como gatinho rouco - como anti-Brasil – ganhou um rosto. A derrota ganhou um rosto: o rosto do melhor lateral que o Brasil teve nos últimos dez anos.

O crime de Roberto Carlos: ficar parado. Seu julgamento foi sumário, nem rito teve. Uma única imagem – a do lateral abaixado, aparentemente distraído, enquanto Henry corria para marcar o gol da França – foi evidência suficiente. Os raros advogados de defesa foram moralmente espancados assim que ousaram levantar um dedo. Derrota da Seleção rima com inquisição.

E diga-se - o réu foi ouvido, ainda que surdamente. E todas as justificativas apresentadas por ele foram ridicularizadas ou descartadas. Ele disse que sua função era ficar parado onde estava. Ninguém acreditou. Disse que a culpa não era sua. Foi acusado de querer botar a culpa nos outros.

Este blog resolveu se perguntar. E se Roberto Carlos estiver certo? Resolvemos procurar aqui no arquivo de imagens todas as faltas cobradas sobre a área brasileira. Todas. Nem são tantas. Separamos algumas que estão indo ao ar no Fantástico de hoje. Talvez seja tempo de reabrir o “caso Roberto Carlos”, antes que ele arda na fogueira. Porque o gol não foi culpa dele. Mais que isso – Roberto Carlos é completamente inocente no lance.

Além de não ser cabível imaginar Roberto Carlos (1,68m) marcando Henry (1,87m), a análise dos lances demonstra que nunca foi função do lateral marcar na área. Sua posição sempre foi aquela ali – na linha da área. O que as imagens mostram é que a linha de impedimento brasileira esteve sempre a um passo da tragédia. Mais que burra, sempre foi uma linha anta.

O Brasil esteve a um passo de levar gol contra a Croácia, contra a Austrália, contra Gana (alguém lembra da cabeçada que Dida salvou com os pés?)... e contra a própria França. O gol que Henry marcou estava maduro muito antes. E Roberto Carlos pode ter culpa em inúmeros cartórios. Mas não nesse.

Blatter e a lei

Às vezes, as maiores verdades estão nas menores frases. A declaração mais reveladora pode estar na entrevista pretensamente insossa ou na piada graciosa. Ontem, o presidente da FIFA, Joseph Blatter, admitiu brincando numa entrevista à CNN que, quando jogava futebol, numa liga obscura da Suíça, costumava se jogar para enganar a arbitragem. Pode parecer uma brincadeira inofensiva para nós, brasileiros, que encaramos com naturalidade o salto ornamental em busca de pênalti. Na Europa não é assim.

Tentar enganar o juiz e o público é considerado crime futebolisticamente grave aqui. E Blatter sabe disso. Quis fazer graça, criar manchete. A confissão revela um pouco sobre qume é o presidente da Fifa. Mostra que Joseph Blatter nunca teve muito apelo por essa velha senhora, a lei. Num campo de futebol podemos saber muito sobre a alma de um homem. Talvez não seja coincidência que a justiça suíça esteja assombrando Blatter e seus amigos.
Escrito em 09/07/2006
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A campeã


Hoje, daqui a pouco, França e Itália disputarão a taça de direito. Mas, de certa forma, essa Copa terminou ontem, com a vitória de um país inteiro. “A Alemanha nunca esteve tão feliz”, disse um jornalista alemão hoje cedo. A Copa foi um testemunho dos estranhos poderes do esporte. Um país traumatizado tirou bandeiras do armário, vendeu uma nova imagem ao mundo, costurou a fronteira que ainda existia dentro da cabeça de cada alemão.

A Alemanha acordou celebrando sua Mannschaft, que jogou um bom futebol – alemão, sim, mas ofensivo, objetivo, determinado – e resgatou o patriotismo perdido – e conquistou um merecido terceiro lugar. O trauma nazista, o muro da vergonha, os campos de concentração... tudo isso foi purgado pela alegria esportiva. Como se a pátria descalçasse as botas de outro tempo e vestisse alegremente as chuteiras da remissão.

Leste e Oeste se misturaram hoje cedo no Portão de Brandemburgo. E se abraçaram em vermelho, amarelo e preto. Renasceu uma Alemanha melhor do que aquela que marcou o Século XX. A Deustchland de Beethoven, Bach, Goethe, Kant, Nieztsche, Wagner, Thomas Mann merecia esse histórico resgate. Uma pedra em forma de bola de futebol foi implantada sobre o funesto túmulo do holocausto. Berlim, a cidade outrora fraturada, celebrou hoje o fim da Copa abrindo um sorriso que antes nunca soaria alemão.

Itália ou França vão levar o caneco pra casa, mas como Vanderlei Cordeiro de Lima em Atenas, o maior título ficou com a medalha de bronze. A Alemanha foi campeã, com pompa, festa e circunstância.
Escrito em 09/07/2006
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A França acadêmica


E Luís Felipe Scolari provou de seu próprio veneno. A França manteve sua habitual tática: fazer um gol e dar um tiro na bola. A tática adequada para um time veterano, sábio, extremamente organizado. Ganhar não presume espetáculo e sim eficiência. Assim reza a cartilha de Felipão. Quem se lembra que, menos de 25 dias atrás, Les Bleus empataram com a Suíça e com a Coréia do Sul... e só se classificaram para as oitavas-de-final graças a uma vitória suadíssima sobre Togo? Togo! A França é um time que marca pouquíssimos gols. Mas ai do adversário que deixar ela sair na frente.

Um a zero para a França é goleada. O time não fura a bola – metralha, fuzila, esquarteja. Assim que consegue uma vantagem, reduz a velocidade do jogo a quase zero. Contra-ataca sazonalmente. Economiza energias. Marca com rara competência. E faz cera sem o menor pudor. É uma França acadêmica, com o jeitão de professor de Sorbonne de seu técnico, Raymond Domenech. Os cabelos brancos, os óculos de bacharel, a perna cruzada, a expressão blasé. No gol da França, é provável que Domenech tenha mexido uma sobrancelha. Provável.

Ontem, a França deu uma aula de método. Como ganhar por um a zero em noventa minutos, por Raymond Domenech. Abusou do direito de esvaziar a bola, com a ostensiva permissão do juiz uruguaio Jorge Larrionda. A França fez cera desde o primeiro tempo. Larrionda, de certa forma, decidiu o jogo – não marcou o pênalti sobre Cristiano Ronaldo, que foi pênalti. Mas como Cristiano Ronaldo tem o hábito de fazer acrobacia na área alheia, é até compreensível que o uruguaio tenha sorvido o apito.

O que não é compreensível é sua economia de cartões. La Rionda simplesmente burlou a regra para deixar Vieira e Zidane jogarem a final. O espetáculo agradece, mas a ética não. Todos, no fundo d’alma, lamentaríamos Zidane no banco contra a Itália. Mas a lei não é igual para todos? Especialmente no futebol, alguns são mais iguais do que os outros. O reserva Saha recebeu seu segundo amarelo, por exemplo. E... por que a lei da semifinal é diferente da primeira fase? La Rionda expulsou três jogadores em Itália x EUA. O americano Pope, por exemplo, recebeu dois amarelos por lances mais leves que as faltas de Zidane e Vieira ontem.

A França tem pouco ou nada a ver com isso – fez apenas seu jogo. Marcando com nove ou dez jogadores, fechando com três marcadoes os lados do campo. Portugal marcava bem também, mas deixava um ou outro vazio no meio porque Felipão botou Costinha para vigiar Zidane de perto. Foi um desses vazios que Malouda aproveitou para criar o chamado mano-a-mano entre Henry e o zagueiro Ricardo Carvalho. Henry foi rápido, Ricardo Carvalho deu o bote errado. Pênalti. Zidane bateu bem, Ricardo quase buscou. A palavra quase foi a tônica da noite... e da Copa lusa. Portugal não desistiu, brigou até o último segundo. Teve suas chances, merecia empatar. Mas a França aprendeu a furar a bola como ninguém.

O melhor jogador em campo foi português - Cristiano Ronaldo. Como jogou o puto maravilha (é esse o apelido dele para os jornais portugueses). Velocidade, coragem, partindo pra cima, driblando franceses e um lamentável coro de vaias inglesas. Inúmeras vezes passou por dois, três adversários. Se Deco não tivesse feito sua pior atuação em muito tempo, a Seleção das Cinco Quinas (é esse mesmo o apelido do onze patrício) poderia ter melhor sorte. No primeiro tempo, Deco errou dois passes que teriam deixado Pauleta na frente de Barthez. E isso fez diferença, porque a França não teve uma grande atuação.

Zidane fez o gol – e pouco mais. Henry sofreu o pênalti, fez uma ou outra jogada – mas não muito. O grande segredo dessa França é esse: ela precisa de pouca produção ofensiva. Faz o gol necessário e se enclausura com eficácia. A dupla de zaga, formada por Thuram e Gallas, é sensacional. Os laterais marcam bem. A eficiência é tal que disfarça o ponto fraco do time, o goleiro Barthez. E olha que Barthez, com suas mãos de quiabo, sempre arruma um jeito de tentar entregar.


A França eliminou Espanha, Brasil e Portugal e enfrenta na final a última parada de seu caminho latino – a Itália. A Azzurra, que ganhou merecidamente da Alemanha, vai jogar toda de azul no domingo. A França vai vestir o mesmo branco que usou para mandar embora Brasil e Portugal.

Contra a Alemanha, a Itália teve três destaques individuais: Grosso, Canavarro e Pirlo. Os três devem figurar na Seleção da Copa. A final promete ser um confronto defensivo e cauteloso. Dois times com defesas mais que sólidas, mentalmente fortes, experientes. E assim vai terminando uma Copa de volantes e zagueiros. Hoje, Canavarro e Zidane brigariam pelo posto de melhor jogador da Copa. Mas ainda falta... a final.

Até porque, para evitar o mikhan de 2002, a Fifa mudou. A eleição do melhor do mundo, desta vez, receberá votos até a meia-noite de domingo (na Alemanha, 19h de Brasília). E então podemos apostar que o eleito virá da seleção campeã. Canavarro merece, Pirlo merece, Zidane merece, Vieira também. Mas a decisão pode mudar tudo.


Selecionando...

Fazer uma seleção da Copa é uma escolha algo ingrata. Você tende a privilegiar jogadores dos times que chegaram à final, mesmo que outros tenham feito partidas memoráveis. Por isso, vamos fazer duas seleções.

Seleção da Copa (até a final):


1 – Gianluigi Buffon (Itália)
2 – Miguel (Portugal)
3 – Lílian Thuram (França)
4 – Fábio Canavarro (Itália)
5 – Patrick Vieira (França)
6 – Fábio Grosso (Itália)
7 – Cristiano Ronaldo (Portugal)
8 – Andréa Pirlo (Itália)
9 – Miroslav Klose (Alemanha)
10 – Zinedine Zidane (França)
11 – Maniche (Portugal)


Seleção da Copa – melhores atuações


1 – Ricardo (Portugal)
2 – Miguel (Portugal)
3 – Lúcio (Brasil)
4 – Fábio Canavarro (Itália)
5 – Yaya Touré (Costa do Marfim)
6 – Philipp Lahn (Alemanha)
7 – Arjen Robben (Holanda)
8 – Pirlo (Itália)
9 – Miroslav Klose (Alemanha)
10 – Zidane (França)
11 – Maxi Rodríguez (Argentina)


O gol mais bonito da Copa – O chutaço de Maxi Rodríguez de fora da área contra o México nas oitavas-de-final, que classificou a Argentina para as quartas-de-final.

O jogo da Copa – A semifinal entre Itália e Alemanha, com alguma vantagem sobre a batalha de Nuremberg, Portugal x Holanda.

O gol mais trabalhado da Copa – O gol dos 26 toques argentinos, que terminou no chute de Cambiasso, contra Sérvia & Montenegro.

A entregada da Copa – O capitão ganês Kuffour ajeita a bola para o italiano Iaquinta marcar na vitória da Azzurra por 2 a 0 em sua estréia.

O erro de arbitragem da Copa – Foram tantos pênaltis não marcados... que vários juízes se juntam para agradecer ao inglês Graham Poll pelos três cartões amarelos que deu ao croata Simunic. Um erro para ficar na história e ofuscar todos os outros do Mundial.

A pior Seleção da Copa – Arábia Saudita.

O futebol mais divertido da Copa – Foi jogado pela Costa do Marfim, que acabou injustamente eliminada.

A decepção da Copa – Uma certa seleção de amarelo, que muito prometia e nada cumpriu.

A defesa da Copa – O pênalti cobrado por Srna no canto foi defendido com agilidade felina pelo japonês Kawaguchi. E Croácia e Japão ficaram no empate sem gols.

Os tabus mantidos na Copa – Zidane sobre o Brasil. Felipão sobre a Inglaterra. A França sobre Portugal. A Itália sobre a Alemanha.

A revelação da Copa – Yaya Touré (Costa do Marfim), volante alto, habilidoso, irmão de Kolo Touré, zagueiro do Arsenal. Ainda vamos ouvir falar de Yaya, hoje companheiro de Rivaldo no Olympiakos.

A caça às bruxas da Copa – A criminalização injusta de Roberto Carlos no lance do gol de Henry. O erro ali foi claramente coletivo.

A surpresa da Copa – A ausência de surpresas. Gana eliminou a República Tcheca, mas essa foi uma meia surpresa no máximo, assim como a Ucrânia.

A estatística da Copa – A Suíça conseguiu ser eliminada sem tomar um golzinho sequer. Isso porque conseguiu perder todos os seus pênaltis na disputa contra a Ucrânia.
Escrito em 06/07/2006
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E daí?


Ronaldinho Gaúcho e Adriano saíram para dançar em Barcelona. E daí? Essa surda obrigação de quarentena é risível. O que tem de errado em ir dançar? O que tem de notícia nisso? A Copa acabou para os jogadores brasileiros. Nada mais natural do que procurar esquecê-la. Alguns foram pra casa, outros deram entrevista, uns foram passear com seus cachorrinhos, outros quiseram se divertir. E daí?

A notícia presume que todos os nossos craques deveriam passar as próximas duas eternidades em prisão domiciliar. É como se todos os torcedores tivessem chorado rodrigueanas lágrimas de esguicho. Cada um trata sua decepção à sua maneira. Ninguém é obrigado a abraçar a melancolia. Enxergar desrespeito numa noite de diversão é de uma hipocrisia medieval.

Quantos não foram dançar, beber, tentar se divertir para esquecer da decepção na Copa? Ronaldinho e Adriano são jovens e ninguém tem nada, realmente nada, com o que foram fazer depois da Copa. Isso sim me parece invasão de privacidade. E invasão de privacidade do pior tipo – patrulheira, boba e condenatória.
Escrito em 04/07/2006
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Profissionais


Sessenta jogos e menos de um mês depois, sobraram quatro times de pé. A Alemanha reunificada, a França de Zidane, Portugal de Figo e Felipão... e e Itália... de quem mesmo? A Itália mais profissional do que nunca. A Itália, o menos comentado semifinalista, cujo principal jogador tem sido um volante. A Itália, a tricampeã subterrânea, que chegou às semifinais derrotando potências como Austrália e Ucrânia.

A Azzurra vem vencendo sem convencer desde... a primeira rodada, quando ganhou de Gana. Merecia perder para os EUA – empatou. Era dominada pela República Tcheca quando fez um gol num escanteio. Jogou mal contra a Austrália e ganhou um pênalti de presente aos 48 minutos do segundo tempo. Era dominada pela Ucrânia quando fez seu segundo gol nas quartas-de-final. A Itália sempre foi assim – uma redefinição constante do conceito de oportunismo.

Lembra um pouco a Alemanha de 2002 – que ganhando sem jogar bem chegou à final. A diferença é que essa Itália tem talento. Pirlo, o volante supracitado, é ótimo. Totti começou a jogar bem. A dupla de ataque, Gilardino e Toni, não é de outro planeta – mas é muito boa. E a defesa, liderada por Canavarro, só levou um gol até agora – e mesmo assim contra.

Sempre se disse que a Alemanha é uma seleção “profissional de Copa”. Mas a Itália é uma espécie de gêmea bivitelina no caso. Ambas têm três títulos mundiais. E a Itália desta vez soa mais eficiente que passional. A Alemanha, talvez ironicamente, bebe na paixão de uma torcida que está vendo o futebol costurar sua nação partida.

Bola de cristal:

Nublada, ofuscada e turva, a bola de cristal oferece imagens de um país choroso. Algo me diz que a alegria alemã termina hoje em Dortmund.

O palpite: Itália 1 x 1 Alemanha com vitória italiana nos pênaltis.

Escrito em 04/07/2006
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O pacheco desidratado


Há 20 dias, o brasileiro almoçava, jantava e ceava futebol. E ai daquele vagamente cético que ousasse debater a superioridade do jogador nacional. Há um mês, tínhamos o melhor time do mundo, da galáxia e do universo. Numa discussão de boteco, um leigo sairia convencido de que ganharíamos da Seleção da Via-Láctea e do time da Liga da Justiça com o Super-Homem no gol. A frase “temos o melhor time do mundo” era uma verdade universal.

Um mês depois, nossa suposta invencibilidade recebeu uma dieta de kriptonita. Nosso herói torcedor, o Super-Pacheco, transformou sua euforia em bile pura e começou a derramá-la acidamente em todas as direções. Seja na direção dos Homens-Aposentadoria ou do Burocrata de Aço. Essa transformação era até esperada. Não se esperava é que ela fosse acentuada pela quantidade de heróis mascarados, relaxados e desgovernados de capa amarela.

Hoje, em cada esquina é possível encontrar um pacheco desidratado, capaz de malhar um parreira por minuto, desancar sete gerações da família Cafu e destilar todas as combinações entre Zagallo, o número 13 e a palavra “fracasso”. O Brasil-2006, o tal maior show de bola sobre a Terra, foi um fiasco de proporções planetárias. E isso nos ensina um pouco sobre verdades universais e sapiências generalizadas.

Neste mesmo espaço, há 25 dias, este vosso astuto servo perguntou se não era essa a mesma seleção que em 2005 tinha perdido para o México e empatado contra o Japão com extremado auxílio apitador? Não era um colunista espertinho tentando bancar o arauto do apocalipse. Era apenas uma tentativa de manter o equilíbrio diante do exagero.

O mesmo equilíbrio nos faz lembrar que Cafu foi o capitão do penta, jogou três finais de Copa pelo Brasil, ganhando duas. E se seu sorriso de 2002 no pódio contrasta com sua lenta e derradeira caminhada rumo à lateral... é porque a diferença de expectativas entre as Copas foi gritante. Nada se esperava em 2002. Tudo se esperava agora. Porque não tínhamos um time, tínhamos O time. A “melhor coleção de talentos desde 1970”.

A ilusão da superpotência se consagrou após a vitória de 4 a 1 sobre a desfalcada Argentina na Copa das Confederações. Ali se cristalizou a impressão de que Kaká, Ronaldinho Gaúcho, Adriano, Ronaldo e Robinho forjariam uma equipe acima do bem, do mal e do mais ou menos. Um favorito absoluto, como nunca dantes visto. As Copas têm esse hábito de transformar carruagem em abóbora velha. De mágico, o quarteto virou letárgico. A paciência pregada pelo técnico desandou para a moleza.

Um mês atrás, quem trocaria uma meia usada (e ajeitada) por Roberto Carlos pela informação de que os melhores jogadores da Seleção na Copa seriam Lúcio, Juan e Zé Roberto? O Brasil sabia que era favorito, fez curso pra lidar com isso e não aprendeu. A autópsia da Super-Seleção há de revelar que ela morreu de auto-suficiência corolária, causada ou agravada por uma veterana (e calva) bactéria francesa.

Sofrimento e causas à parte, a derrota talvez sirva para enfiar no quengo pacheco que em futebol não existe time dos sonhos. Agora, havemos de capinar a seara da humildade, usando o orgulho ferido a nosso favor e não com aquela sensação de que tiraram-o-que-era-nosso. Não tiraram, nós perdemos, dentro do campo, com absoluta justiça. Mas... a Copa continua. E Portugal, o único sem-título das semifinais, continua como franco azarão. E Felipão, esse sim, tem super-poderes. E é deles que falaremos em breve.
Escrito em 02/07/2006
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O futuro 2.0, uma atualização


Depois de 40 dias na Alemanha, a memória anda falhando. Agradeço aos recentes amigos do blog pela lembrança de alguns nomes de futuro para a Seleção. Entre parêntesis, vale repetir, a idade que o jogador terá em 2010.

Volantes: Dudu Cearense (CSKA - 27 anos) e Lucas Leiva (Grêmio - 23 anos).

Apoiadores: Morais (Vasco - 26 anos).

Atacantes: Vágner Love (CSKA - 26 anos) e Daniel Carvalho (CSKA - 27 anos) e Kerlon (Cruzeiro - 22 anos).


Escrito em 02/07/2006
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Bola de cristal vitaminada


Num exercício de futurologia, especulemos. Aticemos a bola de cristal virtual para tentar ver o que será da Seleção Brasileira na Copa da África do Sul. Faltam quatro anos. O treinador, qualquer Nostradamus de botequim dirá que não vai se chamar Carlos Alberto. Mas isso é tema para depois. Vamos falar de quem entra em campo. Comecemos pelos 24 jogadores selecionados para 2006 (Edmílson + 23). Entre parêntesis, a idade do jogador na próxima Copa (em junho de 2010).

Quem sai: Cafu (40), Roberto Carlos (37), Gilberto (34)

Quem dificilmente fica: Juninho (35), Cris (33), Emerson (34), Rogério Ceni (37), Zé Roberto (36), Gilberto Silva (34), Edmílson (34), Ricardinho (34) e Mineiro (34).

Quem até pode ficar: Dida (37), Ronaldo (33), Luisão (29)

Quem deve ficar: Lúcio (32), Juan (31), Ronaldinho Gaúcho (30) Adriano (28), Cicinho (30), Fred (27), Júlio César (31)

Quem fica: Kaká (28) e Robinho (26)

Lendo a lista acima, é evidente a passagem da tocha. Tudo leva a crer que pelo menos metade da Seleção será renovada para o Mundial sul-africano. O que nos leva...

Ao futuro...

Quem pode vir? Quem são as possíveis revelações? Abaixo, uma lista de alguns jogadores que poderão, quem sabe, vestir a camisa amarela na primeira Copa africana. Entre parêntesis, o clube atual e a idade do jogador em junho de 2010. Esse sim é um exercício de tremenda chutologia. Mas, como hoje é dia de olhar pra frente, vamos lá:

Goleiros: Gomes (PSV – 29 anos), Moretto (Benfica – 31 anos), Fábio (Cruzeiro – 30 anos), Lopes (Botafogo - 27 anos), Jefferson (Trabzonopor - 27 anos) e Bruno (Atlético-MG - 25 anos).

Lateral direito: Gabriel (Málaga – 29 anos) Eduardo Ratinho (Corinthians – 22 anos), Amaral (Palmeiras – 22 anos), Daniel Alves (Sevilla – 29 anos), Rafinha (Schalke 04 – 25 anos).

Lateral esquerdo: Michel Bastos (Atlético-PR - 27 anos), Marcelo (Fluminense – 22 anos) e Adriano (Sevilla – 25 anos).

Zagueiros: Alex (PSV – 28 anos), Alcides (Benfica – 25 anos), Gladstone (Juventus – 25 anos), Luisão (Cruzeiro – 23 anos), Moisés (Sporting - 31 anos), Fabiano Eller (Internacional – 33 anos), Anderson Polga (Sporting – 31 anos), Moisés (Sporting – 30 anos).

Volantes: Arouca (Fluminense – 24 anos), Rosinei (Corinthians – 27 anos), Renato (Sevilla – 31 anos), Júlio Baptista (Real Madrid – 29 anos), Thiago Motta (Barcelona – 27 anos), Josué (São Paulo – 30 anos), Denílson (São Paulo – 22 anos), Jonathas (Flamengo – 27 anos), Cléber Santana (Santos – 29 anos).

Apoiadores: Diego (Werder Bremen – 25 anos), Ramon (Atlético-MG – 22 anos), Carlos Alberto (Corinthians – 26 anos), Rodrigo Tabata (Santos – 29 anos), Ibson (Porto – 26 anos), Fernandinho (Shaktar Donetsk - 25 anos), Evandro (Atlético-PR – 23 anos), Elano (Shaktar Donetsk – 29 anos), Jádson (Shaktar Donetsk – 26 anos).

Atacantes: Thiago (São Paulo – 24 anos), Lenny (Fluminense – 22 anos), Nilmar (Corinthians – 25 anos), Anderson (Porto - 22 anos), Danilinho (Atlético-MG – 23 anos), Rafael Sóbis (Internacional – 25 anos), Deivid (Sporting – 31 anos), Luís Fabiano (Sevilla – 29 anos), Paulo Barreto (Udinese – 24 anos), Ricardo Oliveira (São Paulo - 30 anos), Whelliton (Goiás – 24 anos), Márcio Mossoró (Internacional – 27 anos).
> Escrito em 02/07/2006
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Uma cápsula de humildade


Carlos Alberto Parreira escolheu voltar ao Brasil na cruz. E já começou a carregá-la com sua tradicional elegância na entrevista coletiva após o jogo. Escolheu morrer abraçado com seus laterais veteranos, com a teimosa insistência de deixar seu melhor atacante no banco. Agora, quando o impulso nacional é malhá-lo como um judas da burocracia, é necessário manter o equilíbrio. Parreira tem serviços prestados, foi tetracampeão e nunca perdeu a educação. Não merece tratamento diferente.

Mas claramente não foi capaz de transformar a tal “melhor seleção desde 1970” num time. O Brasil não fez um jogo decente nesse Mundial. Sua melhor atuação, contra o Japão, foi o jogo dos reservas. Ronaldinho Gaúcho, que chegou a ser mencionado no altar de Pelé e Maradona, foi a grande ausência da Copa. O time só jogou bem quando teve Robinho em campo. Contra a França, Parreira, cruzando a fronteira entre a cautela e a sandice, só resolveu lançar mão dele aos 35 minutos do segundo tempo – 23 minutos depois do gol francês. Nesses 23 minutos (como de resto durante a partida toda), o Brasil não deu um chute ao gol

Robinho vinha de uma lesão muscular – mas essa é a justificativa amedrontada. Em seus 13 minutos em campo, o Brasil foi outro time. Agrediu, chegou na área a teve duas esparsas chances. Também porque Cicinho estava em campo. Esses 13 minutos foram uma evidência clara de que Parreira não era o técnico para esse tipo de time. Uma equipe repleta de medalhões cuja liderança veterana – Cafu – estava jogando pior que seu reserva. Duas das virtudes do técnico – a paciência e a educação – acabaram por traí-lo.

Essa seleção precisava de choque, de grito, de bronca, de barrações. O líder de Parreira em 1994 se justificava em campo, varrendo o meio-campo inteiro e mantendo o time na linha. Dunga jamais aceitaria uma derrota sem sangue como a de ontem, na qual time e técnico dividiram uma passividade difícil de explicar. Até vimos espasmos de garra em Juan, Lúcio, Gilberto Silva e Zé Roberto. Mas, como time, a Seleção parecia uma massa amorfa, inerte, desconjuntada.

Foi uma atuação pífia. Sem a bola, o meio-campo marcou mal, longe, sem morder. Com a bola, sem a velocidade de Robinho, o time não encontrou alternativas para vencer a boa marcação francesa. Repita-se a tese: Ronaldinho Gaúcho precisa de um atacante veloz para jogar bem. Ontem, a França jogou e não deixou jogar. O Brasil não jogou e deixou jogar. E, apesar desse domínio, os franceses só foram marcar seu gol numa inadmissível distração do sistema defensivo.

Foi uma falha de pelada: o melhor atacante do time adversário ficou livre na área brasileira para fazer um gol numa Copa do Mundo. E diga-se que Lúcio, Juan e Gilberto Silva estavam no lance. Roberto Carlos errou – mas não só ele. Havia outros três brasileiros parados na linha da área. E cinco franceses se movimentando para cabecear.

Isso diz muito sobre o espírito da equipe – ou sobre a falta de. A apatia da Seleção como time foi imperdoável. O Brasil se tornou a única seleção a ser deixar a Copa como se treinasse, sem esboçar uma reação, sem lutar, como se cada perna pesasse toneladas.
Estupor resumido na lentidão de Cafu ao abandonar o campo, atando calmamente a faixa de capitão no braço de Dida, e trotando rumo ao banco. Afora o jogo contra o Japão, o Brasil jogou a Copa inteira assim, como se os gols caíssem do céu subitamente.

O pachequismo, que antes da Copa decretava que tínhamos o melhor time do universo, agora tende a buscar culpados e vilões para suas inúmeras cruzes. Não caiamos nessa fácil tentação. O Brasil perdeu porque mereceu perder, porque não tem o melhor time do mundo. Porque não pode ganhar sempre. Mas poderia ter caído lutando, em vez de murchar como murchou em Frankfurt.

A “melhor seleção desde 1970” entra nos livros de história como uma imensa decepção. Em 1990, a criticadíssima Seleção de Lazaroni perdeu jogando bem, depois de dominar a Argentina. Em 1998, a derrota teve um sem-número de causas – e foi na final contra o time da casa. Em 2006, pela primeira vez em muito tempo, o Brasil teve uma perdeu com absoluta justiça. Tomemos nossa cápsula de humildade e engulamos em seco... até 2010.
/font> Escrito em 01/07/2006
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O último alemão frio


Lehmann defendeu o último pênalti. Vagarosamente se levantou fazendo gestos com a mão direita enquanto o país enlouquecia. A imagem do último alemão frio – ou gélido –foi invadida dois segundos depois pelo avanço de seus alucinados companheiros, que rapidamente soterraram o arqueiro-herói sob uma montanha comemorativa. O estádio num delírio patriótico exorcizava de vez demônios de setenta anos.

Foi um jogo épico, nervoso, tenso. Um daqueles jogos que constroem a mística da Copa do Mundo. A Argentina jogou melhor, controlou o jogo no primeiro tempo, achou um gol no segundo... e aí quis se sentar sobre a vantagem de 1 a 0, justamente contra um time que aceita qualquer convite. A estratégia argentina no início foi perfeita – esfriar o jogo com toque de bola, reduzir a velocidade alemã e aguardar o momento certo para o bote.

O gol de Ayala no escanteio foi um presente até inesperado. Raramente os alemães falham na jogada aérea – é uma especialidade deles. Klose bobeou na marcação do zagueiro. E José Pekermann cometeu um raro erro – tirar Crespo e botar Julio Cruz em vez de Messi. Não se pode prescindir de um talento como Messi em favor de um jogador meramente bom como Julio Cruz.

A Argentina convidou a Alemanha – e o país inteiro empurrou aqueles 11 sujeitos de branco. De certa forma, todos os fantasmas alemães gritavam sinfonicamente da arquibancada - Wagner, Nieztsche, Goethe, Beethoven, Bach e tantos outros – para que a Mannschaft continuasse a passar a borracha na vergonha nazista e na fronteira mal-cicatrizada entre as Alemanhas. O futebol com seus estranhos poderes movia 80 milhões de pessoas em busca daquele improvável gol de empate. Que veio aos 35 minutos do segundo tempo, 250 bolas alçadas na área depois, quando Borowski desviou para a cabeçada letal de Klose.

O golaço do dia – Foi esse mesmo. A combinação aérea começa ao lado da área argentina. Uma pequena distração de Coloccini deixa Ballack livre para mirar e cruzar na cabeça de Borowsky, que desvia para a finalização seca de Klose. O gol da Alemanha tira o doce da boca argentina.

O sarrafo do dia – O argentino Cuffré veio a Copa dar um chute no alemão Mertesacker para ser expulso de um jogo em que não jogou.

A imagem do dia – O afago de Kahn em Lehmann antes da cobrança de pênaltis. Imagine a que profundidade de seu gigantesco ego Oliver Kahn foi procurar um vestígio de humildade para apoiar Lehmann. Pelo esforço ele merece o aplauso – foi sua melhor e quiçá única jogada na Copa.

O outro jogo do dia – Foi um semi-atropelamento da Itália, que passou o carro da tradição sobre a insossa Ucrânia. O time de Shevchenko até ameaçou fazer uma graça no segundo tempo. Mas perdeu um gol feito e foi pro espaço.

Nostradamus 2.0

Nostrapoli teve um dia médio. Cravou uma, errou outra. Acertou a vitória da Itália – mas essa talvez fosse mole. A aposta na Argentina é que, realmente, traiu minhas capacidades proféticas. Vamos então às previsões para este sábado:

Nostradamus 2.0 diz:


Brasil 2 x 1 França

Torcendo amplamente para que Parreira escale Robinho em vez de Adriano.

Portugal 1 x 0 Inglaterra
Vitória a la Felipão pelo placar mínimo.
Escrito em 30/06/2006
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Pausa capilar


Uma pausa para o humor aqui no blog. Algo que faltou no Almanaque do Futebol (momento autopropaganda – livro lançado em maio, assinado pelo Lédio Carmona, companheiro do blog “Jogo aberto”, e por este que aqui escreve) foi uma lista dos dez jogadores mais feios de todos os tempos. Essa lista, que devemos incluir na segunda edição, teria sumidades como René Higuita, o goleiro presepeiro colombiano, e Trifon Ivanov – o búlgaro capaz de assustar criancinhas. Isso sem esquecer nas bonitezas do presente como Carlitos Tévez e Franck Ribéry, o francês não exatamente belo, que brigam pelo Troféu Feiúra desta Copa.

Mas acredito, sinceramente acredito, que ninguém nunca, jamais, em tempo algum vai conseguir superar meu amigo Carlos. Carlos Valderrama, craque colombiano, com quem vosso astuto servo teve o prazer de conversar num bar de Munique e tirar a foto que ilustra esse parágrafo. Valderrama está comentando a Copa para a Rádio Fútbol de Primeira, de Miami, e continua ostentando seu inconfundível “bêlo”, que alguns classificam de penteado. Que os leitores perdoem os olhos vermelhos-flash. Mas vale o registro.
Escrito em 30/06/2006
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Uma zebra para três titãs


Sobraram oito. Sete pesos pesados, um peso mosca com jeitão de peso morto. Amanhã começam as quartas-de-final com umjogaço em Berlim e uma partida meio morna em Hamburgo. Alemanha x Argentina é aquele típico confronto titânico que toda Copa espera – e que faltou um pouco na última Copa por causa da overdose de zebras. Lembremos que tivemos Coréia do Sul, Senegal, Turquia e EUA nas quartas de 2002. Agora não, sobrou apenas uma: a asséptica Ucrânia.

Alemanha x Argentina – 12h – Berlim

Se há uma pátria de chuteiras, nesse momento, é a Alemanha. George Bernard Shaw escreveu que futebol é a arte de comprimir a história universal em 90 minutos. A cada 90 minutos, o técnico Jurgen Klinsmann comprime a história de um povo cujo orgulho estava reprimido por 50 anos de vergonha. Ontem, Klinsmann quase disse que a Seleção está promovendo a verdadeira reunificação alemã 16 anos depois.

A cada cruzamento você vê um carro com a bandeira nacional. São décadas de orgulho reprimido pelas culpas da Segunda Guerra ecoando no grito Deustchland. Será que a Argentina vai ter força para barrar esse trator? A questão parece simplória, mas não é. Klinsmann trabalhou o inconsciente germânico, teutônico, alemão e transformou um time médio com zagueiros limitadíssimos numa avalanche patriótica. O time, antes tão criticado, tem jogado ofensivamente e bem.

A Argentina, porém, tem algo que incomoda profundamente os alemães – o toque de bola. E um toque de bola temperado por experiência. Se os argentinos suportarem a pressão inicial dos alemães, tem grande chance de vitória. Time por time, o argentino é bem melhor – seja na defesa ou no ataque. Mais que isso, Ayala comanda uma equipe malandra e escolada, que mescla talento, experiência e juventude. Não custa lembrar que Tévez e Messi estão no banco de José Pekerman.

O palpite: Argentina 3 x 1 Alemanha

Itália x Ucrânia – 16h – Hamburgo

Os Zhovto-Blakytni (amarelos e azuis) prometiam mais antes da Copa, muito por causa do cartaz de Shevchenko. Mas, logo no primeiro jogo, os ucranianos foram atropelados por um trem espanhol. Só não rodaram na primeira fase por causa da fraqueza da Arábia Saudita e da gentileza do juiz paraguaio Carlos Amarilla (que não viu um pênalti claríssimo para a Tunísia e marcou um duvidoso para a Ucrânia). Nas oitavas, deram sorte de pegar a Suíça – um time sem ataque. Num jogo desprovido de emoção, ganharam nos pênaltis.

Em tese , a Itália, campeã do mundo em matéria de defesa, é absolutamente favorita. Organizada por Pirlo, escorada por Buffon e Canavarro, a Azzurra de Marcelo Lippi não encantou. Mas desde quando a Itália encanta? A Azzurra é sobretudo pragmática. Para eles, todo esse nosso debate tupiniquim sobre jogar bonito soa como discussão acadêmica. Os italianos se defendem com rara competência. Tem jogadores de fibra incomum como Gattuso e Grosso. E uma boa dupla de ataque – Toni e Gilardino. A Ucrânia ainda perdeu Voronin, a outra fagulha de talento do time (Rebrov já está algo idoso).

O palpite: Itália 2 x 0 Ucrânia.

Amanhã, verificamos a qualidade de minha atuação nostradâmica.

Informação impronunciável do dia – Shevchenko nasceu na distinta cidade de
Dvirkivshchyna. Tente falar isso rápido.

Frase do dia
– “Os brasileiros acordam com a bola nos pés. Eu tinha que estudar de 7h às 17h e meu pai sempre dizia que isso era o mais importante” – Thierry Henry, em entrevista ao L’Equipe.

A negociação do dia
– Miguel, o lateral português que anulou o holandês Robben nas quartas-de-final, está na mira do Barcelona e do Milan.

O comentário Zé da Galera do dia
– Bota o Robinho, Parreira!


Seleção das oitavas:

Goleiro: Dida/Buffon (empate técnico)
Lateral direito: Miguel
Zagueiros: Lúcio e Ricardo Carvalho
Lateral esquerdo: Nuno Valente
Volantes: Vieira e Zé Roberto
Apoiadores: Maxi Rodríguez e Zidane
Atacantes: Ronaldo e Klose
Escrito em 29/06/2006
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Mitos e sísifos

Em 1998, os dois eram os rostos do futebol mundial. O filho de argelinos que conquistou a França. O filho de Bento Ribeiro que o planeta batizou de Fenômeno. Edifícios, cartazes gigantes, outdoors. Eles estavam por toda a França. Zinedine tinha 26 anos. Ronaldo tinha 21. No topo do mundo estavam. E o topo do mundo dividiram por uma noite em Saint-Denis. Ali, Ronaldo conheceu seu primeiro fracasso. Sua primeira queda.

Teve a convulsão mais dissecada de todos os tempos. A noite de sua primeira queda foi também a noite da ascensão de Zidane. A França comemorou seu primeiro título mundial numa data especialmente escolhida: o 14 de julho, o 14 juillet, dia da queda da Bastilha. Caíram Bastilha e Ronaldo – no mesmo dia – para o delírio de milhares de franceses no Champs Elysées. Minha lembrança auditiva desse dia, no Stade de France, começa com o ensurdecedor e lindo canto da Marselhesa... passa pela euforia do “Allez Les Bleus” e termina no silêncio do Castelo de Lesigny, onde estava concentrada a Seleção.

Ronaldo ainda caiu outras vezes. Caiu de joelho partido. Caiu no conto do conto de fadas. Caiu em esparrelas madrilenhas. Em 2002, não faltou quem o sepultasse para o futebol. Ele respondeu com dois gols na final da Copa do Mundo. Cair e se levantar sempre foi a especialidade de Ronaldo. Ele sempre se levantou. Agora mesmo em 2006, depois de um jogo, todos perguntamos: quem é esse zumbi vestindo a camisa 9? Pois bem, em dois jogos o zumbi acordou enfaticamente, se tornou o maior artilheiro da história das Copas, e continuou sua história de assombro.

A história das sucessivas quedas de Ronaldo me lembra vagamente o mito de Sísifo, condenado eternamente pelos deuses a rolar uma pedra até o alto de uma montanha – para a seguir vê-la rolar morro abaixo. Em 1942, o escritor argelino Albert Camus publicou na França um livro com o título “O mito de Sísifo” – que começa com um parágrafo famoso:
Há apenas uma questão filosófica realmente séria, a do suicídio. Decidir se a vida vale ou não apena é responder a questão fundamental da filosofia. Todas as outras questões vêm depois dessa”.
Sísifo seria uma metáfora para os homens e suas dificuldades.

A vocação de Ronaldo para descer à planície e voltar ao alto da montanha - para ser metralhado e se levantar como se fosse feito de aço – lustra seu mito particular, faz com que ele seja Clark Kent e Super-Homem ao mesmo tempo. Porque Ronaldo levanta, sim, mas traz no uniforme as marcas de bala ou trava. Ele sofre. Se angustia. E responde em campo.

Então... uma pulga aterrissa atrás de minha orelha com a questão: que planeja o deus irônico do futebol que plantou esse Brasil x França cheio de significados nessas quartas-de-final? Será que Ronaldo é tão abençoado a ponto de ter a chance de exorcizar de vez o fantasma de Saint-Denis? Será que a vocação de Zidane é ser carrasco do Brasil? O Ronaldo de hoje, aos 29 anos, não é mais o trator explosivo e incontrolável de 1998. Mas já fez três gols nesse mundial. Zidane, aos 34, é um maestro envelhecido. Mas, como a Espanha em casa pode dizer, ele ainda pode fazer a diferença.

No próximo sábado, os bons amigos do Real Madrid estarão novamente juntos no topo do mundo, defendendo times semelhantes.. Nos dois times, um jogador veloz e habilidoso está em ascensão – Ribéry na França, Robinho no Brasil. Ambas as defesas têm jogado muito bem. E se as estrelas veteranas têm brilhado, os esperados protagonistas ainda devem no palco. Thiery Henry na França, Ronaldinho Gaúcho no Brasil. O que nos leva... a outra questão.


O que há com Ronaldinho?


O princípio de decepção começa a se transformar em cobrança deslavada. Onde está o futebol do melhor jogador do mundo, o antecipadamente coroado rei desta Copa, que espalhou seu sorriso por todas as revistas e jornais do planeta antes do Mundial? Ronaldinho tem sido visto em breves flashes. Num toque de extrema categoria aqui. Num passe sensacional ali. Mas o jogador decisivo, imprevisível e genial... ainda não desembarcou na Alemanha.

A explicação tradicional é que Ronaldinho joga fora de posição. Ou joga numa posição diferente da que atua no Barcelona. É até um pouco verdade. No Brasil, ele joga mais recuado e tem mais responsabilidade na marcação – o que me parece um perigo. Contra Gana, três ou quatro vezes ele não acompanhou um jogador que fez a ultrapassagem e deixou Roberto Carlos, Juan e Zé Roberto em dificuldades. Num dos lances, Juan hesitou na marcação e um ganês ficou livre na área. Felizmente, os africanos chutavam muito mal.

Mas o que realmente chama atenção é que Ronaldinho está sumido ofensivamente. Afora um ou outro excelente passe, ele não tem feito a diferença que se espera. E a culpa, no caso, não me parece dele. No Barcelona, ele joga com atacantes – em especial Eto’o – que se movimentam constantemente. Correm muito. Ultrapassam. E Ronaldinho é o mestre dos passes improváveis em ângulos aparentemente impossíveis. Adriano e Ronaldo têm características bem diferentes.

Adriano gosta de fazer o pivô. Ronaldo se projeta bem, mas não é um velocista. E Ronaldinho iniciou algumas jogadas para Ronaldo – mas poucas para Adriano. A falta de velocidade e movimentação da opção por dois atacantes pesados é um problema para toda a equipe. A aposta aqui é que se Robinho entrar, o time vai crescer. E Ronaldinho também. Lembremos que sua melhor partida em 2002 foi nas quartas-de-final.

E lembremos que – mesmo teoricamente ausente – ele deu o passe que iniciou a jogada do gol do Brasil contra a Austrália, pôs Gilberto na cara do gol contra o Japão, deu aquele passe de calcanhar de antologia para Ronaldo no mesmo jogo... e ontem deixou Roberto Carlos na cara do gol também. Se um jogador que faz isso pode ser criticado, é porque dele muito se espera. De Ronaldinho, em especial, espera-se mais do que muito, espera-se do improvável ao inimaginável. Espera-se tudo aquilo que nunca vimos e nem sabemos que gostaríamos de ver.


O golaço do dia – Esperemos que tenha sido o último gol da carreira dele. O lançamento de primeira de Wiltord. A arrancada. O drible seco. O chute. Zinedine Zidane não é mais o monstro de antes. Mas a categoria ainda está lá.

A burrada do dia – A falta de Puyol em Henry foi muito, mas muito desnecessária. E acabou na cabeça de Vieira. Aos 38 minutos do segundo tempo, foi o golpe que derrubou a eternamente derrubada Fúria.

A manchete do dia – “A casa” – anotou o jornal Marca, em sua edição online. Temperada pelo comentário: “voltamos para casa como sempre”.

A manchete do dia... de ontem
- "A França não tem medo - tem pânico" - do mesmo Marca que, ao que parece, teve que engolir cada palavra.

A estatística do dia - Gana deu 18 chutes a gol. O Brasil só deu 11. Ainda bem que o gol não fica na estratosfera...

O link do dia – A súmula de França 3 x 0 Brasil em 1998: http://fifaworldcup.yahoo.com/06/en/w/pwc/mr_8788.html
Escrito em 28/06/2006
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Vitória sem sal



Podemos falar de tática, técnica e de teimosia. Podemos ser apóstolos do óbvio e dizer que o Oiapoque e o Chuí sabem que Adriano não pode ser titular ao lado de Ronaldo. Podemos dizer que Gana chutou mais, teve mais a bola e que merecia sorte melhor. Tudo seria verdade. Só que camisa importa. E estrada importa. O Brasil ganhou porque teve competência. Porque soube se defender. E porque teve alguma sorte.

O jogo lembrou bastante Gana x Itália. Gana teve mais a bola, chutou muito – quase sempre sem direção – e teve pouca profundidade. Gana tem um bom time com a bola e uma marcação adiantada que pressiona o time adversário. Sua linha de impedimento, porém, não é bem executada. Um time com velocidade e um bom lançador pode se esbaldar ali. Ontem, o Brasil não teve Robinho, ou seja, velocidade. E – afora o passe de Kaká para o primeiro gol - só passou a ter um bom lançador quando Ricardinho entrou em campo.

Para lançar ou enfiar bem a bola é preciso ter o “tempo certo”, o chamado timing.
Ter visão de jogo para identificar a posição do atacante em relação à linha de impedimento e noção de espaço para projetar a bola no ponto futuro. Essa é a especialidade de Ricardinho, que cansou de fazer isso com o lateral Kleber – hoje no Santos – quando jogavam juntos no Corinthians. E foi isso que ele fez ontem três vezes, criando três chances claras de gol, em dez minutos. É verdade que Gana já estava com um jogador menos a essa altura.

O problema da dupla Adriano e Ronaldo é que, além de engessar o ataque – ela não tem funcionado para prender a bola na frente. Em nenhum dos milhares de chutões que Dida ou a zaga deram para a frente, um dos atacantes foi capaz de matar a bola ou ganhá-la dos zagueiros. A segunda bola era sempre de Gana. Para complicar, nossos dois meias criativos tiveram dias ruins – tanto Kaká (depois do passe inicial) quanto Ronaldinho Gaúcho.

Ronaldinho, aliás, tem tido flashes, brilharecos. Aqui e ali ele mostra que pode ser espetacular. Mas, por ora, segue sendo apenas espetaculoso. Mas a margem de erro do Brasil acabou. Tanto Ronaldinho como Kaká têm que trazer seu melhor jogo para as quartas-de-final. E, mais que isso, se depois do que viu hoje Parreira não trocar Adriano por Robinho (ou Fred ou Juninhou ou Rogério Ceni ou o Cego Jeremias) estará cruzando a fronteira da teimosia com a estupidez.

A vitória sem sal lembrou muito as vitórias de 1994, pelas quais Parreira era mais do que açoitado. Naquela época ele não tinha muita opção. Seu meia mais criativo, Raí, sofria de letargia crônica e estava em péssima fase. Em 2006, Parreira merece elogios por ter apostado em Ronaldo quando todos criticavam. Mas agora ele precisa mudar e as opções são óbvias. Se insistir com Adriano e perder, é melhor encomendar a cruz e os cravos. A volta para casa será longa.
Escrito em 27/06/2006
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Feio


Dois jogos... 210 minutos de futebol... e apenas um golzinho... de pênalti.... e um pênalti pra lá de mandrake. Se Ucrânia x Tunísia já foi de doer os olhos, Suíça x Ucrânia foi dose para mamute. A Suíça conseguiu a proeza de ser eliminada da Copa sem sofrer um mísero gol. Um justo reflexo de seu time – bom na defesa, sem imaginação no ataque. A Ucrânia até tem algo mais ofensivamente. Rebrov, Voronin e Shevchenko são bons jogadores. Mas nada de outro mundo. Diante da eficaz defesa suíça, fizeram muito pouco. Conseguiram uma proeza: até a disputa de pênaltis foi meio sem graça.

O jogo anterior também esteve longe de ser uma maravilha. Mas pelo menos teve alguma emoção. A Itália ameaçou mais, teve Materazzi expulso corretamente. E foi premiada com um pênalti gentil no último instante do jogo. Nada mais justo do que Guus Hiddink perder com pênalti inexistente. Itália e Espanha foram assaltadas na Coréia do Sul em 2002. E nosso pseudogênio holandês era o técnico.

O pênalti vale uma reflexão. No momento em que o italiano Grosso caiu na área, imagino que a unanimidade que nos emburrece comentou em uníssono: “pênalti”. Mas eis que cada uma das 24 câmeras do estádio apresentou seu testemunho, e somente aí pudemos perceber que o australiano já estava parado no chão quando Grosso esbarrou nele e caiu.

Há pênaltis mais pênaltis que outros pênaltis. E há pênaltis que talvez pudessem ser pênaltis mas não são. Esse foi um pênalti diminutivo, menor, não um pênalti que algém esperasse ver marcado aos 48 minutos do segundo tempo de um jogo de Copa do Mundo. O juiz espanhol Luís Medina Cantalejo marcou com convicção absoluta. E me parece cruel dizer que ele errou. Ele não tem replay, tem um ângulo sem slow-motion. A Austrália ficou quase 45 minutos com um homem a mais e não conseguiu ter uma grande chance de gol. Mereceu ir pra casa.

Golaço do dia – Não veio.

A barreira do dia – O goleiro ucraniano Oleksandr Shovkovsky ficou 120 minutos sem tomar gol. Pegou dois pênaltis e viu o outro bater no travessão. Ou seja, foi dormir ontem numa espécie de nirvana dos goleiros.

O carniceiro do dia – O grandalhão Materazzi manteve sua tradição de aliar grandes jogadas com imensas burradas. O carrinho com as duas solas erguidas foi de uma jumência ímpar. E, detalhe quase cômico, errou o australiano Bresciano e acertou seu companheiro Zambrotta. Sorte que Zambrotta deslizou.

O momento cármico do dia – Foi interessante observar a cara de ovo de Guus Hiddink, ao perceber que a conta lhe era cobrada com juros aos 48 minutos do segundo tempo. O apito que afaga é o mesmo que apedreja.

A estatística inútil do dia – No jogo entre Ucrânia e Suíça, houve apenas um impedimento em 120 minutos. Impedimento ucraniano.

A frase do dia – “A gente joga bem, domina... aí um cara cai na área e é pênalti...” – Tim Cahill, meio-campo australiano.

Escrito em 26/06/2006
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O jogo



Toda Copa tem um jogo memorável. Um jogo que fica marcado – seja nas canelas, nos cabelos arrepiados ou na memória – como grande. A batalha de Nuremberg entre Portugal e Holanda, até agora, foi esse jogo. Talvez não tenha sido o melhor jogo da Copa – mas certamente foi o mais emocionante, o mais dramático, o mais desesperador. Como Alemanha x Itália em 1970 e Alemanha x França em 1982.
Boulahruz entrou de sola no fair-play logo aos seis minutos de jogo, com uma entrada que desde já entra para o rol dos grandes sarrafos de Copa. A violentíssima sola na coxa de Cristiano Ronaldo merecia expulsão, prisão e julgamento sumário. Em campo, porém, o juizão russo Valentin Ivanov deu apenas cartão amarelo. E perdeu o controle do jogo.

O cartão amarelo é um mal menor, mas acaba provocando algumas incronguências. Como pode um crime desses receber a mesma punição do que uma mão na bola? Ou um agarrão de anti-jogo? Mas o pior ainda estaria por vir. O histórico carrinho do goleiro alemão Schumacher nas costelas de Batiston – consagrado mundialmente como a mais violenta pancada jamais aplicada num Mundial – ainda foi “citada” na partida na tesoura de Nuno Valente no peito de Robben dentro da área – que o juiz russo Valentin Ivanov ignorou alegando um impedimento anterior.

A temperatura da partida foi elevadíssima e, não por acaso, ganhou o time de sangue mais quente. O contraste entre a decepção gélida de Marco Van Basten e o empolgado trenzinho luso do maquinista Felipão resumiu o jogo. A Holanda atacou, teve posse de bola, jogou com um homem a mais e não conseguiu fazer um gol. Esbarrou em Ricardo, na trave, numa defesa sólida e sobretudo numa fibra nunca dantes navegada pela nau lusitana.

O talento de Luiz Felipe Scolari para moldar grupos vencedores talvez seja único. Todos os jogadores compram Felipão – e se não comprarem, dançam. O sorriso de Figo no fim do jogo é o maior testemunho da competência do técnico brasileiro. Apostar contra Felipão em mata-mata nunca foi bom negócio. E ontem as imagens da família Scolari portuguesa foram de arrepiar. A raça de Maniche e Ricardo Carvalho, as lágrimas de Cristiano Ronaldo, o esforço de Figo e Simão Sabrosa, as defesas de Ricardo... deu pra achar bonito até o bigode do Murtosa.

Agora, o próximo jogo promete ainda mais. Por mais que a super-propalada Inglaterra tenha sido um leão de papel até agora... por mais que a vitória inglesa sobre o Equador ontem tenha sido uma ode à burocracia. Portugal vai sentir muita falta de Deco, um excelente jogador, que teria vaga na Seleção Brasileira – talvez não como titular, mas sua capacidade de marcar, tocar e criar espaço seria mais que valiosa. Mas Felipão vai encontrar um substituto. Portugal e Inglaterra se encontraram em 2004 nas semifinais da Eurocopa, com vitória portuguesa nos pênaltis.

Holandeses e equatorianos ficaram pelo caminho. A zebra segue ausente da Copa. E, se a Austrália não aprontar uma graça contra a Itália hoje, esperamos que assim permaneça.


Golaço do dia – Num dia com apenas dois gols, a escolha nem é difícil. Embora Beckham tenha cobrado com extrema categoria a falta contra o Equador, a jogada do gol de Portugal foi superior. Cristiano Ronaldo para Deco. Deco cruzando rasteiro para Pauleta ajeitar de primeira para Maniche dominar e disparar. Um belo gol.

O gol perdido do dia – Carlos Tenório teve a chance de fazer história pelo Equador. Dominou bem, chutou até bem... mas a bola resvalou no joelho de Ashley Cole... e beijou o travessão. Sorte importa.

A jogada defensiva do dia – O carrinho de Cole foi impressionante, mas mais ainda foi o salto de Ricardo Carvalho para impedir um chute frontal de Kuyt no segundo tempo de Portugal x Holanda.

A vergonha do dia – Depois desse lance, Carvalho ficou caído e Deco partiu com a bola. Poderia até fazer o gol quando o juiz Valentin Ivanov paralisou a partida para atender o zagueiro luso. Heitinga, da Holanda, ignorou o espírito esportivo, não devolveu a bola e recebeu um carrinho criminoso de Deco.

A observação intrigante do dia – Num jogo violentíssimo, Portugal teve dois expulsos por tolice manual . Costinha e Deco meteram a mão na bola de modo distinto e acabaram indo para o mesmo chuveiro.

A estatística do dia I – A Holanda teve 62% de posse de bola contra 38% de Portugal.

A estatística do dia II – Foram 20 cartões na partida... 16 amarelos e quatro vermelhos. A Copa de 2006 já bateu o recorde histórico de cartões vermelhos (23) sem sequer chegar às quartas-de-final. Isso se deve à orientação da Fifa para que o rigor aumente. O número de faltas não variou quase nada. Na primeira fase de 2002 foram 1699. Em 2006 foram 1708.

A jogada incrível do dia – No início do segundo tempo, a bola sobrou para Cocu dentro da área portuguesa. De primeira, o veterano holandês acertou um tirambaço... que bateu no travessão, no chão... e saiu. Felipão tem estrela.

A má notícia do dia – A lesão de Robinho. Parreira não levou outro atacante de velocidade. Robinho vinha voando baixo e mostrando que tinha vaga.
Escrito em 26/06/2006
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Breve Álbum - I


Um dia na Arena de Munique



A Arena de Munique vista de fora: cruzamento de disco voador com pneu em forma de estádio

















Alemanha 2 a 0: Podolski comemora pertinho da lateral (e do fotógrafo amador aqui)










A festa da torcida alemã






Escrito em 25/06/2006
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A hora da onça


A onça começa a se esbaldar no bebedouro. Começou o mata-mata, e os cadávares já começam a ficar pelo caminho. O primeiro, sueco, atropelado pelo Panzer alemão em 12 minutos. O segundo, um cadáver com o rosto coberto por um sombrero – o honroso time mexicano que cumpriu seu destino de jogar acima da expectativa e perder dentro dela. A Alemanha deslizou em Munique. A Argentina suou por todos os poros em Leipzig. As duas se encontram no primeiro confronto realmente titânico desta Copa no dia 30 em Berlim.

Em Munique, o jogo demorou exatamente 12 minutos. Foi o tempo que o cirurgião alemão levou para dilacerar a Suécia com os bisturis Klose e Podolski. Muito se falou das limitações alemãs, mas o time de Klinsmann está jogando um futebol objetivo e ofensivo, marcando em cima e se valendo de uma movimentação incessante dos atacantes. E da excelente forma de Klose. O passe dele, sem olhar, no segundo gol valeu o ingresso.

O avanço da Mannschaft tira da garganta o orgulho alemão, um sentimento reprimido por toneladas de culpa. O Elf de Klinsi (o onze de Klinsmann) está permitindo que os alemães tenham orgulho da Deustchland de novo. E a energia que a torcida passa para os jogadores é elétrica, impressionante. Antes do jogo, o locutor do estádio anuncia os jogadores pelo primeiro nome e a torcida completa dizendo o sobrenome num berro uníssono, ensurdecedor, impressionante. O hino alemão é cantado e parece levantar a pele de cada um. A euforia pinta de preto, amarelo e vermelho uma Alemanha alegre, sorridente, sem culpa.

Agora, esse time ou país terá pela frente seu maior obstáculo. Uma Argentina talvez cansada por um México aguerrido, que finalmente mostrou o futebol esperado. O time de Ricardo La Volpe dominou o primeiro tempo, foi dominado no segundo... e estava melhor na prorrogação quando Maxi Rodríguez fez um gol inesquecível. Um gol que já seria sensacional num jogo de várzea – mas numa prorrogação de Copa do Mundo pede superlativos e hipérboles. Maxi Rodríguez é jogador do Atlético de Madri.


O golaço do dia – Sem negociação, Maxi Rodríguez embolsa o troféu de hoje. O detalhe do gol é seu olhar fixo na bola depois de matá-la no peito. O chute improvável que descreve uma parábola e encobre o excelente Oswaldo Sanchez. Quem discorda?

A defesa do dia – Foram várias as defesas do goleiro sueco Andreas Isaksson, que impediram que o atropelamento de Munique se transformasse em massacre. Mas a mais impressionante foi num chute de longe de Michael Ballack, que ele se esticou para tocar com dois dedos. A bola ainda bateu na trave.

O mico do dia – O pênalti perdido por Larsson, no melhor estilo amarelar-é-preciso, quando a Suécia ainda tinha alguma chance de expor as deficiências defensivas da Alemanha. Podia pelo menos ter chutado na trave. Talvez Larrson, o único sueco a marcar gols em três Copas do Mundo, não merecesse uma penalidade perdida como última memória mundial.

O erro de arbitragem do dia – Foram dois, na verdade, com o mesmo autor – o leniente suíço Massimo Bussaca. Ele deixou de expulsar Heinze no fim do primeiro tempo quando o zagueiro argentino derrubou Fonseca na cara do gol. E compensou ao anular um gol legítimo argentino aos 47 minutos do segundo tempo, mas aí ele divide a culpa com o bandeirinha.

A estatística do dia - A Alemanha ficou com a bola por 63% do tempo contra 37% da Suécia.

O azar do dia – Algo ofuscado pela derrota mexicana é o azar que o time de Ricardo La Volpe teve. Dois de seus mais criativos jogadores – Pardo e Guardado – deixaram o jogo lesionados. Ele não pôde, como desejava, lançar Franco nem Omar Bravo e teve que deixar o inoperante Fonseca em campo. Azar... ou quem sabe excesso de tensão e treinamento – o México passou dois meses treinando para o Mundial.

O passe do dia – Klose atraiu três suecos e toca no ponto futuro para Podolski, num no-look pass que Ronaldinho assinaria. Quem disse que os alemães são grossos?

A frase do dia – “Foi um gol de sonho. Normalmente esse tipo de chute vai parar na torcida... por sorte, esse foi parar no ângulo” – Maxi Rodríguez.
xi Rodríguez. Escrito em 25/06/2006
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O quase gol



No dia mais insosso da Copa, repleto de placares tímidos, vale a pena lembrar de um lance do jogo entre Brasil e Japão. Muito se falou de um dentuço ciúme entre os Ronaldinhos brasileiros. Os dois sorrisos mais distintos do mundo estariam distantes, fora de sintonia, como se jogassem por times diferentes. Mas se a bola é capaz de aproximar países e interromper guerras, o que ela não faz por dois Ronaldos que a tratam tão bem?

O lance citado é aquela tabelinha que terminou com um toque magistral de calcanhar de Ronaldinho Gaúcho, servindo a bola para o arremate da chuteira amarela de Ronaldo. Uma tabelinha clássica, com toques refinados, que por um milímetro escapou de ser gol.
Isso me remeteu aos “quase gols” históricos da Copa, basicamente os dois de Pelé em 1970 – o drible em Mazurkiewicz, goleiro do Uruguai, sem tocar na bola; e o chute do meio-campo contra a Tcheco-Eslováquia.

A tabela dos Ronaldos não está perto do altar de Pelé por um motivo. Os “quase gols” de Pelé foram tão magistrais, mas tão magistrais, que talvez sejam mais memoráveis por terem sido quase. Por terem deixado de boca aberta o estádio, os adversários e o planeta em um segundo sem que a bola tivesse estufado a rede. As bocas abertas suspiraram e não tiveram o êxtase posterior para deliberar. Ficaram no suspiro, no espanto, no impacto do gênio. Tiveram apenas o sabor fugaz do que poderia ter sido e não foi.

Esse sabor fugaz eternizou os lances de modo diferente. É evidente que se Pelé tivesse feito os gols, eles estariam no panteão dos lances inesquecíveis. Mas não estariam nesse olimpo vago que define os gênios absolutos. Ali, onde Maradona guarda seu gol de mão ao lado de sua invasão particular das Malvinas. E onde, em silêncio, esperamos alguma fagulha de Ronaldinho Gaúcho, para que possamos justificar tê-lo imaginado perto de monstros tão sagrados.

A tabela dos Ronaldos foi uma obra de arte menor, mas uma obra de arte. E pareceu abrir uma janelinha para nos lembrar que há algo de incomum em Ronaldinho. Ele é capaz de coisas que ninguém jamais fez, como dar cambalhota com a bola. E, mesmo que por vezes soe pouco produtivo, ele carrega aquela aura genial de quem se diverte criando. Há quem diga que ele é mais foca do que craque. Há quem diga – talvez com razão – que Kaká é mais eficiente. Mas Ronaldinho é aquele jogador capaz de fazer um ingresso se tornar peça de museu. E esses... são poucos.


Seleção da primeira fase:


Goleiro: Peter Cech (República Tcheca) – A atuação na derrota para Gana foi a melhor de um goleiro nesse mundial.
Lateral direito: Ulisses De La Cruz (Equador) – A melhor opção pela direita na Copa.
Zagueiros: Philippe Senderos (Suíça) e Juan (Brasil) – Senderos é o chefe da única defesa ainda não vazada na Copa. Juan fez, até aqui, uma Copa irrepreensível, sempre acertando o tempo da bola.
Lateral esquerdo: Lahn (Alemanha) – abriu a Copa com um golaço e não baixou o nível desde então.
Volantes: Yaya Touré (Costa do Marfim) e Pirlo (Itália) – A Costa do Marfim fez três belas atuações e o melhor jogado do time foi o esguio e talentosíssimo Yaya Touré, companheiro de Rivaldo no Olympiakos (Grécia). Pirlo foi o grande destaque da Itália, atuando com inteligência, eficiência e sua sempre excepcional visão de jogo.
Apoiadores: Schweinsteiger (Alemanha) e Riquelme (Argentina) – Bastian Schweinsteiger, o mais feio e habilidoso jogador alemão foi um dos principais responsáveis pela bela performance do time de Klinsmann na primeira fase. Riquelme é o cérebro do toque de bola platino que encantou na primeira fase.
Atacantes: Fernando Torres (Espanha) e Klose (Alemanha) – El Niño Torres foi mais do que os espanhóis esperavam. E Klose voou baixo para ser artilheiro na primeira fase.
Escrito em 23/06/2006
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Akwaaba!

Do Século IV ao Século XIII, Wagadugu foi o mais poderoso império da África Ocidental. Os reis de Wagadugu eram conhecidos como Gana, nome que acabou associado ao próprio império. Em 1957, um pedaço da chamada Costa do Ouro inglesa conseguiu sua independência – e foi buscar seu nome no passado. Assim nasceu a Gana moderna, essa em qual por três dias estamos subitamente muito interessados.

Aos 49 anos de idade, Gana já sofreu com uma miríade de golpes de estado. Desde 1992, é uma sociedade democrática relativamente estável. O povo é um caldeirão de mais de 60 etnias. Nada menos do que 52 idiomas (e centenas de dialetos) são falados em Gana e até por isso a única língua realmente nacional é o inglês. Ao chegar em Gana, os forasteiros lêem e ouvem “Awaaba!”, bem-vindo num dos dialetos locais.

Os primeiros europeus a desembarcarem em Gana foram os portugueses em 1471. Eles acharam tanto ouro às margens do Rio Volta que batizaram o lugar de “Mina”. Dois séculos depois, os patrícios foram expulsos pelos holandeses. Os ingleses chegaram no Século XIX e controlaram a Costa do Ouro até a independência.

A principal etnia ganesa são os Akan – que são 44% da população de 21 milhões. O principal grupo Akan é o Ashanti, herdeiro direto do Império Ashanti, outro império tradicional na antiga África. Os Fante e os Ga (povos do litoral) são os maiores rivais dos Ashanti. A rivalidade entre os grupos é geopolítica – rivaliza Kumasi, a capital dos Ashanti, com Accra (pronuncia-se Accrá), a capital do país. Rivalidade essa que se estende ao futebol – o principal clássico do país opõe o Ashanti Kotoko (de Kumasi) ao Hearts of Oak (de Accra).

O Hearts of Oak, ou“Corações de Carvalho”, têm provavelmente a camisa mais colorida do mundo – seu símbolo é um arco-íris. E seu principal campo de treino... é de terra, o que ilustra um pouco a diferença entre os dois mundos que vão se encontrar na próxima terça-feira em Dortmund. Os jogadores ganeses são estrelas internacionais, mas o futebol no país continua pobre. Michael Essien foi comprado pelo Chelsea do Lyon por 36 milhões de euros (R$ 101 milhões).

Talvez Gana entre em campo um pouco deslumbrada só por enfrentar o Brasil. Mas os ganeses se orgulham, desde sempre, de ter o melhor futebol da África. Não por acaso, foram chamados de “os brasileiros da África”, tiveram até um Pelé, Abedi Pelé, e não estão necessariamente satisfeitos nas oitavas-de-final. Em qualquer jogo eliminatório, todo cuidado é pouco. O que espera a Seleção de Parreira, na próxima terça-feira, não é necessariamente um Akwaaba.
Escrito em 23/06/2006
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Verdades e espelhos


Como de hábito, bastou uma migalha de arte, uma esmola de bom futebol, e o brasileiro já recuperou a auto-estima futebolística, esse nosso orgulho de ser-o-melhor-do-mundo-em-alguma-coisa, que antes da Copa andou esbarrando na empáfia. Todo o farol em cima dos argentinos estava, confessemos, nos irritando um pouco. Ouvíamos com um sorrisinho cínico as repetidas menções a toco y me voy, a Saviola, Messi, Riquelme, Tevez & Cia, enquanto nossos pretensos craques exibiam um futebol tedioso e previsível.

E então veio o jogo contra o Japão. E Parreira lançou um time mais do que ofensivo. E fez o que precisava. Testou Robinho desde o início, com sucesso. Testou os laterais reservas – com sucesso ofensivo e problemas defensivos. Deu jogo a Juninho Pernambucano e a Ronaldo, que pulverizou os comentários sobre sua relação com a balança. O Brasil jogou bem, jogou como Brasil, mostrou talento, velocidade, movimentação. Mostrou que está na Copa e que pode dar espetáculo de forma competitiva.

A boa atuação inflou novamente o peito verde-e-amarelo e multiplicou os inúteis clamores para Parreira manter o time de ontem. Até a camisa que o Zagallo não tentou trocar ontem com um adversário sabe que Parreira não vai mudar muito o time. Mais do que isso não cometerá a sandice de jogar uma partida eliminatória com um cabeça-de-área e meio (meio é uma gentileza com Juninho Pernambucano). Mas isso tudo importa menos. O que importa é o foco. Ontem recuperamos o foco – e o respeito.

Agora vem Gana, um time forte fisicamente, que atuará entre deslumbrado e boquiaberto contra o Brasil. Deslumbrado, boquiaberto e desfalcado de seu melhor jogador – Michael Essien. Mas amanhã falamos de Gana. Hoje, reconheçamos baixinhio uma coisa: que brasileiro ontem não esfregou silenciosamente as mãos, esperando a hora de dar uma lição na arrogância argentina?

Em termos de futebol, não há nada mais parecido com um argentino do que um brasileiro. Eles têm técnica, raça, categoria e competência. A Alemanha pode ter eficácia, a Inglaterra pode ter glamour, a Holanda pode jogar pra frente... mas os únicos rivais que realmente respeitamos são os argentinos. E com razão. Na bola, nunca houve um jogo fácil entre Brasil e Argentina.

Para cada grama de empáfia platina... há outra, espelhada, de empáfia brasileira. A sutil diferença é que temos cinco títulos mundiais e o indisputável atleta do século, por mais que eles tentem disputá-lo. Nossa mitologia futebolística é planetária, o mundo enxerga o futebol brasileiro como sinônimo de arte. Já a Argentina é uma espécie de George Harrison do futebol mundial, enquanto o Brasil é Lennon e McCartney. Todo mundo sabe que eles têm um talento imenso. Mas um talento destinado a ficar em segundo plano.

Em outras palavras, encontrar com o Brasil é exatamente o que os argentinos querem. Eles atualmente sonham acordados com uma final entre Brasil e Argentina – e esse agora é o único encontro possível na Alemanha. Porque se a empáfia argentina nos irrita, imagine o contrário... imagine o que eles pensam e sentem diante da supremacia brasileira – que eles juram que é injusta. Se nem pensamos em discutir nossa superioridade, isso é tudo o que eles querem. E alimentam. E acalentam.

E hoje eles têm argumentos. Argumentos como Riquelme, Sorín, Saviola, Tévez e sobretudo Messi. Qual o cenário ideal para que eles possam desafiar nosso domínio incontestável sobre o mundo da bola? Ganhar do Brasil na final da Copa. Mas o velho adágio que diz “tenha cuidado com o que você deseja” aqui vale tanto para eles como para nós. Seria um jogo eterno antes de começar.

Hoje, claro, isso não passa de especulação, e especulação distante. O que importa é que o Brasil enfim entrou em campo na Alemanha. Agora, é tempo de enfrentar a surpresa africana da vez. E esquecer de que continente vêm as zebras.

Dito isso, vamos ao que de melhor aconteceu neste 22 de junho:

O gol do dia – Ronaldinho enfia uma bola de almanaque para Gilberto, no chamado ponto futuro. O lateral avança, domina e, em vez de passar, dá um chute cruzado, fortíssimo e seco. É o terceiro gol do Brasil.

O quase gol do dia – A tabela entre os Ronaldos que passou a um fiapo da trave seria a assinatura que faltava para a Copa brasileira. O toque de calcanhar de Ronaldinho para Ronaldo foi um primor.

O frango do dia – Fica com o goleiro australiano Zeljko Kalac, descendente de croatas, que quase deu de presente para a Croácia a classificação ao aceitar um chute fraquinho de Niko Kovac.

O erro de arbitragem em forma de gente do dia – O juiz inglês Graham Poll conseguiu não ver um tapa de Dario Simic na bola na área no segundo tempo. Não viu também um abraço agarrado de Tudor em Viduka no primeiro tempo. E ainda conseguiu a proeza de pagar o mico da Copa em termos de apito. Deu três amarelos para o mesmo jogador – Dario Simunic. O primeiro aos 18 minutos do segundo tempo. O segundo aos 44 minutos. E o terceiro depois da partida, só aí temperado pelo cartão vermelho. Mr. Graham Poll entra assim para a galeria da fama dos árbitros horrorosos.

A estatística útil do dia – Com os dois gols marcados contra o Japão, Ronaldo chegou a 14 gols em Copa, igualando o recorde de Gerd Muller. Quando fez o primeiro, ele ultrapassou Pelé como o brasileiro com mais gols em Mundiais. Não por acaso, aquele sorriso de dentes separados apareceu de novo no fim do jogo.

O preparo físico do dia – Há quem diga que desde os tempos em que treinou o Valencia, na Espanha, os times de Guus Hiddink voam baixo sobre o gramado. Fato é que a Coréia do Sul corria sem parar em 2002. E a Austrália em 2006 não pára de correr. Ontem, atropelou fisicamente a Croácia. Impressionante o combustível australiano.

O cala-boca do dia – Para todos os apressados que promoveram o enterro e o velório precoces de Ronaldo, os dois gols serviram como silenciador imediato. Ronaldo não é mais o fenômeno de outrora – mas ainda é um atacante diferente dos outros, especialmente pela precisão dos chutes.

O cattenaccio do dia – Até agora a Itália não levou um gol marcado por adversário na Copa. O sistema defensivo italiano usa ao menos 10 jogadores sempre. Duas linhas de quatro organizadíssimas reduzindo o espaço adversário. Um dos atacantes recua sempre para ajudar na marcação. E o outro se posiciona para ajudar do outro lado caso haja virada de jogo. Os adversários sentem dificuldade em penetrar o sistema... e em geral chutam de longe. Aí aparece o bom goleiro Buffon. O único gol que a Itália levou até agora foi contra.

A frase do dia – “Tira ele? Tira ele? &%$#@$@#$# ((palavrão impublicável de encaminhamento)) – Carlos Alberto Parreira, após o quarto gol do Brasil, comentando ironicamente com Cafu sobre as pressões para tirar Ronaldo.

A defesa do dia – Empate técnico entre a mão espalmada de Kawaguchi no chute fortíssimo de Juninho Pernambucano no primeiro tempo... e o reflexo de Pletikosa, no segundo tempo de Austrália x Croácia... no chute de Harry Kewell. Infelizmente para os dois goleiros, em lances posteriores... tanto Juninho quanto Kewell acertaram o pé. E, Kawaguchi em particular, errou na mão.
Escrito em 22/06/2006
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Vinte e um de junho, Alemanha


O golaço do dia – A jogada começa antes do meio-campo. Caieira corta de cabeça, a bola cai nos pés de Simão Sabrosa, que de primeira toca para Maniche. Maniche lança o mesmo Sabrosa e parte pra área, arrancando de antes do meio-campo. Sabrosa cruza entre três mexicanos para Maniche escorar de chapa. Um belo gol que sublinha a vitalidade de Maniche.

O mico do dia – O pênalti cobrado na estratosfera pelo bravíssimo mexicano Omar Bravo, que sacramentou a derrota mexicana para Portugal, no melhor estilo pênalti-tiro-de-meta.

A defesa do dia – O reflexo de Ricardo, goleiro luso, no chute à queima-roupa de Fonseca. A bola subiu, beijou o travessão e foi para escanteio. No escanteio, o mesmo Fonseca fez o gol mexicano. Mas isso não tira o mérito da defesa.

A data memorável do dia – Há 36 anos, 21 de junho de 1970, o Brasil ganhava seu eterno tricampeonato com aquela que dizem ter sido a melhor seleção de futebol a caminhar sobre a Terra. A data também significativa para uma torcida em especial – em 21 de junho de 1989, o Botafogo derrotou seu jejum de 21 anos sem título.

As cortadas do dia – Pela primeira vez, três pênaltis foram cometidos com jogadas de vôlei num só dia de Copa do Mundo. Uma cortada, uma largada e uma manchete. A largadinha foi do mexicando Rafael Márquez a favor de Portugal. O sérvio Milan Dudic deu uma espetacular cortada contra a Costa do Marfim no primeiro tempo. Não satisfeito, arriscou uma discreta manchete no segundo... três pênaltis, todos convertidos.

A entregada do dia – Domoraud, da Costa do Marfim, tenta cortar o cruzamento e dá o segundo gol de presente para Ilic, de Sérvia & Montenegro.


A imagem do dia – O goleiro Boubacar Barry, ajoelhado e virado de costas para a trave, rezando para que Bonaventure Kalou fizesse o gol de pênalti que daria a Costa do Marfim sua primeira vitória numa Copa.


A comemoração do dia – A emocionante dança dos marfinenses, liderados por Drogba, que deixou o banco em roupas civis, para comemorar com o time praticamente todo.

A estatística inútil do dia – No jogo entre Portugal e México, cada time ficou com a bola durante 28 minutos.

O nome impronunciável do dia – Um doce para o locutor que não engoliu em seco ao narrar o gol do Irã, marcado pelo simpático Bakthiarizadeh. O primeiro nome do cavalheiro é Sohrab.

O momento histórico do dia – Zé Calanga cruzou para a cabeçada certeira de Flavio, provocando delírio em toda a Angola, como os angolanos gostam de dizer. Angola fazia 1 a 0 aos .. do segundo tempo contra o Irã e, sobretudo, fazia seu primeiro gol numa Copa do Mundo. O baixinho veloz Zé Calanga – que tem o mais angolano dos nomes - já tinha cruzado a bola mais importante da história angolana (a que acabou na cabeça de Akwa para fazer 1 a 0 contra Ruanda no jogo decisivo das eliminatórias). Agora cruzou outra, talvez tão importante quanto.

O outro momento histórico do dia – Quando o árbitro sss apitou o fim da partida entre Sérvia & Montenegro e Costa do Marfim, um capítulo histórico se encerrou. Foi o último suspiro da federação criada por Tito que ganhou o mundo sob o nome de Iugoslávia. E não apenas o último suspiro esportivo.



Escrito em 22/06/2006
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Resumo de ontem

O golaço do dia – Joe Cole, o menos famoso do quarteto de meio-campo inglês, pegou o rebote fora da área, matou a bola, deu uma olhadinha pra ela, e acertou um chute preciso. O goleiro Isaksson, de 1,98m, se esticou inteiramente... ainda tocou na bola mas... nada feito. Um golaço do habilidoso jogador do Chelsea, que pode não ter a fama de Gerrard, Beckham e Lampard... mas é peça fundamental do English Team.

A bela imagem do dia – A lindíssima multiplicação de bandeiras alemães no Estádio Olímpico de Berlim. De arrepiar.

Momento histórico do dia – Aos 27 minutos, quando Asamoah entrou em campo vestindo a camisa branca da Mannschaft, algo mudou. No mesmo estádio em que Jesse Owens ganhou quatro medalhas olímpicas debaixo do bigodinho aparado de Adolph Hitler, um negro vestia a camisa da seleção da Alemanha.

A baba do dia – O horroroso, triste, lamentável e muito ruim confronto entre Trinidad y Tobago e Paraguai. A seleção trinitária e tobaguense deixou a Copa sem fazer um golzinho, mas pode ser orgulhar de ter arrumado um empate com a Suécia.

A imagem triste do dia – O estranho movimento de Owen, o joelho meio retorcido, a agonia que em um lance pode encerrar uma carreira em Copas do Mundo. Owen, que se apresentou ao mundo com um golaço contra a Argentina em 1998, vai ter 30 anos em 2010.

A expectativa do dia – Será que... Angola vai conseguir fazer seu primeiro gol em Copas do Mundo? Gana, Costa do Marfim e Togo já fizeram seus gols de estréia. Será que Akwa & Cia vão conseguir inaugurar o placar angolano.

A comemoração do dia – Foi a de Jurgen Klinsmann, vestido discreta e elegantemente de preto, socando o ar euforicamente com o primeiro gol de Miroslav Klose.

O quase do dia – O paraguaio Caniza quase marcou o gol número 2000 em Copas do Mundo. O bandeirinha deu impedimento porque Valdez raspou com o peito na bola, deixando Caniza na banheira. Pouco depois, Allback marcaria para a Suécia e entraria para os livros de história e estatística. Caniza... ficou no quase.

O penteado do dia – Vai para o cabelo reco-militar do alemão Bastian Schweinsteiger, provavelmente o sujeito mais feio da Copa. O penteado baixinho ressaltou as feições pouco amenas do camisa 7 alemão que, ao contrário do que dizem as más línguas, não atuou como ogro-figurante em O senhor dos Anéis

Escrito em 21/06/2006
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32 jogos depois

Com o fim da segunda rodada, vamos ao que melhor de aconteceu na Copa do Mundo até agora. O bom, o mau, o feio, o mais distinto, o mais simpático...

A defesa da Copa (até agora) – Ebrahim Mirzapour, goleiro do Irã, que com um misto de reflexo e elasticidade evitou que um chute fortíssimo à queima-roupa de Deco entrasse ainda no primeiro tempo de Portugal x Irã. Não deu para evitar a derrota, porque Deco arrumou outro chute fantástico no segundo tempo, mas foi uma senhora defesa.

O golaço da Copa (até agora) – Vinte quatro toques em cinqüenta e cinco segundos, sendo que o penúltimo toque, de Crespo, foi de calcanhar. O segundo gol argentino contra Sérvia & Montenegro foi uma obra-prima coletiva. Apenas um jogador de linha não tocou na bola – o lateral Burdizzo. Talvez para compensar ele foi abraçar Cambiasso com tanta ênfase que quase sapecou um beijo na boca do companheiro. Menção honrosas para o gol de Tevez na mesma partida. E para o gol de Fernando Torres (Espanha) contra a Ucrânia, em grande jogada de Puyol.

A surpresa da Copa (até agora) – Foram duas. O empate de Trinidad y Tobago contra a Suécia. E o empate da Coréia do Sul contra a França.

A injustiça da Copa (até agora) – A eliminação da Costa do Marfim. O time de Didier Drogba fez dois dos melhores jogos do Mundial e merecia sorte melhor em ambos. Dominou a Argentina e a Holanda... e acabou levando quatro gols – dois em bolas paradas, dois em erros de execução na linha de impedimento.

O erro de arbitragem da Copa (até agora) – A quantidade de pênaltis não marcados já ultrapassa uma dezena. Os mais grotescos foram três: De Rossi empurrando com duas mãos Asamoah Gyan (Itália 2 x 0 Gana); Patrick Muller derrubando acintosamente o togolês Adebayor (Suíça 2 x 0 Togo); o carrinho criminoso de Cahill na canela de Komano (Austrália 3 x 1 Japão). E os pênaltis “marcados” foram apenas três.

O mico da Copa (até agora) – A gol-contra-de-canela-com-efeito do italiano Zaccardo a favor dos Estados Unidos. Foi aquele gol contra clássico.

A imagem da Copa (até agora) - A comemoração emocionada dos jogadores de Trinidad y Tobago depois do empate contra a Suécia.

O carniceiro da Copa (até agora) – Vitória fácil do italiano Daniele De Rossi, que exibe como obra sua cotovelada no nariz do italiano McBride. Correu sangue americano, vermelho como o cartão que De Rossi recebeu de imediato. Chuveiro óbvio.

O penteado da Copa (até agora) – Alguns candidatos. O turbinado ruivo-moicano do japonês Takahara, as trancinhas-Cascão do angolano Loko, o redemoinho psicodlélico do ganes Muntari... mas o troféu, por ora, fica com o sul-coreano Lee Chun Soo, com seu arbusto louro temperado pelo bigodinho latino.

O constrangimento da Copa (até agora) – A imagem de Zagallo tentando trocar camisas após os jogos – e ouvindo recusas do croata Prso e do australiano Chipperfield. Tudo bem que o não é democrático – mas ficou a impressão de que eles não sabiam com quem estavam falando.

A camisa mais bonita da Copa (até agora) – A camisa laranja da Costa do Marfim. Belíssima. A laranja da Holanda, com seu estilo algo retrô, fica em segundo lugar.

A frase da Copa (até agora) – “Não parece um campeão, precisa jogar mais” – Guus Hiddink, técnico da Austrália, analisando a Seleção Brasileira.

Seleção da Copa (até agora)

Goleiro: Peter Cech (República Tcheca)
Laterais: De La Cruz (Equador) e Lahn (Alemanha)
Zagueiros: John Terry (Inglaterra) e Ayala (Argentina)
Meio: Pirlo (Itália), Deco (Portugal), Riquelme (Argentina) e Kaká (Brasil)
Atacantes: Tenório (Equador) e Saviola (Argentina)
Técnico da Copa (até agora): Luis Suarez (Equador)
O reserva da Copa (até agora): Cesc Fábregas (Espanha)
e Saviola (Argentina)
Técnico da Copa (até agora): Luis Suarez (Equador)

O reserva da Copa (até agora): Cesc Fábregas (Espanha)
Escrito em 20/06/2006
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Perdendo mitologia


A badalada seleção extra-galática, a melhor-time-brasileiro-desde-1970, a maior coleção de talentos a caminhar sobre os gramados modernos... bom, essa Seleção Brasileira ainda não entrou em campo na Alemanha. Até agora tivemos duas vitórias em duas sonolentas atuações. E, por mais gritante que tenha sido a presença ausente de Ronaldo no primeiro jogo, é preciso resistir à tentação de crucificá-lo. Os problemas do Brasil não se resumem ao apetite do Fenômeno. Longe disso.

Ronaldo está longe de sua melhor forma, isso é evidente. E, desde sempre, seu futebol dependeu disso – do arranque, da velocidade, do corpo para esbarrar e não cair. A habilidade, a inteligência e o chute preciso sempre foram complementares em seu arsenal. Foi sua impressionante e precoce força física que cunhou o aposto “Fenômeno”. Sem força, ele parece um super-homem pós-kriptonita. A capa está lá, o uniforme está lá... mas ele não voa, não esmaga trens, não faz nada muito super.

Mas mesmo sem super-poderes, Ronaldo ontem criou a jogada do primeiro gol brasileiro e, por mais distante que esteja do fenômeno de outrora, ainda é um bom jogador. Ontem, aliás, a imagem da letargia esteve em outro Ronaldo. Ainda no primeiro tempo, num lance em que os australianos tocavam a bola no setor esquerdo do campo brasileiro, a câmera aberta mostrou Ronaldinho a três metros da bola, paralisado, observando. Sem sequer esboçar um passo rumo à bola para reduzir o espaço. Uma letargia inaceitável que ajuda a explicar porque o time não está jogando bem.

Já na teoria, o meio-campo do Brasil não é um meio-campo marcador. Emerson e Zé Roberto estão jogando bem, mas não são volantes de ofício. Zé Roberto, que começou como lateral esquerdo, joga mais adiantado no Bayern de Munique. Emerson começou como terceiro homem no Grêmio. Kaká até ajuda na marcação. Mas Ronaldinho muitas vezes parece em outro planeta quando a Seleção não tem a bola. Como Adriano e Ronaldo colaboram quase nada, o meio brasileiro acaba sendo uma avenida para o toque de bola adversário.

Para efeito de ilustração, comparemos nosso sistema defensivo com o da Coréia do Sul, que ontem quase ganhou da França. Os coreanos têm sempre nove jogadores atrás da linha da bola. Duas linhas de quatro, para tomar os espaços. E um “marcador free-lancer”, que atormenta o adversário que inicia as jogadas. A equação é singela: um time que se defende com nove... obviamente marca melhor do que um time que se defende com sete. Mais que isso, um time que marca mal demora a recuperar a bola.

A tão criticada Seleção de 94 marcava com oito – e Bebeto e Romário se posicionavam para incomodar e iniciar os contra-ataques. Dunga e Mauro Silva eram espetaculares ladrões de bola – bem melhores que Emerson e Zé Roberto nesse fundamento pouco valorizado no Brasil. E Mazinho e Zinho fechavam o quadrado defensivo com perfeição. O time devia espetáculo com a bola. Mas ficava muito tempo com ela porque a recuperava com rapidez. Parreira, então, foi massacrado por causa da “excessiva burocracia” do time. Ele chegou a dizer que criatividade não se encontrava no supermercado.

Ironicamente, doze anos depois, a Seleção se ressente da falta de tomadores de bola e Parreira parece refém de um improdutivo quarteto ofensivo - que só funcionou mesmo nos jogos em que Robinho atuou. E funcionou por duas simples razões: Robinho volta para ajudar na marcação e se movimenta muito mais do que Adriano e Ronaldo.

De toda sorte, o incenso generalizado pré-Copa dos jornais estrangeiros já se transformou em decepção. Em duas rodadas, o Brasil desceu do Olimpo, perdeu mitologia, e isso no fundo é bom. Agora que somos humanos as expectativas se reduzem. A falsa impressão de que temos uma seleção extra-terrestre foi, até agora, nosso adversário mais brutal. Até porque não temos. Nossos laterais, embora ainda eficientes, são relativamente idosos. Nosso goleiro é inseguro. E nosso meio-campo marca mal. Mas temos defeiots... e virtudes também. Podemos ganhar a Copa porque temos Zé Roberto, Ronaldinho, Kaká e Robinho. E Juninho. E Fred. E Ronaldo. Mas não vai ser fácil. Nunca foi. Nunca será.



Escrito em 19/06/2006
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A ética pacheca


Desde 1982, o Brasil não injetava futebol na veia desta forma, numa dose tão cavalar. O ufanismo em cada praça, rua ou esquina me lembra as imagens de Ñaranjito pintadas no asfalto. O bagaço daquela sorridente laranja espanhola ainda azeda nossa memória. As lágrimas que ali esprememos são o único antídoto possível contra essa irresistível onda de otimismo que arrasta a tudo e a todos. Desde 1982 não víamos uma seleção com um favoritismo tão absurdo e absoluto. Nem em 1998 foi assim. Todos os dedos indicadores do mundo apontam para o Brasil. Do balcão de boteco à mesa redonda, o favoritismo é tal que questioná-lo, ou questionar a supremacia da Seleção Brasileira, chega a ofender a ética pacheca.

E isso é curioso – porque o Brasil não é tão melhor que os outros assim. No ano passado, nossa pretensa máquina perdeu pro México e empatou com o Japão na Copa das Confederações. Mas a goleada sobre a Argentina na final da mesmíssima competição criou essa aura de superpotência. Como se Parreira fosse uma espécie de George Bush da bola, invadindo a defesa que quisesse na hora que escolhesse com seus armamentos de último tipo. Essa é uma ilusão traiçoeira.

Como pode ser traiçoeiro o ópio verde-amarelo que o país consome avidamente. Aquela ressaca de 1982 foi destilada nos estertores de uma ditadura que ainda demorou três anos. Adivinhar o efeito de uma possível ressaca em 2006 é atividade nostradâmica. Mas cabe a pulga atrás da orelha eleitoral: será que Lula, de amarelinha e tudo, pode também despencar do cavalo encilhado? Lula II ou re-Lula parece inevitável, mas... uma inesperadíssima derrota pode reconfigurar o cenário.

Porque no Brasil... futebol importa. Vivemos num país em que mensalão rima com Seleção, em que Roberto Jefferson divide manchetes com Ronaldinho. Por mais que pareçam habitar planetas diferentes, eles são faces da mesma bola. Vivemos num país em que os presos de São Paulo compram TVs pelo SEDEX para ver a Copa. Um país em que eu, você, o Zé Dirceu, o Palocci, os cardeais do PSDB, o ACM, o Bornhausen, os cassados e os não-cassados; a deputada-dançarina e o deputado com miguelite, o pessoal do MST e o pessoal do latifúndio, a Rota e PCC, o Comando Vermelho e a Civil... todos juntos iremos, em nosso pra frente Brasil quadrienal, agora especialmente vitaminado.

A decepção política semeia pachecos por todos os lados. Pois no futebol somos primeiro mundo, somos potência, invadimos iraques, estamos acima de tudo e de todos. Pelo futebol sorrimos e choramos. A Copa do Mundo é nosso carnaval à enésima potência. Durante um mês, estamos todos no mesmo time – bandidos, mocinhos, pretos, brancos, azuis, altos, baixos, gordos e magros, fumantes e não-fumantes. E a imensa e silenciosa maioria – para a qual futebol é sinônimo de Copa – acreditando profundamente que a Seleção de Parreira está a apenas um formal milímetro da imortalidade. Um cético amador diria que poucas receitas para a tragédia são mais eficazes. Pois essa Copa traz na barriga o alien da obrigação. Qualquer coisa menos que outra taça será decepção profunda. E profana.

O ufanismo é tão grande, mas tão grande, que criou até o pachequismo patrulheiro. Ai de ti, Pessimista Urubulino da Silva, que ousar levantar uma minúscula dúvida sobre a vitória da Seleção. Nós somos melhores, damos espetáculo, o mundo admira nossa democracia racial, nossa ginga, nossa alegria – e tudo isso está resumido naquela lista de onze que começa em Dida e termina em Ronaldo. Ai de ti, Pessimista Urubulino, se ousar uma breve reflexão que considere a hipótese da derrota.

Ironia entre as ironias, o favoritismo da Seleção é tão propagado que chega a lembrar a unanimidade de Nelson Rodrigues, aquela que carecia de inteligência. Nelson, pacheco numa época descrente, talvez não merecesse ver sua unanimidade burra vestindo a camisa amarela. A ética pacheca que me perdoe, mas o pessimismo é fundamental
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Escrito em 17/06/2006
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